Reforma na Itália

A Reforma protestante começou a circular nos estados italianos a partir da década de 1520 com a entrada de ideias luteranas e de outros movimentos reformistas vindos do norte da Europa. A história da Reforma na Itália constitui processo complexo de fermentação intelectual, tentativas de renovação interna do catolicismo, difusão de movimentos teológicos radicais e repressão sistemática conduzida pela Inquisição. O resultado desse processo foi a dispersão de numerosos intelectuais, teólogos, comerciantes e humanistas italianos por várias regiões da Europa.

O ambiente italiano apresentava condições históricas favoráveis à recepção de ideias reformadoras. Os antigos conflitos entre guelfos e guibelinos haviam enfraquecido a unidade política e religiosa da península. Além disso, movimentos dissidentes medievais, críticas humanistas e iniciativas de reforma moral prepararam terreno para o questionamento da autoridade eclesiástica tradicional.

Entre os antecedentes medievais mais importantes estavam os valdenses. Esse movimento sobrevivera durante séculos nos vales alpinos do noroeste da Itália. Em 1532, durante o Sínodo de Chanforan, os valdenses identificaram-se oficialmente com o protestantismo calvinista. Tornaram-se importante elo geográfico entre a Itália e os centros reformados do norte europeu. Os vales valdenses também serviram de refúgio para perseguidos pela Inquisição.

Outro fator decisivo foi o humanismo renascentista. A nova filologia desenvolvida por autores como Lorenzo Valla (1407–1457) e Erasmus (1466–1536) forneceu instrumentos para reexaminar criticamente a Vulgata e as tradições eclesiásticas. Centros intelectuais como Veneza, Lucca e a Universidade de Pádua participaram ativamente da circulação de ideias reformistas. O humanismo italiano favoreceu o retorno às línguas originais da Bíblia, à crítica textual e à leitura histórica das Escrituras.

Movimentos de reforma moral anteriores à Reforma protestante também influenciaram o ambiente religioso italiano. As pregações de Girolamo Savonarola (1452–1498) em Florença atacavam corrupção e decadência moral dentro da Igreja. Embora anterior ao protestantismo, Savonarola antecipou temas que reapareceriam entre os reformadores italianos.

A Reforma italiana desenvolveu estreita relação com o humanismo cristão. Surgiram correntes spirituali, filo-luteranas, anabatistas, não trinitárias e grupos favoráveis às reformas suíça e francesa posteriormente identificadas com o calvinismo. Antes da consolidação de denominações protestantes claramente definidas, muitos italianos buscavam renovação espiritual dentro da própria Igreja Católica. Esse movimento recebeu o nome de evangelismo.

O evangelismo procurava enfatizar piedade interior, fé pessoal, leitura das Escrituras e justificação pela fé. As fronteiras entre ortodoxia, reforma espiritual e heresia permaneciam frequentemente indefinidas. Um dos centros mais importantes desse movimento foi o círculo de Juan de Valdés (1490–1541), refugiado espanhol estabelecido em Nápoles. Valdés tornou-se líder espiritual de um influente grupo de spirituali. Seus ensinamentos enfatizavam fé interior, justificação pela fé e devoção pessoal acima de controvérsias dogmáticas.

O livro O benefício de Cristo crucificado (Beneficio di Cristo) foi publicado anonimamente em Veneza em 1543. O livro sintetizava ideias valdesianas e alcançou enorme popularidade. Aproximadamente quarenta mil exemplares circularam antes da repressão inquisitorial. A obra tornou-se verdadeiro manifesto da Reforma italiana.

A Reforma encontrou apoio parcial entre membros da elite eclesiástica e aristocrática. Cardeais como Gasparo Contarini (1483–1542) e Reginald Pole (1500–1558) demonstraram simpatia por propostas de renovação espiritual e forneceram proteção relativa a círculos reformistas.

A circulação de ideias protestantes ampliou-se por meio do comércio, das universidades e da impressão de livros. Obras de Martin Luther (1483–1546) e Philipp Melanchthon (1497–1560) entravam clandestinamente na Itália sob pseudônimos ou capas falsas. Cidades comercialmente ligadas ao norte europeu, especialmente Veneza e Lucca, tornaram-se centros importantes de difusão do luteranismo.

O calvinismo mostrou-se particularmente atraente para intelectuais italianos. Renée da France (1510–1574), a Duquesa de Ferrara, recebeu Calvino (1509–1564) e patrocinou círculos humanistas simpáticos às ideias reformadas suíças e francesas. Posteriormente, muitos exilados italianos participariam ativamente do desenvolvimento do protestantismo reformado europeu.

