Ottavio Tasca

Conde Ottavio Tasca (1795 – 1872) foi um reformador, exilado e polígrafo italiano que foi aclamado como poeta nacional em 1848.

Nascido em Bérgamo, Tasca inicialmente expressou apoio ao Papa Pio IX, mas mais tarde aliou-se a liberais como Carlo Cattaneo. Tasca passou oito anos exilado na França (1849-1856), durante os quais visitou Paris e Londres, estabelecendo ligações com personalidades proeminentes da época. Suas experiências no exterior, bem como leituras poliglotas em francês, alemão e inglês, influenciaram a evolução de suas ideias religiosas e políticas.

A vida de Tasca cruzou-se com várias figuras condenadas pelo Index, padres liberais e os chamados padres “Garibaldini” da Lombardia. Simpatizou e correspondeu com Garibaldi, levantando-lhe fundos em Bérgamo e Brescia. As associações e atividades de Tasca frequentemente o envolviam em polêmicas religiosas, especialmente pela sua aversão aos jesuítas.

Seus extensos escritos sobre temas religiosos podem ser divididos em duas categorias: poesia e prosa. Embora sua poesia, publicada de 1831 a 1862, inicialmente tivesse conteúdo apologético, mais tarde tornou-se satírica ou polêmica. Sua prosa, escrita entre 1861 e 1871, aprofundou-se mais diretamente nas questões eclesiásticas. Em 1866 publicou o livreto Inni Cristiani, a maioria era traduções de hinos ingleses.

Em sua pesquisa historiográfica, Tasca afirmou a independência da diocese de Milão da autoridade papal desde meados do século XVI. Também traduziu obras de teólogos alemães e ingleses críticos da Igreja Católica, refletindo a sua postura cada vez mais antipapal. As traduções e escritos de Tasca sugeriam uma simpatia crescente pelos reformadores religiosos e movimentos fora da Itália, como o Movimento de Oxford.

Notavelmente, os escritos posteriores de Tasca sugeriram a possibilidade de cisma religioso. Títulos como “Orações do Soldado” e “Ladaínhas de acordo com o uso da Igreja Católica Italiana Reformada” sugerem um afastamento da corrente principal do catolicismo. Estas obras omitiram referências ao Papa e enfatizaram lealdades nacionais e políticas, indicando uma potencial ruptura com a Igreja Católica e a emergência de um novo movimento religioso.

As ideias de Tasca coincidiram com a agitação religiosa e política mais ampla da época, caracterizada por debates sobre as igrejas nacionais e a relação entre Estado e religião. Embora o seu movimento religioso específico tenha permanecido obscuro e em grande parte confinado aos seus escritos, o trabalho de Tasca prenunciou desenvolvimentos posteriores na dissidência e reforma religiosa na Itália. Ainda que não tenha aderido a nenhuma denominação protestante, sua hinódia e escritos polêmicos influenciaram o evangelismo italiano.

BIBLIOGRAFIA

Cicchitti Suriani. “Uno scismatico lombardo: il conte Ottavio Tasca”. Bollettino della Società di studi Valdesi, LXXVIII (1960), 108, pp. 93-99.

Gallo, B. “Un cattolico riformatore risorgimentale fra Italia e Inghilterra: Ottavio Tasca dalla satira all’innografia”. Archivio storico bergamasco, III (1983), 1, pp. 139-156

Tasca, Ottavio. Tract Independence Of The Church Of Northern Italy. 1863.

https://www.treccani.it/enciclopedia/ottavio-giulio-maria-tasca_(Dizionario-Biografico)

Igreja Evangélica Livre Italiana

A Igreja Evangélica Livre Italiana (Chiesa Evangelica Libera Italiana), também chamada de Igreja Cristã Livre da Itália (Chiesa Cristiana Libera d’Italia), ou simplesmente Igreja Livre (Chiesa Libera), foi uma denominação evangélica parte do risveglio italiano no século XIX.

