Deus e feminilidade

Deus na Bíblia aparece tanto em termos transcendentes quanto em imagens antropomorfas e personificadas. Em algumas passagens, essas imagens apresentam aspectos femininos, seja em termos gramaticais, seja em metáforas.

Entre as passagens mais notórias está a do Espírito pairando sobre as águas em Gênesis 1:2, onde o verbo hebraico מְרַחֶ֖פֶת (m’rechephet) tem terminação feminina. Ainda na criação, a imagem de Deus se manifesta no ser humano criado como macho e fêmea (Gênesis 1:26-27). Deus aparece como אֵל שַׁדַּי (El Shaddai, “Deus poderoso de seios e nutriz”) em Gênesis 17:2, e como אֱלוֹהַּ (Eloah, “mãe parturente”) em Deuteronômio 32:18 e Isaías 49:15. A imagem de Deus como mãe águia ocorre em Êxodo 19:4, e a de mãe que amamenta em Isaías 49:14-15; 66:9-13; Salmo 131:2, com possível ocorrência também em Oseias 11:4. Uma passagem que reúne vários desses aspectos é Jó 33:4, que pode ser traduzida como “A Espírito de Deus, ela me fez; e o fôlego de Deus que amamenta [שַׁדַּי, Shadai], ela me deu vida.”

No Novo Testamento, Deus é descrito como mãe galinha em Mateus 23:37 e Lucas 13:34. A imagem de Deus como mãe que conforta aparece em Isaías 66:13, e a de senhora em Salmo 123:2-3.

Quatro substantivos femininos do Antigo Testamento são associados a Deus. O Espírito, רוּחַ (Ruach), é uma hipóstase de Deus agindo no mundo. A Sabedoria, חָכְמָה (Chokmah), é personificada com os propósitos de Deus, por vezes identificada como hipóstase ou, na tradição cristã, com o Espírito Santo ou com o Verbo. A justiça aparece tanto na forma masculina, צֶדֶק (Tzedeq), quanto na feminina, צְדָקָה (Tzedakah). A Glória de Deus, שְׁכִינָה (Shekiná), é por vezes tratada como hipóstase ou identificada com o Espírito Santo.

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Midot – Atributos bíblicos de Deus.

Teologia dos Atributos

Sofia

Sofia, em hebraico חָכְמָה Ḥoḵmā, em grego σοφία Sophia, em latim Sapientia, em português Sabedoria, é a personificação da Sabedoria Divina.

A Sabedoria Divina existia antes da criação do mundo, revelou Deus, foi agente na criação (Provérbios 8:22–31, cf. 3:19; Sabedoria 8:4–6; Siraque 1:4,9). A sabedoria habitava com Deus (Provérbios 8:22–31 ; cf. Siraque 24:4; Sabedoria 9:9–10). Ela é inacessível aos seres humanos (Jó 28:12–13, 20– 21, 23–27). Em outras passagens de Provérbios o nível da personificação varia (Provérbios 1:20-33; 3:13-18; 4:3-13; 8:1-36; 9:1-6). 

O livro apócrifo Sabedoria de Salomão chama a Sabedoria personificada como uma hipóstase de Deus (por exemplo, Sab 7:22–8:2). Nesse livro, Sofia não se identifica com a Torá como no Siraque 24, mas como um atributo divino: “uma emanação pura da glória do Todo-Poderoso (Sab 7: 25).

No Novo Testamento, a Sabedoria aparece associada a Cristo e sua identidade e missão (por exemplo, João 1:1–18; Colossenses 1:15–20) na teologia do Logos.

Shekhinah

Shekhinah ou Shekiná é um conceito na tradição judaica que se refere à presença divina ou glória de Deus. O termo é derivado da palavra hebraica “shakhan”, que significa “habitar” ou “residir”.

De acordo com a mística judaica, a Shekhinah representa um aspecto feminino de Deus e é frequentemente retratada como uma luz radiante ou como uma noiva. Acredita-se que tenha estado presente durante eventos importantes na história judaica, como o Êxodo do Egito e a entrega da Torá no Monte Sinai.

A Shekhinah é frequentemente associada ao Santo dos Santos no Templo de Jerusalém, onde se dizia que residia a presença de Deus. No entanto, após a destruição do Templo, diz-se que a Shekhinah foi para o exílio junto com o povo judeu e acreditava-se que resida entre eles na diáspora.

O conceito de Shekhinah influenciou o pensamento e a adoração judaica, particularmente na Cabala e no hassidismo. Representa a ideia de que a presença de Deus pode ser encontrada no mundo e na vida cotidiana, e é um lembrete da sacralidade da criação e da importância da consciência espiritual.

Há similaridades e dissimilaridades com o entendimento cristão do Espírito Santo. No cristianismo, o Espírito Santo é uma pessoa, juntamente com Deus Pai e Jesus Cristo.

Em contraste, a Shekhina no misticismo judaico não é considerada uma pessoa ou entidade distinta, mas sim um aspecto da presença divina. Se esse aspecto constitui uma hipóstase ou não é ainda debatido.

Apesar dessas diferenças, ambos remetem à ideia da imanência ou presença de Deus no mundo.

BIBLIOGRAFIA

Kaniel, Ruth Kara-Ivanov. The Feminine Messiah: King David in the Image of the Shekhinah in Kabbalistic Literature. Brill, 2021.

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Sofia

Espírito Santo

Midot

As מידות (midot), plural hebraico de מידה (midah, “medidas” ou “normas”), são as perfeições divinas ou os atributos bíblicos (inferidos dos textos bíblicos, e não da teologia natural ou da filosofia) que revelam o caráter de Deus. Tradicionalmente, são contados como treze.

