Período Romano

Em termos de história e arqueologia bíblica, o período romano compreende de 64 a.C. a 324 d.C.

O Novo Testamento foi situado totalmente em espaço e período romanos. Entrentanto, a Bíblia não menciona especificamente o Império Romano, mas se refere a Roma, a capital (At 2:10; 18: 2; 19:21; 23:11; 28:14; 28:16; Rm 1: 7, 15; Gl 6:18; Ef 6:24; Fp 4:23; Cl 4:18; 2 Tm 1:17; 4:22; Fl 1:25) e aos imperadores como “César” (Mt 22:17, 21; Mc 12:14, 17; Lc 2: 1; 3: 1; 20:22, 25; 23: 2; Jo 19:12, 15; At 11:28; 17 : 7; 25: 8, 11, 12, 21; 26:32; 27:24; 28:19).

No ano 64 a.C. Pompeu venceu o helenista Império Selêucida, colocando os domínios dos Hasmoneus sob a influência romana como parte da província romana da Síria.

Otaviano Augusto César era filho adotivo de Júlio César, assassinado em 44 a.C. Primeiro imperador romano após derrotar Marco Antônio (que deu nome à Fortaleza Antônia em Jerusalém) e Cleópatra do Egit na batalha naval de Ácio em 31 a. C. Sua política de Pax Romana proporcionou prosperidade para o Império. Em seu reinado nasceu Jesus (Lc 2:1).

Nos turbulentos anos que antecederam o reinado de Augusto, Herodes, o Grande, ganhou as simpatias das lideranças romanas. Em sua política de construir cidades e prédios helenistas, Herodes construiu uma nova cidade portuária no local da Torre de Strato em c.21 a.C., nomeando-a Cesareia Marítima, em homenagem ao imperador.

De 4 a.C. a 6 d.C. a Judeia torna-se parte da Tetrarquia, uma das três províncias regionais autônomas na Síria Romana. Os conflitos sucessórios após a morte de Herodes levaram os romanos a diminuir o status da região como província procuratória (6-41 d.C.). Foi brevemente um reino novamente sob Herodes Agripa I (41-44 d.C.), novamente uma província (44-50), um reino (50-68) e, finalmente, uma província em guerra com o Império 66-74.

Nos séculos I a.C. e I d.C. o convívio com os dominadores não foi fácil. Resistência contra a tributação pesada, a presença de forças estrangeiras, o desprezo das autoridades pelos sentimentos religiosos tornavam o clima político constantemente tenso. Frequentemente revoltas explodiam. Em 70 d.C., o general romano Tito (filho do imperador Vespasiano) devastou Jerusalém.

Imperadores romanos

Sobreposição de datas indica corregência, reinado concorrente ou regional.

Dinastia Júlio-Claudiana
(Otaviano) Augusto César (27 aC-14 d.C.):  Lc 2:1.
Tibério (14-37): Lc 3:1-2.
Calígula (37-41)
Cláudio (41–54): At 11:27-30.
Nero (54-68): At 25:11. perseguição aos cristãos (?). Início da Primeira Guerra Romano-Judaica.
Ano dos quatro imperadores (68-69)
Galba (68–69); Oto (69); Vitélio (69)
Dinastia Flaviana
Vespasiano (69-79): destruição de Jerusalém.
Tito (79-81)
Domiciano (81-96)
Nerva (96-98)
Trajano (98-117)
Adriano (117-138): Guerra de Kitos (Segunda Guerra Romano-Judaica)
Antonino Pio (138-161): Revolta de Barcósiba (Terceira Guera Romano-Judaica)
Marco Aurélio (161-180): perseguição aos cristãos.
Lúcio Vero (161-169)
Cômodo (180-192)
Ano dos cinco imperadores (193)
Pertinax, Dídio Juliano, Pescênio Níger, Clódio Albino
Sétimo Severo (193-211)
Públio Sétimo Geta (209-211)
Caracala (198-217)
Marco Opélio Macrino (217-218)
Heliogábalo (218-222)
Severo Alexandre (222-235)
Dinastia Gordiana
Maximino I (235-238)
Gordiano I (238)
Gordiano II (238)
Pupieno e Balbino (238)
Gordiano III (238-244)
Quatro imperadores
Filipe, o Árabe (244-249)
Décio (249-251): perseguição aos cristãos.
Treboniano Galo (251-253): perseguição aos cristãos.
Emiliano (253)
Dinastia Valeriana
Valeriano I (253-260): perseguição aos cristãos.
Galiano (253-268
Declínio
Cláudio, o Gótico (268-270)
Quintilo (270)
Aureliano (270-275)
Tácito (275-276)
Floriano (276)
Probo (276-282)
Caro (282-283)
Numeriano (282-284)
Carino (282-285)
A tetrarquia de Diocleciano
Diocleciano (285-305): perseguição aos cristãos.
Maximiano (285-305)
Constâncio Cloro (305–306)
Galério (305-311)
Outros imperadores da tetrarquia
Flávio Severo (305-307)
Magêncio ou Maxêncio (306-312)
Maximino Daia ou Maximino II – 308-313)
Licínio (308-324)
Dinastia Constantiniana
Constantino, o Grande (306-337): Edito de Milão autoriza o culto cristão.
Constantino II (337-340)
Constante I (337-350)
Constâncio II (337-361)
Juliano, o Apóstata (360-363): perseguição aos cristãos.

