Francesco Turrettini

Francisco Turrettini, Francesco Turrettini, François Turrettin (1623–1687) foi um teólogo da escolástica protestante.

Nasceu em Genebra em 1623 de uma família protestante, com seu avô sendo Giovanni Diodati. Teve atividades acadêmicas em Leiden, Utrecht, Paris, Saumur, Montauban e Genebra. Como pároco em Genebra, também se encarregou dos cuidados pastorais da comunidade italiana.

Turrettini sucedeu a Theodor Tronchin na cátedra de teologia da Academia de Genebra, onde acabou se tornando reitor.

Fervoroso defensor de uma visão calvinista mais estrita, Turrettini se opôs às visões calvinistas associadas à Academia de Saumur. Participou ativamente do Consenso Helvético, defendendo as formulações de predestinação do Sínodo de Dort.

A principal obra de Turrettini, “Institutio Theologiae Elencticae” (3 partes, Genebra, 1679-1685), exemplifica a escolástica reformada. Abordou várias questões controversas, defendendo a noção da Bíblia como a palavra inspirada de Deus, o infralapsarianismo e a teologia federal. Suas obras, incluindo “De Satisfactione Christi disputationes” (1666) e “De necessaria secessione nostra ab Ecclesia Romana et impossibili cum ea sincretismo” (publicado em 1687), abordavam assuntos teológicos críticos.

A influência de Turrettini sobre os puritanos e teólogos posteriores ganharam reconhecimento. Suas obras eram os manuais didáticos de vários seminários, incluindo o de Princeton.

A sua doutrina da liberdade, rejeitando a noção de indiferença, enfatizava a soberania de Deus e a espontaneidade racional da vontade humana.

Tabuletas de Murashu

As tabuletas de Murashu ou de Murašû são uma coleção de documentos comerciais da grande casa bancária de Murashu and Filhos em Nippur, datados de cerca de 530 aC.

Descobertos em 1893, são 879 servindo cerca de uma centena de famílias judias e quase 2500 nomes. Registra as atividades dos exilados israelitas na Babilônia.

Estas tabuletas de argila em escrita cuneiforme fornecem informações valiosas sobre a história económica e social do período, incluindo detalhes sobre as atividades empresariais da família Murashu durante o reinado de Dario II.

VEJA TAMBÉM

Documentos de Al-Yahudu

S. P. Tregelles

Samuel Prideaux Tregelles (1813–1875) foi um estudioso bíblico inglês, filólogo, lexicógrafo, hebraísta, crítico textual e teólogo.

Tregelles nasceu em Falmouth, Cornualha, filho de pais quacres, mas mais tarde tornou-se membro dos Irmãos de Plymouth. Na fase final, mesmo mantendo doutrinas quakers e dos irmãos de Plymouth, juntou-se à Igreja Anglicana. Sofreu uma paralisia em 1870, a qual o afetou até sua morte. A partir de 1862 passou a receber uma pensão civil em reconhecimento por seu trabalho de £200 por ano.

Tregelles conheceu e correspondia com o núcleo evangélico livre e associado à Igreja Suíça de Florença. Escreveu o Prisioner of Hope, denunciando a perseguição contra Francesco e Rosa Madiai.

Com o título de LL.D. pela St Andrews recebido em 1850, Tregelles fez um meticuloso trabalho crítica textual para reconstruir o Novo Testamento grego. Nesse projeto, viajou em 1845 para compilar manuscritos em Roma, Florença, Modena, Veneza, Munique e Basileia. Tregelles também foi autor de vários livros. Participou do comitê de revisão da KJV que supervisionou a preparação da tradução da Bíblia conhecida como Versão Revisada, publicada em 1881, seis anos após sua morte.

Um biblista meticuloso e um teólogo moderado, Tregelles rejeitou o pós-milenismo e o dispensacionalismo, bem como o surgimento de partidários da primazia do Textus Receptus, como Jacob Tomlin. Também desconsiderava a identificação do catolicismo ou do papado como o anticristo.

BIBLIOGRAFIA

Tregelles, Samuel P. Passages in the Old Testament connected with the Revelation. 1836.

Tregelles, Samuel P. “‘An account of English Versions’ in the ‘Introduction’ to English Hexapla (London, 1841).”

Tregelles, Samuel P. Hebrew Reading Lessons. 1845.

Tregelles, Samuel P. Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament. 1847. (Transactions of Gesenius Lex)

Tregelles, Samuel P. Heads of Hebrew Grammar. 1852.

