Papiros de Tura

Os papiros de Tura são vários manuscritos descobertos por operários que trabalhavam na limpeza de uma pedreira em Tura, próxima a Cairo, em 1941.

Os operários estavam no local a mando de forças militares britânicas e espalharam os manuscritos pelo mercado paralelo de antiguidades.
Foram recuperados manuscritos de Orígenes e de Dídimo, o Cego.

Teândrico

O adjetivo teândrico, derivado do grego “θεανδρικαὶ ‘ενέργειαι” e do latim “operações deiviriles”, denota o estado de ser humano e divino. Encontra as suas raízes na tradição teológica, especificamente na união da operação divina e humana em Cristo. Resume as atividade característica do Deus-homem, onde as naturezas divina e humana cooperam.

A teologia teândrica investiga a compreensão das ações de Cristo, enfatizando o uso de sua natureza humana como instrumento da divindade. Afirma que as duas naturezas e as duas vontades de Jesus Cristo funcionam como uma Pessoa invisível – simultaneamente Deus e homem. Este conceito teológico emergiu com destaque na tradição teológica bizantina e é considerado uma contribuição significativa para o pensamento religioso cristão.

Empregada pela primeira vez por Pseudo-Dionísio para descrever as ações únicas de Cristo como nem puramente divinas nem puramente humanas, mas como uma nova operação teândrica. Inicialmente, o termo foi mal utilizado e associado às teorias monofisistas e monotelíticas.

Na controvérsia monotelita, Sérgio I, Patriarca de Constantinopla, incorporou o termo em seus esforços para reconciliar os monofisitas egípcios e os católicos. No entanto, a controvérsia levou à condenação da interpretação monotelita dos atos teândricos pelo papa Martinho I em 649 e posteriormente confirmada pelo papa Ágato.

O termo encontrou uma interpretação ortodoxa através das obras de Máximo, o Confessor, que via os atos teândricos como as energias divina e humana trabalhando juntas para produzir um único efeito. João Damasceno também empregou o termo corretamente, enfatizando a harmonia das operações divinas e humanas em Cristo.

A teologia escolástica distinguiu três tipos de operações em Cristo: atos puramente divinos, propriamente humanos e atos mistos. As operações puramente divinas envolvem as processões internas do Verbo e a atividade criativa externa, excluindo a natureza humana. As operações propriamente humanas são atos suscitados pela natureza humana, mas atribuídos à Pessoa Divina do Verbo. Os atos teândricos, em sentido estrito, são operações mistas onde ambas as naturezas se unem para produzir um único efeito, servindo a natureza humana como instrumento do divino.

Teologia credal

A teologia credal é o ramo da teologia sistemática que discorre sobre métodos e tópicos relacionados à formulação, interpretação e aplicação de credos e confissões de fé nas comunidades religiosas.

Enquanto a teológica dogmática discorre sobre as implicações das doutrinas formuladas pelos credos e confissões, a teologia credal preocupa-se com a elaboração e aplicação das declarações de fé. Entretanto, como se ocupam de proposições doutrinárias, há sobreposição entre as duas subdisciplinas.

Alguns dos principais tópicos abordados pela teologia do credo incluem:

  1. Natureza da declaração de fé: examina os papeis como norma normata e regra da doutrina (regula doctrinæ). Discorre sobre os limites e mutabilidade (ou não) das proposições doutrinárias. Compara as declarações de fé com o uso de textos litúrgicos como hinos, com textos normativos como cânones denominacionais, com as Escrituras na vida da igreja.
  2. Desenvolvimento histórico de credos e confissões: Examina as origens, as modificações e o contexto histórico de vários credos e confissões dentro de diferentes tradições religiosas.
  3. Interpretação da declaração de fé: analisa os significados e implicações teológicas de declarações de fé, incluindo a interpretação de conceitos e princípios doutrinários fundamentais.
  4. Teologia comparada: Compara e contrasta os credos e confissões de diferentes tradições ou denominações religiosas para identificar semelhanças, diferenças e pontos de convergência e divergência.
  5. Metodologia teológica: explora as metodologias empregadas na formulação, interpretação e aplicação de credos e confissões, incluindo abordagens exegéticas, históricas e sistemáticas.
  6. Teologia doutrinária e dogmática: investigar os ensinamentos doutrinários e afirmações dogmáticas contidas nos credos e confissões, e explorar suas implicações teológicas para a crença e a prática.
  7. Eclesiologia: Examina o papel dos credos e confissões na formação da identidade, unidade e limites das comunidades religiosas, incluindo o seu significado para a autoridade e governação eclesial. Também inclui os empregos das declarações de fé para fins apologéticos, respostas a desafios internos ou para questões sociais, bem como a utilização da declaração de fé para o exercício da disciplina.
  8. Hermenêutica: Reflete sobre os princípios e métodos de interpretação aplicados aos textos de credos, incluindo considerações de contexto, linguagem e tradição teológica. A crítica confessional aplica elementos hermenêuticos dos credos e confissões na leitura das Escrituras.
  9. Autoridade confessional: Também a teologia credal ocupa-se da questão hermenêutica e de autoridade do confessionalismo, na distinção entre quia e quatenus se adesão a um credo ou confissão deva ser “quia” (porque) ou “quatenus” (na medida em que) a declaração de fé expressa as verdades evangélicas oriundas das fontes teológicas.
  10. Relevância contemporânea: avalia o significado contínuo e a aplicação de credos e confissões no cenário religioso contemporâneo, incluindo o seu papel na abordagem de desafios teológicos e no envolvimento com questões culturais e sociais. Aqui entram as questões como os credos e confissões servem para a vida da Igreja, se prioriza o discipulado ou se prioriza seu uso como disciplina.
  11. Ecumenismo: explora o potencial de diálogo, reconciliação e cooperação entre diferentes tradições ou denominações religiosas através do estudo e interpretação de credos e confissões.
  12. Teologia prática: Investigar as implicações práticas da teologia de credo para evangelização, adoração, discipulado, cuidado pastoral e missão dentro de comunidades religiosas.

BIBLIOGRAFIA

Fairbairn, Donald; Reeves, Ryan M. The Story of Creeds and Confessions: Tracing the Development of the Christian Faith. Baker Academic, 2019.

Hahn, Georg L. Bibliothek der Symbole und Glaubensregeln der alten Kirche [Breslau: E. Morgenstern, 1897 (Hildesheim: G. Olms, 1962)].

Hahn, Scott. The Creed: Professing the Faith Through the Ages. Emmaus Road Publishing, 2016.

Kelly, John Norman Davidson. Early christian creeds. Routledge, 2014.

McGrath, Alister E. Faith and Creeds: A Guide for Study and Devotion. Vol. 1. Westminster John Knox Press, 2013.

Pelikan, Jaroslav. Credo: Historical and theological guide to creeds and confessions of faith in the Christian tradition. Yale University Press, 2005.

Radde-Gallwitz, Andrew. “Private Creeds and their Troubled Authors.” Journal of Early Christian Studies 25.1 (2017): 464-490.

Schaff, Philip. Creeds of Christendom, with a History and Critical notes. Volume I. The History of Creeds. CCEL, 1877.

Wilhite, David E. “The Baptists ‘and the Son’: The Filioque Clause and non-Creedal Theology”. Journal of Ecumenical Studies 44 (2 2009): 285-302.

VEJA TAMBÉM

Crítica confessional

Artigos de Fé

Teologúmena

Credos e confissões de fé

Tabuletas de Nuzi

As Tabuletas de Nuzi é uma coleção com mais de 6.000 tabuletas descobertas no local da antiga cidade de Nuzi, um centro administrativo hurrita que floresceu por cerca de 150 anos durante a Idade do Bronze Tardia.

