Shakers

A United Society of Believers in Christ’s Second Appearing ou os Shakers foram um grupo primitivista e inspiracionista de vida comunal.

O movimento shaker originou-se na Inglaterra do século XVIII, fruto da convergência entre os profetas camisards franceses, o quietismo quacre e a Sociedade Wardley de Manchester. Em 1747, James e Jane Wardley formaram um grupo que unia a espera silenciosa quacre à agitação física e glossolalia, crendo na vinda espiritual de Cristo.

Ann Lee, operária analfabeta marcada pela perda de quatro filhos e prisões por blasfêmia, assumiu a liderança após visões que identificavam o sexo como a raiz do pecado. Proclamando-se a personificação feminina do espírito de Cristo, “Mother Ann” emigrou para Nova York em 1774 com oito seguidores, fundando em 1776 o assentamento de Watervliet. A suspeição política durante a Revolução Americana não impediu o crescimento do grupo, que atingiu seu auge entre 1837 e 1860, período conhecido como Era das Manifestações, caracterizado por visões, desenhos espirituais e danças coreografadas. Sob Joseph Meacham e Lucy Wright, a sociedade expandiu-se para 19 comunidades, alcançando 6.000 membros em 1840 antes de declinar devido ao celibato obrigatório, à industrialização e a leis de reforma agrária.

A teologia Shaker estabelece que Deus é dual, masculino e feminino, exigindo que a revelação de Cristo ocorresse em ambos os gêneros. Como milenaristas realizados, os membros acreditavam viver o Reino de Deus na Terra, buscando a perfeição mediante a confissão de pecados e a separação do mundo. A prática do celibato era o pilar central para atingir a pureza, liberando energia para o trabalho comunal.

A propriedade era coletiva, baseada no modelo da igreja primitiva. Socialmente, o grupo praticava o pacifismo absoluto e a igualdade racial e de gênero, com lideranças paralelas de anciãos e anciãs. Suas vilas dividiam-se em “Ordens de Família” de 50 a 100 pessoas, onde homens e mulheres viviam e trabalhavam em espaços segregados para manter a castidade.

O culto evoluiu de tremores espontâneos para marchas e danças rituais destinadas a “sacudir” o pecado, daí o nome shaker. O trabalho era considerado oração, o que impulsionou inovações como a vassoura chata, a serra circular e o pacote de sementes. A estética Shaker, fundamentada no princípio de que a beleza reside na utilidade, produziu arquitetura e mobiliário de linhas simples e racionais.

No contexto do Segundo Grande Despertar, os Shakers ocuparam a ala perfeccionista e separatista, diferenciando-se de grupos como os de Oneida e Rappites. Embora o celibato tenha limitado sua continuidade biológica — restando hoje apenas a comunidade de Sabbathday Lake como museu vivo —, sua influência no design funcionalista e nas pautas progressistas de direitos animais e ambientais continuam com a história dos shakers.

BIBLIOGRAFIA

Becksvoort, Christian. The Shaker Legacy: Perspectives on an Enduring Furniture Style. Newtown, CT: Taunton Press, 2000.

Evans, Frederick W. Shakers: Compendium of the Origin, History, Principles, Rules and Regulations, Government, and Doctrines of the United Society of Believers in Christ’s Second Appearing. With Biographies of Ann Lee, William Lee, Jas. Whittaker, J. Hocknell, J. Meacham, and Lucy Wright. New York: D. Appleton and Company, 1859.

Nicoletta, Julie. The Architecture of the Shakers. Woodstock, VT: Countryman Press, 1995.

Sabbathday Lake Shaker Village. Principles and Beliefs. Poland Spring, ME: United Society of Shakers, Sabbathday Lake, n.d.  https://www.shaker.lib.me.us/doctrine.html.

Stein, Stephen J. The Shaker Experience in America: A History of the United Society of Believers. New Haven: Yale University Press, 1992.

Adeipnonismo

O adeipnonismo é uma posição que não considera a celebração dos sacramentos ou ordenanças como vinculante ou normativa para o presente. Em sentido estrito, a posição adeipnonista é um entendimento sobre a não celebração da Santa Ceia.

Os exemplos mais conhecidos de aderentes ao adeipnonismo são os Quakers e Exército de Salvação.