HISTÓRIA

Inicialmente foi formada em 1850 em Londres entre exilados italianos. Nos dois anos seguintes o crescimento dos evangélicos na Itália coincidiu com a expansão política do Reino de Piemonte e Sardenha junto de sua política de tolerância religiosa. Nesse ambiente, vários evangélicos italianos propuseram em Gênova em 1852 a ideia de unir todos os protestantes em uma única igreja evangélica na Itália.

Neste contexto no Risorgimento, esse movimento atraiu novos convertidos predominantemente de tendências anticlericais, liberais, democráticas e garibaldianas. Contudo, diferenças culturais (e linguística), políticas e eclesiológicas com os valdenses levaram a uma ruptura com eles em 1854. A tentativa de unir-se com as denominações históricas protestantes de origem estrangeira também não fruiu.

O movimento cresceu até antigir cerca de 60 comunidades em 1870, quando ocorreu a cisão com a ala “espiritual”, menos politizada e mais congregacionalista, que levou à formação das Igrejas Cristãs Livres dos Irmãos (Chiese cristiane libere dei fratelli). A partir de então, a Igreja Evangélica Livre passou a existir separadamente com 23 igrejas.

Entre seus principais líderes estavam o ex-padre católico barnabita Alessandro Gavazzi (1809-1889) e Bonaventura Mazzarella (1818-1882). Com a morte de seus principais líderes a denominação enfraqueceu. Então, em 1904, a igreja livre fundiu-se oficialmente com a Igreja Metodista Italiana. Vários de seus membros também foram absorvidos por batistas e outros grupos evangélicos.

DOUTRINA E PRÁTICA

A Igreja Evangélica Livre inspirava-se muito da teologia e organização das igrejas livres do réveil suíço. Como parte desse avivamento continental, valorizava a conversão pessoal por fé em Jesus Cristo, guia do Espírito Santo no culto e a rejeição de práticas tidas como não bíblicas das igrejas estabelecidas (especialmente do catolicismo romano). Possuía uma eclesiologia mista prebítero-congregacionalista, tendo como dirigentes anciãos e diáconos leigos.

Seus artigos de fé expressam muito do entendimento do risveglio italiano do século XIX, do qual há traços de continuidade no movimento pentecostal italiano e movimentos correlatos.

Seu caráter livre resulta dos princípios adotados:

  • Liberdade do sectarismo: rejeição de privilegiar-se uma forma ritual ou doutrinária em detrimento as outras. Antes, a liberdade de quem se identifica com o corpo de Cristo nas igrejas é formada por todos aqueles que n’Ele creem com pureza de coração.
  • Liberdade de autoritarismo: rejeição de uma organização unitária, porque temiam o formalismo e o autoritarismo quer personalista quer de um conselho ou comissão dirigente.
  • Liberdade de expressão: qualquer pessoa, de qualquer origem social, poderia propor um hino, levantar uma oração, ler e comentar uma passagem bíblica. A Santa Ceia foi compreendida como a festa da liberdade dos filhos de Deus. Ao ministério ordenado competia as funções de ensino, gestão e orientação.
  • Liberdade econômica: não haveria dependência financeira quer do Estado, quer denominações estrangeiras. Antes, a igrejas locais deveriam esperar da parte de Deus a resposta às suas necessidades, através da oração.

BIBLIOGRAFIA

Maselli, Domenico. Tra risveglio e millennio. Torino: Claudiana, 1974.

Spini, Giorgio. L’evangelo e il berretto frigio. Storia della Chiesa Cristiana Libera in Italia (1870-1904). Torino: Claudiana, 1971.

Spini, Giorgio. Risorgimento e protestanti. Milão: Il Saggiatore, 1989.

Matilde Calandrini

Matilde Calandrini (1794 – 1866) foi uma educadora, líder evangélica e ativista pelos direitos da educação das mulheres e pela educação pública e universal na Itália.

