Ladislaus Boros

Ladislaus Boros (1927-1981) foi um padre jesuíta e teólogo nascido em Budapeste, Hungria.

Boros publicou mais de quinze livros. Referente ao pós-vida, formulou a “hipótese da decisão final”, apresentada em sua obra mais conhecida, Mysterium Mortis: Der Mensch in der letzten Entscheidung (O Mistério da Morte: O Homem na Decisão Final), de 1962. A hipótese de Boros sugere que no momento da morte, a pessoa atinge um estado de plena consciência e liberdade, e é neste instante que ela faz uma escolha definitiva pela ou contra a sua salvação eterna. Essa decisão, embora preparada ao longo da vida, só se torna final e irrevogável no ato de morrer. A tese de Boros, que dialoga com o pensamento de outros teólogos como Karl Rahner e Roger Troisfontaines, propõe uma nova perspectiva sobre a escatologia cristã, especialmente no que tange aos conceitos de purgatório e juízo.

Em 1973, Boros deixou a Companhia de Jesus, foi reduzido ao estado laical e se casou. Ele faleceu em 1981, na Suíça.

Karl Rahner

Karl Rahner (1904-1984), teólogo jesuíta alemão, proponente da teologia transcendal.

Nascido em Friburgo em Brisgóvia, Rahner ingressou na Companhia de Jesus em 1922. Estudou filosofia e teologia. Teve influências do tomismo e da filosofia existencial, especialmente a de Martin Heidegger, seu professor em Friburgo.

Seu trabalho teológico busca reconciliar a tradição católica com a modernidade. Rahner propôs uma “teologia transcendental”, que explora a interconexão entre a experiência humana e a revelação divina. Sua obra mais famosa, Grundkurs des Glaubens (1976), traduzida para o inglês como Foundations of Christian Faith, é um compêndio de sua teologia sistemática.

Rahner foi um perito durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), onde suas ideias tiveram um impacto significativo na formulação dos documentos conciliares, especialmente na Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium. Sua teologia influenciou a eclesiologia, a mariologia, a cristologia e, particularmente, a hermenêutica bíblica e a teologia da graça, onde ele propôs o conceito de “cristão anônimo”. Nessa doutrina, acreditava que a salvação é acessível a todos, independentemente de seu conhecimento formal do cristianismo, por meio de uma graça transcendental que atua na consciência humana. A salvação só seria possível através de Jesus Cristo, ao mesmo tempo que reconhece que Deus deseja a salvação de todas as pessoas. A tese de Rahner é uma forma de inclusivismo na teologia cristã, que se opõe ao exclusivismo (a salvação é apenas para aqueles que professam explicitamente a fé cristã) e ao pluralismo (todas as religiões são caminhos igualmente válidos para a salvação).

Karl Rahner foi um dos teólogos católicos mais influentes do século XX. Sua teologia transcendental, que via a experiência humana como um ponto de partida para a Revelação, teve implicações significativas na forma como a Bíblia é lida. Nessa perspectiva, a Revelação divina não seria reduzida a um conjunto de proposições doutrinárias, mas um encontro pessoal e existencial com Deus, que se manifesta na história e nas Escrituras. Essa perspectiva influenciou o desenvolvimento da hermenêutica bíblica da segunda metade do século XX, incentivando uma leitura da Bíblia que busca tanto o seu sentido histórico quanto o seu significado teológico e existencial para o leitor. Rahner também defendeu o uso do método histórico-crítico, mas o integrou em uma visão teológica mais ampla, que considerava a autoridade e a inspiração divina das Escrituras.

Ressurreição na Morte

A teoria da ressurreição na morte é uma hipótese teológica que busca conciliar a escatologia individual com a escatologia geral, rejeitando tanto o dualismo tradicional de corpo e alma separados após a morte quanto a teoria da morte total. Essa perspectiva propõe que a ressurreição, que a Bíblia associa ao retorno de Cristo, não é um evento histórico e futuro, mas um evento atemporal que ocorre para cada indivíduo no exato momento de sua morte.

