Carta de recomendação

Carta de recomendação é um gênero epistolar no qual se pede que o destinatário receba o portador ou outra pessoa indicada pelo autor.

O uso de cartas de recomendação era associada às práticas de patronagem e filoxenia (hospitalidade) durante a Antiguidade Tardia do Mediterrâneo. Em 3 João encontramos recomendações epistolar de Demétrio (v. 12) e outros irmãos viajantes (vv. 5-8). Outra menção aparece 2 Coríntios 3:1-3, quando Paulo menciona cartas de recomendação que seus oponentes poderiam portar, mas
que ele utilizava seu próprio testemunho como tal.

BIBLIOGRAFIA

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Slogans de 1 Coríntios

Na Primeira Epístola aos Coríntios, especificamente na passagem de 1 Co 6:12-20, os estudiosos postularam a presença de slogans aos quais Paulo pode estar respondendo. Esses slogans ou lemas são declarações curtas e concisas que capturam o ethos ou crenças de certos grupos ou indivíduos da comunidade coríntia.  

A interpretação destes slogans tem implicações para a compreensão dos argumentos de Paulo e para o envolvimento com os pontos de vista dos coríntios.

Os slogans debatidos nesta passagem incluem:

“Tenho o direito de fazer qualquer coisa” – Esta frase aparece duas vezes (versículo 12) e (versículo 12), sugerindo uma afirmação de liberdade pessoal e direito a certos comportamentos. Os estudiosos divergem sobre se este é um slogan genuíno usado pelos coríntios ou um conceito que Paulo está abordando.

“Alimento para o estômago e o estômago para comida, e Deus destruirá ambos” – Encontrado no versículo 13, este slogan é usado para justificar a cedência aos desejos físicos, implicando que os apetites corporais são inconsequentes, uma vez que Deus acabará por destruir tanto o corpo como o estômago. suas necessidades.

“Todos os outros pecados que uma pessoa comete são fora do corpo” – Este slogan potencial no versículo 18b poderia ser entendido como um argumento coríntio de que os pecados que envolvem o corpo não têm consequências duradouras, dada a eventual destruição do corpo.

As opiniões dos estudiosos sobre a presença e interpretação destes slogans variam. Alguns argumentam que estes slogans refletem a perspectiva coríntia, com a qual Paulo se envolve e critica. Outros afirmam que essas frases podem ser formulações do próprio Paulo ou mesmo ditos comuns que Paulo usa para desafiar as perspectivas dos coríntios.

A questão de como identificar estes slogans envolve vários critérios, incluindo brevidade, estruturas paralelas, vocabulário inconsistente com o estilo habitual de Paulo e congruência contextual. Alguns estudiosos sugerem que a presença de um argumento agudo de ponto-contraponto, vocabulário estrangeiro ou ideias teológicas exclusivas de Corinto podem apontar para slogans genuínos. Contudo, devido à falta de marcadores explícitos no texto de Paulo, a determinação de slogans requer uma análise cuidadosa e convergência de múltiplas linhas de evidência.

Correspondência corintiana

A correspondência corintiana ou correspondência coríntia é o conjunto de comunicações trocadas entre Paulo e cristãos de Corinto.

Paulo esteve em Corinto por cerca de 18 meses (Atos 18:11). Depois, seguiu para Éfeso (Atos 19:8, 10; 20:31). Lá, recebeu comunicações acerca de problemas na igreja de Corinto.

Cartas e comunicações possíveis

Pelas duas epístolas aos Coríntios que chegaram até o presente é possível inferir que Paulo escreveu de 4 a 7 cartas à igreja em Corinto. Convencionalmente, essas correspondências são listadas com as letras de A a G.

A — A carta perdida ou a Carta Prévia. Seria a primeira carta de Paulo mencionada em 1 Coríntios 5:9. Alguns biblistas consideram que haja fragmentos dela presentes em 2 Coríntios 6:14-7:1. A espúria 3 Coríntios seria uma tentativa de preencher essa lacuna.

B — A carta conhecida como 1 Coríntios. Escrita por Paulo e Sóstenes (1 Coríntios 1:1) a partir de Éfeso (16:8) em resposta aos problemas em Corinto. É resposta aos problemas reportados por duas comunicações. A primeira comunicação pelos enviados da casa de Cloé (1 Coríntios 1:11). Portanto, é natural que em 1 Coríntios 1:10-6:20 haja citação dessa mensagem. A segunda comunicação — portada por uma comissão de Estéfanas, Fortunato e Acaico — cobre 1 Coríntios 7:1—16:12. Essa delegação também teria trazido uma carta dos coríntios (1 Coríntios 7:1). Nessa seção, Paulo discorre sobre relacionamento marital (7:1–40), faccionalismo acerca do consumo de comida ofertada em templos (8:1—11:1), decoro no culto (11), exercício dos dons espirituais (12-14), ressurreição corporal (15) e uma coleta para os santos (16). Novamente, há indícios de passagens que seriam citações da comunicação vinda de Corinto.