Calandrini nasceu em Genebra em uma afluente família originária de Lucca, Itália, que no século XVI fora forçada ao exílio por ter aderido à Reforma Protestante.

Depois de sua juventude na Suíça influenciada por Réveil, mudou-se para Pisa em 1831, por motivos de saúde. Na cidade, organizou reuniões sociais que se tornaram reuniões de culto, tanto para estrangeiros protestantes (principalmente ingleses) mas também para a elite católica e secular. Nessas reuniões faziam a leitura da Bíblia, estimulavam programas de popularização das Escrituras, orações espontâneas e debates sobre questões religiosas e morais.

Logo, Calandrini engajou-se com a educação. Na época, cerca de 78% da população era analfabeta. As poucas escolas era controlada pela Igreja Católica e acessível somente para os ricos. A educação dos pobres era vista como perda de tempo e um indesejável risco de fomentação de liberalismo. Mulheres e minorias religiosas eram excluídas da educação.

Um residente cedeu sua casa para Calandrini organizar um jardim de infância para meninas pobres. Os métodos de Pestalozzi já popularizados em Genebra foi frutífero. O sucesso foi grande que logo organizou outro para meninos. O Grão-Ducado de Toscana interessou-se pelo projeto e o responsável pela educação, Conde Guicciardini aproximou-se de Calandrini. Eventualmente, em 1836 Guicciardini converteu-se.

As oposições logo surgiram. Os reacionários queriam reservar a educação somente a uma elite intelectual e financeira. Em 1845 o bispo ordenou que Calandrini parasse com suas reuniões de professores. Suas cartas e contatos com o Grão-Duque garantiram por um tempo a continuidade educacional.

Depois de uma visita à sua família em Genebra em 1846, Matilde foi proibida pelo governo toscano de voltar à Itália. O trabalho iniciado por Calandrini continuou, sobretudo no movimento das escolas dominicais e na puericultura que mais tarde se destacaria Maria Montessori. No final de sua vida, Calandrini pôde retornar e ver a continuidade de sua missão tanto evangelística quanto educacional em favor dos desfavorecidos.

BIBLIOGRAFIA

Ronco, Daisy D. La Vita e le Opere di Matilde Calandrini, Bangor: University of Wales, 1995.

Piero Guicciardini

Conde Piero Guicciardini (1808 – 1886) político, filantropo, reformador e colecionador. Expoente do risveglio italiano, estava entre os fundadores das Igrejas livres mais tarde chamadas de Igreja dos Irmãos.

Nasceu em Florença. Petencia a uma das principais famílias da aristocracia toscana da qual o historiador e diplomata Francesco Guicciardini (1483-1540) foi um expoente.

Foi ativo na vida pública florentina. Envolveu-se nas causas da educação pública, reformas na agricultura, liberdades civis e inclusive religiosa. Convivendo entre expatriados evangélicos, entre eles experimentou uma conversão.

Por volta de 1836 recebeu uma Bíblia em italiano e frequentava as reuniões de oração com a evangélica suíça Matilde Calandrini, que havia fundado um asilo em Pisa. Ao redor dela, consolidou-se um grupo livre de culto, leitura bíblica e santa ceia, animado pelo risveglio.

Foi eleito vereador em Florença em 1850, mas no ano seguinte foi preso em razão de sua fé. O caso gerou grande controvérsia pública. Depois de seis meses de reclusão foi exilado, indo à Suíça, França e Inglaterra.

Nesse último país conheceu e congregava entre os evangélicos italianos organizados em uma igreja livre. Nesse grupo, pela adesão aos princípios eclesiológicos, incorporou-se ao movimento dos Irmãos de Plymouth. Nessa época revisou a Bíblia italiana na versão Diodati, a qual foi publicada pelas sociedades bíblicas.

