Teologia sistemática: prolegômena

Prolegômena são as partes introdutórias da teologia como disciplina. Discorre seus fundamentos teóricos e metodológicos, bem como diferencia conceitos, fases e sistemas teológicos.

CONCEITOS BÁSICOS

Teologia (grego, theos = Deus; logia = discurso racional): o entendimento
humano sobre as coisas divinas já reveladas.
Teologia é tanto um fenômeno quanto uma disciplina acadêmica. Como um fenômeno, é um conjunto de crenças ou doutrina, toda pessoa possui uma
teologia, mesmo que não esteja consciente dela. Como uma disciplina acadêmica, é um estudo sistemático, com métodos definidos, desse entendimento humano.
Doutrina: instrução sobre algo específico. Distingue-se das práticas (usos e
costumes) humanas condicionadas às circunstâncias culturais, históricas e
denominacionais; as quais devem sempre serem fundadas em uma sã
doutrina para darem frutos em palavras e em obras (1 Jo 3:18).
Sã doutrina ou Ortodoxia: ensinamentos sobre Deus e sobre a conduta
como seus filhos que estejam em harmonia com a doutrina dos apóstolos
(At 2:42), a saber, a mensagem, ensino, vida, obra redentora de Jesus
Cristo. Os apóstolos foram testemunhas do cumprimento das profecias do
Antigo Testamento em Jesus Cristo e da efusão do Espírito Santo,
resultando no veraz e fidedigno registro do Novo Testamento.
Heresia: seu sentido original restringia-se à opinião, mas ganhou
conotações de doutrinas infundadas ou contrárias à base apostólica
encontrada nas Escrituras.
Adiáfora: doutrina que, dada às várias limitações, seja indiferente em
compromenter a fé e conduta cristãs.
Teologúmena: doutrina acessória sem base explícita nas Escrituras, mas útil para expressar coerentemente verdades reveladas.

ARQUITETURA DA TEOLOGIA

  1. Teologia Bíblica: inferência das doutrinas de um autor ou livro
    específicos da Bíblia, sem considerar sistemas dogmáticos ou
    confessionais.
  2. Teologia Filosófica, Sistemática ou Dogmática: a compreensão da
    totalidade do entendimento das coisas divinas, seus fundamentos
    e interrelação doutrinária.
  3. Teológica Histórica: desenvolvimento doutrinário.
  4. Teologia Prática ou Aplicada: ética e moral cristãs, liturgia,
    homilética, diaconia, missiologia, teologia política e pública.

SISTEMAS TEOLÓGICOS
Sistemas teológicos são formas de organizar proposições teológicas dentro de cada tradição teológica. Diferentes comunidades interpretativas, situações, ênfases, questionamentos específicos a cada comunidade, métodos de raciocínio levam à formação de sistemas de elaborar a teologia.

Cada sistema com seu próprio foco, terminologia, metodologia, modos de
produzir seu pensamento, configurações de doutrinas e ênfase em diferentes partes bíblicas.

Os principais sistemas teológicos são:

  • Teologia mística e via apofática
  • Teologia ortodoxa não calcedoniana
  • Teologia ortodoxa oriental
  • Teologias católicas (tomismo, neotomismo, nouvelle theologie)
  • Teologia liberal
  • Teologia do processo
  • Teologia evangelical (teologias wesleyana-holiness, avivalismo, keswickianismo, movimento de Lausanne, missão integral).
  • Teologias pentecostais e carismáticas
  • Teologias anglicanas
  • Teologia Reformada (calvinismo, arminianismo, edwardsianismo, neo-ortodoxia, novo calvinismo)
  • Teologia Luterana (escolástica luterana, pietismo, ne0-luteranismo, luteranismo confessional)
  • Teologias da libertação (latinoamericana, Latix, negra, womanista, mujerísta, dalit, minjung)
  • Teologias contextuais

TÓPICOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS

  • Ontologia da teologia
  • Epistemologia da teologia
  • Métodos teológicos
  • Problema da linguagem teológica

Anselmo

Anselmo da Cantuária (1033-1109) foi filósofo, teólogo e arcebispo medieval.