Depois dessa carta, seria possível inferir os eventos:

  • Timóteo vai a Corinto (1 Co 4:17; 16:10-11).
  • A presença de missionários cristãos mas defensores da adesão à tradição judaica em Corinto causa conflito (2 Co 11:22-23).
  • Timóteo retorna a Éfeso, reporta a Paulo, o qual decide viajar para Corinto.
  • A estada de Paulo em Corinto foi dolorosa (2 Co 2:1-11; 7:12).
  • Depois de trocar algumas correspondências, Paulo passou alguns meses na Grécia, potencialmente visitando Corinto (Atos 20:2-3; 2 Co 12:14).

C — Escreve a “carta severa” ou “carta das lágrimas” (2 Co 2:4) da Macedônia (cf. 2 C 1.16) ou de Éfeso. Envia Tito como portador dessa carta, também chamada de Carta Dolorosa. Há uma possibilidade de que tenha sido preservada em 2 Co 1:23-2:4; 7:5-11.

D — Hipotética carta que pode ser a atual 2 Coríntios ou parte dela.

E — Hipotética carta de reconciliação. Escrita com Tito. Seu conteúdo seriam ou (a) totalmente preservada em 1:1-2:13; 7:5-16; 13:11-13; ou (b) parcialmente preservada em nos capítulos 10 a 13.

F— Hipotética Carta da Coleta. Escrita com Tito ou por ele portada. Seria 2 Co 8. Talvez fizesse parte de E.

G — Hipotética carta que reuniu E e F.

Teorias das correspondências corintianas

  • Teoria das três cartas C foi perdida, D seria 2 Coríntios.
  • Teoria das quatro cartasA e C foram perdidas. B é 1 Coríntios enquanto D seria 2 Coríntios.
  • Teoria das cinco cartas C foi perdida. 2 Co seriam duas carta: D compreende os capítulos 1-9; E foi parcialmente preservada em 10-13. D e E foram escritas da Macedônia
  • Teoria das quatro cartas parcialmente preservadas C compreende 2 Co 10-13 e foi escrita em Éfeso. D consiste de 2 Co 1-9 e foi escrita da Macedônia.
  • Teoria das sete cartas C não seria a carta das lágrimas. Teria sido preservada em partes em 2:14-6:13; 7:2-4 e escrita antes da segunda visita a Corinto. D seria os capítulos 10-13 em um tom defensivo, após a visita dolorosa. Ambas teriam sido escritas de Éfeso. E teria sido escrita com Tito, sendo a carta de reconciliação, totalmente preservada em 1.1-2.13; 7.5-16; 13:11-13. F seria 2 Co 8 e G consiste de 2 Co 9, os quais seriam finalizações editoriais posteriores. Parte de 2 Co 8, sobre coleta, talvez faça parte de E.
  • Teoria das nove cartas Proposta por Walther Schmithals em 1956, sendo a teoria mais complexa e de menor aceitação. Carta A 1 Coríntios 11:2-24. Carta B consistindo em 1 Coríntios 6:1-11, 2 Coríntios 6:14 -7:1, 1 Coríntios 6:12-20, 9:24-10:22, 15:1-58, 12:31b-13:13, 16:1-12. Carta C consistindo em 1 Coríntios 5, 7:1-8:13, 9:19-22, 10:23-11:1, 12:1-31a, 14:1c-40, 12:31b-13:3, 16:1-12. Carta D consistindo em 1 Coríntios 1:1-4:21. Carta E (Carta Prévia) consistindo em 2 Coríntios 2:14–6:2. Carta F consistindo em 1 Coríntios 9:1-18, 2 Coríntios 6:3-13, 7:2-4. Carta G (Carta Dolorosa) composta por 2 Coríntios 10-13. Carta H (Carta de Coleta) consistindo em 2 Cor 9. Carta I (Carta de Reconciliação) composta por 2 Cor 1:1–2:13, 7:5–8:24.

Problemas interpretativos

Alguns problemas surgem pela falta de contexto sobre o qual ocorreu a correspondência corintiana. Um problema é que Paulo usa o diatribe, uma estratégica retórica com um diálogo imaginário entre si mesmo e seus interlocutores. Outro problema é o uso de slogans. Os slogans ou lemas são frases curtas e convincentes para sumarizar um ideal. Aparecem especialmente em 1 Co 6:12-20, sobre os quais seus papéis retóricos permanecem obscuros.

Em razão disso a correspondência corintiana é fragmentária e de difícil interpretação. Resta no campo hipotético separar em 1 Coríntios onde é “Paulo próprio”, Paulo citando a comunicação reportada de Corinto, Paulo usando um slogan em seu argumento, Paulo citando um slogan usado em Corinto e Paulo falando em diatribe.