Tregelles, Samuel P. Interlineary Hebrew & English Psalter. 1852.

Tregelles, Samuel P. The Englishman’s Greek Concordance to the New Testament. 1839-43.

Tregelles, Samuel P. The Englishman’s Hebrew and Chaldee Concordance to the Old Testament. 1839-43.

Tregelles, Samuel P. Account of the Printed Text of the New Testament. 1854.

Tregelles, Samuel P. An Introduction to the textual criticism of the New Testament. 1856.

Tregelles, Samuel P. The Ways of the Line (anon., 1858).

Tregelles, Samuel P. New Testament Greek Text (in parts, 1857-72).

SOBRE TREGELLES

Stunt, Timothy C. F. The Life and Times of Samuel Prideaux Tregelles: A Forgotten Scholar. Christianities in the Trans-Atlantic World; Palgrave Macmillan, 2020.

Tradição no evangelicalismo

A Tradição e as variantes do Evangelicalismo Anglo-Americano

Tradição é um tema debatido na teologia protestante. Durante a Reforma, reformadores radicais como Thomas Muentzer, Caspar Schwenkfeld ou Sebastian Franck opuseram-se totalmente à tradição, voltando-se somente para as Escrituras. Enquanto isso, reformadores magisteriais encaravam a tradição como algo positivo enquanto fonte para a leitura das Escrituras. Já no catolicismo pós-Trento, bem como na ortodoxia oriental e em algumas vertentes anglicanas, a tradição existe independente, paralela e harmoniosamente com as Escrituras. Contudo, reavaliações do próprio fenômeno da tradição confirmam que, queira ou não, há uma indissociável e inescapável influência da tradição na teologia e na interpretação bíblica

Este ensaio explora quatro variantes distintas do evangelicalismo anglo-americano, selecionado por seu impacto internacional. Com base em diversos estudos sobre o evangelicalismo, mas principalmente na revisão e expansão das obras de Olson (2007) e McDermott (2010), examinamos os pressupostos, ênfases, métodos e abordagens únicas em relação à ortodoxia dentro de cada variante em relação à tradição. Além disso, lançamos luz sobre suas políticas em relação à tradição no contexto do cristianismo evangélico.

I. Doutrinários

Os Doutrinários têm uma base irredutível no fundacionalismo herdado da modernidade iluminista. A tradição, sobretudo da Reforma, serve para avaliar positivisticamente a teologia. Buscam certeza por meio de verdades evidentes por si mesmas, razão e experiência sensorial, considerando a doutrina como a essência do cristianismo. São exemplificados por autores como J.I. Packer, Wayne Grudem, Norman Geisler e D.A. Carson.

Esta variante utiliza o Realismo do Senso Comum Escocês para tratar a Bíblia como uma coleção de proposições autocontidas. Possuem uma filosofia de linguagem referencial, ou seja, um certo realismo e confiança de que as palavras transmitem ideias sem problemas de acurácia. São herdeiros do positivismo da Escola de Prínceton.

Para os doutrinários, a ortodoxia consiste em crenças atemporais, sustentadas por leituras históricas seletivas, que validam doutrinas específicas.

II. Paleo-ortodoxos

A tradição para os paleo-ortodoxos é o consenso ecumênico. Figuras proeminentes na variante Paleo-ortodoxa, como Thomas Oden, Alister McGrath, John Goldingay enfatizam um diálogo harmonioso entre a Bíblia e a Grande Tradição. Consideram o consenso ecumênico do primeiro milênio do Cristianismo como uma lente interpretativa para a compreensão das Escrituras.

Os teólogos paleo-ortodoxos envolvem-se em tarefas teológicas críticas e construtivas dentro do quadro das decisões da igreja ecumênica sobre questões doutrinárias. Seu foco está na evolução histórica da doutrina, especialmente no primeiro milênio.

Influenciado pelos métodos das humanidades para estudar a história cristã e do pensamento cristão, adotam uma abordagem de hermenêutica filósofica e realismo crítico em suas epistemologias e ontologias.

A ortodoxia, de acordo com esta variante, é o resultado da atuação de Deus na história por meio do consenso da Igreja.

III. Melioristas

Os Melioristas consideram a tradição como mais uma faceta da realidade complexa e global. São epresentados por estudiosos como Roger Olson, Kevin Vanhoozer, James A. K. Smith, Amos Yong, N.T. Wright, Scot McKnight, Beverly Gaventa e Frank Macchia. Presumem que a Grande Tradição cometeu erros no passado, exigindo correções e reformas contínuas.

