Anticristo

Anticristo, ἀντίχριστος – antíchristos, significa contra Cristo ou no lugar de Cristo. Aparece como “alguém que se opõe a Cristo” (1 João 2:18, 1 João 2:22; 1 João 4:3 ; 2 João 1:7) e “os que se opõem a Cristo” (1 João 2:18) para tipicar a negação da messianidade e encarnação de Jesus Cristo. Nessas passagens, o anticristo refere-se a uma posição oposta na parte de uma disputa interna entre os cristãos obre a natureza de Cristo.

O termo Anticristo não aparece no livro do Apocalipse. No entanto, a partir do século IV, o Anticristo passou a denotar os símbolos do mal do livro de Apocalipse: o Dragão (o mal cósmico supremo), Satanás; a Primeira Besta; a Segunda Besta; as postetades sacerdotais e governamentais. Movimentos populares no final da Idade Média e muitas pessoas durante a Reforma associaram o termo ao papado.

A noção de uma figura anticrística encontra sua primeira expressão no livro apocalíptico de Daniel. Ali prevê a vinda de um “rei do norte” (Daniel 11:40), que derrotará algumas nações e poupará outras, perseguirá os santos e matará muitos. No Templo Judeu será colocada “a abominação desoladora” (Daniel 11:31), e ele se “engrandecerá sobre todo deus” (Daniel 11:36). A figura histórica por trás dessa descrição é associada a Antíoco IV Epifânio, o rei da Síria que capturou Jerusalém em 167 a.C. e profanou o Templo ao oferecer o sacrifício de um porco em um altar dedicado a Zeus (“a abominação da desolação”, Macabeus 1:54). Em sua tentativa de helenizar os judeus, Antíoco proibiu suas práticas religiosas e ordenou que cópias da Lei fossem queimadas, eventos detalhados nos livros apócrifos de 1 Macabeus (1:10ss) e por Flávio Josefo em Antiguidades Judaicas (XII.5.4). Em um Comentário sobre Daniel escrito por volta de 408 d.C., Jerônimo explica que Daniel e os eventos foram “tipicamente prefigurados sob Antíoco Epifânio, de modo que este rei abominável que perseguiu o povo de Deus prefigura o Anticristo, que há de perseguir o povo de Cristo. E assim, muitos de nosso ponto de vista pensam que Domício Nero foi o Anticristo por causa de sua notável selvageria e depravação” (Daniel 11:27-30; Nero nasceu Lúcio Domício Enobarbo).  

Atributos do Anticristo também foram aplicados a Pompeu Magno, que profanou o Templo ao entrar no Santo dos Santos após sua conquista de Jerusalém em 63 a.C. Ele é chamado de “o dragão” nos pseudoepígrafos Salmos de Salomão (2:29), outro epíteto aplicado ao Anticristo (assim como foi a Nero no Oráculo Sibilino V). E Calígula relembra a Abominação da Desolação, quando, no apocalipse, o Anticristo será entronizado no Templo. Em 40 d.C., foi relatado que judeus haviam demolido uma estátua de Calígula erguida em sua homenagem, que ordenou que sua imagem, “uma estátua colossal toda dourada” (Filo, Sobre a Embaixada a Gaio, XXX.203), fosse colocada no próprio Templo, com a execução a cargo de Petrônio, o governador da Síria. Houve súplicas pungentes para que a ordem fosse revogada, e Petrônio pediu que fosse anulada, enquanto atrasava ao máximo a conclusão da estátua. Os artistas foram advertidos “a levar bastante tempo, para tornar seu trabalho perfeito, já que coisas feitas com pressa são muitas vezes inferiores, mas coisas feitas com grande cuidado e habilidade exigem um longo tempo” (XXX.246). Em um banquete suntuoso para o imperador, Agripa interveio e conseguiu que Calígula revogasse a ordem. Quando a carta de Petrônio chegou, Calígula, enfurecido com a presunção do governador, ordenou seu suicídio. A ordem não foi recebida, no entanto, antes da notícia da própria morte de Calígula (Josefo, Antiguidades Judaicas, XVIII.8; Guerra dos Judeus, II.10; Sobre a Embaixada a Gaio, XXX-XLII).

