Amônio de Alexandria

Amônio de Alexandria foi um filósofo e exegeta cristão do século III d.C., possível autor de uma harmonia dos Evangelhos e as chamadas “Seções Amônianas” (Ammonian Sections), um sistema que alinha e compara passagens paralelas dos quatro Evangelhos. Este método influenciou significativamente a exegese cristã e serviu como base para os Cânones de Eusébio, uma ferramenta que facilitava a navegação entre os Evangelhos sinóticos.

De acordo com Matthew Crawford, Amônio de Alexandria, mencionado neste contexto, não deve ser confundido com Amônio Sacas, o filósofo neoplatônico alexandrino. Este Amônio pode ter sido um professor de Orígenes, um dos grandes pensadores cristãos da Antiguidade. Crawford sugere que seria um erudito de formação peripatética que eventualmente se converteu ao cristianismo. Supostamente, Amônio produziu uma sinopse dos primeiros Evangelhos, organizando textos de Mateus, Marcos, Lucas e João em colunas paralelas, com o Evangelho de Mateus servindo como referência principal. Este trabalho, embora perdido, teria influenciado tanto a interpretação bíblica de Orígenes quanto os métodos exegéticos posteriores.

BIBLIOGRAFIA

Matthew R. Crawford, “Ammonius of Alexandria, Eusebius of Caesarea, and the Origins of Gospels Scholarship,” New Testament Studies 61.1 (2015): 1-29.

Diálogo de Jasão e Papisco

O Diálogo de Jasão e Papisco é uma obra apologética cristã perdida.

O diálogo, em grego, descrevia o diálogo de um judeu convertido, Jasão, e um judeu alexandrino, Papisco. O texto é mencionado pela primeira vez, criticamente, no Relato Verdadeiro do escritor anticristão Celso (c. 178 dC).

Uma escólia fragmentada de Máximo, o Confessor, observa que
Clemente de Alexandria considerava Lucas como o autor deste diálogo.

A obra faz parte dos textos apologéticos em formato de diálogos, tal como o Diálogo de Trifão de Justino Mártir, Diálogo de Atanásio e Zaqueu e o Diálogo de Timóteo e Áquila.

Ágrafa de Jesus

A ágrafa é uma coleção de ditos e ensinamentos atribuídos a Jesus que não são encontrados nos evangelhos canônicos.

Essas ágrafas são encontrados em vários textos cristãos primitivos, incluindo outros livros do Novo Testamento, a literatura patrística, o Evangelho de Tomé e os Atos Apócrifos dos Apóstolos, as logias e as variante textuais dos evangelhos canônicos.

  • Atos 20:35: “recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber.”
  • Atos de Filipe 34: “Pois o Senhor me disse: Se não fizerdes o inferior no superior e o esquerdo no direito, não entrareis no meu reino.”
  • Primeiro Clemente , 13: “Pois assim Ele falou: ‘Sede misericordiosos, para que possais obter misericórdia; perdoai, para que vos seja perdoado; conforme julgardes, assim sereis julgados; conforme sois benignos, assim vos será mostrado o bem; com a medida com que medirdes, com a mesma será medido para vós.'”
  • Policarpo de Esmirna, Epístola aos Filipenses, 2, “mas lembrando-se do que o Senhor disse em Seu ensino: ‘Não julgueis, para que não sejais julgados; perdoai, e ser-vos-á perdoado; sede misericordiosos, para que podeis obter misericórdia; com a medida que medirdes, será medido para vós novamente;’ e mais uma vez: ‘Bem-aventurados os pobres e os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino de Deus.'”
  • Papias de Hierápolis, As Exposições da Palavra do Senhor, 4: “Como os anciãos que viram João, o discípulo do Senhor, lembraram-se de terem ouvido dele como o Senhor ensinou a respeito daqueles tempos, e disse: ‘Dias virão em que as videiras crescerão, tendo cada uma dez mil ramos, e em cada ramo dez mil galhos, e em cada galho verdadeiro dez mil brotos, e em cada um dos brotos dez mil cachos, e em cada um dos cachos dez mil uvas, e cada uva quando prensada dará cinco e vinte metros de vinho. E quando qualquer um dos santos agarrar um cacho, outro gritará: ‘Sou um cacho melhor, pegue-me; bendiga o Senhor através de mim’. Da mesma maneira, [Ele disse] que um grão de trigo produziria dez mil espigas e que cada espiga teria dez mil grãos e cada grão produziria dez libras de farinha clara, pura e fina; e que maçãs, sementes e grama produziriam em proporções semelhantes; e que todos os animais, alimentando-se apenas dos produtos da terra, se tornariam pacíficos e harmoniosos, e estariam em perfeita sujeição ao homem.'”
  • Justino Mártir, Diálogo com Trifão, 47: “Portanto também nosso Senhor Jesus Cristo disse: Em tudo o que eu te apreender, eu te julgarei.”
  • Clemente de Alexandria , Stromata , 1, 24, 158: “Pedi, ele diz pelas grandes coisas, e as pequenas vos serão acrescentadas.”
  • Clemente de Alexandria, Stromata , 1, 28, 177: “Com razão, portanto, a Escritura também em seu desejo de nos tornar tais dialéticos, nos exorta: Sejamos cambistas aprovados, desaprovando algumas coisas, mas retendo o que é bom.”
  • Clemente de Alexandria, Stromata , 5, 10, 64: “Pois não relutantemente, diz ele, o Senhor declarou em um certo evangelho: Meu mistério é para mim e para os filhos de minha casa.”
  • Orígenes, Homilia sobre Jeremias, 20, 3: “Mas o próprio Salvador diz: Quem está perto de mim está perto do fogo; quem está longe de mim, está longe do reino.”