Em comum, salientam vários aspectos da graça, descrevendo Deus como misericordioso, piedoso, tardio em irar-se, grande em beneficência, veraz, cheio em beneficência, que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado, sem leniência com o culpado e com a iniquidade. O conjunto também é chamado de 13 atributos da misericórdia.

Esse conjunto de perfeições é um texto recorrente no Antigo Testamento, com ocorrências em Êx 34:6–7; Nm 14:18; Jl 2:13; Jn 4:2; Mq 7:18; Na 1:3; Sl 86:15; 103:8; 145:8; Ne 9:17. Esses versículos são os mais aludidos internamente na própria Bíblia.

Teologicamente, essas perfeições são vistas em conjunto, como um mosaico, para revelar o caráter de Deus. Não ocorrem isoladamente uma das outras.

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Passibilidade divina

A passibilidade divina refere-se à posição teológica de que Deus é capaz de sofrer e experimentar emoções, contrastando fortemente com o entendimento hegemônico da impassibilidade divina, que sustenta que Deus não é afetado por circunstâncias externas.

A ideia de que Deus não pode sofrer, conhecida como impassibilidade (do grego apatheia), foi uma crença dominante na teologia cristã desde tempos primitivos até o século XIX. Teólogos antigos, como Filo de Alexandria, posteriormente, a patrística, sustentavam que o sofrimento seria incompatível com a natureza divina, a qual viam como eterna, imutável e perfeita. Essa perspectiva estava enraizada nas tradições filosóficas gregas que associavam o sofrimento à mudança e à imperfeição. No entanto, no século XX, ocorreu uma mudança significativa. Teólogos começaram a reconsiderar as implicações de um Deus sofredor à luz das experiências humanas de dor e injustiça. Richard Bauckham observa que, no início dos anos 1900, um número crescente de teólogos ingleses começou a defender uma doutrina da passibilidade divina, sugerindo que esse conceito desempenharia um papel proeminente na teologia moderna.

Contribuições Teológicas

  1. Richard Bauckham: Em seu artigo “Somente o Deus Sofredor Pode Ajudar”, Bauckham argumenta a favor de uma reavaliação da natureza de Deus em relação ao sofrimento humano. Ele postula que entender Deus como capaz de sofrer permite um engajamento mais profundo com a dor humana e o amor divino.
  2. Jürgen Moltmann: Uma figura central neste discurso, o trabalho de Moltmann enfatiza o aspecto relacional do amor de Deus. Ele argumenta que o sofrimento de Deus não é apenas uma experiência passiva, mas um engajamento ativo com a criação. Em seu influente livro O Deus Crucificado, ele postula que a crucificação de Cristo revela a disposição de Deus em sofrer ao lado da humanidade. A teologia de Moltmann sugere que as relações intra-trinitárias envolvem sofrimento mútuo, particularmente evidente no abandono de Cristo na cruz (Mateus 27:46) e no sofrimento do Pai nesse evento.
  3. Horace Bushnell: Um proponente anterior da passibilidade divina, Bushnell sugeriu que o amor de Deus envolve inerentemente o sofrimento. Ele afirmou famosamente que havia “uma cruz no coração de Deus antes que houvesse uma plantada na colina verde fora de Jerusalém”, indicando que a natureza divina está fundamentalmente entrelaçada com o amor sacrificial.

Fundamentos Bíblicos

O apoio à passibilidade divina pode ser encontrado ao longo das Escrituras, que frequentemente retratam Deus experimentando emoções como compaixão (Êxodo 34:6), ira (Salmo 7:11) e tristeza (Isaías 63:10). O Novo Testamento ilustra ainda mais isso através das experiências de Cristo:

  • Sofrimento na Cruz: O grito de derrocada de Jesus (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” – Mateus 27:46) exemplifica um profundo sofrimento e abandono.
  • Empatia com a Humanidade: Hebreus 4:15 afirma que Jesus “foi tentado em todas as coisas, assim como nós, mas sem pecado”, destacando Sua capacidade de se relacionar com as lutas humanas.

Considerações

A doutrina da passibilidade divina representa uma mudança teológica significativa em direção à compreensão da natureza de Deus à luz do sofrimento humano. Ao afirmar que Deus pode sofrer, teólogos como Bauckham e Moltmann fornecem uma estrutura para reconciliar o amor divino com a dor humana. Essa perspectiva em evolução encoraja os crentes a se envolverem mais profundamente com sua fé em meio aos desafios da vida, reconhecendo um Deus que não é distante, mas intimamente envolvido na experiência humana.

BIBLIOGRAFIA

Aguiar, Eugênio Pacelli Correia. Deus e o sofrimento na obra ‘o Deus crucificado de Moltmann. 2018. 108 fl. Dissertação de Mestrado em Teologia. Universidade Católica de Pernambuco, 2018.

Bauckham, Richard. “‘Only the Suffering God Can Help’: Divine Passibility in Modern Theology.” Themelios 9, no. 3 (1984): 6-12.

Chow, Dawn Eschenauer. “The Passibility of God: A Plea for Analogy.”

Heschel, Abraham. God in Search of Man. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1976.

Helm, Paul, and Oliver Crisp, eds. The Impossibility of Divine Passibility. London: Taylor & Francis, 2017.

Moltmann, Jürgen . O Deus crucificado: a cruz de Cristo como a base e crítica da teologia cristã. Santo André: Academia Cristã, 2011.

Sarot, Marcel. “Patripassianism, Theopaschitism and the Suffering of God: Some Historical and Systematic Considerations.” Religious Studies 26, no. 3 (1990): 363–75. https://doi.org/10.1017/S0034412500020527.

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