Abdias da Babilônia

Abdias da Babilônia ou Pseudo-Abdias (século I), também conhecido como Obadias, é tradicionalmente reconhecido como o primeiro bispo de Babilônia, sendo identificado em algumas tradições como um dos Setenta Apóstolos mencionados no Evangelho de Lucas (10:1-20). Sua figura está ligada a uma obra intitulada Historia Certaminis Apostolici ou História Apostólica, um compêndio de relatos lendários sobre os apóstolos.

A Historia Certaminis Apostolici é composta por dez livros, cada um dedicado à vida e aos feitos de um apóstolo diferente, como Tiago, o Menor, Simão e Judas. O texto combina diversas fontes, incluindo os evangelhos canônicos, os atos apócrifos e tradições cristãs anteriores, apresentando uma narrativa que entrelaça eventos históricos com elementos lendários. A obra reflete a perspectiva da Igreja Católica e revisa materiais gnósticos anteriores para alinhá-los aos ensinamentos ortodoxos. Embora tradicionalmente atribuída a Abdias de Babilônia, a autoria real do texto é amplamente questionada. Pesquisas indicam que o texto foi provavelmente composto entre os séculos VI e X e originalmente escrito em latim, contrariando afirmações anteriores de que seria uma tradução do hebraico feita por Eutrópio, discípulo de Abdias, e posteriormente vertida para o latim por Júlio Africano. Essa discrepância levou estudiosos a atribuírem a obra a um autor desconhecido, frequentemente referido como “Pseudo-Abdias”.

A obra, também conhecida como Virtutes Apostolorum ou Atos dos Apóstolos, reúne relatos das viagens, milagres, perseguições e martírios dos apóstolos. Embora utilize materiais apócrifos gregos como base, apresenta características originais do latim, incluindo formas bíblicas não derivadas da Vulgata. A Historia Certaminis Apostolici constitui uma fonte para o estudo das lendas cristãs primitivas e das tradições em torno dos apóstolos, preservando narrativas que poderiam ter sido perdidas e fornecendo perspectivas sobre como os primeiros cristãos compreendiam seus líderes e suas missões.

O Abdias lendário também está ligado à Igreja do Oriente, em especial a figuras como Tomé e Adai, o primeiro patriarca do cristianismo sírio. De acordo com algumas tradições, Abdias teria sido ordenado pelos apóstolos Simão e Judas. Contudo, a atribuição de sua obra ao Abdias histórico parece ser uma construção posterior, adicionada como epílogo ao texto. Acredita-se que o autor real tenha vivido na França, no final do século VI, consolidando um corpus de tradições apóstolicas em um contexto tardio.

Bitia

Bitia, Bitiá ou Bítia, em hebraico בִּתְיָה, “filha de Deus”, não se sabe se é um nome próprio, ou uma designação honorífica dada mais tarde para salientar sua importância era maior que ser a filha do faraó

Foi a filha de Faraó que resgatou Moisés das águas do Nilo (Êxodo 2:1-10). Ela o adotou como seu filho e o criou como príncipe egípcio. Em tradições tardias, ela aparece casada com Merede, descendente de Judá (1 Crônicas 4:18), assim ligando a linhagem de Moisés à de Judá.

Lendas registradas no Talmud diz que estava em um banho de purificação contra idolatria no Nilo (comparável ao batismo e ao mikvé) (Sot. 12b). Quando suas servas se recusaram a desobedecer ao decreto real e salvar a criança israelita, seu braço alongou-se milagrosamente para que pudesse alcançar o cesto em que Moisés jazia; quando quando foi curada da lepra.

Outra lenda diz Bitia foi levada ao Paraíso durante sua vida (Midrash de Provérbios 31:15). Bitia é contada entre as 22 mulheres heroínas (Mid. Hag. to Gen. 23:1, s.v.Takom).

Mito

O termo mito, em grego mythos, refere-se ao modo narrativo de comunicação. Mito constrata com Logos, o modo racional-argumentativo de comunicação. Por vezes a palavra é utilizada para uma narrativa sobre deuses e, nesse sentido empregado por H. Gunkel, talvez apenas Gn 6:1-4 e Jó 1 se enquadrem como mito. Também mito indica a história que acompanha algum ritual. Pode
também designam um modo de pensar, a qualidade mitopoética do pensamento humano, bem como um modo narrativo. Nesse sentido, não quer dizer que seja menos verdade, antes é uma forma complexa de retratar a realidade — principalmente conceitos desconhecidos, distantes no tempo ou difícil de compreensão.

Também é importante diferenciar mito de mitologia e de lenda. Mitologia combina logos e mythos para explicar algo, sobretudo etiologias. Lendas são formas narrativas de personagens supostamente históricos, enquanto a mitologia envolve personagens sobrenaturais ou meramente imaginários.

Há outra conotação no Novo Testamento, utilizando o termo “mythos” para estórias falsas, especulativas, fabulosas e tolas a serem rejeitadas como enganosas e perigosas. (1Tm 1: 4; 4: 7; 2Tm 4: 4; Tito 1:14;2 Pe 1:16). Não há certeza se essas passagens compreendem tradições narrativas (agadá) ou especulações doutrinárias.

Poço de Miriam e a rocha movente

Durante o êxodo Moisés aparece extraíndo água da rocha em dois lugares: Refidim (Êx 17) e Meribá (Nm 20). A associação dessas passagens com Miriam fizeram que a fonte também fosse chamada de poço de Miriam.

Intérpretes na Antiguidade Tardia fizeram um midrash para concluir que as duas rochas eram a mesma. Portanto, seria uma rocha móvel que acompanhou os israelitas durante 40 anos.

“E assim o poço que estava com os israelitas no deserto era uma rocha, do tamanho de um grande vaso redondo, subindo e borbulhando para cima, como da boca de uma pequena garrafa, subindo com eles aos montes, e descendo com eles aos vales. Onde quer que os israelitas acampassem, acampava com eles, em um lugar alto, em frente à entrada da Tenda da Congregação.” (Tosefta, Sukka 3.114).

“Mas quanto ao seu próprio povo, ele os levou para o deserto: quarenta anos fez chover pão do céu para eles, e trouxe-lhes codornizes do mar, e um poço de água seguindo-os” Pseudo-Filo. Antiguidades Bíblicas, 10.7.

Paulo menciona essa interpretação midráshica para argumentar que a presença de Cristo estava na jornada dos israelitas no deserto, cuidando deles, fornecendo a água que permitia a vida:

“E [os israelitas] beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo.” 1 Cor 10:4

BIBLIOGRAFIA

Enns, Peter E. “The” Moveable Well” in 1 Cor 10: 4: An Extrabiblical Tradition in an Apostolic Text.” Bulletin for Biblical Research 6.1 (1996): 23-38.