Massacre dos evangélicos em Barletta

O massacre dos evangélicos em Barletta refere-se a um ataque às pessoas e propriedades da minoria evangélica ocorrido em 19 de março de 1866, na cidade de Barletta, a Puglia, no sul da Itália.

A comunidade evangélica de Barletta, com cerca de sessenta membros na época, foi fundada por Gaetano Giannini. No ano anterior ao massacre, esse missionário florentino havia chegado à cidade, onde também fundou uma escola. Houve uma rápida adesão e um considerável número de novos convertidos.

A hostilidade contra os evangélicos foi alimentada pelo clero católico local. Os evangélicos eram vistos como uma ameaça à sua autoridade e atribuiu-lhes as dificuldades enfrentadas pela população, incluindo uma epidemia de cólera e a fome.

Essa animosidade culminou em uma revolta popular, levando ao linchamento e à morte de seis evangélicos: Domenico Crosciolicchio, Ruggiero D’Agostino, Giuseppe del Curatolo, Annibale Salminci e Michele Verde. Tragicamente, um católico também foi confundido com um evangélico e perdeu a vida. No dia seguinte foram indiciadas 232 pessoas, resultando na prisão de 166 indivíduos e na emissão de mandados de prisão para os 66 restantes. Ao final, dez pessoas foram condenadas em relação ao massacre.

Declaração de Princípios da Igreja Cristã Livre na Itália

Em 1870 a Igreja Cristã Livre na Itália adotou essa seguinte declaração de Princípios. Esses artigos de fé refletem a teologia do risveglio e uma busca pela unidade entre evangélicos italianos. Certamente constituem um predecessor dos artigos de fé de Niagara Falls de 1927, com o qual compartilha muito de sua estrutura e terminologia.

Igreja Evangélica Livre Italiana

A Igreja Evangélica Livre Italiana (Chiesa Evangelica Libera Italiana), também chamada de Igreja Cristã Livre da Itália (Chiesa Cristiana Libera d’Italia), ou simplesmente Igreja Livre (Chiesa Libera), foi uma denominação evangélica parte do risveglio italiano no século XIX.

HISTÓRIA

Inicialmente foi formada em 1850 em Londres entre exilados italianos. Nos dois anos seguintes o crescimento dos evangélicos na Itália coincidiu com a expansão política do Reino de Piemonte e Sardenha junto de sua política de tolerância religiosa. Nesse ambiente, vários evangélicos italianos propuseram em Gênova em 1852 a ideia de unir todos os protestantes em uma única igreja evangélica na Itália.

Neste contexto no Risorgimento, esse movimento atraiu novos convertidos predominantemente de tendências anticlericais, liberais, democráticas e garibaldianas. Contudo, diferenças culturais (e linguística), políticas e eclesiológicas com os valdenses levaram a uma ruptura com eles em 1854. A tentativa de unir-se com as denominações históricas protestantes de origem estrangeira também não fruiu.

O movimento cresceu até antigir cerca de 60 comunidades em 1870, quando ocorreu a cisão com a ala “espiritual”, menos politizada e mais congregacionalista, que levou à formação das Igrejas Cristãs Livres dos Irmãos (Chiese cristiane libere dei fratelli). A partir de então, a Igreja Evangélica Livre passou a existir separadamente com 23 igrejas.

Entre seus principais líderes estavam o ex-padre católico barnabita Alessandro Gavazzi (1809-1889) e Bonaventura Mazzarella (1818-1882). Com a morte de seus principais líderes a denominação enfraqueceu. Então, em 1904, a igreja livre fundiu-se oficialmente com a Igreja Metodista Italiana. Vários de seus membros também foram absorvidos por batistas e outros grupos evangélicos.

DOUTRINA E PRÁTICA

A Igreja Evangélica Livre inspirava-se muito da teologia e organização das igrejas livres do réveil suíço. Como parte desse avivamento continental, valorizava a conversão pessoal por fé em Jesus Cristo, guia do Espírito Santo no culto e a rejeição de práticas tidas como não bíblicas das igrejas estabelecidas (especialmente do catolicismo romano). Possuía uma eclesiologia mista prebítero-congregacionalista, tendo como dirigentes anciãos e diáconos leigos.

Seus artigos de fé expressam muito do entendimento do risveglio italiano do século XIX, do qual há traços de continuidade no movimento pentecostal italiano e movimentos correlatos.

Seu caráter livre resulta dos princípios adotados:

  • Liberdade do sectarismo: rejeição de privilegiar-se uma forma ritual ou doutrinária em detrimento as outras. Antes, a liberdade de quem se identifica com o corpo de Cristo nas igrejas é formada por todos aqueles que n’Ele creem com pureza de coração.
  • Liberdade de autoritarismo: rejeição de uma organização unitária, porque temiam o formalismo e o autoritarismo quer personalista quer de um conselho ou comissão dirigente.
  • Liberdade de expressão: qualquer pessoa, de qualquer origem social, poderia propor um hino, levantar uma oração, ler e comentar uma passagem bíblica. A Santa Ceia foi compreendida como a festa da liberdade dos filhos de Deus. Ao ministério ordenado competia as funções de ensino, gestão e orientação.
  • Liberdade econômica: não haveria dependência financeira quer do Estado, quer denominações estrangeiras. Antes, a igrejas locais deveriam esperar da parte de Deus a resposta às suas necessidades, através da oração.

