Eli

Eli, em hebraico אֵלִי “Yahweh é meu Deus” ou “exaltado”, foi juiz de Israel (1Sm 4:18) e um sacerdote em Siló, onde a Arca estava localizada durante o período dos juízes.

Ao observar Ana orando pensou que estava bêbada, mas depois declarou que sua oração seria cumprida. Samuel, o filho dessa promessa, foi mais tarde levado a Siló e posteriormente sucedeu a Eli, cujos filhos, Hofni e Fineias, eram ambos ímpios.

A ascendência de Eli não está registrada e a transição da linhagem aarônica de Eleazar para a casa de Eli constitui uma dificuldade bíblica. Seus dois filhos têm nomes egípcios, um deles idêntico ao nome do filho de Eleazar, Fineias. Em 1 Sm 2:27 menciona casa de Eli havia sido designada para o sacerdócio enquanto Israel ainda estava no Egito, mas essa passagem não aparece no Pentateuco. Uma tradição diz que Uzi (1 Cr 6:4-6), da linha de Eleazar, seria o sumo-sacerdote e segundo a tradição Samaritana após a morte de Josué, o sacerdote Eli deixou o tabernáculo do Monte Gerizim, e construiu outro em Siló (1 Sm 1: 1-3; 2: 12-17). Uma tradição posterior traça Eli a Itamar filho de Aarão (Josefo, Antiguidades Judaicas 5:361; cf. 1 Cr 24:3) enquanto outra diz que era descendente de Eleazar filho de Aarão (4 Ed 1: 2-3; cf. Êx 6:23, 25).

Após a morte de Eli e seus filhos, a aldeia de Nobe local que seus possíveis descendentes se estabeleceram. De acordo com 1 Sm 22:20-23, o único sobrevivente da chacina que Saul fez nos sacerdotes de Nobe foi Abiatar, filho de Aimeleque, filho de Aitube, um descendente de Eli que foi deposto por Salomão (1 Sm 14:3; cf. 1 Re 2:27).

Cânone de Ebed Jesu

Mar Ebed Jesu (Abd Yeshua, ou Abdisho bar Berika) foi o metropolita de Nisibis e Armênia da Igreja do Oriente. Era de origem siríaca. Depois de ser bispo de Sigara (Sinjar) por cinco anos foi feito bispo de Soba ou Nisibis em 1290 d.C.

Erudito, em c. 1298, publicou um cânone bíblico — uma lista de livros válidos para a vida em Igreja.

Com a força de Tua ajuda, ó Senhor, e auxiliado pelas orações de todos os eminentemente justos e da Mãe de grande nome, escrevo um excelente tratado, no qual enumerarei as Divinas Escrituras e todos os escritos eclesiásticos de tempos antigos e modernos. Além disso, registrarei os nomes dos autores dos diferentes livros e os assuntos de que tratam; e, com ajuda de Deus, começo com Moisés.

Moisés escreveu a Lei em cinco livros, a saber: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Depois disso, segue o livro de Josué, filho de Num; Juízes; Samuel; o livro dos Reis; as Crônicas; os Salmos de Davi; os Provérbios de Salomão; Eclesiastes; o Cântico dos Cânticos; a Grande Sabedoria [Sabedoria de Salomão]; a Sabedoria do filho de Siraque; Jó; Isaías; Oseias; Joel; Amós; Obadias; Jonas; Miqueias; Naum; Habacuque; Sofonias; Ageu; Zacarias; Malaquias; Jeremias; Ezequiel; Daniel; Judite; Ester; Susana; Esdras; Daniel o Menor [adições de Daniel?] ; a Epístola de Baruque; as Tradições dos Anciãos [Mishna? ou Pirkei Avot?]; Josefo, o historiador; o livro de Provérbios; a Narrativa dos filhos de Salomona; os Macabeus; um relato do rei Herodes; o livro da destruição da última Jerusalém por Tito; o livro de Asenate a esposa de José, o filho de Jacó, o justo; e o livro de Tobias e Tobit, o israelita.

