Soteriologia transformativa

As soteriologias transformativas são modelos que explicam o papel dos ensinos e obra de Jesus Cristo para a salvação centrados em seus efeitos transformativos na humanidade.

No cristianismo oriental a salvação é compreendida como um processo de se tornar participante da natureza divina (2 Pe 1:4) ou de redenção (resgate). Nesse processo, toda a obra de Cristo – encarnação, ensinos, morte, ressurreição e ascensão – afeta a salvação da humanidade.

Esse pensamento foi notório na era patrística, com Justino Mártir, Orígenes, Irineu, Atanásio, Gregório de Nissa, Gregório de Nazianzo, Cirilo de Alexandria e Hilário de Poitiers

No ocidente, por influência de Tertuliano, Cipriano de Cartago, Agostinho, surgiram diversas outras soteriologias forenses (aquela que visa declarar o ser humano pecador justo diante de Deus). Nessa linha se desenvolveram o catolicismo romano com uma soteriologia penal-sacramental, a soteriologia da satisfação de Anselmo, a justiça imputada de Lutero, da substituição vicária de Calvino, da sinergia de Armínio, a justificação governamental de Grócio, dentre outras.

Alternativamente, os anabatistas enfocaram nos efeitos da salvação ao invés do início de seu processo como os reformadores magistrais. Essa perspectiva transformativa foi reproduzida entre os pietistas e afetou o pensamento dos avivalistas, especialmente de John Wesley. Wesley combinou uma soteriologia forense magistral arminiana com a soteriologia transformativa. Em outros desdobramentos, a soteriologia de Keswick adotou uma ênfase transformativa.

O pentecostalismo clássico abraçou plenamente a soteriologia transformativa na fórmula quádrupla de que Jesus Cristo salva, batiza com o Espírito Santo, cura e é o rei vindouro. Dependente e passivo em uma relação da graça, essas ações transformam o indíviduo, agrega-o à Igreja, transforma o corpo e o mundo por milagres sanatórios e espera o reino de justiça.

Um subgrupo pentecostal, influenciados pela soteriologia de Keswick, refinou esse conceito na doutrina da Obra Plena do Calvário. Por ela, a salvação concorre ação do Triúno Deus completada objetivamente na morte, ressurreição e envio do Espírito Santo por Jesus Cristo. Em uma eleição corporativa o pecado é limpado. A justificação não ocorre separadamente da conversão e do novo nascimento, visto ser a salvação um processo regenerativo. Assim, por esse ato de graça para toda humanidade, os crentes são regenerados pela fé nessa obra plena e, revestidos de poder do Espírito Santo, caminham em santificação rumo à glória eterna.

Essas soteriologias recebem designações e modelos variados, como “modelo místico de redenção” (Ritschl), “fisicalismo” (Harnack) e “soteriologia redentiva” (Studebaker).

BIBLIOGRAFIA

Kraus, C. N. (1992) Interpreting the atonement in the Anabaptist-Mennonite tradition. Mennonite quarterly review, 66(3), 291–311.

Adolf von Harnack, Adolf von. History of Dogma. New York: Russell & Russell, 1898, especialmente 5.14–15.

Burns, J. Patout “The Economy of Salvation: Two Patristic Traditions,” Theological Studies, 37 (1976) 599–600. https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/004056397603700403

Macchia, Frank D. Justified in the Spirit: Creation, Redemption, and the Triune God. Vol. 2. Wm. B. Eerdmans Publishing, 2010.

Olson, Roger E. Arminian theology: Myths and realities. Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 2006.

Scully, Ellen. Physicalist Soteriology in Hilary of Poitiers. Brill, 2015.

Studebaker, Steven M. The Spirit of Atonement: Pentecostal Contributions and Challenges to the Christian Traditions. T&T Clark, 2021.

Trementozzi, David. Salvation in the Flesh: Understanding How Embodiment Shapes Christian Faith. McMaster Theological Studies Series, volume 7. Eugene, Oregon: Pickwick Publications, 2018.

VEJA TAMBÉM

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Graça

Salvação

Soteriologia forense

Justificação

Justificação é o ato transformativo de capacitar a vida em retidão ou justiça, palavras que traduzem os termos bíblicos de dikaiosynē ou tzedek.

Nos sentidos bíblicos, na justificação ocorre a correção de um ato errôneo. Em todo Antigo Testamento há um anseio de sanar as injustiças dos ímpios (Sl 37), e o próprio ser humano se justificar (Jó 32:2; Jó 33:32; Is 43:9), visto que Deus se apresenta como demandando justiça (Dt 32:4; Sl 11:7; Sl 146:6-8; Is 5:16), especialmente para o vulnerável (Sl 10:14-18; Sl 72:1-2; Pv 31:8-9). Em contrapartida, há uma preocupação de demonstrar que Deus age em justiça (Jó 32:2; Sl 51:4).

Diante a impureza moral e ritual, a expectativa messiânica era de que o messias possibilitasse a justificação em um reino de justiça (Sl 97). O Novo Testamento retrata Jesus Cristo cumprindo essa expectativa pelo sangue de sua morte (Rm 3:24-25) e pela sua ressurreição foram para justificação (Rm 4:25), possibilitando que a humanidade obtenha paz com Deus (Rm 5:1) e implantando o seu reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14:17).

Diversas teorias soteriológicas tentam explicar como Jesus Cristo foi oferecido pelo pecado (2 Co 5:21), para que a humanidade mediante a fé nele fosse justificada (Rm 3:26). Metáforas como resgate, regeneração, restauração, redenção, processo penal, participação da natureza divina integram a doutrina da justificação à doutrina da salvação.