Ancião de Dias

A expressão “Ancião de Dias” (em aramaico attiq yomin) é utilizada em Daniel 7:9-22 como um título para Deus, inserido em uma visão apocalíptica que apresenta o julgamento divino e a inauguração de um reino eterno. Esse título enfatiza a soberania de Deus sobre as nações e a história, sendo uma representação de sua autoridade suprema no contexto de caos e opressão causado pelos poderes terrenos. A visão de Daniel 7 ilustra uma sucessão de quatro bestas monstruosas que emergem do mar, simbolizando reinos opressores e arrogantes. Esses impérios, com sua violência e corrupção, representam a resistência humana ao governo divino. Contudo, o clímax da visão ocorre com a aparição do Ancião de Dias, que assume o julgamento e estabelece um reino eterno, trazendo justiça e paz.

A descrição do Ancião de Dias em Daniel 7.9 apresenta uma figura majestosa com “veste branca como a neve” e “cabelo da cabeça como a pura lã”, sentado em um trono flamejante com rodas de fogo. Essa imagem destaca características como pureza, santidade e autoridade divina. O trono em chamas reforça o poder transcendente de Deus e sua glória imensurável. Essa figura ilustra o papel de Deus como juiz cósmico e soberano, cuja justiça é absoluta e cujo poder supera os reinos terrenos.

Teologicamente, o Ancião de Dias encarna a intervenção divina na história para derrotar as forças da opressão e estabelecer a justiça definitiva. Ele simboliza o Deus justo e misericordioso, que não apenas exerce juízo, mas também restaura a ordem e promove a paz. O uso do antropomorfismo na descrição do Ancião de Dias — atribuindo-lhe características humanas como idade avançada e vestes brancas — facilita a compreensão humana da majestade divina. Embora Deus transcenda qualquer forma física, essas imagens evocam veneração, confiança e uma percepção tangível de sua justiça e sabedoria.

A influência da figura do Ancião de Dias é profunda tanto na teologia judaica quanto na cristã. Ela molda a concepção de Deus como juiz soberano e rei universal, inspirando esperança em um futuro em que a justiça prevalecerá e o reino eterno de Deus será plenamente estabelecido. Essa visão fortalece a fé em uma soberania divina que não apenas julga, mas também redime e renova todas as coisas.

Adonai

Adonai (אֲדֹנָי, adonay) é um termo utilizado na tradição judia para se referir a Deus, traduzido comumente como “Senhor”. O termo aparece pela primeira vez em Gênesis 15:2 e 15:8. Sua etimologia é obscura, mas se refere à soberania de Deus como Senhor governante.

No texto massorético, as vogais de “adonai” foram colocadas junto ao tetragrama sagrado יהוה (yhwh) para formar a palavra “Jeová”. Essa prática reflete a tradição judaica de não pronunciar o nome sagrado de Deus (יהוה) diretamente, considerando-o demasiado santo para ser verbalizado. Assim, ao encontrar o tetragrama nas Escrituras, os leitores judeus substituíam sua leitura pela palavra “adonai”.

Doutrina da processão

A doutrina trinitária da processão refere-se à compreensão de como as três pessoas da Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – estão eternamente relacionadas umas com as outras. É uma explicação da maneira pela qual as três pessoas existem em sua natureza distinta, porém unificada, dentro da Divindade.

Nesta doutrina, processão refere-se à origem eterna ou relacionamento entre as pessoas da Trindade. Destaca como o Pai é a fonte ou origem do Filho e do Espírito Santo. Diz-se que o Filho é eternamente gerado ou gerado pelo Pai, enquanto o Espírito Santo procede do Pai (e em algumas tradições, do Pai e do Filho). Essas relações de processão são entendidas como eternas e intrínsecas à natureza de Deus.

A doutrina da processão ajuda a articular as distinções pessoais únicas dentro da Trindade. Afirma que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são simplesmente modos ou manifestações diferentes de Deus, mas pessoas distintas que compartilham um relacionamento coigual e eterno. O Filho e o Espírito Santo têm sua origem no Pai, mas são da mesma essência divina.

É importante notar que a compreensão e formulação precisas da doutrina da processão têm sido objeto de reflexão e debate teológico ao longo da história cristã, levando a algumas diferenças de ênfase e linguagem entre as tradições cristãs orientais e ocidentais. No entanto, a ideia fundamental da processão continua sendo um aspecto central da teologia trinitária, ressaltando as relações eternas e a interação das três pessoas da Trindade.

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Filioque

Filioque

O Filioque é um acréscimo teológico ao Credo Niceno-Constantinopolitano, especificamente a frase “e o Filho” (do latim Filioque) na cláusula referente à processão do Espírito Santo. Esta adição afirma que o Espírito Santo procede tanto do Pai quanto do Filho, enquanto o credo original afirmava que a processão vinha exclusivamente do Pai.

O Filioque tornou-se um ponto de discórdia teológica entre a Igreja Ortodoxa Oriental (ortodoxia grega) e a Igreja Ocidental (catolicismo romano) e desempenhou um papel significativo no Grande Cisma de 1054. A Igreja Ortodoxa Oriental se opôs à adição do Filioque, vendo-o como uma distorção do credo original e uma alteração não autorizada feita pela Igreja Ocidental.