Dada suas conexões políticas, conseguiu autorização dos liberais italianos engajados com o Rissorgimento para ter a liberdade de culto. Assim, passou a dar apoio aos evangelistas na Itália até que em 1859 pode retornar à Toscana. Entretanto, decepcionou-se com as promessas de liberdade do unificado Reino da Itália, passando a transitar entre lá e a Inglaterra, já que se tinha naturalizado britânico. Assumiu cargos eletivos novamente em Florença e passou a colecionar livros relevantes para o protestantismo italiano.

Grupos de evangélicos não afiliados viviam em tensão com os valdenses e outras denominações na Itália. Desse modo, progressivamente foram se afastando e formando congregações reunidas sob esses princípios:

  • Centralidade do sacrifício de Cristo;
  • Vivência radical do sacerdócio universal dos crentes, reservando aos ministros ordenados o papel de cooperadores (“operai”) em serviço da Igreja;
  • Realização da Santa Ceia possivelmente a cada reunião;
  • Rejeição de formalismo litúrgico;
  • Comunhão plena com qualquer pessoa nascida de novo.

Visto a adesão a esses princípios, Guicciardini compartilhava muito com o movimento dos Irmãos de Plymouth. No entanto, rejeitava a teologia dispensacionalista de John Nelson Darby bem como o crescente exclusivismo nesse movimento, entre os fratelli stretti.

Em 1865 foi reunida em Bolonha uma convenção das igrejas livres italianas. No entanto, já despontava um cisma. O ramo congregacionalista e enfocado em um evangelicalismo espiritual liderado por Guicciardini e T. P. Rossetti tornou-se a Chiese Cristiane dei Fratelli. Já o grupo mais politizado, com ênfase no anticatolicismo, liderado por Alessandro Gavazzi, Luigi Desanctis e Bonaventura Mazzarella formou a Chiesa Cristiana Libera – Chiesa Evangelica Italiana, existente entre 1870 e 1904, de organização presbiteriana.

BIBLIOGRAFIA

https://www.studivaldesi.org/dizionario/evan_det.php?evan_id=261

Maselli, D., ‘Piero Guiccardini. Il conte evangelico’, in D. Bognandi e M. Cignoni (eds.), Scelte di fede e di libertà. Profili di evangelici nell’Italia unita, Torino: Claudiana, 2011.

Ronco, D.D., ‘Per me vivere è Cristo’. La vita e l’opera del conte Piero Guicciardini nel centenario della sua morte, 1808-1886, Fondi: UCEB, 1986

Spini, G., Risorgimento e protestanti, Torino: Claudiana, 2008.

Avivamento Continental

O Avivamento Continental, Réveil genebrino, Risveglio italiano ou Erweckungsbewegung alemão são uma série de avivamentos entre evangélicos da Europa Continental durante o século XIX.

HISTÓRIA

O Avivamento Continental remonta de uma reação contra o racionalismo teológico dominante nos seminários e sistema paroquial protestante francófono e germânico no final do século XVIII e início do XIX.

Em Genebra, então uma república associada à Suíça, alguns jovens seminaristas protestantes reuniram-se entre 1802 e 1805 em um pequeno grupo de oração organizado pelo pai de um pastor morávio, Ami Bost.

Após um sermão do Pastor Moulinié sobre os costumes dos primeiros cristãos no final de novembro de 1812, alguns desses jovens — Guers, Empeytaz e Pyt — fundam a Sociedade dos Amigos com objetivo de ajudar os pobres e aflitos por todos os meios.

Nos anos próximos à queda de Napoleão, visitantes estrangeiros como a baronesa Barbara von Krüdener, os britânicos Richard Wilcox, Robert Haldane, Henry Drummond e Charles Cook visitaram Genebra e reacenderam um interesse por reuniões privadas de oração, cânticos de hinos (na época só se cantavam salmos) e leitura da Bíblia.

Os estudos bíblicos conduzidos por Robert Haldane por alguns meses focaram na exposição de Romanos de um modo que muitos seminaristas jamais tinham visto. Sua ênfase era na justificação e na conversão pessoal.

