Neófito

O termo neófito (do grego νεόφυτος, neóphytos), literalmente “recentemente plantado” — de néos (“novo”) e phytós (“plantado”) —, designa aquele que é recém-iniciado ou convertido, especialmente no contexto religioso. No Novo Testamento, o vocábulo ocorre apenas uma vez, em 1 Timóteo 3:6, onde Paulo adverte que o bispo “não deve ser neóphytos, para que não se ensoberbeça e caia na condenação do diabo”. O termo é, assim, uma categoria de discernimento eclesiástico: o neóphytos é o recém-convertido, ainda vulnerável ao orgulho e à imaturidade espiritual, não devendo ser investido prematuramente em funções de autoridade.

O conceito remete, contudo, a uma realidade mais ampla no judaísmo do Segundo Templo, quando a distinção entre o iniciado e o prosélito (ger, גֵּר) marcava fronteiras de pertença religiosa. A admissão de novos membros implicava instrução, rito de purificação e, no caso dos homens, circuncisão. Comunidades como Qumran regulavam rigorosamente a entrada de novatos: o aspirante passava por um período de provação antes de ser plenamente admitido e autorizado a participar das refeições sagradas e da vida comum. O neóphytos do cristianismo primitivo encontra, portanto, paralelo nas práticas judaicas de iniciação, em que o processo formativo precedia a plena integração.

Com o avanço do cristianismo na Antiguidade Tardia, o termo neóphytos adquire um significado técnico e litúrgico. Passa a designar os recém-batizados — os “iluminados” (photisthéntes, φωτισθέντες) — que completavam o catecumenato, isto é, o período de preparação doutrinária e moral para a recepção dos sacramentos da iniciação: Batismo, Crisma e Eucaristia. Após a Vigília Pascal, os neóphytoi eram instruídos em um segundo estágio formativo, a mistagogia, voltada à compreensão dos mistérios sacramentais e à incorporação plena na vida da Igreja.

A imagem agrícola de “nova planta” carrega valor teológico. O neóphytos é aquele que foi “plantado” em Cristo, conforme a metáfora paulina do novo nascimento e da enxertia (symphytoi, συνφυτοί, Rm 6:5). Ele é simultaneamente criatura nova (kainē ktisis, καινὴ κτίσις) e membro ainda em crescimento, que necessita de cuidado pastoral e maturação espiritual. A advertência apostólica contra a precipitação na ordenação reflete uma compreensão orgânica da vida comunitária: o crescimento na fé deve preceder o exercício da supervisão.

Na teologia patrística, autores como João Crisóstomo e Gregório de Nissa retomam a metáfora botânica, associando o neóphytos ao broto que, embora vivo e fecundo, é frágil diante dos ventos da vaidade. Os manuais catequéticos e litúrgicos dos séculos IV e V preservam o termo como designação honorífica dos recém-batizados, cuja formação pós-batismal era considerada essencial à perseverança na fé.

Assim, o neóphytos é símbolo da tensão entre o já e o ainda não da existência cristã: já regenerado, mas ainda em crescimento; já participante da graça, mas ainda aprendiz da maturidade espiritual. A palavra conserva, desde o seu uso paulino, a advertência contra a impetuosidade e o orgulho, considerando que a vida espiritual, como a planta nova, requer tempo, raízes e cultivo paciente.

Tabuletas de Nuzi

As Tabuletas de Nuzi é uma coleção com mais de 6.000 tabuletas descobertas no local da antiga cidade de Nuzi, um centro administrativo hurrita que floresceu por cerca de 150 anos durante a Idade do Bronze Tardia.

Nuzi, escavada entre 1925 e 1933, localiza-se na moderna Yorghan Tepe, a 13 km a sudoeste de Kirkuk, no norte do Iraque.

Os arquivos de Nuzi incluem contratos, registros de venda, testamentos, vendas de escravos, listas de racionamento, memorandos, atas de julgamento e textos escolares.

Quando os primeiros textos de Nuzi foram publicados, houve uma empolgação de que eles continham informações sobre o período dos patriarcas. Ephraim Avigdor Speiser disseminou leituras das tabuletas de Nuzi que supostamente afirmaria costumes da Idade do Bronze referente a casamento, dentre eles contratos de adoção de esposa como irmã e de uso de um serva como mãe sub-rogada. Nos anos 1970 a revisão desses materiais revelou que Speiser interpretou-os erroneamente. Desse modo, constatou-se que muitos dos costumes eram comuns às outras épocas ou que os supostos paralelismos seriam interpretações equivocadas dada a incompetência técnica dos primeiros estudiosos a publicar as tabuletas. Contudo, Nuzi permanece um recurso histórico, linguístico e arqueológico importante para o período.

BIBLIOGRAFIA

Taggar-Cohen, Ada. “Law and Family in the Book of Numbers: The Levites and the Tidennutu documents from Nuzi.” Vetus Testamentum 48 (1998): 74–94.

Thompson, Thomas L. “The historicity of the patriarchal narratives.” The Historicity of the Patriarchal Narratives. de Gruyter, 2016.

Naram-Sin

Naram-Sin (c2254–2218 a.C.), rei de Acade. Autoproclamado deus de Acade e rei dos quatro cantos do mundo era neto de Sargão, o Grande (reinado de 2334 a 2279 aC). Vários artefatos arqueológicos e obras literárias registram sua belicosidade e atitude desafiadora ante os deuses, o que levaram a muitos verem paralelos com Ninrode (Gn 10:8-9) e com Jó.

A Estela da Vitória de Naram-Sin (c2254–2218), esculpida em um bloco de quase 2 m de calcário rosa, retrata o rei Naram-Sin liderando o exército acadiano na vitória sobre Lullubi, um povo das Montanhas Zagros.

