Soteriologia transformativa

As soteriologias transformativas são modelos que explicam o papel dos ensinos e obra de Jesus Cristo para a salvação centrados em seus efeitos transformativos na humanidade.

No cristianismo oriental a salvação é compreendida como um processo de tornar-se participante da natureza divina (2 Pedro 1:4) ou de redenção (resgate). Nesse processo, toda a obra de Cristo – encarnação, ensinos, morte, ressurreição e ascensão – afeta a salvação da humanidade.

Salvação é representada por vários conceitos no Novo Testamento como transformativa: justificação (Romanos 3:24; 5:9; Lucas 18:1–14), reconciliação (Romanos 5:10; 2 Coríntios 5:19), redenção (Romanos 3:24; Lucas 21:28; Efésios 1:7, 14; Colossenses 1:14) e santificação (Filipenses 3).

A soteriologia transformativa enfatiza que a salvação em Cristo não é apenas um perdão inicial dos pecados, mas um processo contínuo de transformação que envolve a renovação da mente, a santificação e a participação na vida divina.

Esse pensamento transformativo foi notório na era patrística para se pensar a salvação. Constituiu a base teológica de Justino Mártir, Orígenes, Irineu, Atanásio, Gregório de Nissa, Gregório de Nazianzo, Cirilo de Alexandria e Hilário de Poitiers. É a concepção predominante na soteriologia das denominações orientais, sobretudo entre os ortodoxos gregos, no modelo de teose.

No ocidente, pelas influências de Tertuliano, Cipriano de Cartago e Agostinho, surgiram diversas outras soteriologias forenses (aquelas que visam declarar o ser humano pecador justo diante de Deus). Embora Tertuliano tenha introduzido linguagem jurídica (satisfactio, meritum) na teologia latina, sua soteriologia mantinha ainda elementos participativos e não era exclusivamente forense. Apesar das tendências forenses do período, persistiam noções transformativas de justificação. Mesmo esses teólogos não negligenciavam aspectos regenerativos. Agostinho, por exemplo, insistia na justificação como ação transformativa de Deus para tornar a pessoa justa, derramando amor direcionado ao próprio Deus e ao próximo com base em Romanos 5:5 (Agostinho. De Spiritu et Littera, 5). Contudo, com a influência crescente de práticas devocionais populares baseadas em uma transação penitencial e o desenvolvimento de uma soteriologia exclusivamente forense a partir de Anselmo, a justificação forense praticamente se tornou o consenso dominante no mundo ocidental.

Nessa linha de soteriologia forense se desenvolveram o catolicismo romano com uma soteriologia penal-sacramental, a soteriologia da satisfação de Anselmo, a justiça imputada de Lutero, a substituição vicária de Calvino, a sinergia do arminianismo reformado, a justificação governamental de Grócio, dentre outras.

Contudo, essas abordagens como uma totalidade apresentam pontos sujeitos à crítica. Por exemplo, Darby Kathleen Ray, a partir de uma perspectiva feminista e libertadora, entende a expiação ou reconciliação (o termo é fundido em inglês como atonement) como o ato de restaurar um relacionamento rompido entre a humanidade e Deus. No entanto, ela critica a compreensão forense da expiação, que enfatiza a morte sacrificial de Jesus como pagamento pelo pecado humano, por ser estruturalmente violenta e passível de ser usada para justificar comportamentos abusivos. Em vez disso, Ray sugere uma visão alternativa da expiação que se concentra nos aspectos de cura e reconciliação da obra de Cristo. A vida e os ensinamentos de Jesus, em vez de sua morte isolada, oferecem as contribuições mais significativas para a expiação, cujo objetivo não é apaziguar um Deus irado, mas restaurar relacionamentos rompidos entre os indivíduos e Deus, os outros e a si mesmo.