O movimento de 1817 foi chamado pejorativamente de momiers (“murmuradores”) e se expandiu rapidamente pelas regiões vizinhas de Genebra. Nas décadas de 1830 e 1840 houve outra onda de avivamento na Suíça.

Na França, várias regiões foram alcançadas pelo Réveil. Em Paris seu centro foi a Chapelle Taitbout onde se reunia numerosos membros da alta burguesia e da nobreza, como a filha da Madame de Stael.

O ex-soldado Félix Neff, o “Apóstolo dos Alpes”, pregou em áreas montanhosas na fronteira da França, Suíça e Piemonte. Nessa região, Neff fez missões entre os valdenses. A emancipação dos valdenses e a consequente liberdade de culto, primeiro no Reino Sardo-Piemontês e depois para toda a Itália, levou à propagação do Risveglio entre os italianos.

No vale do Reno o movimento atingiu reformados, unidos e luteranos de língua alemã na Alemanha, Suíça e Alsácia, muitos deles já participando de um avivamento entre pietistas desde o final do século XVIII. O avivamento fundiu-se com o ministério social e espiritual de J.F. Oberlin. De modo similar, a família de pregadores Krummacher em Wuppertal influenciaram o oeste da Alemanha. Na Saxônia, o Castelo de Hermsdorf foi um centro liderado por Heinrich Ludwig Burggraf zu Dohna, neto do líder morávio Nikolaus Ludwig von Zinzendorf. O ministro Johann Christoph Blumhardt e seu filho Christoph Friedrich Blumhardt promoveram um ministério de cura divina, expulsão de demônios e reforma social entre os povos de língua alemã. Christoph Friedrich também buscou na esfera política concretizar os mandados do Reino de tratar os mais necessitados enquanto se esperava o segundo advento.

Nos Países-Baixos o movimento foi liderado por Willem Bilderdijk, Willem de Clercq, os judeus convertidos Isaac da Costa e Abraham Capadose. Mais tarde influenciaria a Abraham Kuyper.

Na Europa Oriental o movimento ganhou corpo entre alemães bálticos e do Volga. Na Finlândia russa ocorreu o Herännäisyys, avivamento liderado pelo camponês Paavo Ruotsalainen. A Escandinávia foi impactada por um forte movimento de igrejas livres e movimentos neo-pietistas que incorporaram outros movimentos nativos de renovação. Teve impacto social e político tão grande que a moderna socialdemocracia nórdica em parte é fruto do avivamento das igrejas livres.

O movimento passou por severas críticas e perseguições pelas igrejas estabelecidas. Na Suíça, o Venerável Conselho de Pastores de Genebra expulsou ou recusou a ordenar pastores associados ao movimento e similares ações aconteceram em outros cantões. Protestantes racionalistas e mais tarde os liberais viam como excessivos as manifestações piedosas dos avivamentos bem como seu conteúdo teológico como incompatíveis à luz da razão. Na França, intelectuais católicos e conservadores como Louis de Bonald, Joseph de Maistre e Lamennais direcionaram um ataque cerrado contra o avivamento, considerando-o como mais uma expressão revolucionária a ser contida.

TEOLOGIA

Embora teologicamente reenfatizasse muito das teologias calvinista, luterana, pietista e anabatista, o Avivamento Continental tinha suas próprias nuances. Em comum, suas doutrinas podem ser sumarizadas na ata de fundação da Sociedade Cristã de Bordeaux em 1835:

“A miséria natural do homem, seu estado de pecado e sua incapacidade de sair por si mesmo desse estado. Sua redenção pelo sangue de Jesus Cristo, Filho de Deus, verdadeiramente Deus. Sua regeneração e santificação pelo Espírito Santo. Assim como a salvação oferecida pela graça divina a todo membro da família humana e assegurada a quem a abraça pela fé. E a necessidade das boas obras, como consequência da fé, e não como mérito diante de Deus.”