BIBLIOGRAFIA

Maselli, Domenico. Tra risveglio e millennio. Torino: Claudiana, 1974.

Spini, Giorgio. L’evangelo e il berretto frigio. Storia della Chiesa Cristiana Libera in Italia (1870-1904). Torino: Claudiana, 1971.

Spini, Giorgio. Risorgimento e protestanti. Milão: Il Saggiatore, 1989.

Piero Guicciardini

Conde Piero Guicciardini (1808 – 1886) político, filantropo, reformador e colecionador. Expoente do risveglio italiano, estava entre os fundadores das Igrejas livres mais tarde chamadas de Igreja dos Irmãos.

Nasceu em Florença. Petencia a uma das principais famílias da aristocracia toscana da qual o historiador e diplomata Francesco Guicciardini (1483-1540) foi um expoente.

Foi ativo na vida pública florentina. Envolveu-se nas causas da educação pública, reformas na agricultura, liberdades civis e inclusive religiosa. Convivendo entre expatriados evangélicos, entre eles experimentou uma conversão.

Por volta de 1836 recebeu uma Bíblia em italiano e frequentava as reuniões de oração com a evangélica suíça Matilde Calandrini, que havia fundado um asilo em Pisa. Ao redor dela, consolidou-se um grupo livre de culto, leitura bíblica e santa ceia, animado pelo risveglio.

Foi eleito vereador em Florença em 1850, mas no ano seguinte foi preso em razão de sua fé. O caso gerou grande controvérsia pública. Depois de seis meses de reclusão foi exilado, indo à Suíça, França e Inglaterra.

Nesse último país conheceu e congregava entre os evangélicos italianos organizados em uma igreja livre. Nesse grupo, pela adesão aos princípios eclesiológicos, incorporou-se ao movimento dos Irmãos de Plymouth. Nessa época revisou a Bíblia italiana na versão Diodati, a qual foi publicada pelas sociedades bíblicas.

Dada suas conexões políticas, conseguiu autorização dos liberais italianos engajados com o Rissorgimento para ter a liberdade de culto. Assim, passou a dar apoio aos evangelistas na Itália até que em 1859 pode retornar à Toscana. Entretanto, decepcionou-se com as promessas de liberdade do unificado Reino da Itália, passando a transitar entre lá e a Inglaterra, já que se tinha naturalizado britânico. Assumiu cargos eletivos novamente em Florença e passou a colecionar livros relevantes para o protestantismo italiano.

Grupos de evangélicos não afiliados viviam em tensão com os valdenses e outras denominações na Itália. Desse modo, progressivamente foram se afastando e formando congregações reunidas sob esses princípios:

  • Centralidade do sacrifício de Cristo;
  • Vivência radical do sacerdócio universal dos crentes, reservando aos ministros ordenados o papel de cooperadores (“operai”) em serviço da Igreja;
  • Realização da Santa Ceia possivelmente a cada reunião;
  • Rejeição de formalismo litúrgico;
  • Comunhão plena com qualquer pessoa nascida de novo.

Visto a adesão a esses princípios, Guicciardini compartilhava muito com o movimento dos Irmãos de Plymouth. No entanto, rejeitava a teologia dispensacionalista de John Nelson Darby bem como o crescente exclusivismo nesse movimento, entre os fratelli stretti.

Em 1865 foi reunida em Bolonha uma convenção das igrejas livres italianas. No entanto, já despontava um cisma. O ramo congregacionalista e enfocado em um evangelicalismo espiritual liderado por Guicciardini e T. P. Rossetti tornou-se a Chiese Cristiane dei Fratelli. Já o grupo mais politizado, com ênfase no anticatolicismo, liderado por Alessandro Gavazzi, Luigi Desanctis e Bonaventura Mazzarella formou a Chiesa Cristiana Libera – Chiesa Evangelica Italiana, existente entre 1870 e 1904, de organização presbiteriana.

BIBLIOGRAFIA

https://www.studivaldesi.org/dizionario/evan_det.php?evan_id=261

Maselli, D., ‘Piero Guiccardini. Il conte evangelico’, in D. Bognandi e M. Cignoni (eds.), Scelte di fede e di libertà. Profili di evangelici nell’Italia unita, Torino: Claudiana, 2011.

Ronco, D.D., ‘Per me vivere è Cristo’. La vita e l’opera del conte Piero Guicciardini nel centenario della sua morte, 1808-1886, Fondi: UCEB, 1986

Spini, G., Risorgimento e protestanti, Torino: Claudiana, 2008.