Gezer

Localidade bíblica e sítio arqueológico (Tel Gezer) na fronteira do sopé da Judeia e Shefelá e estrategicamente perto do cruzamento da Via Maris (a via costeira) com a estrada que leva a Jerusalém, Gezer foi um importante centro cananeu na Idade Média do Bronze (c. 1500 a.C.). É mencionada na Estela de Menerptá, no templo de Karnak, nas cartas de Amarna e possivelmente nos relevos cuneiformes do palácio de Tiglate-Pileser em Nimrud.

A cidade aparece no contexo da conquista de Canaã sob Josué (Js 10:33; Js 21; Jz 1:29) e da luta de Davi com os filisteus (2 Sm 5:25). Salomão recebeu a cidade como dote da filha de Faraó e fortificou-a, junto com Jerusalém, Megido e Hazor (1 Reis 9:15-16).

Tel Gezer foi um dos primeiros sítios arqueológicos escavados na Palestina. Inicialmente escavado na década de 1900, 0s arqueólogos Gezer identificaram 26 estratos que vão do Calcolítico tardio ao período romano. O Calendário de Gezer está entre os mais antigos textos distintivamente em hebraico encontrado. O lugar alto (bamah), um conjunto de dez monolitos, é identificado como centro cerimonial. A interpretação inicial de que esse centro cerimonial realizava sacrifícios infantis (cf. Gn 22, Jr 32:35; 2 Cr 28: 1-4; Ez 20: 26-29) hoje é rejeitada, mas certamente era um centro de relevância política e cultual.

Coré, Coratitas

Coré, levita, cuja rebelião é mencionada em Nm 16-17. Os filhos de Coré, ou sua linhagem, aparece no censo dos israelitas nas planícies de Moabe (Nm 26:9-11, 58). Adicionalmente, a linhgagem dos coratidas aparence na passagem das filhas de Zelofeade (Nm 27:3).

Vários salmos são atribuídos aos coratitas: 42, 44-49, 84-85, 87-88. Aparecem como ministrando como cantores no tempo de Davi (1 Cr 26:19), com última menção no tempo de Josafá (2 Cr 20:19-19). Depois do exílio aparecem como porteiros e padeiros do templo (1 Cr 9:19, 31).

BIBLIOGRAFIA

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Toy, Crawford Howell. “The Date of the Korah-psalms.” Journal of the Society of Biblical Literature and Exegesis 4, no. 1/2 (1884): 80-92.

Numênio

Numênio foi um filósofo grego nativo de Apamea, na Síria, e possivelmente lecionou em Roma durante a última metade do século 2 d.C. Talvez seja o único filósofo grego que estudou explicitamente Moisés, os profetas e a vida de Jesus.

Familiarizado com as idéias gregas e egípcias, brâmanes e magos; Numênio tratou as Escrituras hebraicas e os ensinos cristãos com respeito. Ele se refere a Moisés simplesmente como “o profeta”, tal como Homero é “o poeta”. Descreve Platão como um Moisés grego.

Apesar do caráter eclético de Numênio, seus escritos o situam no médio-platonismo e no neo-pitagorismo. Seu impacto na filosofia foi considerável no platonismo posterior, mais notavelmente em Plotino (III d.C.) e Porfírio (III e IV d. C.). Sua obra só resta em fragmentos citados por outros filósofos e autores patrísticos.

A familiariedade de Numênio com as escrituras hebraicas e cristãs atesta a circulação e disponibilidade delas já nos meados do século II d.C. fora do âmbito cristão e judeu.

Papiros de Karanis

Karanis foi um assentamento greco-romano em Fayum, Egito. A missão arqueológica da Universidade de Michigan escavou no local de 1924 a 1935.

Uma das principais figuras ligadas a essa missão arqueológica foi David Askren (1875-1939). Askren foi um médico missionário presbiteriano que se instalou no norte do Egito em 1899. Por tratar de trabalhadores rurais egípcios, soube da prática dos camponeses escavarem ruínas em busca de fertilizantes. Askren acabou desenvolvendo relacionamentos com trabalhadores e negociantes egípcios locais e se tornou um canal para a venda de manuscritos. Obteve materiais que agora estão no Smithsonian, Universidade de Columbia, Princeton, Yale, na Universidade de Michigan, na Biblioteca Pierpont Morgan em Nova York e Luther College em Iowa. No início da década de 1930, o Dr. Askren trabalhou com uma equipe da Universidade de Michigan que estava escavando Karanis.

