Kening

O kening é uma figura de linguagem, uma variação das metáforas, que consiste em uma frase com múltiplos substantivos para referir-se a algo notório.

Embora seja típico das literaturas germânicas, este recurso perifrástico aparece também na Bíblia. Ocorre em passagens como Gênesis 49:11, em que “sangue de uvas” é usado como termo para “vinho”. E em Jó 15:14, “nascido de mulher” refere-se a “homem”, bem como “qualquer um que mije contra a parede” . (1 Sm 25:22; 1 Re 16:11).

Robert Lowth

Robert Lowth (1710-1787) foi um erudito inglês conhecido por suas contribuições para a compreensão e interpretação da poesia hebraica, apontando o uso do paralelismo para dar o teor poético.

Lowth revolucionou o estudo da poesia bíblica com sua obra “De Sacra Poesi Hebræorum” (1753) e sua tradução de Isaías (1778). Essas obras influentes não apenas apresentaram as várias formas de paralelismo encontradas na poesia hebraica, mas também demonstraram como elas poderiam ser identificadas nos textos originais e replicadas em traduções precisas.

Lowth inspirou-se nos princípios estabelecidos por Azariah dei Rossi (1513-1577), um erudito judeu italiano. Ao aplicar esses princípios, Lowth forneceu aos leitores cristãos uma nova compreensão das estruturas poéticas presentes em uma parte significativa do Antigo Testamento. Esse avanço permitiu que os leitores apreciassem as qualidades estéticas e literárias das Escrituras hebraicas

Tratado Asclépio

O Asclépio, sigla Ascl., é um tratado hermético encontrado no Codex VI de Nag Hammadi, especificamente seu oitavo tratado. É também chamado de  Logos teleios, o Perfeito Sermão, o Perfeito Discurso, Apocalipse de Asclépio, Apocalipse de Hermes Trimegisto.

Datando do intervalo estimado de 250-300 d.C., consiste em um diálogo entre Hermes Trismegisto e seu pupilo Asclépio. Ascl. 24. alude a uma perseguição movida pelos cristãos aos egípcios não cristãos, algo que pode ser datado entre 353 e 391, denotando ser essa uma interpolação tardia.

Embora apenas fragmentos do original grego, intitulado Discurso Perfeito, tenham sido preservados, existe uma versão completa em latim, muitas vezes atribuída a Apuleio. A versão copta, no entanto, é considerada uma tradução bastante precisa do grego, visto que a versão latina foi expandida quando da sua transmissão medieval.

Trismegisto inicia o tratado discorrendo sobre o sigilo do mistério hermético, destacando a compreensão das realidades profundas pela piedosa minoria. Ele afirma que aqueles que abraçam o conhecimento divino enviado por Deus tornam-se bons, imortais e até superam os próprios deuses.

Em resposta à pergunta de Asclépio sobre os ídolos, segue-se uma seção com ensinamentos apocalípticos (Asclépio 21-29), com influências das tradições egípcia e judaica. Trismegisto enfoca o Egito como a “imagem do céu”, o “templo do mundo” e a “escola de religião”. O Egito parece ser um paraíso – terra de deuses e belos templos. Mas de repente, o país se transforma em inferno com morte, sangue e dor. Por meio de imagens vívidas, descreve os horrores e males iminentes que acontecerão no Egito e no mundo, culminando na restauração do cosmos e no nascimento de um novo mundo.

O tratado termina com Trismegisto descrevendo o destino final do indivíduo. A alma se separará do corpo, enfrentará o Grande Daimon que supervisiona e julga as almas humanas e receberá sua recompensa ou punição apropriada.

BIBLIOGRAFIA

Corpus Hermeticum, t. II, Traités XII-XVIII, Asclepius, text établi par A.D. Nock, cinquième tirage revue, Paris, Les Belles Lettres, 1992.

Sowińska, Agata.  The meaning of Egypt in the apocalypse Λόγος Τέλειος /Asclepius (NHC VI, 8: 70, 3 – 76, 1; Ascl. 24-27). Vox Patrum57, 551–573. https://doi.org/10.31743/vp.4152

Apocalipses Acadianos

Os apocalipses acadianos, também chamados de profecias acadianas, constituem um grupo de seis textos da antiga Mesopotâmia. Esses textos incluem o Texto A, o Texto B, a Profecia de Šulgi (Texto C), a Profecia de Marduk (Texto D), a Profecia de Uruk e a Profecia Dinástica.

A classificação sobre o gênero textual desses escritos cuneiformes é debatida. Ora chamados de apocalipses, ora de profecias, talvez sua classicação como literatura preditiva seja melhor. Embora cada texto tenha características distintas, compartilham alguns aspectos.

Possuem previsões pós-evento, vaticinia ex eventu, em que descrevem os reinados de sucessivos reis, retratando-os em termos positivos ou negativos. Assim, justificam ideias ou instituições existentes ou prever a queda futura de adversários desprezados. Os textos geralmente repetem que “um rei ou príncipe surgirá”, mas com anonimato acerca desse governante, permitindo várias interpretações. No entanto, é provável que o significado pretendido fosse compreensível pela audiência intencionada.

A sequência de reis culmina em um governante ideal. Esse rei justo triunfa sobre os inimigos, restaura templos e garante prosperidade para a terra.

Em termos de data e origem, os textos A-D são originários de arquivos neoassírios, com fragmentos do Texto B originários de Nippur. Embora aparentemente pertençam aos governantes do final do segundo milênio, seu conteúdo também se alinha com as preocupações do período neoassírio. Já a Profecia de Uruk e a Profecia Dinástica têm origens babilônicas tardias, refletindo a história política da era helenística.

As Profecias de Marduk e Šulgi, pertencentes à mesma série. Elas são escritas na primeira pessoa com um estilo que lembra as autobiografias reais, enquanto as outras são escritas na terceira pessoa. Em contraste com os textos babilônicos tardios, as composições neoassírias incorporam elementos mitológicos, particularmente evidentes nas profecias de Marduk e Šulgi, que são apresentadas como discursos proferidos diante da assembleia divina.

Esses textos preditivos literários posussem semelhanças com alguns oráculos messiânicos na Bíblia hebraica. Há paralelos com Jeremias 23:5–6 e Zacarias 6:12–13, especialmente a expectativa compartilhada de uma futura era áurea de bem-estar da terra, a derrota dos adversários e a preservação florescente dos templos sob o domínio de um rei justo.

BIBLIOGRAFIA

Nissinen, Martti. Prophetic Divination: Essays in Ancient Near Eastern Prophecy. Berlin, Boston: De Gruyter, 2019. https://doi.org/10.1515/9783110467765