Vestigia Trinitatis

Vestigia Trinitatis ou Vestigia Trinitata é um conceito teológico sobre vestígios da sinais discerníveis da Trindade em toda a criação.

O conceito foi desenvolvido por Agostinho, apesar de origens em Tertuliano. Agostinho costumava usar a mente humana como exemplo. Ao contrário das ilustrações, estes sinais são considerados impressões da Trindade formadas durante o ato da criação. A Vestigia Trinitatis foi uma analogia importante para o desenvolvimento do trinitarianismo psicológico.

O conceito evoluiu ao longo da Idade Média, com Boaventura enfatizando a distinção entre os vestígios e a semelhança e imagem da Trindade. No entanto, a noção teológica enfrentou escrutínio, nomeadamente por parte de Karl Barth. Barth contestou a ideia de duas raízes de conhecimento da Trindade – uma da natureza e outra da revelação – argumentando que somente a revelação é a fonte primária. Barth afirmou que os verdadeiros traços da Trindade são encontrados na auto-revelação de Deus, desafiando a ideia de uma disposição trinitária imanente nas realidades criadas à parte da revelação. Barth enfatizou que a verdadeira compreensão da Trindade surge do ato de Deus de se manifestar de maneira humana, sustentando que a revelação é a única raiz da doutrina da Trindade.

As discussões teológicas em torno de Vestigia Trinitatis investigam a tensão entre a revelação e a ordem criada, destacando o significado da linguagem e os desafios colocados pelas tentativas de derivar a Trindade apenas da natureza. O conceito reflete debates teológicos mais amplos sobre a natureza da auto-revelação de Deus e o papel da revelação na compreensão dos mistérios da Trindade.

BIBLIOGRAFIA

Agostinho. De Trinitate. XV.46, 431.

Cunningham, David S. “Interpretation: Toward a Rehabilitation of the Vestigia Tradition,” in Knowing the Triune God: The Work of the Spirit in the Practices of the Church, ed. James J. Buckley and David S. Yeago. Grand Rapids: Eerdmans, 2001.

Hart, David B. “The Mirror of the Infinite: Gregory of Nyssa on the Vestigia Trinitatis,” Modern Theology 18 (2002): 541‐61

Leithart, Peter J. Traces of the trinity: Signs of God in creation and human experience. Brazos Press, 2015.

Enrique Dussel

Enrique Dussel (1934-2023) foi um filósofo argentino-mexicano em diálogo com a teologia da libertação.

Nascido em Mendoza, Argentina, Dussel refugiou-se no México em 1975, onde receberia cidadania mexicana. Dussel alcançou reconhecimento internacional por suas contribuições à Ética, à Filosofia Política e ao Pensamento Latino-Americano, particularmente como um dos fundadores da Filosofia da Libertação.

Graduou-se com um diploma de filosofia em 1957, estudos religiosos em 1965 e doutorado em filosofia e história em 1959 e 1967, respectivamente. Ocupou cargos acadêmicos no México, incluindo lecionar ética e filosofia política na UNAM e ser professor pesquisador na UAM Iztapalapa. Foi reitor interino da Universidade Autônoma da Cidade do México (UACM).

A filosofia de libertação de Dussel emergiu das periferias geopolíticas, culturais e económicas do Sul Global, com o objectivo de desafiar os sistemas fechados e o eurocentrismo, dando voz aos marginalizados.

Milagre

A Bíblia utiliza termos como “sinal” (אות, ‘wt), “maravilha” (מופת, mwpt) e “poder” (δύναμις, dynamis) para se referir a milagres. No Novo Testamento, “sinal” (σημεῖον, sēmeion) frequentemente indica um milagre com significado simbólico, enquanto “maravilha” (τέρας, teras) destaca o caráter extraordinário do evento. O termo moderno “milagre” deriva do latim miraculum, e sua formulação teológica se deve a Agostinho.

Um milagre pode ser definido como um evento que desafia as expectativas comuns de comportamento e é atribuído a um agente sobrenatural, demonstrando a intervenção divina nos assuntos humanos. A Bíblia registra diversos tipos de milagres, como eventos celestiais, curas instantâneas, controle da natureza e ações inesperadas de objetos e animais.

Deus é frequentemente retratado como o agente direto dos milagres no Antigo Testamento, embora muitas vezes utilize intermediários humanos, como Moisés e Elias. As respostas aos milagres variam de acordo com o contexto pessoal, sociopolítico e teológico de cada observador. Os milagres também afetam a reputação do agente, como a fama dos deuses hebreus que precede a chegada dos israelitas em 1 Samuel 4:8.

Os milagres ocupam um lugar central nos Evangelhos, em Atos e no Apocalipse. Jesus é o principal agente de milagres, realizando curas, multiplicação de alimentos e controle da natureza. Seus milagres servem para confirmar Sua identidade e missão, e para validar a mensagem do Evangelho. Os apóstolos também realizam milagres, confirmando sua autoridade e o poder do Espírito Santo.

O Novo Testamento reconhece a possibilidade de falsos milagres realizados por agentes malignos, como falsos profetas e o “homem da lei” em 2 Tessalonicenses 2:9. Em Apocalipse, os milagres são tanto visões celestiais quanto instrumentos das forças de Satanás.