A Reforma radical encontrou na Itália terreno especialmente fértil. Surgiram movimentos anabatistas e antitrinitários que ultrapassavam os limites do luteranismo e do calvinismo tradicionais. O anabatismo italiano, desenvolvido nas décadas de 1520 e 1530, frequentemente apresentava caráter mais racionalista que suas formas do norte europeu. Antonio Marangone aparece nos registros de 1533 como um dos primeiros líderes anabatistas em Veneza.

Em 1550 ocorreu o Sínodo secreto de Veneza. Aproximadamente sessenta delegados reuniram-se clandestinamente para discutir questões teológicas. O encontro adotou posições radicais que negavam a divindade de Cristo e o descreviam como profeta humano. A Itália tornou-se um dos principais centros de formulação do antitrinitarianismo moderno.

O socinianismo derivou dos teólogos sieneses Lelio Sozzini (1525–1562) e Fausto Sozzini (1539–1604). O movimento rejeitava o pecado original, questionava a doutrina tradicional da expiação e enfatizava Cristo como exemplo moral para a humanidade. As ideias socinianas exerceram grande influência posterior sobre correntes racionalistas e unitarianas europeias.

Teologicamente, a Reforma italiana contribuiu para diferentes tradições protestantes. Parte de seus autores influenciou o anglicanismo por meio de propostas reformistas de via media. Outros participaram do desenvolvimento do calvinismo e de métodos exegéticos marcados pelo humanismo renascentista. A Bíblia Diodati tornou-se um dos grandes legados literários da diáspora protestante italiana.

A reação católica endureceu progressivamente. Em 1542, o papa Paulo III criou a Inquisição Romana para combater aquilo que era chamado de “pravidade luterana”. A instituição foi organizada sob liderança do cardeal Gian Pietro Carafa, futuro papa Paulo IV. O ano de 1542 tornou-se ponto de inflexão decisivo na história da Reforma italiana.

Nesse mesmo período ocorreram as fugas de Bernardino Ochino (1487–1564), general dos capuchinhos, e de Peter Martyr Vermigli (1499–1562). Esses episódios simbolizaram o fim da relativa tolerância anteriormente desfrutada pelo evangelismo.

A cronologia proposta por Silvana Seidel Menchi divide a Reforma italiana em quatro fases. Entre 1518 e 1542 ocorreu o “chamado teológico às armas”, período marcado pela circulação de ideias reformadoras entre elites discretas que esperavam reformar o catolicismo internamente. Nessa fase convergiam tendências filo-protestantes e espiritualistas, incluindo o círculo de Juan de Valdés em Nápoles.

Entre 1542 e 1555 ocorreu a fase de “difusão espontânea”, quando a dissidência ultrapassou os círculos aristocráticos e alcançou comerciantes e artesãos dos centros urbanos do norte italiano. Entre 1555 e 1571 desenvolveu-se a fase de “repressão”, durante os pontificados de Paulo IV e Pio V. Muitos reformadores italianos emigraram. Diversas famílias de Lucca refugiaram-se principalmente na Suíça. Entre 1571 e 1588 ocorreu a fase de “extinção”. Após a diminuição dos julgamentos por heresia, a Inquisição passou a concentrar-se em acusações de magia e feitiçaria.

Muitos reformadores permaneceram externamente ligados ao catolicismo enquanto mantinham convicções protestantes em segredo. Essa prática recebeu o nome de nicodemismo. O fenômeno tornou-se importante especialmente entre intelectuais que desejavam evitar perseguição inquisitorial.

A repressão produziu vasta diáspora intelectual italiana. Centenas de teólogos, comerciantes, humanistas e membros do clero deixaram a península. As regiões alpinas dos Grisões, na Récia trilíngue, tornaram-se um dos primeiros refúgios dos exilados. Ali, autores como Camillo Renato e Pier Paolo Vergerio (1498–1565) continuaram a difundir ideias reformistas e radicais.

Outros refugiados estabeleceram-se em Genebra, na Polônia e na Transilvânia. Famílias como os Diodati e os Turrettini tornaram-se influentes no protestantismo reformado genebrino. Na Polônia e na Transilvânia, exilados italianos participaram da fundação da Igreja Reformada Menor e da difusão do antitrinitarianismo.

Diversos intelectuais e reformadores relacionam-se à história da Reforma italiana. Entre eles destacam-se Aonio Paleario (1503–1570), Benedetto Fontanini (1490–1556), Celio Secondo Curione (1503–1569), Francesco Turrettini (1623–1687), Giovanni Diodati (1576–1649), Giovanni Valentino Gentile (1520–1566), Girolamo Zanchi (1516–1590), Giulia Gonzaga (1513–1566), Marcantonio Flaminio (1498–1550), Paolo Sarpi (1552–1623) e Vittoria Colonna (1490–1547).

BIBLIOGRAFIA

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Anne Askew

Anne Askew, também Anne Ayscough ou Ascue, ou pelo nome de casada, Anne Kyme (1521 -1546) foi uma poetisa e mártir inglesa.