Na história da canonização dos escritos paulinos, é possível que alguns dos envolvidos nessa correspondência tenha compilado uma coleção de escritos paulinos. Teria tido acesso a 1 Coríntios, ao material de 2 Coríntios (tanto se for uma só carta ou uma compilação de cartas cujos indicadores de divisões se perderam no processo de cópia), a Romanos (escrito durante a estada de Paulo em Corinto cf. Rm 16:1, 23; 1 Co 1:14), a 1 Tessalonicenses (muito provável também escrita em Corinto, cf. 1 Ts 3:1-2), a Gálatas (na teoria nortista dos gálatas, escrita durante esse período da correspondência corintiana a partir de Éfeso ou da Macedônia), a Filipenses e Filemón, se considerar um aprisionamento em Éfeso (cf. Ef 3:1-5; 4:1, Fp 1:13; Fm 1:10).

BIBLIOGRAFIA

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Caspar Schwenckfeld

Caspar ou Kaspar Schwenckfeld ou Schwenkfeldvon Ossig (1490 – 1561) foi um teólogo, escritor, médico, naturalista e pregador alemão que se tornou um reformador protestante na Silésia, além de líder da vertente espiritual da Reforma Radical.

Em 1518 ou 1519, ele passou por um profundo despertar, que descreveu como uma “visitação divina de Deus”. Essa experiência serviu como um catalisador para o desenvolvimento de seus princípios distintos, levando a uma desavença com Martinho Lutero sobre a contenciosa controvérsia eucarística em 1524. Origialmente um reformador magistral, seria influenciado pelos ensinamentos de Thomas Müntzer e Andreas Karlstadt. Colaborou com o humanista Valentin Crautwald (1465–1545), desenvolvendo perspectivas espiritualizadas sobre a sacramentos.

Seus ensinamentos abrangeram vários aspectos, incluindo oposição à guerra, sociedades secretas e juramento, bem como a crença de que os governos não tinham autoridade para ditar questões de consciência. Schwenckfeld enfatizou que a regeneração ocorreu por meio da graça de Deus e da obra transformadora interior do Espírito.

Os crentes encontraram nutrição espiritual em Cristo e enfatizou a importância de demonstrar evidências de regeneração. Além disso, rejeitou o batismo infantil, formas externas de adoração e o conceito de divisões denominacionais dentro da Igreja.

Lutero respondeu às opiniões de Schwenckfeld sobre a Eucaristia publicando vários sermões sobre o assunto em sua obra de 1526, “O Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo — Contra os Fanáticos”. Em 1540, Lutero forçou a expulsão de Schwenckfeld da Silésia.

Embora Schwenckfeld não tenha estabelecido uma denominação separada durante sua vida, seus escritos e sermões atraíram seguidores que gravitavam em torno de seus ensinamentos. Eventualmente, esses adeptos formaram um movimento distinta, que enfrentou perseguição legal e proibição na Alemanha. No entanto, as ideias de Schwenckfeld exerceram uma profunda influência em movimentos religiosos como o anabatismo, o pietismo na Europa continental e o puritanismo na Inglaterra.

Muitos dos seguidores de Schwenckfeld sofreram perseguição na Europa, forçando-os a se converter ou buscar refúgio em outro lugar. Fugindo do domínio austríaco, seus seguidores encontraram refúgio nos territórios do conde Nicolaus Ludwig Zinzendorf e seu Herrnhuter Brüdergemeinde. Mais tarde ficaram conhecidos como Schwenkfelders.

Em 1731, um grupo de Schwenkfelders chegou à Filadélfia, marcando a primeira das cinco migrações que ocorreram até 1737. Como resultado, a Sociedade dos Schwenkfelders foi estabelecida em 1782. A Igreja Schwenkfelder foi organizada em 1909, mas permanece relativamente pequena, compreendendo cinco congregações com aproximadamente 3.000 membros localizadas no sudeste da Pensilvânia, Estados Unidos.

Cultos de mistério

Os cultos de mistério eram organizações religiosas secretivas proeminentes no mundo antigo, dedicados principalamente a Eleusis, Attis, Isis e Mithras.

Esses cultos conduziam seus rituais e iniciações a portas fechadas, envolvendo suas práticas em segredo. Os iniciados passaram por experiências transformadoras, visando estabelecer uma ligação pessoal com a divindade e garantir a salvação. Os cultos de mistério ofereciam uma sensação de iluminação espiritual, prometendo uma compreensão mais profunda do divino e da vida após a morte. Além disso, cultos de cura, como os centrados em Asclépio, ganharam popularidade, oferecendo aos devotos a esperança de cura física e espiritual por meio de rituais e espaços sagrados.

BIBLIOGRAFIA

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Klauck, H.-J. The Religious Context of Early Christianity: A Guide to Graeco-Roman Religions. Studies of the New Testament and Its World. Trans. B. McNeil. London and New York: T&T Clark, 2000.