Nuzi, escavada entre 1925 e 1933, localiza-se na moderna Yorghan Tepe, a 13 km a sudoeste de Kirkuk, no norte do Iraque.

Os arquivos de Nuzi incluem contratos, registros de venda, testamentos, vendas de escravos, listas de racionamento, memorandos, atas de julgamento e textos escolares.

Quando os primeiros textos de Nuzi foram publicados, houve uma empolgação de que eles continham informações sobre o período dos patriarcas. Ephraim Avigdor Speiser disseminou leituras das tabuletas de Nuzi que supostamente afirmaria costumes da Idade do Bronze referente a casamento, dentre eles contratos de adoção de esposa como irmã e de uso de um serva como mãe sub-rogada. Nos anos 1970 a revisão desses materiais revelou que Speiser interpretou-os erroneamente. Desse modo, constatou-se que muitos dos costumes eram comuns às outras épocas ou que os supostos paralelismos seriam interpretações equivocadas dada a incompetência técnica dos primeiros estudiosos a publicar as tabuletas. Contudo, Nuzi permanece um recurso histórico, linguístico e arqueológico importante para o período.

BIBLIOGRAFIA

Taggar-Cohen, Ada. “Law and Family in the Book of Numbers: The Levites and the Tidennutu documents from Nuzi.” Vetus Testamentum 48 (1998): 74–94.

Thompson, Thomas L. “The historicity of the patriarchal narratives.” The Historicity of the Patriarchal Narratives. de Gruyter, 2016.

Testimonium Spiritus Sancti Internum

O Testimonium Spiritus Sancti Internum, ou o Testemunho Interno do Espírito Santo, refere-se à crença de que o Espírito Santo oferece uma garantia ou testemunho interno aos crentes sobre a verdade das Escrituras e seu relacionamento com Deus. Esse conceito está associado à obra do Espírito Santo ao afirmar a fé do crente e o entendimento das verdades divinas.

O testemunho interno é compreendido como uma experiência pessoal e subjetiva, em que o Espírito Santo confirma ao indivíduo que ele é, de fato, um filho de Deus. Essa garantia não se baseia em evidências externas ou argumentos racionais, mas é uma obra direta do Espírito no coração do crente.

Esse testemunho funciona como uma forma de autenticação das Escrituras, sugerindo que, embora as Escrituras possuam autoridade objetiva, sua aceitação e entendimento são profundamente influenciados por esse testemunho interno. O Espírito Santo permite que os crentes reconheçam as Escrituras como a verdadeira Palavra de Deus, superando quaisquer dúvidas ou equívocos oriundos da razão humana ou do pecado.

Embora evidências externas (históricas, textuais, etc.) possam apoiar a fé, os defensores dessa doutrina afirmam que a verdadeira crença depende, em última análise, do trabalho interno do Espírito Santo. Essa perspectiva enfatiza que a razão humana, sozinha, não pode levar a uma compreensão adequada das verdades espirituais; ao contrário, é necessário o esclarecimento divino.

Agostinho destacou a necessidade de iluminação divina para a compreensão das Escrituras, postulando que o verdadeiro conhecimento de Deus requer o testemunho interno do Espírito Santo. Essa ideia lançou as bases para teólogos posteriores, incluindo Calvino, que desenvolveram as ideias de Agostinho sobre o papel do Espírito na vida do crente. Sem um polo, os quakers levaram o conceito de testemunho interno como luz interior como permanente guia do Espírito Santo para a humanidade. Já Locke e Schleiermacher criticaram o subjetivismo de tal doutrina para validar argumentos. Há também a crítica circularidade ao afirmar que o Espírito Santo confirma a verdade das Escrituras para o crente, e que as Escrituras são verdadeiras porque o Espírito Santo as confirma. Essa tautologia não funciona compartilha da mesma pressuposição discutida.