A base filosófica da teoria reside na distinção entre o tempo terreno e a eternidade. Segundo essa visão, embora da perspectiva terrena possa haver um intervalo de milhares de anos entre a morte de uma pessoa e o retorno de Cristo, da perspectiva do falecido, que já está fora do tempo, ambos os eventos coincidem. A pessoa é imediatamente introduzida na eternidade com corpo e alma.

Proponentes dessa teoria incluem teólogos como Karl Barth no protestantismo e Karl Rahner, Gisbert Greshake e Gerhard Lohfink no catolicismo. No entanto, teólogos como Michael Schmaus e Joseph Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) consideraram a hipótese, mas a rejeitaram por considerá-la incompatível com a doutrina católica. O pensamento evangélico, especialmente o fundamentalismo americano, também tende a rejeitar essa teoria, pois a considera incompatível com a crença no retorno físico e literal de Cristo como um evento histórico.

Críticas e dificuldades teológicas

A hipótese da ressurreição na morte enfrenta várias críticas. Uma das principais objeções, levantada por Ratzinger, é a acusação de que a teoria “desmaterializa” a ressurreição. Se o corpo terreno decai após a morte, a teoria teria de explicar a natureza do corpo ressurreto. Em resposta, Greshake, por exemplo, recorre a uma visão complexa influenciada por Teilhard de Chardin, sugerindo que o corpo da ressurreição é um “corpo espiritual”, onde o corpo e a história são “espiritualizados e levados à perfeição absoluta”.

Outras críticas se concentram nas implicações teológicas e doutrinárias.

A teoria sugere que o ser humano se torna atemporal como Deus, o que contradiz a crença de que os seres humanos são seres finitos, criados e com um início. A vida eterna, portanto, é entendida não como uma vida atemporal, mas como uma “vida sem fim na presença de Deus” em um “tempo transfigurado”.

A ressurreição de Cristo, enquanto um evento histórico com o túmulo vazio como testemunho, é central para a fé cristã. A hipótese da ressurreição na morte, se aplicada a todos, poderia sugerir que o túmulo de Jesus não precisaria estar vazio, pois a ressurreição é um evento atemporal.

VEJA TAMBÉM

Transcendência do tempo

Shakers

A United Society of Believers in Christ’s Second Appearing ou os Shakers foram um grupo primitivista e inspiracionista de vida comunal.

O movimento shaker originou-se na Inglaterra do século XVIII, fruto da convergência entre os profetas camisards franceses, o quietismo quacre e a Sociedade Wardley de Manchester. Em 1747, James e Jane Wardley formaram um grupo que unia a espera silenciosa quacre à agitação física e glossolalia, crendo na vinda espiritual de Cristo.

Ann Lee, operária analfabeta marcada pela perda de quatro filhos e prisões por blasfêmia, assumiu a liderança após visões que identificavam o sexo como a raiz do pecado. Proclamando-se a personificação feminina do espírito de Cristo, “Mother Ann” emigrou para Nova York em 1774 com oito seguidores, fundando em 1776 o assentamento de Watervliet. A suspeição política durante a Revolução Americana não impediu o crescimento do grupo, que atingiu seu auge entre 1837 e 1860, período conhecido como Era das Manifestações, caracterizado por visões, desenhos espirituais e danças coreografadas. Sob Joseph Meacham e Lucy Wright, a sociedade expandiu-se para 19 comunidades, alcançando 6.000 membros em 1840 antes de declinar devido ao celibato obrigatório, à industrialização e a leis de reforma agrária.

A teologia Shaker estabelece que Deus é dual, masculino e feminino, exigindo que a revelação de Cristo ocorresse em ambos os gêneros. Como milenaristas realizados, os membros acreditavam viver o Reino de Deus na Terra, buscando a perfeição mediante a confissão de pecados e a separação do mundo. A prática do celibato era o pilar central para atingir a pureza, liberando energia para o trabalho comunal.

