Ex opere operato e ex opere operantis

Ex opere operato e ex opere operantis são termos latinos na teologia sacramental católica que abordam como os sacramentos conferem graça. Eles distinguem entre a eficácia inerente dos sacramentos e o papel das disposições do ministro e do recebedor na recepção dessa graça.

Ex opere operato significa “pela obra realizada” e refere-se à eficácia dos sacramentos que é baseada na própria ação sacramental, não na dignidade ou santidade do ministro ou do recebedor. Desde que o sacramento seja realizado validamente de acordo com o rito, ele confere a graça de Deus, independentemente do estado moral dos envolvidos. Este princípio destaca a objetividade dos sacramentos como instrumentos da graça divina, independente das imperfeições humanas.

Em contraste, ex opere operantis, que significa “pela obra do agente”, enfatiza a importância da fé, das disposições e dos méritos do ministro e do recebedor na eficácia dos sacramentos. Segundo essa visão, os sacramentos não conferem automaticamente a graça; sua eficácia depende do estado espiritual daqueles que participam deles.

Historicamente, a distinção entre esses conceitos surgiu em resposta ao movimento donatista, que afirmava que os sacramentos eram inválidos se administrados por um ministro indigno. O partido católico, no entanto, afirmou que os sacramentos são eficazes, independentemente do estado moral do ministro, desde que os ritos apropriados sejam observados. Esse ensinamento foi solidificado durante o Concílio de Trento (1545-1563), que declarou que os sacramentos conferem graça ex opere operato, pelo próprio fato de sua celebração válida.

O princípio ex opere operato tem implicações significativas para a teologia católica:

  1. Eficácia Objetiva: Ele assegura que os sacramentos são meios confiáveis de graça, independentemente da santidade pessoal do ministro ou do recebedor.
  2. Confiança nos Sacramentos: Ele encoraja a confiança nos sacramentos como sinais eficazes da graça de Deus, mesmo quando administrados por indivíduos moralmente falhos.
  3. Disposições Apropriadas: Ele destaca a necessidade de o recebedor estar devidamente disposto para receber os plenos benefícios dos sacramentos.
  4. Papel Distinto dos Sacramentos: Ele reforça a natureza única dos sacramentos como instrumentos de graça, distinguindo-os de meros símbolos ou memoriais.

Durante a Reforma Protestante, esses conceitos enfrentaram desafios significativos. Reformadores como Martinho Lutero e João Calvino argumentaram que a compreensão católica do ex opere operato minava a doutrina da justificação pela fé. Eles rejeitavam a noção de que os sacramentos conferem automaticamente graça, insistindo que a fé é essencial para que os sacramentos sejam eficazes.

Os reformadores expressaram ceticismo em relação à ideia de que a mera realização dos ritos sacramentais poderia conceder graça. Eles acreditavam que a graça dependia da fé e da crença do recebedor, e não do ritual em si. Lutero, por exemplo, enfatizava que os sacramentos são “sinais da graça de Deus”, eficazes apenas quando acompanhados pela fé do recebedor. Essa perspectiva também levou a uma crítica da regeneração batismal, com os reformadores rejeitando a noção de que o batismo confere salvação de forma inerente, sem a fé e o arrependimento do indivíduo.

A rejeição do ex opere operato pelos reformadores levou a uma mudança significativa na teologia sacramental protestante, enfatizando uma compreensão mais pessoal e subjetiva da fé e da graça, em contraste com o sistema sacramental católico.

Esclarecimentos sobre a CCUS e a CCB

No final de janeiro de 2024, os anciães mais velhos dos Estados Unidos apresentaram propostas de alteração dos Estatutos e Doutrina da Congregação Cristã nos Estados Unidos (CCUS) em uma reunião regional.

Uma série de fatores possíveis — desconhecimento jurídico, histórico e doutrinário da Congregação Cristã, falta de competência intercultural, oportunismo e disseminação de notícias falsas — levou àlgumas pessoas do Conselho dos Anciães Mais Velhos do Brasil a entenderem que seria uma tentativa de ruptura entre a CCUS e a Congregação Cristã no Brasil (CCB).

Em uma resposta apressada, sem o devido processo legal e sem direito de defesa ou resposta, foi emitida e publicada a Circular 178 no site da CCB, com o intuito de destituir cinco anciães dos Estados Unidos.

