Belial

Belial, termo hebraico que pode ser traduzido como “inútil”, “perverso” ou “sem valor”, é usado no Antigo Testamento para descrever indivíduos ímpios e ações malignas. Em Juízes 19:22, homens descritos como “filhos de Belial” tentam abusar de um levita, demonstrando sua depravação moral. Em 1 Samuel 30:22, “homens de Belial” são excluídos do despojo de guerra por sua covardia e deslealdade.

O termo “Belial” também pode ser usado como um nome próprio para uma entidade maligna, como em 2 Coríntios 6:15, onde Paulo o associa a Satanás, representando a oposição entre a luz e as trevas, o bem e o mal.

A figura de Belial evoluiu ao longo da história bíblica e da tradição judaica, passando de um termo genérico para a maldade à personificação do mal, um arquétipo do adversário de Deus e da humanidade, tal como aparece na literatura do Segundo Templo e Antiguidade Tardia como Beliar.

Processus Sathanae

O Processus Sathanae ou Processo de Satanás é uma fábula medieval dos séculos XIII ou XIV. Satanás acusa a humanidade por seus pecados, enquanto a Virgem Maria atua como defensora. Jesus Cristo, juiz do caso, concede misericórdia à humanidade. A narrativa simboliza a redenção pela ressurreição de Cristo, vencendo o poder do diabo.

Michael Heiser

Michael S. Heiser (1963-2023) foi um biblista evangélico norteamericano especializado no Antigo Testamento, com foco nas antigas concepções semíticas acerca da realidade espiritual.

Heiser combinava divulgação científica, educação superior e pesquisa histórico-crítica, sendo um especialista acerca do Concílio Divino no Salmo 82. Era também um especialista sobre o Livro de Enoque.

Propunha o conceito de Cosmovisão de Deuteronômio 32. Considerava Deuteronômio 32:8-9 à luz da literatura ugarítica e do Salmo 82, porém sem pressupor uma univocidade das cosmovisões bíblicas. Argumenta que os antigos israeltas criam na existência de uma Assembleia Divina, Conselho ou Concílio Divino, composto por seres espirituais que auxiliam Deus na administração do mundo. De acordo com essa visão, Deus não governa diretamente todas as nações, mas delega autoridade a esses “filhos de Deus”, conforme mencionado no texto bíblico. No entanto, esses seres não são iguais a Deus e podem se corromper e se rebelar, como sugerido por diversos relatos bíblicos, incluindo a queda dos benē ʾĕlōhîm e a menção aos Nephilim em Gênesis 6. Essa interpretação propõe que eventos sobrenaturais na Bíblia sejam analisados sob a ótica da estrutura do Conselho Divino, o que impacta a leitura de passagens sobre poderes espirituais e conflitos cósmicos. Embora essa abordagem tenha gerado debates acadêmicos, soluciona várias questões interpretativas de modo coerente para a interação entre o mundo espiritual e a história humana na narrativa bíblica.

BIBLIOGRAFIA

Heiser, Michael S. The Facade: Book 1 of the Facade Saga. Kirkdale Press, 2012.
Heiser, Michael S. The Portent: Book 2 of the Facade Saga. Kirkdale Press, 2014.
Heiser, Michael S. I Dare You Not to Bore Me with The Bible. Lexham Press, 2015.
Heiser, Michael S. The Unseen Realm: Recovering the Supernatural Worldview of the Bible. Lexham Press, 2015.
Heiser, Michael S. Supernatural: What the Bible Teaches About the Unseen World—and Why It Matters. Lexham Press, 2015.
Heiser, Michael S. Reversing Hermon: Enoch, the Watchers, and the Forgotten Mission of Jesus Christ. Defender Publishing, 2017.
Heiser, Michael S. The Bible Unfiltered: Approaching Scripture on Its Own Terms. Lexham Press, 2017.
Heiser, Michael S. Angels: What the Bible Really Says About God’s Heavenly Host. Lexham Press, 2018.
Heiser, Michael S. A Companion to the Book of Enoch: A Reader’s Commentary, Vol. I: The Book of the Watchers (1 Enoch 1-36). Defender Publishing, 2019.
Heiser, Michael S. The World Turned Upside Down: Finding the Gospel in Stranger Things. Lexham Press, 2019.
Heiser, Michael S. Demons: What the Bible Really Says About the Powers of Darkness. Lexham Press, 2020. I
Heiser, Michael S. A Companion to the Book of Enoch: A Reader’s Commentary, Vol. II: The Parables of Enoch (1 Enoch 37-71). Defender Publishing, 2021.