A diferença na compreensão da processão do Espírito Santo relaciona-se com o Filioque. Na teologia ortodoxa oriental, o Espírito Santo procede somente do Pai (monopatrismo), enfatizando o Pai como a única fonte. A Igreja Ocidental, incluindo o Catolicismo Romano, mantém a crença de que o Espírito Santo procede tanto do Pai quanto do Filho (diopatrismo ou dupla processão). Essa diferença de entendimento reflete desacordos teológicos e eclesiásticos mais amplos entre as duas tradições.

A controvérsia Filioque continua sendo um ponto contínuo de discussão teológica e um obstáculo significativo para a reconciliação entre o cristianismo oriental e ocidental. Esforços têm sido feitos nos últimos anos para se engajar no diálogo ecumênico e encontrar um terreno comum no que diz respeito à compreensão da processão do Espírito Santo.

Antropormorfismo

O antropomorfismo na Bíblia refere-se à representação de Deus em termos humanos, usando características, atributos, emoções e ações humanas para retratar aspectos da natureza divina.

Dentre o gênero da categoria antropomorfismo, há as espécies antropomorfismo próprio, antropopatismo e antropopraxismo.

Em termos específicos, antropormofismo descreve Deus com traços humanos, quer físcos (olhos, boca, costas, etc). Já o antropopatismo descreve em termos psicológicos (ira, zelo, arrependimento). Por, fim atos comportamentais humanos constituem o antropopraxismo (Deus caminhar).

O antropomorfismo é um recurso literário empregado nas Escrituras para auxiliar os seres humanos a entender e se relacionar com os atributos e interações de Deus com a humanidade. Esta linguagem antropomórfica não pretende sugerir que Deus está limitado à forma humana, mas serve como um meio de transmitir verdades teológicas profundas de uma forma compreensível para os leitores humanos.

Exemplos de antropomorfismo na Bíblia:

  • A Mão de Deus: A Bíblia muitas vezes retrata a mão de Deus como um símbolo de Seu poder e ação. Em Êxodo 3:20, Deus fala de Sua “mão poderosa” ao libertar os israelitas do Egito. Representa Sua intervenção e autoridade nos assuntos da humanidade.
  • Os olhos de Deus, uma metáfora para Sua presença vigilante e conhecimento divino, são enfatizados no Salmo 33:18: “Eis que os olhos do Senhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua benignidade”.
  • O braço de Deus, mencionado em Isaías 53:1, simboliza Sua salvação e libertação. O profeta Isaías usa essa figura de linguagem para destacar a força e a capacidade de Deus em resgatar Seu povo.
  • A voz de Deus, um antropomorfismo que representa Sua comunicação com a humanidade, é evidente em Gênesis 3:8: “E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia”. Essa passagem ilustra a interação direta de Deus com Adão e Eva.
  • A face de Deus simboliza Seu favor, atenção e revelação. Em Números 6:25, a bênção sacerdotal invoca: “O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti”. Essa imagem transmite a graça e o amor de Deus para com Seu povo.
  • A ira de Deus, uma emoção humana atribuída a Ele, é demonstrada em Êxodo 32:9-10, quando os israelitas adoram o bezerro de ouro.
  • O odor que agrada a Deus, mencionado em Gênesis 8:21, descreve a satisfação divina com o sacrifício de Noé após o dilúvio.
  • O descanso de Deus, retratado em Gênesis 2:2, simboliza a conclusão da criação.
  • A alegria de Deus, expressa em Isaías 65:19, revela Seu contentamento com a restauração e prosperidade de Jerusalém.
  • A tristeza/aflição de Deus, mostrada em Juízes 10:16, ilustra Sua compaixão pelo sofrimento de Israel.
  • O ódio de Deus, manifestado em Salmos 5:5-6, revela Sua aversão ao mal e à injustiça.
  • O amor de Deus, exemplificado em Jeremias 31:3, revela Seu carinho eterno e incondicional por Seu povo. Essa emoção divina destaca Sua fidelidade e compromisso com a humanidade.
  • Deus como pastor: Salmos 23:1 retrata Deus como um guia e protetor amoroso.
  • Deus como juiz: Gênesis 18:25 descreve Deus como o árbitro supremo, que age com justiça.
  • Deus como noivo: Marcos 2:19-20 usa essa metáfora para ilustrar a relação entre Jesus e seus discípulos.
  • Deus como marido: Isaías 54:5 retrata Deus como um parceiro fiel em uma aliança matrimonial com Seu povo.

BIBLIOGRAFIA

Cole, Graham. The God Who Became Human: A Biblical Theology of Incarnation. Vol. 30, InterVarsity Press, 2013.

Köhler, Ludwig. Anthropomorphisms and Their Meaning from Old Testament Theology. Westminster, 1957.

Yamauchi, Edwin M. “Anthropomorphism in Ancient Religions.” Bibliotheca Sacra, vol. 125, Jan.-Mar. 1968, pp. 29-44.

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