Tradição

O termo “tradição” deriva da palavra latina “trado”, que significa “entregar” ou “legar”. Também chamado de “depósito” da fé. O termo refere-se a ensinos, práticas, usos e costumes de uma dada comunidade. Em teologia, há grupos que consideram as tradições como dotadas de autoridade enquanto outras consideram sem autoridade ou adiáfora. O termo grego correspondente, paradosis, derivado do verbo paradido, implica atos de entrega, oferta ou transmissão, incluindo a prática de caridade. Em termos teológicos, refere-se a qualquer ensinamento ou prática transmitida de geração em geração ao longo da história da Igreja.

A tradição foi um processo ativo na composição, transmissão e canonização das Escrituras. (Provérbios 25:1).

No Judaísmo Rabínico, a Torá Oral, considerada a tradição transmitida por Moisés através das gerações, foi transmitida oralmente até ser documentada após a destruição do Segundo Templo em 70 dC. Esta tradição oral é preservada na Mishná e na Gemara, formando coletivamente o Talmud.

As primeiras comunidades cristãs enfatizavam o depósito ou tradição apostólica. Tais tradições baseavam-se tanto em ensinamentos orais como escritos. O ensino dos apóstolos foi recebido como um critério para a doutrina e a vida na igreja (Judas 1:3-4). Tal tradição apostólica era distinta das tradições não inspiradas de homens, tendendo a um formalismo ou legalismo condenado, por exemplo, em Colossenses 2:8 e Mateus 15:3. O depósito ou tradição apostólica transmitia um modelo de sãs doutrinas para a igreja (2 Timóteo 1:13-14) que deveria ser guardado (1 Timóteo 6:20-21). Serviria como um padrão para a vida cristã (2 Tessalonicenses 3:6; 3 Pedro 2:21) e para o ensino na igreja (2 Timóteo 2:2).Esta tradição apostólica foi encontrada em ambos instrução oral e escrita (2 Tessalonicenses 2:15).

A tradição apostólica também era resultante da oralidade da igreja primitiva. Por exemplo, o ensino transmitido oralmente por Paulo incluía revelações de Deus (Gl 1:12), informações através das tradições orais de “transmissão” (paradidomi) e “recebimento” (paralambano) e entendimentos de conversas com líderes da igreja primitiva (Atos 9:26). -30; Gl 1:18-24) e igrejas (cf. 1Co 11:23-25; 15:3-4).

As respostas teológicas aos desafios, como as defesas de Irineu, Tertuliano e Atanásio contra formas sectárias e heréticas de cristianismo, fundamentaram-se na continuidade histórica e da tradição. Irineu sumarizou essas tradições em suas regras de fé. Mesmo as tradições nas vertentes ortodoxas estavam sujeitas à crítica, como no cânon vicentino, um princípio de avaliação e aplicação da tradição.

Os cristãos ortodoxos orientais identificam uma tradição que abrange as Escrituras, a patrística e o consenso eclesiástico (sobor). A autoridade da tradição valida outras fontes teológicas, como as Escrituras, as quais foram transmitidas e aceitas pela tradição.

No catolicismo romano, a doutrina de uma “Tradição Viva” argumenta que teria sido transmitida através das Escrituras, da tradição sagrada e do Magistério.

O protestantismo, embora muitas vezes despreze a tradição, exibe atitudes diversas, com alguns abraçando a tradição de forma crítica. Os grupos primitivistas e radicais rejeitam a tradição, mas as tradições implícitas persistem nas interpretações das Escrituras, escolhas teológicas e práticas comunitárias. Já teologia protestante de orientação acadêmica se envolve criticamente com a tradição, como exemplificado pelo trilateral de Lutero, pelo quadrilátero wesleyano e pelo heptágono pentecostal. O caso do evangelicalismo americano ilustra diversas abordagens protestantes acerca da tradição.

Ágrafa de Jesus

A ágrafa é uma coleção de ditos e ensinamentos atribuídos a Jesus que não são encontrados nos evangelhos canônicos.

Essas ágrafas são encontrados em vários textos cristãos primitivos, incluindo outros livros do Novo Testamento, a literatura patrística, o Evangelho de Tomé e os Atos Apócrifos dos Apóstolos, as logias e as variante textuais dos evangelhos canônicos.