Envolvem-se em diálogo com uma ampla variedade de tradições, incluindo perspectivas globais, anabatistas, pentecostais, do mundo majoritário, teologias feministas e minoritárias, luteranas, reformadas, ortodoxas, católicas romanas, bem como o pensamento científico. Isso leva a adotar uma epistemologia crítica.

Os Melioristas adotam uma compreensão coerentista da doutrina, enfatizando o presente e considerando a tradição apenas como um elemento em uma visão holística da fé. A criação está ligados a Deus não primariamente por declarações proposicionais, mas por eventos factuais. Consideram a Escritura como um meio de comunicação da revelação, guiada pelo Espírito, e instrumental para instruir as pessoas a serem semelhantes a Cristo.

A ortodoxia é vista como o resultado de um diálogo coerente com as realidades bíblicas e contemporâneas, inclusive com as realidades percebidas.

IV. Restauracionistas

A tradição é aquela da comunidade restaurada. Os Restauracionistas, exemplificados pelos anabatistas (mennonitas, Dunkers), Plymouth Brethren, Movimento de Restauração (Disciples and Churches of Christ) e muitos pentecostais clássicos enfatizam fortemente o conhecimento experiencial, individual e coletivamente vivido dentro da Igreja.

Entre seus expoentes estão F. F. Bruce, Harold Bender, Max Lucado, Anthony Palma e Michael Brown.

Sustentam que a Bíblia pode ser diretamente apreendida sob a orientação do Espírito Santo enquanto a avaliação comunitária limita interpretações arbitrárias. Para os Restauracionistas, as Escrituras contém elementos tanto proposicionais como não-proposicionais, ensinando por meio de analogia com o presente. O discipulado é considerado a essência central do verdadeiro cristianismo.

A ênfase é na tradição restaurada da comunidade .Por vezes, a essa tradição é denominacional, embora muitos rejeitem tanto identidades denominacionais quanto a Grande Tradição.

As ontologia e epistemologia coexistem em tensão entre um discernimento crítico das experiências imediatas, senso comum e conhecimento situado.

A ortodoxia, nesta perspectiva, está entrelaçada com a ortopatia e a ortopraxia. Esses três existem como oriundos da experiência da Bíblia na comunidade de fé.

Considerações finais

Mesmo quem queira evadir-se de alguma tradição não consegue evitar estar situado em alguma forma dela. No caso do evangelicalismo anglo-americano, essas quatro variantes representam abordagens distintas em relação à fé, doutrina e tradição.

Enquanto os Doutrinários enfatizam verdades evidentes por si mesmas e sistemas racionais, os estudiosos Paleo-ortodoxos sustentam o consenso ecumênico antigo. Os Melioristas advogam a reforma contínua e o diálogo com diversas tradições, enquanto os Restauracionistas priorizam o conhecimento experiencial e a tradição comunitária.

A seleção do evangelicalismo de língua inglesa deve-se à sua representatividade como exemplo do pluralismo interno dessa vertente protestante. Ademais, essa tipologia ideal, expandida de McDermott (2010) e Olson (2007), reflete as vertentes exportadas pela teologia evangelical norteamericana através do mundo. Indubitavelmente, em outras regiões, subtradições protestantes, bem como esferas linguísticas há outras tipologias do pensamento evangélico.

Compreender essas variantes e suas políticas em relação à tradição é fundamental para compreender a diversidade e dinamismo dentro do cristianismo evangélico, tanto no âmbito doméstico quanto internacional.

BIBLIOGRAFIA

Bebbington, David W. Evangelicalism in Modern Britain: A History from the 1730s to the 1980s. London: Unwin Hyman, 1989.

Bebbington, David W.; Noll, Mark A.; Rawlyk, George A., eds. Evangelicalism: Comparative Studies of Popular Protestantism in North America, the British Isles and Beyond, 1700-1990. New York : Oxford University Press,
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Chan, Simon. “Tradition: Retrieving and updating Pentecostal core beliefs.” Em The Routledge Handbook of Pentecostal Theology. Routledge, 2020.

Dorrien, Gary J. The remaking of evangelical theology. Westminster John Knox Press, 1998.

Marsden, George M. Understanding Fundamentalism and Evangelicalism. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans. 1991.

McDermott,Gerald R. “Introduction”. The Oxford Handbook of Evangelical Theology. Oxford, OUP, 2010. DOI: 10.1093/oxfordhb/9780195369441.003.0001

Noll, Mark A., ed.. Eerdmans’ handbook to Christianity in America. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1993.