Há também ágrafas oriundas de leituras variantes nos manuscritos dos evangelhos canônicos. As mais notórias são: Mateus 20:28 no Codex D; Marcos 9:49 no Codex D e outros; Marcos 16:14 no Codex W; Marcos 16:15–18 em manuscritos gregos posteriores; Lucas 6:4 no Codex D; Lucas 9:55b, 56a em Κ Γ Θ e outros manuscritos; Lucas 22:27–28 no Codex D; João 8:7, 10–11 no Codex D e manuscritos gregos posteriores.

BIBLIOGRAFIA

Resch, Alfred. Agrapha. Aussercanonische Schriftfragmente. Gesammelt und untersucht und in zweiter völlig neu bearbeiteter durch alttestamentliche Agrapha vermehrter Auflage hrsg. von Alfred Resch. Mit fünf Registern. (Texte und Untersuchungen zur Geschichte der altchristlichen Literatur 30.3-4, Neue Folge 15.3-4) Leipzig, 1906 [1a ed 1889].

Hexapla

Edição crítica do Antigo Testamento grego em seis colunas paralelas feita por Orígenes (c. 185-253/254 d.C.). Sua compilação foi iniciada em Alexandria e concluída em Cesareia no século III a.C.

A primeira coluna continha o texto em hebraico, a segunda sua transliteração para o grego, as quatro colunas seguintes as traduções para o grego de Aquila, Símaco, Septuaginta (LXX) e Teodotion.

No texto da LXX, com base no texto hebraico, Orígenes marcava as omissões com um asterisco e as interpolações com um obelo. O sinal de metobelo indicava fim de um perícope.

A obra provavelmente só existiu em um único exemplar de 6.500 páginas (3.000 folhas de pergaminho) em 15 volumes. Teria sido arquivada na Biblioteca Cristã de Cesareia até o século VII. Dessa obra só restaram fragmentos.

Uma versão abreviada também teria sido feita por Orígenas, a Tetrapla. O texto da quinta coluna, a recensão de Orígenes, foi copiado. Sobrevivem dois palimpsestos (Cairo e Milão). Sobreviveu uma tradução siríaca muito literal, a siro-hexapla, feita entre 613 e 617 pelo bispo Paulo de Tella, exceto pelo Pentateuco, com notas marginais com as versões de Aquila, Símaco e Teodotion.

Este trabalho de filologia deu início aos estudos textuais sistemáticos da Bíblia e influenciou recensões posteriores.

Bíblia

Coleção de escritos sagrados considerados como Palavra de Deus escrita nas religiões abraâmicas. Trata-se de uma biblioteca circulante e viva, fixada em vários suportes, assumindo caráter de autoridade para a vida pessoal e cultual no Cristianismo.

Chamada internamente de as Escrituras, esta coletânea ganhou a atual designação de Bíblia (em grego βιβλία) por João Crisóstomo (século IV d.C.).

O termo Bíblia é o plural das palavras gregas bíblos, que significa “livro”, “papiro” e biblion, “livrinho”. Vale notar que livro na antiguidade referia-se a qualquer texto de tamanho variável, diferente dos atuais livros, convencionalmente entendido como um texto de tamanho significativo, geralmente acima de 50 páginas. Originalmente o termo grego he byblos, ou o menos correto ho biblos, se referia à camada interna da casca e parte do caule do papiro. Embora fosse um produto egípcios, a distribuição de papiro via Biblos,  a Gebal de Sl 83:7, Ez 27:9, uma antiga cidade portuária no atual Líbano, provavelmente influenciou a adoção do termo pelos gregos.

O termo aparece utilizado desde as Antigas Versões Gregas em Daniel 9:2 para referir-se aos livros (tais Bibliois) dos profetas. Já em 1 Macabeus 1:56 e 2 Macabeus 2:13-15 falam de coleções de “a biblia da lei” e “a biblia sobre os reis e os profetas”. No equivalente a Josué 8:30-35 na Septuaginta, (LXX Js 9:2) Josué constrói um altar em Siquém onde copia o biblos “Livro da Lei de Moisés”. Josefo refere-se aos 22 rolos (biblia) que constituem o cânon hebraico (Contra Apion 1.37).

Para referir-se ao Novo Testamento a forma plural Ta Biblia aparece nas obras de Clemente de Alexandria. E definitivamente nas obras de Orígenes.

Jerônimo, em suas traduções latinas, usa o termo biblioteca para descrever a coleção de escritos sagrados judeus e cristãos.

No final do século IV, João Crisóstomo refere-se ao Antigo e ao Novo Testamento como Ta Biblia em suas Homilias sobre a Epístola aos Colossenses e faz alusão nas Homilias sobre Mateus.

Com o tempo, biblia tornou-se um título comum para as sagradas escrituras dos cristãos em latim e outras línguas europeias.

Os judeus preferiram os termos Tanakh ou Miqra.

Um catálogo de uma biblioteca francesa do século IX fala explicitamente das Escrituras canônicas já como Bíblia.

Esta antologia foi canonizada, isto é, reconhecida como Escrituras em um longo processo. A partir do século IV passou a ser reproduzida entre cristãos como uma coletânea em poucos ou um só volume. Com a invenção da imprensa, popularizou-se sua edição em um só volume.

Sua mensagem é diversa, polifônica, mas coesa e coerente como em um mosaico, o qual não é algo fragmentário ou parcial, mas capaz de transmitir efetivamente sua comunicação revelada.

Seus livros no cânon protestante constituem 66 títulos.