  • Atos 20:35: “recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber.”
  • Atos de Filipe 34: “Pois o Senhor me disse: Se não fizerdes o inferior no superior e o esquerdo no direito, não entrareis no meu reino.”
  • Primeiro Clemente , 13: “Pois assim Ele falou: ‘Sede misericordiosos, para que possais obter misericórdia; perdoai, para que vos seja perdoado; conforme julgardes, assim sereis julgados; conforme sois benignos, assim vos será mostrado o bem; com a medida com que medirdes, com a mesma será medido para vós.'”
  • Policarpo de Esmirna, Epístola aos Filipenses, 2, “mas lembrando-se do que o Senhor disse em Seu ensino: ‘Não julgueis, para que não sejais julgados; perdoai, e ser-vos-á perdoado; sede misericordiosos, para que podeis obter misericórdia; com a medida que medirdes, será medido para vós novamente;’ e mais uma vez: ‘Bem-aventurados os pobres e os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino de Deus.'”
  • Papias de Hierápolis, As Exposições da Palavra do Senhor, 4: “Como os anciãos que viram João, o discípulo do Senhor, lembraram-se de terem ouvido dele como o Senhor ensinou a respeito daqueles tempos, e disse: ‘Dias virão em que as videiras crescerão, tendo cada uma dez mil ramos, e em cada ramo dez mil galhos, e em cada galho verdadeiro dez mil brotos, e em cada um dos brotos dez mil cachos, e em cada um dos cachos dez mil uvas, e cada uva quando prensada dará cinco e vinte metros de vinho. E quando qualquer um dos santos agarrar um cacho, outro gritará: ‘Sou um cacho melhor, pegue-me; bendiga o Senhor através de mim’. Da mesma maneira, [Ele disse] que um grão de trigo produziria dez mil espigas e que cada espiga teria dez mil grãos e cada grão produziria dez libras de farinha clara, pura e fina; e que maçãs, sementes e grama produziriam em proporções semelhantes; e que todos os animais, alimentando-se apenas dos produtos da terra, se tornariam pacíficos e harmoniosos, e estariam em perfeita sujeição ao homem.'”
  • Justino Mártir, Diálogo com Trifão, 47: “Portanto também nosso Senhor Jesus Cristo disse: Em tudo o que eu te apreender, eu te julgarei.”
  • Clemente de Alexandria , Stromata , 1, 24, 158: “Pedi, ele diz pelas grandes coisas, e as pequenas vos serão acrescentadas.”
  • Clemente de Alexandria, Stromata , 1, 28, 177: “Com razão, portanto, a Escritura também em seu desejo de nos tornar tais dialéticos, nos exorta: Sejamos cambistas aprovados, desaprovando algumas coisas, mas retendo o que é bom.”
  • Clemente de Alexandria, Stromata , 5, 10, 64: “Pois não relutantemente, diz ele, o Senhor declarou em um certo evangelho: Meu mistério é para mim e para os filhos de minha casa.”
  • Orígenes, Homilia sobre Jeremias, 20, 3: “Mas o próprio Salvador diz: Quem está perto de mim está perto do fogo; quem está longe de mim, está longe do reino.”

Há também ágrafas oriundas de leituras variantes nos manuscritos dos evangelhos canônicos. As mais notórias são: Mateus 20:28 no Codex D; Marcos 9:49 no Codex D e outros; Marcos 16:14 no Codex W; Marcos 16:15–18 em manuscritos gregos posteriores; Lucas 6:4 no Codex D; Lucas 9:55b, 56a em Κ Γ Θ e outros manuscritos; Lucas 22:27–28 no Codex D; João 8:7, 10–11 no Codex D e manuscritos gregos posteriores.

BIBLIOGRAFIA

Resch, Alfred. Agrapha. Aussercanonische Schriftfragmente. Gesammelt und untersucht und in zweiter völlig neu bearbeiteter durch alttestamentliche Agrapha vermehrter Auflage hrsg. von Alfred Resch. Mit fünf Registern. (Texte und Untersuchungen zur Geschichte der altchristlichen Literatur 30.3-4, Neue Folge 15.3-4) Leipzig, 1906 [1a ed 1889].

O melhor para o Senhor: trajes para o culto

A tradição de vestir trajes distintos para o culto é comum a várias religiões, como também muitas religiões não prescreve vestimentas especiais para seus ajuntamentos ou rituais.

Embora não haja injunção no Novo Testamento para vestimentas distintas, tal como os trajes cúlticos do Templo, é provável que a tradição judaica, samaritana e caraíta de vestir um talit (manto) tenha sido logo abandonado quando da separação da igreja gentia do povo de Israel em geral.

Vale ressaltar que há indícios que desde suas origens judeus e cristãos da Arábia usavam trajes distintos para o culto. A sinagoga e a igreja de Dura-Europos, quase no limite do deserto da Arábia, registram os cultuantes vestindo trajes formais romanos, como as túnicas. Os trajes brancos constitui legado transmitido tanto para os ortodoxos etíopes atuais, quanto para muçulmanos que os vestem às sexta-feiras.

Na maior parte do mundo, porém, não havia vestimentas especiais para o culto exceto os paramentos para o clero. Entrentanto, no Renascimento europeu surgiram classes com meios para adquirir roupas para ocasiões especiais. Em restos mortais de leigos e clérigos durante a Peste Negra aparecem pessoas sepultadas com suas melhores roupas.

Na A Balada do cabreiro António, trecho de Dom Quixote (capítulo XI), há uma das primeiras menções de roupas reservadas para o domingo. As vestimentas domingueiras popularizam-se entre diversas classes sociais no século XVI.

Durante a Reforma, o uso de trajes litúrgicos foi questão controversa. No geral, anglicanos e luteranos continuaram a usarem vestimentas especiais. Os Reformados adotaram as togas talares (jurídicas) para seus pregadores. Os anabatistas e outros reformadores radicais abandonaram completamente vestimentas distintas, mas reservaram para o domingo seus trajes formais.

Durante a Revolução Industrial e o avanço colonial do século XIX, movimentos populares de avivamento evangélico prezaram por minimizar as diferenças entre os congregados. Assim, firmou-se o hábito de usar uniformes (como no Exército de Salvação e em muitas denominações africanas) ou ternos e vestidos formais nas denominações de Santidade e Pentecostais, bem como entre grupos afroamericanos. Além de fornecer dignidade, tais trajes também expressam ideais de modéstia.

Nos anos 1960 e 1970, movimentos de missões urbanas ou carismáticos, principalmente na Califórnia, popularizaram o uso de roupas cotidianas no culto. Tal tendência esparramou-se pelo mundo nas décadas seguintes.

BIBLIOGRAFIA

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Scott, Stephen. Why Do They Dress That Way?. Simon and Schuster, 2008.

Cânone vicentino

Cânon Vicentino é um triplo teste de catolicidade (universalidade de sã doutrina para o cristianismo) estabelecido pelo autor patrístico Vicente de Lérins (séc. V d.C.). É sumarizado pelo seguinte aforismo:

“Aquilo que é acreditado em toda parte, sempre e por todos”.

Somente as doutrinas e tradições que passarem pelo crivo desse triplo teste de ecumenicidade, antiguidade e consentimento, deveria ser aceito.