Docetismo

Teoria de que Cristo não era plenamente humano, mas somente aparentava ser.

O docetismo (do grego koiné: δοκεῖν/δόκησις, dokeīn “parecer” ou dókēsis “aparição, fantasma”) foi uma heresia cristã primitiva que surgiu entre os séculos I e II d.C. O termo refere-se à crença de que Jesus Cristo apenas parecia ser humano, mas que, na realidade, era puramente divino e não possuía um corpo físico verdadeiro. Esta visão era fundamentada na ideia de que a matéria é inerentemente maligna ou corrupta, sendo incompatível com a santidade de Deus.

O termo Dokētaí (“ilusionistas”) apareceu pela primeira vez em uma carta do bispo Serapião de Antioquia (197-203 d.C.). Ele identificou a doutrina em uma comunidade cristã em Rhosus que utilizava o Evangelho de Pedro. Serapião condenou o texto como uma falsificação herética. O docetismo também era associado a debates teológicos sobre a interpretação literal ou figurativa da declaração do Evangelho de João: “o Verbo se fez carne” (João 1:14).

O docetismo negava a realidade da humanidade de Cristo e, consequentemente, minava vários aspectos fundamentais da fé cristã:

  • Negação da humanidade de Cristo: Para os docetistas, Jesus não tinha um corpo físico real. Seu corpo era considerado uma ilusão ou aparição espiritual. Isso derivava da crença de que Deus, sendo absolutamente bom, não poderia assumir uma forma material, vista como corrupta.
  • Desafios à doutrina da expiação: Ao negar que Jesus possuía um corpo físico, o docetismo colocava em questão a realidade da reconciliação. Sem um corpo real, a humanidade não possui acesso à divindade.
  • Contradição à ressurreição: Segundo os docetistas, a ressurreição também seria uma ilusão, uma vez que não haveria um corpo físico a ser ressuscitado. Isso contradizia os relatos bíblicos e enfraquecia a esperança cristã na ressurreição corporal.

O docetismo representou um desafio significativo ao cristianismo primitivo, pois atacava a base da doutrina da Encarnação e da mensagem do evangelho. Os Pais da Igreja responderam vigorosamente a essa heresia, reafirmando a verdadeira humanidade de Cristo:

  • Inácio de Antioquia: Defendeu que Jesus nasceu, comeu e sofreu de forma verdadeira, e que negar esses fatos era negar a fé cristã.
  • Irineu de Lyon: Destacou a importância do corpo físico de Cristo para a salvação, afirmando que “a carne de nosso Salvador nos salvou”.
  • Tertuliano: Apontou os relatos bíblicos da vida de Jesus, incluindo Seu nascimento, batismo e crucificação, como evidências de Sua verdadeira humanidade.

Os Concílios também condenaram o docetismo, reafirmando a doutrina ortodoxa da Encarnação e a união hipostática das naturezas divina e humana de Cristo.

Sinodalidade

A sinodalidade, conceito teológico e eclesial que denota o caminhar conjunto do povo de Deus, encontra suas raízes etimológicas no grego syn-hodos, significando “caminhar juntos” ou “jornada em comum”. Este termo descreve uma dinâmica fundamental da Igreja como comunhão (koinonia), participação e missão, onde os diversos membros do corpo eclesial, sob a guia do Espírito Santo, discernem e atuam colaborativamente.

Embora a terminologia precisa seja de desenvolvimento posterior, as Escrituras Sagradas, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, apresentam narrativas e princípios que fundamentam a prática sinodal. No Antigo Testamento, a experiência de Israel como povo da aliança revela momentos de assembleia, consulta e decisão comunitária, como nas grandes congregações diante de Deus e na liderança compartilhada por Moisés com os anciãos. As reuniões tribais (Êxodo 18; Deuteronômio 31) refletem um processo deliberativo que integra liderança e participação coletiva. As tradições proféticas e sapienciais também ecoam a importância do conselho e do discernimento coletivo na busca pela vontade divina.