Não dinástico
Joviano (363-364)
Dinastia Valentiniana
Valentiniano I (364-375)
Valente (364-378
Graciano (375-383 (378-379)
Valentiniano II (375-392)
Dinastia Teodosiana
Teodósio I (379-395)
Arcádio (395-408)
Honório (393–423)
Teodósio II (408-450): Edito de Tessalônica faz oficial no Império Romano o cristianismo niceno.
Valentiniano III (423–455)
Pulqueria (450-453)
Marciano (450-457)
Últimos imperadores do Império Romano do Ocidente
Petrônio Máximo (455)
Ávito (julho 455 – out 456)
Majoriano (457-461)
Líbio Severo (461-465)
Antêmio (467-472)
Flávio Olíbrio (472)
Glicério (473-474)
Júlio Nepos (474-480)
Rômulo Augusto (475-476)

Governadores romanos da Judeia

Copônio (6-8 ce)
M. Ambivius (9-12)
Annius Rufus (12-15)
Valerius Gratus (15-26)
Pôncio Pilatos (26-36)
Marcelo (36-37)
Marullus (37-41) 2
Cuspius Fadus (44-46)
Tibério Júlio Alexandre (46-48)
Ventidius Cumanus (48-52)
M. Antonius Felix (52-60?)
Pórcio Festo (60? –62)
Clodius Albinus (62-64)
Gessius Florus (64-66)

Chaoskampf

Chaoskampf é um motivo literário e um tema mitológico presente em diversas culturas antigas, descrevendo a batalha entre um herói divino e uma entidade caótica, frequentemente representada por um monstro marinho, serpente ou dragão.

Este motivo permeia mitologias do Antigo Oriente Médio, como o Ciclo de Baal ugarítico (Baal contra Yam, o deus do mar), o Enuma Elish babilônico (Marduk contra Tiamat, a deusa do oceano primordial) e também se manifesta em mitologias grega (Zeus contra Tifão), persa, indiana e egípcia. É frequentemente associado, mas não necessariamente, com a Criação e com o Escaton.

Em 1895 Hermann Gunkel, inspirado por materiais fornecidos pelo assiriologista Heinrich Zimmern, argumentava que Chaoskampf do Apocalipse como um evento que não ocorreria apenas no fim do mundo, mas já havia acontecido no início, antes da Criação.

Na Bíblia, há várias referências explícitas (Isaías 27:1; 51:9-11; Habacuque 3:8; Salmo 74:13-15; Salmo 77:16-19; Salmo 89:6-14; e Jó 26:5-13) e outras menos explícitas (Gênesis 1:1-3).

As águas te viram, ó Deus,

as águas te viram, e tremeram;

os abismos também se abalaram. 

Grossas nuvens se desfizeram em água;

os céus retumbaram;

as tuas flechas correram de uma para outra parte. 

A voz do teu trovão repercutiu-se nos ares;

os relâmpagos alumiaram o mundo;

a terra se abalou e tremeu. 

Pelo mar foi teu caminho,

e tuas veredas, pelas grandes águas;

e as tuas pegadas não se conheceram.

Sl 77:16-19

Deus (YHWH, יהוה) não cria a partir de um combate, mas demonstra Seu poder soberano sobre as forças do caos, frequentemente simbolizadas pelas águas primordiais (tehom, תְּהוֹם – Gênesis 1:2), o mar (yam, יָם), e monstros marinhos como Leviatã (לִוְיָתָן – Jó 41:1; Salmo 74:14; Isaías 27:1) e Raabe (רַהַב – Salmo 89:10; Isaías 51:9). O termo tannin (תַּנִּין), traduzido como “monstro marinho” ou “dragão,” também é empregado (Gênesis 1:21; Ezequiel 29:3).

Essas referências bíblicas, muitas vezes poéticas, demonstram o poder de Deus sobre a criação e a ordem cósmica. Ele divide as águas (Gênesis 1:6-7), estabelece limites para o mar (Jó 38:8-11), e derrota os monstros marinhos, símbolos de desordem e oposição. O Salmo 77:16-19 descreve a teofania divina com imagens de controle sobre as águas: “As águas te viram, ó Deus, as águas te viram, e tremeram; os abismos também se abalaram.” A vitória sobre esses seres não é uma luta para criar, mas uma demonstração contínua da manutenção da ordem estabelecida e da proteção de Israel.