A propriedade era coletiva, baseada no modelo da igreja primitiva. Socialmente, o grupo praticava o pacifismo absoluto e a igualdade racial e de gênero, com lideranças paralelas de anciãos e anciãs. Suas vilas dividiam-se em “Ordens de Família” de 50 a 100 pessoas, onde homens e mulheres viviam e trabalhavam em espaços segregados para manter a castidade.

O culto evoluiu de tremores espontâneos para marchas e danças rituais destinadas a “sacudir” o pecado, daí o nome shaker. O trabalho era considerado oração, o que impulsionou inovações como a vassoura chata, a serra circular e o pacote de sementes. A estética Shaker, fundamentada no princípio de que a beleza reside na utilidade, produziu arquitetura e mobiliário de linhas simples e racionais.

No contexto do Segundo Grande Despertar, os Shakers ocuparam a ala perfeccionista e separatista, diferenciando-se de grupos como os de Oneida e Rappites. Embora o celibato tenha limitado sua continuidade biológica — restando hoje apenas a comunidade de Sabbathday Lake como museu vivo —, sua influência no design funcionalista e nas pautas progressistas de direitos animais e ambientais continuam com a história dos shakers.

BIBLIOGRAFIA

Becksvoort, Christian. The Shaker Legacy: Perspectives on an Enduring Furniture Style. Newtown, CT: Taunton Press, 2000.

Evans, Frederick W. Shakers: Compendium of the Origin, History, Principles, Rules and Regulations, Government, and Doctrines of the United Society of Believers in Christ’s Second Appearing. With Biographies of Ann Lee, William Lee, Jas. Whittaker, J. Hocknell, J. Meacham, and Lucy Wright. New York: D. Appleton and Company, 1859.

Nicoletta, Julie. The Architecture of the Shakers. Woodstock, VT: Countryman Press, 1995.

Sabbathday Lake Shaker Village. Principles and Beliefs. Poland Spring, ME: United Society of Shakers, Sabbathday Lake, n.d.  https://www.shaker.lib.me.us/doctrine.html.

Stein, Stephen J. The Shaker Experience in America: A History of the United Society of Believers. New Haven: Yale University Press, 1992.

Argobe

A Faixa de Argobe (em hebraico, אֶרֶץ אַרְגֹּב, Eretz Argov, ou חֶבֶל אַרְגֹּב, Hevel Argov) é uma região geográfica localizada na terra de Basã (Bashan). Esta área foi um ponto estratégico e fértil, com sessenta cidades fortificadas.

As referências bíblicas indicam que a Faixa de Argobe fazia parte do reino de Ogue, rei de Basã, um dos dois reis amorreus (o outro sendo Seom, rei de Hesbom) que os israelitas enfrentaram e derrotaram sob a liderança de Moisés antes de entrarem na Terra Prometida (Deuteronômio 3:4, 3:13-14). Após a vitória sobre Ogue, a Faixa de Argobe, juntamente com o restante de Basã e parte de Gileade, foi concedida à meia-tribo de Manassés como herança territorial. Jair, filho de Manassés, é mencionado como tendo tomado a Faixa de Argobe até as fronteiras dos gesuritas e maacatitas, e as cidades de Basã foram chamadas de “Havot Yair” (aldeias de Jair) em sua homenagem.

Posteriormente, a Faixa de Argobe reaparece na descrição da organização administrativa do reino de Salomão, sendo listada como uma das sessenta grandes cidades sob a jurisdição de um de seus oficiais, Ben-Geber, em Ramote-Gileade (1 Reis 4:13). Essa menção em um contexto administrativo régio demonstra a importância contínua da região ao longo da história de Israel.

A exata localização da Faixa de Argobe dentro de Basã é objeto de debate acadêmico, mas geralmente é associada à região do Golã. A etimologia do termo “Argov” (que se torna “Argobe” no texto) também é discutida; algumas interpretações sugerem que pode significar “terra acidentada” ou “rochosa”, o que se alinha com as características geográficas da área. A Septuaginta e a Vulgata Latina, traduções antigas da Bíblia, simplesmente transliteram o nome “Argov”, indicando que era reconhecido como um topônimo.