Os entendimentos para não celebração variam desde interpretações dos sacramentos como metáforas, espiritualização, compromisso somente para o período apostólico, ausência de um clero qualificado para oficiá-los, dentre outros.

Os principais grupos não sacramentais são os seguintes:

  • Abecedarianos
  • Ambrosianos
  • Christ’s Sanctified Holy Church
  • Collegiant
  • Doukhbors
  • Erik-jansarna
  • Exército de Salvação
  • Gichtlianos 
  • Gospel Assemblies
  • Inspirationists
  • Iveland-sekten
  • Labadistas
  • Molokans
  • Nichollists
  • Mukyōkai
  • Ranters
  • Religious Society of Friends – Quakers
  • Rogerenes
  • Schwenkenfelders
  • Seekers
  • Shakers
  • Vários grupos chamados de “Antinominianos”
  • White Quakers of Dublin

Hans Denck

Johannes (Hans) Denck (ca. 1500-1527) foi um humanista e teólogo anabatista.

Denck era um jovem estudioso humanista oriundo de Habach, Bavária. Em 1517 matriculou-se na Universidade de Ingolstadt, da qual recebeu o grau de Bacharel em Artes. Mudou-se para Basileia, onde continou a estudar na universidade da cidade. Versado em latim, grego e hebraico, erudito, escreveu várias obras teológicas consolidando o pensamento anabatista. Aderiu ao anabatismo em 1525, mas morreu de peste em Basileia dois anos após sua conversão.

Denck participou da rede de anabatistas da Suíça e do sul da Alemanha, junto de Balthasar Hubmaier e Hans Hut. Integrou a reunião de 1527 em Augsburg que ficou conhecida como o “Sínodo dos Mártires”.

TEOLOGIA

Um tema central de sua reflexão é como Deus, que é imutável e eterno, se revela em seu mundo criado, que é transitório e temporal.

A fonte da revelação é Cristo, o qual é a Palavra de Deus. As Escrituras são testemunhas da manisfestação da Palavra de Deus. Entretanto, a salvação não está vinculada às Escrituras. O Espírito conduz os crentes à unidade, enquanto a Letra (leitura formalista ou legalista sem o Espírito) tende a criar desacordo e divisão. Desenvolveu um teologia do Logos na qual a Palavra de Deus opera em dois níveis, como uma Palavra interna e uma Palavra externa. A Palavra interior é a Verdade última, pois é Amor, como Deus é Amor e essa Palavra encarnou em Cristo Jesus. As Escrituras seriam a Palavra externa, suprema a qualquer tesouro humano.

Denck foi um dos pioneiros no restauracionismo. Argumentava que a corrupção da Igreja começou após a morte dos apóstolos. Nessa época teria tido um desvio, com o foco novamente nas coisas externas e na autoridade humana, em vez da liderança espiritual dos crentes e da Igreja de Cristo.

Em sua soteriologia, Denck transferiu o sacramentalismo (reencenação do sacrifício de Cristo nos sacramentos) para a transformação interior. O sacrifício histórico de Cristo na carne não seria suficiente para a salvação. Também seria necessário uma crucificação e ressurreição interior dentro do indivíduo através do poder ativo do Espírito de Cristo. Desse modo, o batismo exterior com água não é necessário porque o sacramento é principalmente um batismo espiritual interior pelo Espírito Santo. Portanto, as águas batismais não possuíam caráter regenerador. Igualmente, a Santa Ceia do Senhor externa não seria necessária, pois o sacramento é principalmente uma alimentação interior e espiritual do corpo espiritual de Cristo, que é o “pão da vida”.

Como os anabatistas atuais, Denck compartilhou o compromisso com a não violência, a tolerância religiosa e a liberdade de consciência. Rejeitava os juramentos e a doutrina da predestinação.

“Como o amor n’Ele era perfeito e como o amor não odeia ou inveja ninguém, mas inclui a todos, ainda que todos fôssemos seus inimigos, certamente Ele não desejaria excluir ninguém. E se Ele tivesse excluído alguém, então o amor teria sido vesgo e um discriminador de pessoas. E isso, [Deus] não é!”

Denck. Se Deus é a causa do mal

BIBLIOGRAFIA

Denck, Hans; Bauman, Clarence. The Spiritual Legacy of Hans Denck : Interpretation and Translation of Key Texts. Leiden: Brill, 1991.