No Novo Testamento, a sinodalidade manifesta-se na colegialidade apostólica (Gálatas 2:1-10) e na interdependência das comunidades paulinas (1 Coríntios 12). Também no Novo Testamento ocorre o paradigma mais explícito para a sinodalidade no chamado Concílio de Jerusalém, narrado em Atos dos Apóstolos, capítulo 15. Diante de uma questão crucial para a missão da Igreja primitiva – a inclusão dos gentios e a observância da Lei mosaica – os apóstolos e presbíteros se reuniram em Jerusalém, com a participação da comunidade. O processo incluiu escuta atenta de diferentes perspectivas, como os testemunhos de Pedro, Paulo e Barnabé, e a intervenção de Tiago, que propôs uma solução baseada nas Escrituras e na ação do Espírito Santo. A decisão, comunicada por carta às igrejas, foi fruto de um discernimento comum, afirmando que pareceu bem “ao Espírito Santo e a nós”. Este evento é frequentemente citado como um modelo de deliberação eclesial, onde a diversidade de dons e ministérios converge para uma decisão que visa a unidade e o bem da missão.

Ademais do Concílio de Jerusalém, outros elementos neotestamentários sustentam uma eclesiologia sinodal. A colegialidade apostólica, a importância do testemunho mútuo, a prática da consulta em questões comunitárias, como a escolha de Matias em Atos 1 ou a instituição dos Sete em Atos 6, e a compreensão paulina da Igreja como Corpo de Cristo, onde cada membro possui dons (carismas) para a edificação comum (1 Coríntios 12), são expressões dessa dinâmica participativa. A autoridade na Igreja primitiva não era exercida de forma isolada, mas em comunhão e com vistas ao serviço, refletindo a própria natureza trinitária de Deus como comunhão de Pessoas. A escuta do Espírito Santo, protagonista da vida e missão da Igreja, permeia esses processos de decisão e orientação.

A prática sinodal, inspirada nesses fundamentos bíblicos, desenvolveu-se ao longo da história da Igreja, manifestando-se nos concílios ecumênicos e sínodos locais, que foram cruciais para a formulação doutrinária, a disciplina eclesiástica e a resposta aos desafios pastorais. A sinodalidade, portanto, não é meramente um procedimento, mas uma expressão da própria natureza da Igreja como povo peregrino, chamado a discernir coletivamente os caminhos do Evangelho em cada tempo e lugar, fomentando a corresponsabilidade de todos os batizados na vida e missão eclesial. Este caminhar conjunto, radicado na escuta da Palavra de Deus e na abertura ao Espírito, continua a ser um princípio vital para a fidelidade da Igreja à sua vocação.

BIBLIOGRAFIA
Burns, J.H., and Thomas M. Izbicki, editors. Conciliarism and Papalism. Cambridge University Press, 1997.

Franks, Angela. “Christ as the Way of Synodality.” The Thomist: A Speculative Quarterly Review 87.2 (2023): 255-270.

Vondey, Wolfgang. “Synodality and Charisms: A Pentecostal Perspective on Hierarchical and Spiritual Gifts in the Life and Mission of the Church”. Theological Studies, 2024.

VEJA TAMBÉM

Sobor

conciliarismo

Comunhão

Ausbund

O Ausbund, em alemão “excelência”, é o mais antigo hinário anabatista e um dos mais antigos cancioneiros cristãos em uso contínuo.

Os hinos foram compostos na masmorra do Castelo de Passau, na Bavária, onde um grupo de anabatistas estavam presos entre 1535 e 1540. Alguns não sobreviveram à prisão e muitos deles foram martirizados.

Sua primeira impressão seria em 1564. Outra edição do hinário com mais oitenta hinos apareceu em 1583. As edições posteriores incluíram 137 (Europa) e 140 (América do Norte) hinos.

O Ausbund atualmente é usado exclusivamente no culto Amish, além de forma derivada continuar nos hinários menonitas, hutteritas e da Igreja Cristã Apostólica.

Adão

Adão, em hebraico אדם, denota “homem” ou “humanidade/humanidade” e é um jogo de palavras com o termo hebraico אדמה (‘dmh), que significa “solo”.

  1. Ser humano em geral, como a humanidade feita à imagem de Deus (Gn 1:27)
  2. Adão, marido de Eva e pai primordial da humanidade (Gn 2-5). A etimologia tradicional de seu nome (Josefo, Antiguidades 1, 1, 2), afirma Adão como “o vermelho”, relacionando seu nome ao adjetivo hebraico אדם (‘dm), que significa “vermelho” ou “corado”.
  3. Localidade: Adão era um lugar onde o rio Jordão estava bloqueado para os israelitas atravessarem, segundo Josué 3:16, localizado na Jordânia.