Os milagres bíblicos desempenham diversas funções, sendo classificados como instrumentais (provisão de maná), comunicativos (escrita na parede em Daniel 5), punitivos (tumores nos filisteus em 1 Samuel 5), sociopolíticos (fogo do céu em 1 Reis 18) e teológicos. As funções teológicas incluem a validação de Deus, de Sua mensagem, a sinalização de Sua atividade e a realização de atos de salvação.

As sociedades do antigo Oriente Próximo e da Grécia Antiga viam os milagres como evidência da participação de seres divinos nos assuntos terrenos. Curas, oráculos, portentos celestiais, eventos naturais extraordinários e feitos de “pessoas santas” eram considerados milagres. A distinção entre “milagre” e “magia” dependia da perspectiva do observador, e a crescente suspeita em relação à magia levou muitos curadores e fazedores de maravilhas a serem rotulados como mágicos.

A definição e a compreensão dos milagres têm sido objeto de debate entre teólogos e cientistas. Agostinho argumentava que os milagres não violam a natureza, mas sim as expectativas humanas sobre a natureza. Tomás de Aquino elaborou uma teoria mais complexa, distinguindo entre causas primárias (Deus) e secundárias (naturais). No entanto, a identificação de um milagre permanece um desafio, especialmente diante do avanço do conhecimento científico.

Molinismo

O molinismo é um sistema teológico dentro do pensamento cristão que busca reconciliar a soberania divina e o livre arbítrio humano.

A vertente recebe o nome do teólogo jesuíta espanhol do século XVI, Luis de Molina. Originalmente, era uma posição filosófica compatibilista, conciliando aspectos de determinismo e livre-arbítrio. Foi recepcionado na teologia, sobretudo protestante, como uma alternativa soteriológica.

Os molinistas argumentam que Deus realiza Sua vontade por meio de Sua onisciência, respeitando a liberdade genuína das criaturas.

Os molinistas postulam três momentos lógicos no conhecimento de Deus: conhecimento natural (incluindo todas as possibilidades lógicas), conhecimento médio (conhecimento do que as criaturas livres escolheriam em várias circunstâncias) e conhecimento livre (conhecimento de eventos reais).

Princípios-chave

Em contraste com o calvinismo dordtiano e o arminianismo, o molinismo pode ser resumido usando o acróstico “ROSES”:

  1. Radical Depravation (Depravação Radical): A humanidade é profundamente afetada pela queda.
  2. Overcoming Grace (Graça superadora): A graça de Deus pode superar a depravação humana, mas os indivíduos podem responder livremente.
  3. Sovereign Election (Eleição Soberana): A eleição de Deus é baseada em Seu conhecimento médio, sabendo quem responderia com fé, ao invés de ser incondicional.
  4. Eternal Life (Vida Eterna): Os crentes regenerados não perderão a sua justificação.
  5. Singular Redemption (Redenção Singular): Embora a redenção de Cristo seja suficiente para todos, ela só é aplicável aos eleitos.

O Molinismo se distingue do calvinismo dordtiano ao afirmar que os indivíduos podem escolher aceitar ou rejeitar a salvação, ao contrário da doutrina da graça irresistível. Também difere do arminianismo ao enfatizar que Deus sabe como os indivíduos reagiriam em circunstâncias específicas.

Fundamentos Bíblicos

Os molinistas apoiam a sua posição com passagens bíblicas que acreditam demonstrar o conhecimento médio de Deus. Os textos principais incluem 1 Samuel 23:8–14, Provérbios 4:11 e Mateus 11:23, juntamente com outras passagens como Ezequiel 3:6–7 e Lucas 22:67–68.

Defensores proeminentes

Proponentes proeminentes do Molinismo incluem Luis de Molina, William Lane Craig, Alvin Plantinga, Thomas Flint e Kenneth Keathley.

É uma posição popular entre batistas sulistas americanos, onde uma variante recebe a designação de providencialismo.

Em suma, enquanto o calvinismo (dordtiano) enfatiza a soberania, o arminianismo a justiça, o amiraldismo a misericórdia, o molinismo enfatiza a onisciência de Deus.

Luis de Molina

Luis de Molina (1535–1600) foi um teólogo jesuíta espanhol nascido em Cuenca em 1535. Ingressou na Companhia de Jesus aos dezoito anos e prosseguiu estudos teológicos em Coimbra. Mais tarde, Molina tornou-se professor na Universidade de Évora, em Portugal, e acabou ocupando a cátedra de teologia moral em Madrid.

Molina é mais conhecido por sua obra “Liberi Arbitrii cum Gratiae Donis, Divina Praescientia, Providentia, Praedestinatione et Reprobatione Concordia” (1588). Nesta obra, tentou reconciliar as doutrinas agostinianas de predestinação e graça com o semipelagianismo efetivamente predominante na Igreja Católica. Molina afirmou que o livre arbítrio humano não tornava a graça de Deus desnecessária ou impossível.

De acordo com a sua “scientia media” (conhecimento médio), Deus prevê como os indivíduos usarão o seu livre arbítrio e responderão à Sua graça, permitindo-lhe estabelecer decretos predestinadores. Os ensinamentos de Molina geraram debates, principalmente com os dominicanos. O Papa Clemente VIII interveio em 1598, formando a “Congregatio de Auxiliis Gratiae” para resolver a disputa. No entanto, a congregação não conseguiu chegar a uma conclusão, e o Papa Paulo V suspendeu as suas reuniões em 1607. Posteriormente, o papa proibiu mais discussões sobre o tema. Mais tarde, o molinismo desempenhou um papel na controvérsia jansenista.