VEJA TAMBÉM

Anglicanismo

O anglicanismo é um ramo da cristandade que reivindica a continuidade das tradições históricas do cristianismo surgido na Inglaterra e, de lá, para o mundo. Com a separação da Igreja da Inglaterra de outras autoridades (como o papado) durante a Reforma, essa denominação ganhou características próprias, sendo chamada de via média entre o catolicismo e o protestantismo.

As bases doutrinárias são os credos Apostólico e Niceno, os 39 Artigos de Religião, a leitura da Bíblia em vernáculo, a celebração do batismo e da Eucaristia, bem como o tríplice ofício eclesiástico de diácono, presbítero e bispo. O Livro de Oração Comum ou equivalente unifica a espiritualidade e liturgia anglicanas. Mantém uma visão positiva do direito canônico. A Conferência de Lambeth, um encontro decenial das igrejas anglicanas globais, é um marco unificador. Permite uma amplitude de diversidade teológica e litúrgica ao redor do mundo, resultando em diversas vertentes anglicanas — tradicionalistas da Igreja Alta, evangelicals da Igreja Baixa, latitudinários da Igreja Ampla, além de carismáticos, reformados, anglo-católicos e outros.

O monarca inglês mantém o ofício de Defensor da Fé, como líder secular da Igreja da Inglaterra. O Arcebispo da Cantuária mantém uma posição de primeiro entre seus pares, líderes de outras igrejas nacionais da Comunhão Anglicana. Em alguns países são chamados de epicospais ou episcopalianos. No Brasil, estão presentes com a Igreja Episcopal Anglicana. Em Portugal estão organizados na Igreja Católica Evangélica Lusitana.

Há vertentes anglicanas independentes que observam alguns elementos denominacionais anglicanos.

BIBLIOGRAFIA

Afonso, José António, et al. “A Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica (ILCAE)–das encruzilhadas sociojurídicas à afirmação de uma identidade religiosa, por José António Afonso.” Laicidade, Religiões e Educação na Europa do Sul no Século XX (2013): 71.

Calvani, Carlos Eduardo B. “Anglicanismo no Brasil”. Revista USP, São Paulo, n.67, p. 36-47, setembro/novembro 2005.

Chapman, Mark. Anglicanism: A very short introduction. Vol. 149. Oxford University Press, 2006.

Ross, Cathy (org.). Missão que amplia a vida: perspectivas globais da comunhão anglicana. Editora IEAB.

Anátema

Anátema é um termo que denota maldição porque foi separado. Deriva do grego ἀνάθεμα, anáthema, que significa “uma oferenda” ou “qualquer coisa dedicada”.

No Antigo Testamento, a Septuaginta referia-se tanto aos objetos irremissíveis consagrados ao uso divino (Corbã) quanto aos destinados à destruição em nome do Senhor, como os inimigos e suas armas durante as guerras religiosas (herem). Portanto, tais objetos seriam maldidos para a apropriação pessoal. Cf. Lv 27:28.

No Novo Testamento o termo aparece seis vezes (1 Co 12:3; 16:22; Gl 1:8,9; Rm 9:3; At 23:14), indicando um desfavor divino. O termo “anátema” no Novo Testamento mantém essa ideia de separação e consagração absoluta, mas geralmente com um sentido de exclusão da comunidade dos fiéis. Paulo, por exemplo, usa a palavra para se referir àqueles que pregam um evangelho diferente (Gálatas 1:8-9) ou que não amam o Senhor (1 Coríntios 16:22). Nesses casos, o anátema representa uma forma de excomunhão espiritual, uma separação definitiva da comunhão com Deus e com a Igreja.

Mais tarde, na história do cristianismo o termo ganhou conotação de amaldiçoamento formal.