Samael

Samael, em hebraico como סַמָּאֵל “Veneno de Deus”, é uma figura malévola no judaísmo rabínico, gnosticismo e demonologia islâmica. Em muitas tradições esotéricas e, em grande parte do primeiro milênio, Samael seria o nome do Acusador ou Satanás — não Lúcifer. Várias formas do nome, incluindo Samael, Sammuel e outras, foram usadas ao longo da antiguidade e da Idade Média.

Como acusador ou adversário, seria o satanás do Livro de Jó. Essa identificação com Satanás ocorria entre os gnósticos ofitas, que se referiam à serpente com um nome duplo, Miguel e Samael. O conflito entre Samael e Miguel, que serve como o anjo guardião de Israel, culminará no fim dos tempos.

Samael também desempenha os papéis de sedutor e destruidor. Por isso, às vezes é chamado Mashḥit (Êxodo 12:23; Isaías 54:16), o Destruidor. Seria membro da assembleia divina, chefe dos demônios. Também seria o principal anjo da morte.

Em algumas escrituras gnósticas, como “Sobre a Origem do Mundo”, Samael é um dos três nomes de Yaldabaoth. Esta criatura cega imaginou que seria o único ser divino. A associação com a cegueira aparece também na versão grega de Enoque, cujo nome como Σαμιέλ (Samiel) deriva de sami, “cego”.

No Livro Etíope de Enoque o nome de Samael aparece como um líder proeminente entre os anjos que se rebelaram contra Deus. As versões gregas desse texto hebraico chamam-no de Σαμμανή (Sammane) e Σεμιέλ (Semiel).

Apesar de ser associado à malevolência, as funções de Samael não são necessariamente más, visto que o castigo dos ímpios seria justo e bom

O papel de Samael na tradição rabínica varia. Em algumas instâncias, ele é retratado como um acusador e defensor, aparecendo perante a Shechiná durante o êxodo. Samael aparece na luta entre Jacó e o anjo. Também seria o anjo guardião de Esaú.

Na Cabala e na literatura mágica, Samael é considerado uma entidade poderosa, frequentemente maligna. Está associado ao anjo da morte e e magia de amuletos.

BIBLIOGRAFIA

Bousset, Wilhelm. Der Antichrist. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1895.

Friedländer, Moritz. Der Antichrist in den Vorchristlichen Jüdischen Quellen. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1901.

Kohut, Alexander. Angelologie und Dämonologie in ihrer Abhängigkeit vom Parsismus. Leipzig: F. A. Brockhaus, 1866.

Schwab, Moïse. Vocabulaire de l’Angélologie. Paris: Maisonneuve Frères, 1897.

Stave, Erik. Ueber den Einfluss des Parsismus auf das Judenthum. Berlin: C. A. Schwetschke, 1898.

Van der Toorn, Karel, Bob Becking, and Pieter Willem van der Horst, eds. Dictionary of Deities and Demons in the Bible. Eerdmans, 1999.

https://www.jewishencyclopedia.com/articles/13055-samael

https://www.jewishvirtuallibrary.org/samael

Vida de Adão e Eva

A Vida de Adão e Eva, também conhecida como o Apocalipse de Moisés, é um grupo de escritos apócrifos judaicos, bem como uma expansão parabíblica dos primeiros capítulos de Gênesis oriundos da antiguidade tardia.

Narra a vida de Adão e Eva após sua expulsão do Jardim do Éden até a morte. O texto investiga as consequências da Queda do Homem, incluindo doença e morte. Os temas explorados incluem a exaltação de Adão no Jardim, a queda de Satanás e a promessa de uma ressurreição para Adão e seus descendentes.

É o testemunho mais antigo da ideia de que Satanás e seus anjos foram expulsos do céu por seu orgulho e decidiram se vingar em Adão e Eva. Contudo, Satanás da Vida de Adão e Eva é principalmente um rival de Adão, e não de Deus.

A Vida de Adão e Eva existe em várias versões, como o Apocalipse grego de Moisés, a Vida latina de Adão e Eva, a Vida eslava de Adão e Eva, a Penitência armênia de Adão e o Livro georgiano de Adão. Essas versões contêm material tanto exclusivo quanto conteúdo compartilhado. As versões sobreviventes datam dos séculos III a V d.C., o que leva a pensar de uma fonte comum de uma composição no século I dC.