A inscrição de Naram-Sin ou Estátua de Bassetki aparece no pedestal de uma estátua de cobre, representando uma figura masculina agachada de um monstro lahmu sem a parte superior do corpo. A estátua foi encontrada em 1975 perto de Bāṣetkī, atual Iraque. Depois que Naram-Sin repeliu uma grande revolta contra seu governo, os habitantes da cidade de Acade pediram aos deuses que fizessem de Naram-Sin o deus de sua cidade, e que construíssem um templo para ele no meio da cidade.

A Madição de Acade conta a história da destruição dessa cidade pelos deuses devido à impiedade de Naram-Sin. Discorre sobre problema do sofrimento sem sentido. O rei Naram-Sin tenta de arrancar dos deuses uma razão para sua miséria.

Este poema épico datado da Terceira Dinastia Ur (2047-1750) prertence ao gênero “literatura naru”, no qual a uma pessoa famosa (geralmente um rei) é o protagonista para representar a humanidade diante dos deuses.

Depois de os deuses boicotarem sem motivos suas bênçãos a Acade, Naram-Sin não consegue descubrir qual transgressão incorreu no desagrado divino. Depois de buscar em vão por sinais e presságios, fica em uma depressão por sete anos enquanto espera por uma resposta. Finalmente, cansado de esperar e enfurecido por não ter resposta, Naram-Sin marcha com seu exército contra o templo de Enlil em Ekur, na cidade de Nipur, o qual ele destrói. Em represália, Enlil envia os guti, um povo bárbaro, para pilhar Acade em punição.

PARALELOS BÍBLICOS

Dentre os paralelos temáticos com a literatura bíblica o corpus de Naram-Sin apresenta um rei que arrogantemente se considera divino, a discussão com seres divinos pela razão do sofrimento sem causa, um povo enviado para punição nacional.


BIBLIOGRAFIA

Abdul-Hadi Al-Fouadi, “Bassetki Statue with an Old Akkadian Inscription of Naram-Sin of Agade (B.C. 2291-2255). Sumer 32 (1976). Pl. ?. DS 67 S76 v. 32, 1976.

Black, J. The Literature of Ancient Sumer. Oxford University Press, 2006.

Nag Hammadi

A Biblioteca de Nag Hammadi é uma coleção de treze códices antigos com mais de cinquenta textos. Foi descoberta acidentalmente por camponeses no Alto Egito em 1945.

Esta descoberta inclui um grande número de “evangelhos gnósticos”. Esses textos traduzidos do grego para o copta, contém cópias ou versões variantes de outros textos da coleção, de modo que existem apenas quarenta e cinco obras distintas, trinta e seis das quais eram previamente desconhecidas.

Os títulos incluem Atos de Pedro e os Doze Apóstolos; Allogenes; Apocalipse de Adão; Apocalipse de James, primeiro; Apocalipse de James, segundo; Apocalipse de Paulo; Apocalipse de Pedro; Apócrifo de Tiago; Apócrifo de João; Asclépio 21–29; Authentikos Logos; Livro de Thomas, o Contender; Conceito de Nosso Grande Poder; Diálogo do Salvador; Discurso no Oitavo e Nono; Eugnostos, o Abençoado e Sofia de Jesus Cristo; Exegese da Alma; Evangelho de Filipe; Evangelho dos egípcios; Evangelho de Tomé; Evangelho da verdade; Hipóstase dos Arcontes; Hypsiphrone; Interpretação do Conhecimento; Epístola de Filipe; Melquizedeque; Sobre a origem do mundo; Paráfrase de Sem; República de Platão; Oração de Ação de Graças; Oração do Apóstolo Paulo; Segundo Tratado do Grande Sete; Frases de Sexto; Ensinamentos de Silvânio; Três Estelas de Sete; Trovão; Mente perfeita; Tratado sobre a Ressurreição; Protenoia Trimórfica; Tratado Tripartido; Exposição Valentiniana; Zostriano.

Nebo-Sarsequim

Nebo-Sarsequim (Jr 39:3) era um oficial da corte de Nabucodonosor II, rei da Babilônia que teria visitado Jerusalém durante a conquista babilônica.

A Tabuleta de Nebo-Sarsequim (595 a.C.), quirógrafo de controle contábil, parece referir-se a ele:

1,5 minasde ouro, propriedade de Nabu-sharrussu-ukin [Nebo-Sarsequim] , o eunuco-chefe, que ele enviou via Arad-Banitu o eunuco para [o templo de] Esangila: Arad-Banitu entregou para Esangila. Na presença de Bel-usat, filho de Alpaya, o guarda-costas real, [e de] Nadin, filho de Marduk-zer-ibni. Mês 11, dia 18, ano 10 [de] Nabucodonosor, rei da Babilônia.

Algumas traduções dividem os nomes de Jr 39:3 de forma diferente:


E entraram todos os príncipes do rei da Babilônia, e pararam na Porta do Meio, os quais eram Nergal-Sarezer, Sangar-Nebo, Sarsequim, Rabe-Saris, Nergal-Sarezer, Rabe-Mague, e todos os outros príncipes do rei da Babilônia.

João Ferreira de Almeida, Revista e Corrigida.

Atualmente, depois dos argumentos convincentes de Bright (1965), esse versículo é traduzido como:

Todos os oficiais do exército babilônio entraram e se sentaram junto ao portão do Meio: Nergal-Sarezer, de Sangar, Nebo-Sarsequim, um dos chefes dos oficiais, Nergal-Sarezer, conselheiro real, e todos os outros oficiais do rei da Babilônia.

Nova Versão Transformadora

BIBLIOGRAFIA

Bright, John. Jeremiah: Introduction, Translation, and Notes. The Anchor Bible, 1965.