Anselmo nasceu perto de Aosta, na fronteira da Borgonha com a Lombardia. Aos 23 anos iniciou uma viagem de três anos aparentemente sem rumo até se estabelecer na Normandia em 1059. Entrou para abadia beneditina de Bec, sob direção de Lanfranc, um brilhante professor de dialética.

Mais tarde, Anselmo foi eleito abade de Bec e a transformou em um centro intelectual. Escreveu suas obras Monologion (1075–1076), Proslogion (1077–1078) e seus quatro diálogos filosóficos: De grammatico (c. 1059–1060), De veritate, De libertate arbitrii e De casu diaboli (1080–1086).

Em 1093, Anselmo foi nomeado arcebispo da Cantuária, a sé principal da Inglaterra. Quando Anselmo viajou a Roma em 1097 sem sua permissão, o rei William não permitiu seu retorno à Inglaterra. Depois da morte do rei em 1100, seu sucessor, Henrique I, autorizou o retorno de Anselmo. Mas seria novamente exilado de 1103 a 1107.

Suas obras como arcebispo da Cantuária incluem a Epistola de Incarnatione Verbi (1094), Cur Deus Homo (1095–1098), De conceptu virginali (1099), De processione Spiritus Sancti (1102), a Epistola de sacrifício azymi et fermentati (1106– 1107), De sacramentis ecclesiae (1106–17) e De concordia (1107–8). Anselmo morreu em 21 de abril de 1109.

O pensamento de Anselmo provocou uma grande mudança teológica no ocidente. Na busca da comprensão de Deus como um ser, rompeu com a tradição apofática ao propor examinar a essência divina como um ser.

Seu método é primordialmente lógico-dedutivo. A lógica de Anselmo segue a recepção latina de Aristóteles mediada por Porfírio e Boécio. Subscrevia ao realismo na questão dos universais, argumentando que os gêneros e as espécies não desapareceriam se afastados todas as suas instâncias.

Promoveu assim, o argumento ontológico para a razoabilidade da existência de Deus. Com base nos atributos divinos inferidos a priori e dedutivamente, revisitou a teoria do resgate da expiação. Propôs a doutrina da satisfação para o ato expiatório, pois considerava ímpia a noção de resgate como uma transação comercial paga a Satanás. Assim,argumentava que era necessário que Deus se tornasse humano para satisfazer a justiça divina, maculada pelo pecado original.

A soteriologia forense e a noção de justiça de Anselmo foram concebidas em uma matriz cultural do direito franco-germânico medieval. Por esse motivo, Hasting Rashdall (1919) vê a soteriologia de Anselmo como a atuação de um advogado lombardo em uma corte feudal.

O argumento ontológico de Anselmo foi criticado pelo monge Gaunilo (século XI) com o exercício de pensamento da ilha perfeita. Se alguém imagina uma ilha perfeita, há de existir uma mais perfeita ilha, porém não correponde necessariamente a ilha existente e a imaginada. Nessa linha, Lutero, os reformadores radicais e, mais recentemente, Barth e a teologia não realista rejeitaram muito da teologia dos atributos, especialmente atributos a priori ou não revelados em Jesus Cristo, como categorias lógicas arbitrárias.

O legado de Anselmo é notável na teoria da expiação vicária ou substituição penal desenvolvida por Lutero e Calvino.

BIBLIOGRAFIA

Anselmo. Proslogion.

Anselmo. Cur Deus homo

McGrath, Alister E. Iustitia Dei: a history of the Christian doctrine of justification. Cambridge University Press, 2005.

Rashdall, Hasting. The Idea of Atonement in Christian Theology. Londres: Macmillan, 1919.

Williams, Thomas, “Saint Anselm”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2020 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <https://plato.stanford.edu/archives/win2020/entries/anselm/&gt;.

Primitivismo

“O cristianismo histórico primitivo deve ser sempre essencialmente normativo, e se tipos posteriores de religião divergem tanto do tipo primitivo que passam a considerar o que é encontrado no Novo Testamento mais uma vergonha do que uma inspiração a questão é se eles ainda podem ser reconhecidos como cristão.” — James Denney. The Christian Doctrine of Reconciliation, pp. 26-27.