Entre os papiros descobertos em Karanis encontram-se vários fragmentos tando da Bíblia Hebraica quanto do Novo Testamento.

BIBLIOGRAFIA

Wilfong,  Terry G.; Ferrara, Andrew W. S. Karanis Revealed: Discovering the Past and Present of a Michigan Excavation in Egypt. Kelsey Museum publications, 7. Ann Arbor, MI: Kelsey Museum of Archaeology, 2014.

Epicurismo

Uma escola filosófica iniciada por Epicuro (341–270 aC). Ensinava que o objetivo da vida deveria ser maximização do prazer e da minimização da dor. Assim, seria possível atingir a ataraxia, “tranquilidade”.

Os epicuristas acreditavam que a tranquilidade era alcançada por meio do aprendizado e da prática daquilo que constitui uma vida virtuosa: ter amigos íntimos, evitar pessoas negativas e não ter medo dos deuses distantes, do julgamento ou da vida após a morte.

No período helenista o epicurismo teve suas inserção no judaísmo. Talvez fossem os saduceus a versão judaica do epicurismo.

No Novo Testamento, a única mençã9 explícita aos epicuristas acontece em At 17, quando Paulo debateu com alguns deles em Atenas.

Hendíade

Hendíade é uma figura de retórica que usa dois nomes ou substantivos coordenados em vez de um substantivo e seu atributo. Por extensão, é o uso de duas palavras para expressar um só conceito. Em português a expressão “barba e bigode” para expressar completude é um exemplo.

E servirá de sinal e de testemunho ao Senhor dos Exércitos na terra do Egito, porque ao Senhor clamarão por causa dos opressores, e ele lhes enviará um Redentor e Protetor que os livrará. Is 19:20

Igreja livre

Igrejas livres são grupos de cristãos que consideram a igreja como uma comunhão voluntária dos crentes, enfatizando o povo de Deus como comunidade ao invés de autoridades clericais, práticas sacramentais, denominacionais, estruturas ou símbolos teológicos.

O teólogo crota-americano Miroslav Volf identifica como igrejas livres, primeiramente, aquelas que tendem a um modelo de governo congregacionalista. E, em segundo lugar, aquelas igrejas que afirmam uma separação consistente entre igreja e estado.

Normalmente essas igrejas desconfiam até mesmo essa designação ou qualquer outra que tenda ao denominacionalismo, preferindo identidades adenominacionais.

Eclesiologicamente, há uma ênfase à autonomia da igreja local em matéria de gestão, doutrina e disciplina. Isso resulta em uma rejeição da existência de qualquer entidade terrestre além da igreja local do povo de Deus reunida para comunhão em Cristo pelo Espírito na adoração a Deus. No entanto, nem todas igrejas livres aderem ao congregacionalismo. Várias redes de igrejas que compartilham as mesmas tradições possuem arranjos organizacionais além da congregação local.

Os ministros são mais exortadores que exatamente um clero, valorizando o ministério laico. Seu papel é mais o cuidado da comunidade, tanto na orientação espiritual quanto na função de gestores-procuradores (trustees) dos bens comunitários.

Teologicamente, valorizam a Igreja como a concretização do evangelho. Assim, essas igrejas exercem-se uma autoridade coletiva na qual Deus em Jesus Cristo seria o único cabeça. Os membros desse corpo seriam pessoas regeneradas (nascidas de novo) e que exercem pelo Espírito como “um sacerdócio real” (1 Pedro 2:9) reunidas em uma local congregação “de dois ou três” (Mt 18:20).

Outras nuances teológicas são uma abertura doutrinária, rejeitando especulações além daquilo que afete a unidade da Igreja em culto ao vivente Deus. Isso leva a um biblicismo que, frequentemente, rejeitam tanto a cadeia de transmissão histórica doutrinária da cristandade estabelecida quanto a sistematização teológica.

As igrejas livres tendem a ser (mas não necessariamente) “sem credo”. Não utilizam credos nos cultos (liturgia seria um termpo impróprio para as igrejas livres) como também não utilizam confissões como uma interpretações privilegiadas das Escrituras ou critério de autoridade e de membresia. Apesar desse não credalismo, as igrejas livres tendem a ter uma rica teologia prática e congregacional, expressa principalmente no culto e na vida comunitária. Ocasionalmente, alguns grupos formulam declarações de fé que são mais testemunhos de crenças e práticas comuns que credos ou confissões.