Alternativamente, os anabatistas enfocaram nos efeitos da salvação ao invés do início de seu processo como os reformadores magisteriais. Mesmo entre os luteranos, Lutero apresentava aspectos transformativos em sua soteriologia. Esses aspectos foram desenvolvidos de forma distinta por Andreas Osiander (1498–1552), que propôs a justificação como resultado do habitar da natureza divina de Cristo no interior do crente (iustitia essentialis / inhabitatio Christi), pela qual Deus encontra o crente justo em razão da presença de Cristo nele. Importa notar, porém, que esse modelo uma divergência em relação a Lutero: Osiander rejeitava a imputação da obediência de Cristo e a centralidade de sua natureza humana na justificação, o que levou à condenação de seu ensino por Melanchthon, Flacius e outros luteranos, sendo o Osiandrianismo formalmente rejeitado pela Fórmula de Concórdia (1577), artigo III. Outras perspectivas transformativas foram reproduzidas entre os pietistas e morávios, com aspectos de União com Cristo ou União Mística. Por meio deles, essa soteriologia afetou o pensamento dos avivalistas, especialmente de John Wesley. Wesley combinou a estrutura forense do arminianismo reformado com elementos da soteriologia transformativa, especialmente em sua doutrina da completa santificação (entire sanctification) e do amor perfeito, influenciada pelos morávios e pelo pietismo. Em outros desdobramentos, a soteriologia de Keswick adotou uma ênfase transformativa ao tratar o pecado como algo a ser curado.

O pentecostalismo sempre foi plural em sua teologia, mas há vertentes com um sólido fundamento em uma soteriologia transformativa. O pentecostalismo clássico abraçou essa soteriologia transformativa na fórmula quádrupla de que Jesus Cristo salva, batiza com o Espírito Santo, cura e é o rei vindouro. Dependente totalmente da graça, essas ações transformam o indivíduo, agrega-o à Igreja, transforma o corpo e o mundo por milagres sanatórios enquanto espera o reino de justiça.

Um subgrupo pentecostal, influenciados pela soteriologia de Keswick, refinou esse conceito na doutrina da Obra Plena do Calvário. Por ela, a salvação concorre na ação do Triúno Deus completada objetivamente na morte, ressurreição e envio do Espírito Santo por Jesus Cristo. Em uma eleição corporativa o pecado na criação já redimida é limpo. A justificação não ocorre separadamente da conversão e do novo nascimento, visto ser a salvação um processo regenerativo. Assim, por esse ato de graça para toda humanidade, os crentes são regenerados pela fé nessa obra plena e, revestidos de poder do Espírito Santo, caminham em santificação rumo à glória eterna.

Mesmo em correntes protestantes magisteriais, como o luteranismo, reformados e anglicanos, soteriologias transformativas ganharam novas recepções. Entre os reformados apareceram os trabalhos de Torrance, Herman Wiersinga, Julie Canlis, Hans Boersma e Joshua W. Jipp. Entre os luteranos destacam-se Tuomo Mannermaa e a Escola Finlandesa de interpretação de Lutero, que argumenta que a justificação luterana envolve uma união real e ontológica com Cristo (unio cum Christo), aproximando-a da doutrina ortodoxa da teose; além de Jordan B. Cooper em língua inglesa. A Escola de Lund, centrada em Anders Nygren e sua pesquisa de motivos (Motivforschung) sobre ágape e eros, contribuiu de forma distinta para o debate soteriológico no luteranismo escandinavo, embora com foco diverso do da escola finlandesa. No evangelicalismo, Michael Gorman, N. T. Wright e Veli-Matti Kärkkäinen, dentre outros, avançaram soteriologias transformativas e participativas.

Essas soteriologias recebem designações e modelos variados. Os termos “modelo místico de redenção” (Ritschl) e “fisicalismo” (Harnack) foram cunhados no século XIX de forma crítica para descrever — e depreciar — a soteriologia patrística grega, que esses autores viam como excessivamente helenizada. Apenas posteriormente esses rótulos foram reapropriados de forma positiva por teólogos favoráveis à soteriologia transformativa. Outros modelos incluem a “substituição total” (Torrance) e a “soteriologia redentiva” (Studebaker).

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VEJA TAMBÉM

Justificação

Graça

Salvação

Soteriologia forense

Teoria participatória da expiação

Teoria da União Mística

Teoria da Influência Moral

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União com Cristo

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