O primitivismo é uma doutrina, atitude e ideal encontrado entre alguns grupos cristãos que veem na Igreja do Novo Testamento um parâmetro para ser seguido. Assim, doutrinas, regras de convívio, práticas de culto, organização de seus crentes, rejeição de “novidades” formam um conjunto de traços valorizados pelas comunidades primitivistas como replicando a primitiva igreja dos apóstolos.

O historiador Grant Wacker nota no primitivismo um anseio por pureza em doutrina, nas origens e no cumprimento de um mandado divino — tudo intocado pelas limitações e corrupções da existência ordinária.

Frequentemente o primitivismo demanda uma teologia da história para explicar sua própria existência. Nessa teologia há três tipos de narrativas. A primeira é a da fundação independente quando alguém ou um grupo honesto e cândido redescobre a eclesiologia dos cristãos primitivos, sem intermediários denominacionais ou de eruditos, por uma possível leitura pura da Bíblia. A segunda narrativa é a da sucessão marginal, pelo qual o grupo reivindica uma “história alternativa” de sucessão de grupos (montanistas, donatistas, paulicianos, valdenses e anabatistas são alguns favoritos), cuja ligação entre si e suas histórias são mal atestadas por serem grupos subalternos e perseguidos. Por fim, há a teologia restauracionista, no qual considera que em alguma fase histórica o cristianismo desviou-se totalmente e extinguindo-se, carecendo uma renovada dispensação ou revelação que restaurassem doutrinas, práticas ou eclesiologia do cristianismo autênticas do Novo Testamento.

Ordens medicantes medievais, o movimento joaquimita, os anabatistas (e a Reforma em geral por sua busca ad fontes de voltar aos princípios do cristianismo), os pietistas radicais (morávios, dunkers, metodistas primitivos), os batistas primitivos, o movimento de restauração (Igrejas de Cristo e Discípulos de Cristo), o movimento dos Irmãos (de Plymouth ou Casa de Oração), muitos grupos pentecostais e cristianismo indígenas esposam alguma forma de primitivismo.

A exclusão social e sua atração por classes populares fazem com que adeptos do primitivismo vivam em tensão com instituições da sociedade dominantes. Assim, muitos grupos rejeitam algumas profissões e educação avançada que os ponha em contato próximo com o mundo secular. Casamentos tendem a ser endogâmicos. O isolamento denominacional leva a não compartilhar o púlpito com ministros não filiados. Nesse ambiente, muitos desenvolvem uma mentalidade exclusivista de ser o melhor e o único representante fiel do cristianismo do Novo Testamento com base em seletos pontos de identidade do grupo.

Muitas críticas há em relação ao primitivismo. A imaginação idealizada sobre os primeiros cristãos leva a desconsiderar os problemas da Igreja primitiva. Faccionalismo, heresias e controvérsias são registrados no Novo Testamento. Adicionalmente, grupos primitivistas fazem uma leitura arbitrária das Escrituras para selecionar quais traços serem critérios de validade e comunhão. A atualização e contextualização de práticas e doutrinas do século I para o tempo presente também é seletiva. Por fim, a doutrina de Cristo e dos apóstolos preemptoriamente rejeita a comunhão de salvação com Deus com base em associação com um grupo, atitude comum em vários grupos insulares em nome de um primitivismo.

Com suas doutrinas, história e práticas próprias, o primitivismo deve ser reconhecido como uma legítima expressão da cristandade. Sua atitude anti-estabelecimento possibilita o exercício ativo do ministério e missão por segmentos diversos da população. O desejo honesto de moldar-se conforme os parâmetros bíblicos de vida em Igreja é um alerta contra a adição e supressão de elementos do cristianismo para se conformar detrimentalmente às exigências políticas e culturais dominantes nas sociedades locais.

BIBLIOGRAFIA

Bowman, Matthew. “Primitivism in America.” Oxford Research Encyclopedia of Religion. 2016.