A pedido de alguns anciães do Brasil, considerando minhas posições de jurista, membro e pesquisador, redigi estas notas de esclarecimento e enviei-as ao Conselho de Anciães Mais Velhos do Brasil.

Elas contém em paralelo os Estatutos de 1996 e as propostas de alteração de 2024; elenco de riscos jurídicos resultantes pela emissão da Circular 178; as bases históricas e doutrinárias para o relacionamento entre as diversas denominações nacionais da Congregação Cristã; recomendações para aprofundarem-se em questões de missiologia, formas de associação internacional para denominações e estabelecimento de um memorando de entendimento.

Apesar de ter escutado envolvidos tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos, essas notas fundamenta-se em análise documental, ou seja, daquilo que esteja posto nos documentos.

A carta não obteve resposta do Conselho de Anciães Mais Velhos do Brasil. Contudo, no mesmo dia, um de seus membros vazou esta carta e a fez chegar a um polemista de Youtube, em descumprimento ao sigilo requerido pelo Código de Ética ministerial, buscando desacreditar seu autor. Diante dessa atitude, é necessário que se torne público o inteiro teor destas notas.

Estado intermediário

O estado intermediário refere-se ao estado do ser humano entre a morte e a ressurreição.

Seria uma fase de transição, nem a bem-aventurança final dos salvos, nem a condenação final dos perdidos. As referências bíblicas mais utilizadas para tal estado são Lucas 16:24; 2 Coríntios 5:8; Apocalipse 6:11; Hebreus 11:39, 40, além da passagem da transfiguração. Termos como seol ou hades aparecem associados com esse estado intermediário.

No geral, as teorias sobre o estado intermediário postulam continuidade da consciência após a morte, com os crentes experimentando um estado de descanso tranquilo enquanto aguardam a ressurreição. Adicionalmente, o entendimento ocidental majoritário é que esse estado é estático, sem possibilidades de redenção nele.

Alternativas incluem noções de sono da alma, o mortalismo (não confudir com o aniquilacionismo), o purgatório e o limbo, a transcendência do tempo, a telonia, a imortalidade objetiva. No geral, a adoção de uma ou outra teoria dependente dos pressupostos de antropologia teológica.

No estado intermediário haveira um profundo contraste entre o conforto dos redimidos e o tormento dos ímpios. A Cristandade Oriental mantém cautela acerca desse estado, enquanto a Cristandade Ocidental oferece interpretações definidas através do discurso teológico e de referências históricas, com alusões mais antigas na Paixão de Perpétua e Felicidade. Teólogos ocidentais como Agostinho, Boécio, Anselmo e Aquino discutiram extensivamente acerca desse estado.

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Novíssimo

Estado final

Adições a Ester

As Adições ao livro de Ester referem-se a um conjunto de passagens suplementares encontradas na versão grega desse livro bíblico. Esses acréscimos, de 107 versículos, apresentam conteúdos diversos não presentes na versão canônica hebraica. As nuances estruturais e temáticas desses acréscimos lançam luz sobre as tradições interpretativas e as preocupações teológicas dos autores da era helenística.

Estrutura e Conteúdo

As Adições Gregas, designadas como A, B, C, D, E e F, contribuem com elementos distintivos para a narrativa de Ester. Acredita-se que as adições A, C, D e F tenham se originado em hebraico ou aramaico, potencialmente formando parte do texto original a partir do qual o tradutor grego trabalhou. O estilo ornamentado de B e E sugere uma origem grega. A autoria precisa das adições semítica e grega permanece indefinida.

As paráfrases de Josefo em Antiguidades Judaicas (93 dC) auxiliam na datação das Adições B, C, D e E, fornecendo um terminus post quem para sua composição para o século I d.C.. A colocação do colofão da LXX imediatamente após a Adição F sugere que tanto A quanto F faziam parte do texto semítico quando Lisímaco empreendeu a tradução grega no final do segundo ou primeiro século dC.

Esboço das adições gregas

  1. Adição A: O sonho de Mardoqueu (11.2–12) e sua descoberta de uma conspiração contra o rei (12.1–6).
  2. Adição B: O édito real de Hamã, proclamando uma perseguição letal contra os judeus (13:1–7).
  3. Adição C: As orações de Mardoqueu (13:8–18) e Ester (14:1–19).
  4. Adição D: Ester aparece sem ser convocada perante o rei (15:4–19).
  5. Adição E: O édito real de Mardoqueu, contrariando o édito de Hamã (16:1–24).
  6. Adição F: Interpretação do sonho de Mardoqueu (10:4–13) e o colofão da versão grega (11.1).