Adicionalmente, o Avivamento Continental caracterizou-se pela insistência na leitura e na pregação da Bíblia, a qual era lida menos com interesse histórico e mais como uma comunicação existencial vinda de Deus. A doutrina de inspiração foi uma elaboração basilar desse movimento.

A centralidade doutrinária residia na salvação por meio do sacrifício de Cristo na cruz, insistindo na experiência de conversão do pecado e do novo nascimento. Por conversão significava passar de uma fé costumeira para uma fé ativa. A experiência de salvação perspassava as diferenças teológicas.

A amplitude da graça expressa pelo propósito, alcance da morte de Cristo levaram a uma reelaboração — por parte dos avivados de extração calvinista — da doutrina da expiação limitada. As transformações da natureza humana pela obra regeneradora do calvário alcançavam a humanidade pela graça comum. Assim, todo cristão convertido deveria contribuir para a divulgação do evangelho por meio de palavras e obras, anunciando a liberdade e a salvação já concedidas por Jesus Cristo em sua morte.

Entretanto, o avivamento não foi teologicamente uniforme. Dentre as tendências com suas respectivas ênfases, o historiador Émile-Guillaume Léonard distingue três grupos dentro do Avivamento francófono:

  • Um avivamento pietista, centrado na emoção e no acesso de cada cristão a uma relação pessoal com Jesus Cristo (Haldane, Empeytaz, Ami Bost e os metodistas).
  • Um avivamento ortodoxo, voltado para um retorno às afirmações doutrinárias fundamentais do cristianismo (César Malan, Félix Neff, Adolphe Monod, Louis Gaussen e Jean de Visme).
  • Um avivamento intelectual, de tendência liberal, com ênfase na cultura da Reforma e na humanidade de Cristo (Samuel Vincent, Louis-Ferdinand Fontanès, Timothée Colani e os membros da “Escola de Estrasburgo”).

PRIMITIVISMO
Em geral, a atitude romântica de buscar um retorno do cristianismo simples, movido pelo coração, do avivamento continental gerou formas de culto e eclesiológicas populares. Em várias ocorrências, os avivados eram liderados por pregadores leigos, cuja liberdade de pregar era somente pela ação do Espírito Santo. As ênfases em práticas cristãs primitivas — ósculo santo, uso de véu, diaconia — e em um biblicismo foram preservadas em várias denominações herdeiras desse movimento.

O réveil também teve várias manifestações carismáticas, principalmente na década de 1830. Ami Bost registra cura pela fé. Outras manifestações esporádicas incluíam cânticos espirituais e pregações espontâneas, falar em línguas e profecias. Como tais manifestações estavam acontecendo entre os irvingitas britânicos, foram enviados em 1835, os missionários Pierre Méjanel e Collings Manger Carré para visitar o movimento na Suíça. Bost visitou Irving e Henry Drummond em Albury em 1831.

Na área de Yverdon, Suíça, em 1832 o pastor Marc Louis Lardon (falecido c. 1834) liderou um avivamento. Lardon, depois de renunciar sua posição e membresia na Igreja Reformada estatal em 1827, encorajou sua congregação livre de Yverdon a buscar os dons do Espírito. Praticava expulsão de demônios, profecias e foi reconhecido como apóstolo. Um ano após sua morte seu movimento terminou.

Na Prússia em 1817 ocorreram várias manifestações carismáticas no grupo de oração organizado pelo militar Gustav von Below.