Cameron, Euan. “Primitivism, Patristics and Polemic in Protestant Visions of Early Christianity.” Em Van Liere, Katherine, Simon Ditchfield, and Howard Louthan, eds. Sacred history: uses of the Christian past in the Renaissance world. Oxford University Press on Demand, 2012.

Hammond, Geordan. “Versions of Primitive Christianity: John Wesley’s Relations with the Moravians in Georgia, 1735-1737.” Journal of Moravian History 6.1 (2009): 31-60.

Hughes, Richard Thomas, ed. The American quest for the primitive church. University of Illinois Press, 1988.

Confessionalismo Luterano

O Confessionalismo Luterano é uma vertente dentro do luteranismo que enfatiza a adesão às doutrinas descritas no Livro da Concórdia. Os luteranos confessionais buscam pregar, ensinar e praticar a fé de acordo com essas doutrinas, sendo a adesão a essas confissões critérios para comunhão eclesiológica.

Os luteranos confessionais surgiram no século XIX como uma resposta a movimentos como o pietismo e o racionalismo. Logo, assumiu uma postura que não seria conservador (por aceitar métodos acadêmicos de vanguarda em seu raciocínio) nem liberal (por entrincheirar-se em um ideal de ortodoxia atribuído ao período da Reforma), constrando-se com o cenário evangelical norteamericano.

Os principais componentes do Confessionalismo Luterano incluem a assinatura de credos como a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo e outros textos do Livro da Concórdia.

Em contextos contemporâneos, igrejas confessionais luteranas existem como denominações e como movimentos internos. Entre as denominações estão a Igreja Luterana-Sínodo de Missouri (LCMS), o Sínodo Evangélico Luterano de Wisconsin (WELS), Sínodo Evangélico Luterano (ELS) e a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Já movimentos internos confessinais existem em outras denominações luteranas, como a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, a Evangelical Lutheran Church in America, as igrejas territoriais alemães e escandinavas.

Geralmente o confessionalismo luterano apregoa que a adesão ao Livro de Concórdia deva ser “quia” (porque) expressa as verdades evangélicas oriundas do trilátero luterano: Escrituras, tradição e razão.

Fideo-simbolismo

O fideo-simbolismo foi um movimento teológico originário dentre evangélicos francófonos do século XIX que insistia na fé – na relação com Deus – e diminuía a importância da doutrina. No fideo-simbolismo conhecimento de Deus é algo além da capacidade das fórmulas e expressões humanas apreenderem.

Meio às querelas teológicas entre evangélicos “ortodoxos” e “liberais”, dois professores da Faculdade de Teologia Protestante de Paris: Eugène Ménégoz, da Igreja Luterana, e Auguste Sabatier, da Igreja Reformada elaboraram o fideo-simbolismo como uma terceira via.

Ménégoz argumentava o fideísmo, de que a salvação era uma questão de fé e não de credo. Desse modo, os credos resultavam da experiência e do pensamento circunscritos a um período histórico, permanecendo sempre abertos a críticas e revisões. Proposições doutrinárias não afetam a essência ou o cerne da fé cristã.

Auguste Sabatier propôs simbolismo crítico influenciado por Kant, conciliando fé, ciência, história, psicologia, um cristianismo ativo e liberdade de pensamento. Argumentava que o conhecimento teológico é de natureza simbólica, pois Deus permanece além de nossas idéias, nossas imagens e nossas proposiçõs. Por essa razão, a mente humana é receptiva a questões espirituais e inexprimíveis. Doutrina e dogmas são relativos à evolução da experiência religiosa básica nutrida pela Bíblia e fundamentada em Cristo.

Os crentes deveriam ser unidos pela fé, na relação do ser humano com Deus. Rejeitava a uma religião fundada em uma autoridade (quer a do clero, quer de dogmas — mesmo considerar o texto bíblico como fonte de autoriadde) em benefício de uma religião intelectualizada resultante na experiência espiritual.

Como movimento, ganhou adesão das classes média e alta protestantes francesas. Sendo um movimento mais intelectual, foi substituído por outras correntes de pensamento ao longo do século XX.