Os autores das Adições Gregas, situadas na era helenística, refletem uma antiga tradição judaica de interpretação bíblica. Seu objetivo era abordar ambiguidades narrativas, teológicas ou morais percebidas na Bíblia Hebraica. Embora os acréscimos aumentem a vivacidade e o drama, transformam a sutil versão hebraica de Ester em uma narrativa mais convencional, com intervenção divina e piedade tradicional.

Paradoxalmente, as expansões introduzem inconsistências. A adição A, por exemplo, retrata a advertência direta de Mardoqueu ao rei sobre uma conspiração de assassinato, contrariamente à versão hebraica. As Adições oferecem uma plataforma para expressar pontos de vista teológicos distintos, reforçando a participação divina na história de Ester. Eles afirmam a eficácia da oração e introduzem elementos ausentes no hebraico, como a aversão da rainha Ester ao casamento com um gentio, seu desdém pelos assuntos mundanos e da corte e a adesão às leis dietéticas judaicas.

No clímax, a Adição D altera a transformação dinâmica da hebraica Ester em uma figura heróica, retratando-a como um indivíduo passivo que precisa de apoio quando desmaia diante do rei. Apesar das inconsistências, as Adições sublinham a riqueza interpretativa e a diversidade teológica dentro da narrativa de Ester, oferecendo uma lente intrigante sobre as perspectivas judaicas da era helenística sobre a narrativa bíblica.

Enoque

Enoque é um personagem bíblico contado entre os patriarcas. em hebraico חֲנוֹךְ, com significado de “dedicar, iniciar, fundar”. Foi bisavô de Noé e a sétima geração descendente de Adão.

Enoque é mencionado brevemente em Gênesis 5:24, retratando-o como filho de Jarede e pai de Matusalém. Seu destino singular, “caminhava com Deus; então ele não existia mais, porque Deus o levou”, ressalta um afastamento excepcional da existência mortal. As interpretações do texto hebraico e grego diferem ligeiramente, com esta última dizendo que foi transladado. O autor de Hebreus interpreta o translado como não vendo a morte (Hb 11:5-6).

Alguns estudiosos notaram um paralelo entre Enoque e Enmeduranki, Enmenduranki aparece como sétimo rei da Lista de Reis Sumérios associado ao deus sol Shamash (contra, Gmirkin aponta leituras como sexto ou oitavo rei). Ambos contêm uma viagem celestial e a ênfase na sabedoria e no poder revelador. Ambas as figuras mantêm relações divinas, com Enoque vivendo precisamente 365 anos, simbolizando o calendário solar. Os dois antecederam o dilúvio.

No período helenístico surgiram várias literaturas que constam Enoque como protagonista ou autor.

Século II a.C. os livros enóquicos, como a Epístola de Enoque (1 Enoque 91–105; talvez 106–108), desenvolvem ainda mais o caráter de Enoque como profeta escatológico e sábio. O Livro dos Sonhos apresenta a revelação de Enoque através de uma visão sobre o julgamento escatológico e os eventos que o precederam.

Os primeiros livros da literatura enoquiana, incluindo o Livro Astronômico e o Livro dos Vigilantes, retratam Enoque como o pai de Matusalém, um intermediário entre anjos e humanos e um revelador do conhecimento astronômico. Esses livros enfatizam o papel de Enoque como sábio e escriba, contribuindo para a transmissão do conhecimento entre gerações.

Outras fontes, incluindo o aramaico Levi, Ben Sira, Pseudo-Eupolemo, Jubileus e Enoque em Qumran, oferecem perspectivas variadas sobre a vida, a sabedoria e o papel de Enoque nos assuntos celestes. Essas fontes retratam coletivamente um quadro complexo de Enoque como adivinho, mediador e registrador do conhecimento divino.

A Sabedoria de Salomão tem uma visão mais sóbria, apresentando Enoque como uma figura justa que foi arrebatada para evitar a corrupção do seu entendimento. O Livro das Similitudes, por outro lado, atribui títulos únicos a Enoque, como o “ungido”, “o escolhido”, “o justo” e “filho do homem”, enfatizando seu status exaltado e seu papel no julgamento.

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