ḥerem (genocídio)

O ḥerem (hebraico חרם) era uma prática sacrifical na qual toda presa viva — quer pessoa, quer animal — é condenada à morte e devotada a um deus.

O termo ḥerem aparece nas línguas semíticas como algo interdito por razões religiosas. No entanto, em Dt 20:16; Js 10:40; na Estela de Mesa, o conceito de ḥerem indica aniquilação total da população apreendida. É nesse sentido de destruição que aparece a última palavra de Malaquias, no final do Antigo Testamento do cânone cristão,

Antes, destruí-las-ás [ḥerem] totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos ferezeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor, teu Deus,

Dt 20:16

O ḥerem oferece um dilema ético e moral, bem como uma dificuldade bíblica. O teólogo anabatista John Howard Yoder sugere de que o ḥerem evitava que a guerra se tornasse uma fonte de enriquecimento por meio de pilhagem. Assim, seria uma forma incipiente de conter a escalada de violência.

BIBLIOGRAFIA
Hofreiter, Christian. Making Sense of Old Testament Genocide: Christian Interpretations of Herem Passages. Oxford University Press, 2018.

Stern, Philip D. The Biblical Herem: A Window on Israel’s Religious Experience. Brown Judaica Studies 211; Atlanta: Scholars Press, 1991.

Sobor

Em eslavo eclesiástico sobor съборъ assembleia e sobornost соборность comunhão espiritual de muitas pessoas coexistindo juntas. Este conceito de unidade emergente implica que a Igreja existe como fenômeno supra-individual fundado em uma relação de comunhão de seus membros, especialmente exercidada pela oração.

As ramificações eclesiológicas e teológicas da sobor resultam que um indivíduo sozinho não tenha voz ou legitimidade para modificar a Igreja ou expressar sua doutrina, mas sua dinâmica ou expressão teológica ocorre via sobornost.

Palavra de Deus

Palavra de Deus, Logos de Deus, Memra de Deus, Verbo de Deus refere-se à presença divina autocomunicada existente com Deus. No Novo Testamento é exclusivamente manifestada em Jesus Cristo.

O termo teológico Palavra aparece de três formas na Bíblia:

  • A raíz d-b-r, especialmente davar, דָּבָר, H1821, em seu significado originário transmite as ideias algo pensado (noético), dinâmico e seu produto (coisas). No sentido particular como d-b-r pertinente a Deus refere-se a seu modo de existência que cria e mantém o universo, bem como comunica a vontade divina. No Antigo Testamento a Palavra de Deus é criativa (Gn 1; Is 55:10-11) e dotada de comando (Amós 3:1).
  • Logos λόγος, G3364. Em seu sentido genérico significa discurso ou a razão em exercício (raciocínio), mas ganha uma conotação especial no conceito de logos como razão ou ordem subjacente conforme conceberam-na os filósofos gregos, servindo a calhar para traduzir o conceito de d-v-r de Deus. Complica mais seu conteúdo semântico por ser próximo de léxis, enunciados, do qual logos com plural logoi é quase sinônimo. A logia (plural de logos) de Deus como atos da razão subjacente na Criação foi particularmente empregada por autores israelitas do segundo Templo, tanto em literatura parabíblicas como em Fílon de Alexandria, como um modo de existência distinto do próprio Deus.
  • rhema, ῥῆμα, G4839, expressão verbal, assunto. No que se refere à rhema divina indica à autoridade do que é dito por Deus (Rom 10:17).

Na expectativa messiânica do período do Segundo Templo esperava-se pela manifestação do DBR/Memra/Logos. A Septuaginta traduz davar como logos e rhema quase de modo intercambiável. Com sentido virtualmente sinônimos aparecem no Novo Testamento. Nesse sentido as versões aramaicas da Bíblia Hebraica, Targum, utilizam o termo Memra, a Palavra personificada.

O Cristianismo reconheceu essa manifestação em Jesus Cristo (Jo 1:1; 1 Jo 1:1-3, 5; Ap 19:13). O Logos joanino é fortemente paralelo ao conceito de Sabedoria no judaísmo de expressão helenística. Nele, a Sabedoria e a Palavra já estavam associadas (Sabedoria de Salomão 9:1-2).

O evangelho de João afirma que o Logos estava plena e unicamente presente em Jesus Cristo. Comparando com autores da época, o Logos em Fílon, por exemplo, era um modo divino, porém subordinado a Deus, mas pervasivo a todo pensamento racional. A encarnação do Logos trouxe vida aos seres humanos, aos quais, de outra forma, ela não estaria disponível (João 1:1-18). Há conotações similares no Novo Testamento, no qual a “Palavra” frequentemente significa a mensagem cristã (2 Co 2:17; cf. 1 Co 1:18).

Este conceito, proverbialmente difícil de se traduzir, tradicionalmente aparece como Verbo ou Palavra nas Bíblias de língua portuguesa.

SAIBA MAIS

Boyarin, Daniel. “The Gospel of the Memra: Jewish Binitarianism and the Prologue to John.” Harvard Theological Review 94.3 (2001): 243-284.

Bury, Robert Gregg. The Fourth Gospel and the Logos-Doctrine. Cambridge, W. Heffer & Sons, 1940.