PERSONALIDADES

  • Henri-Louis Empaytaz
  • César Malan
  • Louis Gaussen
  • Ami Bost
  • Henri Pyt
  • Antoine Jean-Louis Galland
  • Adolphe Monod
  • Alexandre Vinet
  • Andrew Murray
  • Paolo Geymonat

LEGADOS EM DENOMINAÇÕES, MOVIMENTOS E INSTITUIÇÕES

  • A maioria dos avivados de Genebra saiu da igreja Reformada estatal em 1831 e fundou a Sociedade Evangélica, com sua própria “escola de pregadores” fundada em 1832.
  • Em 1848, os várias congregações dissidentes uniram-se para formar a Igreja Evangélica Livre.
  • No cantão de Vaud foi formada uma Igreja Livre Reformada.
  • Várias sociedades missionárias, como a de Basileia, enviaram missionários ao redor do globo.
  • Muitas assembleias livres se uniram em torno da eclesiologia defendida por John Nelson Darby, formando as Assemblée des frères larges e outros grupos menores.
  • Os Neutäufer (Fröhlichianer ou Nazarenos) resultaram da missão de Samuel Heinrich Fröhlich entre falantes do alemão, húngaro e línguas eslavas da Europa Central. Nos Estados Unidos estão reunidos em denominações com nomes de Apostolic Christian Churches e no Brasil nas Igrejas da Paz (na Amazônia) ou Igreja Evangélica Nazareno (não confundir com a Igreja do Nazareno) no centro-sul, principalmente entre descendentes de húngaros e sérvios.
  • Diversos grupos locais se uniram aos metodistas, batistas e quakers.
  • O movimento dos Irmãos Menonitas entre teuto-russos.
  • O movimento dos Stundistas na Rússia e Ucrânia, do qual emergiram o movimento dos Cristãos de Fé Evangélica, mais tarde organizados em batistas e pentecostais.
  • Alguns movimentos de renovação entre luteranos. No Brasil, várias organizações são herdeiras desses movimentos como a Igreja Evangélica Congregacional no Brasil, a Missão Evangélica União Cristã dentro da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil e a Igreja do Cristianismo Decidido.
  • Exército de Salvação.
  • A Cruz Vermelha.
  • A profissão de diaconisa e, posteriormente, as profissões de enfermagem e serviço social.

BIBLIOGRAFIA

Bost, Ami. Mémoires pouvant servir à l’histoire du réveil religieux des Eglises protestantes de la Suisse et de la France, et à l’intelligence des principales questions théologiques et ecclésiastiques du jour, 1854.

Kloes, Andrew. The German Awakening: Protestant Renewal after the Enlightenment, 1815–1848. Oxford Studies in Historical Theology. New York: Oxford University Press, 2019.

Macchia, Frank D. Spirituality and Social Liberation: The Message of the Blumhardts in the Light of Wuerttemberg Pietism. Scarecrow Press, 1993.

Maillebouis, Christian. Les momiers (1820-1845) La dissidence religieuse à Saint-Voy, canton de Tence. Mazet-Saint-Voy: Société d’histoire de la montagne, 1990.

Meille, William. Il Risveglio del 1825 nelle Valli Valdesi. Claudiana, 1978.

Mutzenberg, Gabriel. A l’écoute du Réveil. Emmaüs, 1991.

Railton, Nicholas. No North Sea: the Anglo-German evangelical network in the middle of the nineteenth century. Brill, 2016.

Spini, Giorgio. L’Evangelo e il berretto frigio. Storia delle Chiesa Cristiana Libera in Italia, 1870-1904. Turim: Claudiana, 1971.

Stewart, Kenneth J. Restoring the Reformation: British Evangelicalism and the Francophone’Réveil’1816-1849. Wipf and Stock Publishers, 2006.Stunt, Timothy C. F. From Awakening to Secession: Radical Evangelicals in Switzerland and Britain, 1815-35. Edinburgh: T&T Clark, 2000.

Walls, Andrew F. ‘The Eighteenth- Century Protestant Missionary Awakening in Its European Context’, in Brian Stanley (ed.), Christian Missions and the Enlightenment. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2001.

Wemyss, Alice. Histoire du Réveil 1790-1849. Paris: Les Bergers et Les Mages, 1977.