Anne foi obrigada a se casar com Thomas Kyme em lugar de sua irmã após a morte dessa. Askew pediu o divórcio depois que Kyme a expulsou de sua casa por suas crenças, tornando-se a primeira mulher a pedir divórcio na Inglaterra.

Anne circulava entre grupos reformadores, para os quais a reforma de Henrique VIII não tinha concretizado toda as demandas. Anne Askew rejeitava a transubstanciação. Ela foi interrogada pela primeira vez pelo bispo Bonner. Durante sua segunda prisão, o bispo Gardiner e o chanceler Wriothesley conduziram o interrogatório e a tortura. A tortura incomumente cruel que Askew suportou causou até repulsa em sir Anthony Knivett, o responsável pela Torre de Londres, que recusou a continuar com a tortura.

Em 1546, aos 25 anos, Anne Askew foi queimada na fogueira como herege. John Bale e John Foxe publicaram relatos de seu interrogatório, prisão e tortura.

Como autora, Askew escreveu sobre seus interrogatórios. Askew também é lembrada por ser uma das primeiras poetisas a compor em inglês.

Argula von Grumbach

Argula von Grumbach (1490-1564) foi uma nobre alemã, autora e reformadora da Bavária.

Recebeu a típica educação das mulheres nobres da época, a qual não incluia latim — a língua da erudição — mas era leitora ávida da Bíblia em alemão.

Por volta de 1520 começou a ler e a corresponder com os reformadores, especialmente Lutero.

Em 1523, um jovem professor da Universidade de Ingolstadt, Arsacius Seehofer, foi perseguido por adotar as ideias luteranas. Argula escreveu cartas e poemas, recheados de citações bíblicas. O debate a fez conhecida na Alemanha e propagou a reforma na Bavária, onde os escritos de Lutero eram banidos.

Casada (e viúva) duas vezes. Depois dos incidentes de 1523 retirou-se para os cuidados de sua propriedade e família, mas mesmo antes de sua morte teve uma agitação a respeito de seus escritos.

Giulia Gonzaga

Giulia Gonzaga (1513 –1566) foi uma nobre, condessa regente de Rodigo, teóloga e reformadora italiana.

Giulia nasceu em Gazzuolo na província de Mântua em 1513, a sétimo dos filhos de Ludovico Gonzaga, conde de Sabbioneta, e de Francesca Fieschi.

Com apenas 13 anos casou-se com Vespasiano Colonna, conde de Fondi e duque de Traetto, então com 47 anos. Enviuvou-se depois de três anos.

Uma vez viúva, recusou qualquer proposta de casamento. Dedicou-se com grande empenho ao desenvolvimento do seu palácio num centro de alta cultura. Sua casa era frequentada por personagens do Renascimento, como Ludovico Ariosto (1474-1533), Annibale Caro (1507-1566), Francesco Berni (1497-1535), Pier Paolo Vergerio e outros. Poetas, músicos e artistas plásticos frequentavam seu domínio.

Sua beleza extraordinária rendeu-lhe assédios e uma tentativa de sequestro pelo pirata Barbarossa. Depois disso, Giulia Gonzaga ingressou em um convento em Nápoles em 1535 (aos 22 anos). Contudo, nunca faria votos como freira. De lá, continuou a administrar seus domínios e castelo.

Sua enteada de mesma idade, Isabella, contestou a herança deixada por Vespasiano. O caso foi julgado por Carlos V, favorecendo Isabella, que passou a controlar o feudo de Fondi.

No convento, Giulia conheceu o reformador Juan de Valdés em 1536. Passaram a discutir questões legais e religiosas e a corresponder. Apos a morte do Reformador, Giulia, então com 28 anos, tomou a liderança da rede de contatos e dos escritos de Valdés.

A partir do círculo de seguidores de Valdés em Nápoles teve contato com os reformadores italianos Bernardino Ochino, Marcantonio Flaminio, cardeal Reginald Pole, Pietro Carnesecchi, Bartolomeo Spadafora, Apollonio Merenda, Mario Galeota, bispo Vittore Soranzo, cardeal Giovanni Morone, Isabella Bresegna (ou Brisegna) esposa de Don Garcia Manrique, entre outros.

Articulou uma Reforma interna na Itália. Como líder, correspondeu com as alas reformistas e contrarreformistas, procurando persuadir as autoridades católicas a aceitarem a Reforma. Protegeu os envolvidos nas perseguições do Inquisidor Gian Pietro Carafa, mais tarde Papa Paulo IV (1555-1559). Depois ela própria seria investigada pela Inquisição.

Giulia Gonzaga morreu aos 53 anos, em 16 de abril de 1566, no convento napolitano onde viveu.

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