Apesar de rejeitar envolvimento com a política secular, as igrejas livres são históricas defensoras da liberdade de culto, de consciência e de associação. Em países onde houve uma religião oficialmente estabelecida, membros das igrejas livres foram ativos como cidadãos privados em demandar a liberdade religiosa e a separação entre Estado e Religião. Foram instrumentais para garantir o registro civil de nascimento, o casamento civil e os cemitérios laicos. O lema orientador era “igreja livre em um estado livre”.

Várias tradições (e paradoxalmente, denominações) são herdeiras das igrejas livres, como as igrejas evangélicas livres continentais, congregacionais, batistas, pentecostais, menonitas e outros anabatistas, Irmãos, dentre outras.

Apesar de remontar do movimento anabatista no século XVI, foi no século XIX na Europa que as igrejas livres ganharam força em conexão com o avivamento continental.

BIBLIOGRAFIA

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Williams, D.H., ed. The Free Church and the Early Church: Bridging the Historical and Theological Divide. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2002.

Papiro Harris I

Papyrus Harris I ou Papyrus British Museum EA 9999 com uma lista de bens do templo e uma breve crônica de todo o reinado do faraó Ramsés III (1186–1155 a.C.) da 20a dinastia do Egito.

Para a papirologia é revelante por suas dimensões. É um rolo de 41 metros de comprimento, sendo um dos maiores papiros encontrados, com cerca de 1.500 linhas de texto, aproximadamente, o tamanho dos livros de Gênesis ou Jeremias.

Foi encontrado em uma tumba perto de Medinet Habu, próximo do rio Nilo de Luxor, Egito, e comprado pelo colecionador Anthony Charles Harris (1790-1869) em 1855.

Este papiro, junto da Estela Elefantina, fornece um paralelo bíblico sobre a saída de povos asiáticos do Egito. Um líder dos asiáticos (shashu), Irsu assumiu o poder após a morte da Rainha Twosret. Durante seu governo, desprezou os rituais egípcios. O novo Faraó Setnakhte expulsou-os e, enquanto fugiam, abandonaram grandes quantidades de ouro e prata que haviam roubado dos templos. Uma versão semelhante aparece na Aegyptiaca de Maneto, na qual o líder Osarseph deu um golpe em um faraó liderando um grupo de leprosos e em aliança com os hicsos, antes de ser expulso do Egito e mudar seu nome em Moisés.

Heveus

Os heveus, em hebraico: hivim, חוים, eram um grupo de descendentes de Canaã, filho de Cão, de acordo com a Tabela das Nações em Gn 10:17.

No livro de Josué e Juízes os heveus viviam na região montanhosa do Líbano, de Lebo Hamath (Jz3: 3) ao Monte Hermon (Js 11: 3). O Texto Masorético faz confusão entre “heveus” e “horitas” acerca de outros locais em diversas passagens de Josué e Samuel, possivelmente pela semelhança das letras hebraicas Vav e Resh, enquanto a Septuaginta registra “horita”.

O censo de Davi incluiu cidades dos heveus (2 Sm 24: 1–7) e durante o reinado de Salomão aparecem como parte do trabalho escravo para seus projetos de construção (1 Re 9:20–21, 2 Cr 8:7-8).

Mishná

Mishná, derivado de shanah “repetir”. Registro do que seria no judaísmo rabínico a tradição oral ou Torá oral. Foi compilado por volta de 200 d.C. por Judá haNasi.

O conteúdo é uma expansão e explicação meticulosa de preceitos normativos, orientados por um estado ideal onde seriam aplicáveis as leis de pureza.

Em sua forma abrange as três tradições rabínicas de midrash (comentário expansivo de passagens bíblicas), halacá (normas em tipo texual argumentativo-dissertativo) e hagadá (normas em tipo textual narrativo). Junto dos comentários da Gemará constitui o Talmude.

O hebraico mishnaico difere do hebraico bíblico, incorporando uma sintaxe similar à indoeuropeia. Como um registro de longas tradições orais, a historicidade de seu conteúdo deve ser considerado criticamente como outras fontes. Contextualmente, o Mishná insere-se nos debates e visão de mundo do platonismo médio e da segunda sofística.

Apesar de traçar a origem da tradição oral no Sinai, raramente a Mishná reividica origem na revelação no Sinai. Antes, registra debates que interpretam essa revelação.

Em algumas raras instâncias de uso canônicos entre cristãos, a lista de Ebed-Jesu, um erudito siríaco medieval, insere a “Tradição dos Anciãos”, talvez o Mishná ou parte dele (Pirkei Avot) como escrituras.

BIBLIOGRAFIA

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