No Novo Testamento, a linguagem do Chaoskampf é empregada de maneira simbólica. A serpente (ophis, ὄφις) do Éden (Gênesis 3) é associada ao dragão (drakōn, δράκων) do Apocalipse (Apocalipse 12:9), que representa Satanás, a fonte do caos e do mal. Jesus Cristo, ao acalmar a tempestade (Marcos 4:35-41), demonstra poder sobre o mar, um domínio que evoca o controle divino sobre o caos primordial. Suas curas, exorcismos e, crucialmente, sua morte e ressurreição são interpretados como vitórias sobre as forças do mal e da morte, ecoando o tema do Chaoskampf. O Apocalipse descreve a derrota final do dragão e o estabelecimento do reino de Deus, consumando a vitória divina sobre o caos (Apocalipse 20). A figura do “Filho do Homem” (Daniel 7), título frequentemente usado por Jesus, é central nessa vitória, recebendo domínio eterno sobre os reinos terrestres, representados por bestas que emergem do mar.

BIBLIOGRAFIA

Batto, Bernard F. . Slaying the Dragon, Mythmaking in the Biblical Tradition. Louisville, Kentucky. Westminster/John Knox Press, 1992.

Day, John. God’s Conflict with the Dragon and the Sea: Echoes of a Canaanite Myth in the Old Testament. No. 35. CUP Archive, 1985.

Forsyth, Neil. The Old Enemy: Satan and the Combat Myth. Princeton: University Press, 1987.

Kloos, Carola. Yahweh’s Combat with the Sea: A Canaanite Tradition in the Religion of Ancient Israel. Brill Archive, 1986.

Scurlock, JoAnn; Beal, Richard H. eds. Creation and Chaos: A Reconsideration of Hermann Gunkel’s Chaoskampf Hypothesis. Penn State Press, 2013.

Wakeman, Mary K. God’s Battle with the Monster: A Study in Biblical Imagery. Brill Archive, 1973.

Watson, Rebecca S. Chaos Uncreated: A Reassessment of the Theme of “chaos” in the Hebrew Bible. Vol. 341. Walter de Gruyter, 2012.

Dracma de Yhw

Presente no Museu Britânico desde o século XVIII, publicada por Combe em 1814, esta moeda chama a atenção pela imagem cunhada. Nela há uma figura barbada cuja identidade permanece desconhecida e a inscrição YHW, considerada uma variante do Tetragrammaton sagrado.

Trata-se de um dracma de prata, provavelmente proveniente do Yehud (província persa de Judá), datada de entre 380-360 a.C. Tem massa de 3,29 gramas e possui um diâmetro de 15 mm.

No obverso há um homem barbudo, usando um capacete coríntio. No reverso, há um figura sentada em uma roda alada (faravahar), de frente para a direita. O corpo é parcialmente coberto por um manto longo. Uma ave de rapina está empoleirada na mão esquerda estendida. Acima estão três letras paleograficamente aramaicas.

Dado o aniconismo (proibição de retratar Yahweh com imagens), gerou-se especulações que a figura representaria Ahura Mazda, Zeus ou mesmo Yahweh.

BIBLIOGRAFIA

Combe, T. Veterum populorum et regum numiqui in Museo Britannico adservantur (1814) 242 No. 5. pl. xiii 12.

Shenkar, Michael. “The Coin of the ‘God on the Winged Wheel’.” BOREAS-Münstersche Beiträge zur Archäologie 30, no. 31 (2007): 2008.

Selo de Shema

Réplica do original encontrado em Megido em c. 1904.

A inscrição em escrita paleo-hebraica diz: “[pertencente] a Shema, servo de Jeroboão”. Provavelmente, trata-se do rei Jeroboão II .

O original foi feito no século VIII a.C. em jaspe, possuia formato escaraboide, de 3,7 x 2,7 x 1,7 cm.

Foi descoberto na escavação de Megido, realizada entre 1903 e 1905, em nome da Sociedade Alemã para o Estudo da Palestina por Gotlieb Schumacher, um engenheiro que vivia em Haifa. Foi encontrado acidentalmente no lixo da escavação, não em um nível estratificado, o que dificultou a datação.

O selo foi perdido a caminho do Museu de Istambul. Mas, sobrevive uma impressão em bronze feita antes de seu envio. Os sinais de impressão sobre papiro indicam que esse suporte material era comum na região nessa época.

Foram encontrado vários outros selos com ‘bd hmlk, “servo do rei “. Isso possibilita que “servo do rei” fosse um título de algum oficial dos reis de Israel e Judá (cf. 1 Re 1:47; 2 Re 5:6; 22:12; 25:8).