Noll, Mark A. The Scandal of the Evangelical Mind. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1994.

Olson, Roger E. Reformed and Always Reforming: The Postconservative Approach to Evangelical Theology. Acadia Studies in Bible and Theology. Baker Academic, 2007.

Olson, Roger E. The Westminster handbook to evangelical theology. Westminster John Knox Press, 2004.

Purinton, William. Transpacific Evangelicalism in the twentieth century: Revival and Evangelism in America and Korea. One Mission Society, 2020.

Tradição

O termo “tradição” deriva da palavra latina “trado”, que significa “entregar” ou “legar”. Também chamado de “depósito” da fé. O termo refere-se a ensinos, práticas, usos e costumes de uma dada comunidade. Em teologia, há grupos que consideram as tradições como dotadas de autoridade enquanto outras consideram sem autoridade ou adiáfora. O termo grego correspondente, paradosis, derivado do verbo paradido, implica atos de entrega, oferta ou transmissão, incluindo a prática de caridade. Em termos teológicos, refere-se a qualquer ensinamento ou prática transmitida de geração em geração ao longo da história da Igreja.

A tradição foi um processo ativo na composição, transmissão e canonização das Escrituras. (Provérbios 25:1).

No Judaísmo Rabínico, a Torá Oral, considerada a tradição transmitida por Moisés através das gerações, foi transmitida oralmente até ser documentada após a destruição do Segundo Templo em 70 dC. Esta tradição oral é preservada na Mishná e na Gemara, formando coletivamente o Talmud.

As primeiras comunidades cristãs enfatizavam o depósito ou tradição apostólica. Tais tradições baseavam-se tanto em ensinamentos orais como escritos. O ensino dos apóstolos foi recebido como um critério para a doutrina e a vida na igreja (Judas 1:3-4). Tal tradição apostólica era distinta das tradições não inspiradas de homens, tendendo a um formalismo ou legalismo condenado, por exemplo, em Colossenses 2:8 e Mateus 15:3. O depósito ou tradição apostólica transmitia um modelo de sãs doutrinas para a igreja (2 Timóteo 1:13-14) que deveria ser guardado (1 Timóteo 6:20-21). Serviria como um padrão para a vida cristã (2 Tessalonicenses 3:6; 3 Pedro 2:21) e para o ensino na igreja (2 Timóteo 2:2).Esta tradição apostólica foi encontrada em ambos instrução oral e escrita (2 Tessalonicenses 2:15).

A tradição apostólica também era resultante da oralidade da igreja primitiva. Por exemplo, o ensino transmitido oralmente por Paulo incluía revelações de Deus (Gl 1:12), informações através das tradições orais de “transmissão” (paradidomi) e “recebimento” (paralambano) e entendimentos de conversas com líderes da igreja primitiva (Atos 9:26). -30; Gl 1:18-24) e igrejas (cf. 1Co 11:23-25; 15:3-4).

As respostas teológicas aos desafios, como as defesas de Irineu, Tertuliano e Atanásio contra formas sectárias e heréticas de cristianismo, fundamentaram-se na continuidade histórica e da tradição. Irineu sumarizou essas tradições em suas regras de fé. Mesmo as tradições nas vertentes ortodoxas estavam sujeitas à crítica, como no cânon vicentino, um princípio de avaliação e aplicação da tradição.

Os cristãos ortodoxos orientais identificam uma tradição que abrange as Escrituras, a patrística e o consenso eclesiástico (sobor). A autoridade da tradição valida outras fontes teológicas, como as Escrituras, as quais foram transmitidas e aceitas pela tradição.

No catolicismo romano, a doutrina de uma “Tradição Viva” argumenta que teria sido transmitida através das Escrituras, da tradição sagrada e do Magistério.

O protestantismo, embora muitas vezes despreze a tradição, exibe atitudes diversas, com alguns abraçando a tradição de forma crítica. Os grupos primitivistas e radicais rejeitam a tradição, mas as tradições implícitas persistem nas interpretações das Escrituras, escolhas teológicas e práticas comunitárias. Já teologia protestante de orientação acadêmica se envolve criticamente com a tradição, como exemplificado pelo trilateral de Lutero, pelo quadrilátero wesleyano e pelo heptágono pentecostal. O caso do evangelicalismo americano ilustra diversas abordagens protestantes acerca da tradição.