Tendo enumerado os livros do Antigo Testamento, iremos agora registrar os do Novo Testamento. Primeiro, Mateus escreveu na Palestina, na língua hebraica. Depois dele vem Marcos, que escreveu em latim em Roma. Lucas, em Alexandria, falava e escrevia em grego. João também escreveu seu Evangelho em grego em Éfeso. Os Atos dos Apóstolos foram escritos por Lucas a Teófilo; e as três epístolas de Tiago, Pedro e João foram escritas em todas as línguas e chamadas de católicas. Além dessas, há quatorze epístolas do grande apóstolo Paulo, a saber, a epístola aos Romanos, escrita em Corinto; a Primeira Epístola aos Coríntios, escrita em Éfeso e enviada pelas mãos de Timóteo; a segunda aos Coríntios, escrita de Filipos da Macedônia, o grande, e enviada pelas mãos de Tito; a Epístola aos Gálatas, escrita em Roma e enviada pela mesma pessoa; a Epístola aos Efésios, também escrita em Roma e enviada por Tíquico; a Epístola aos Filipenses, escrita no mesmo lugar e enviada pelas mãos de Epafrodito; a Epístola aos Colossenses, escrita em Roma e enviada por Tíquico, o verdadeiro discípulo; a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, escrita em Atenas e enviada pelas mãos de Timóteo; a Segunda aos Tessalonicenses, escrita em Laodiceia da Pisídia, e enviada também por Timóteo; a Primeira Epístola a Timóteo, também escrita de Laodiceia da Pisídia, e enviada pelas mãos de Lucas; a Segunda a Timóteo, escrita de Roma e enviada pelas mãos de Lucas, o Médico e Evangelista; a Epístola a Tito, escrita em Nicápolis, e enviada pelas mãos de Epafrodito; a Epístola a Filemom, escrita em Roma e enviada por Onésimo, escravo de Filemom; a Epístola aos Hebreus, escrita na Itália e enviada pelas mãos de Timóteo, o filho espiritual. E os [Harmonia dos] Evangelhos, chamados de Diatesseron, compilados por um homem de Alexandria chamado Amonis, que é Taciano.

Vale salientar que o conceito de cânone bíblico nas igrejas orientais é diferente de sua concepção ocidental. Entre cristãos ortodoxos do mundo oriental há livros elencados como dignos para doutrina e liturgia bem como outros livros inspirados, mas reservados à leitura privada. O cânone de Ebed-Jesu deve ser compreendido nesse caráter amplo.

BIBLIOGRAFIA

Abdisho’ bar Brika (Ebed-Jesu). Marganitha. Em Metrical Catalogue of Syriac Writers. G.P. Badger, The Nestorians and their rituals (1852) vol. 2, pp.361-379.

Eúde

Eúde (אֵהוּד ‘ehûd em hebraico), filho de Gera, da tribo de Benjamim. Seu ciclo narrativo está registrado em Juízes 3:12-29, 4:1, onde conta como libertou os israelitas da opressão de Eglom, rei moabita.

O significado de seu nome é obscuro. Uma interpretação é que seria um hipocorístico, para Abihud (אֲבִיהוּד’ ăvîhûd) ou deriva-se de אֵי ‘ê “onde?” e הוֹד hôd “esplendor”. Assim, significaria “Meu pai é esplendor” ou “onde está o esplendor?”.

Depois de 18 anos de opressão, Eúde compareceu diante de Eglom, rei moabita, para pagar-lhe tributo. Depois de pedir um aparte, sacou a espada escondida com sua mão esquerda e a cravou em Eglom. Algumas leituras, como a Vulgata, diz que Eglom era muito obeso e o punhal sumiu na gordura. Eúde escapou e reuniu com os israelitas para lutarem contra os moabitas.

Embora não haja o título no Texto Massorético (a Septuginta fiz que “julgou”), Eúde é tradicionalmente contado como juiz.

BIBLIOGRAFIA

Aitken, J. K., “Fat Eglon,” in Studies on the Text and Versions of the Hebrew Bible in Honour of Robert Gordon, ed. Geoffrey Khan and Diana Lipton. Leiden: Brill, 2012, 141-154.

Ausloos, H. The Story of Ehud and Eglon in Judges 3:12-30: A Literary Pearl as a Theological Stumbling Block. Old Testament Essays, 30, 2, (2017): 225-239.

Gunn, M. Judges: Blackwell Bible Commentaries. Blackwell, 2005, pp. 38-49.

Halpern, B. “The Assassination of Eglon: The First Locked-Room Murder Mystery,” Bible Review 4 (1988): 35.

Sasson, J. Judges 1–12. Anchor Yale Bible 6D. New Haven: YUP, 2014.

Stone, L. “Eglon’s Belly and Ehud’s Blade: A Reconsideration,” JBL 128 (2009): 649-663.

Wong, G. TK. “Ehud and Joab: separated at birth?.” Vetus Testamentum 56, no. 3 (2006): 399-412.

PERÍCOPE ANOTADO

Estoicismo

Em grego Στωικοί. Os estoicos eram uma vertente filosófica influente durante os períodos helenista e romano que enfatizava a harmonia e resignação diante da natureza.

Os estoicos são mencionados em Atos 17:18, junto com os epicureus. Em At 17:28, Paulo cita um poeta estóico, Arato: “Pois nós realmente somos sua geração”.

Zenão (342-270 aC) foi o fundador do estoicismo. Seria originalmente um fenício que por acaso naufragou em Atenas. Por um tempo, conviveu com os ascéticos cínicos e depois passou a ensinar sob um pórtico (stoa). Seu discípulo Cleantes, apesar de respeitável, possuía pouca habilidade filosófica. Depois dele, Crisipo assumiu a direção da escola de 232 a 206 aC. Reorganizada, a escola filosófica funcionaria ainda por quatro séculos. Entre os romanos, Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio foram autores estoicos amplamente difundidos.

A escola estoica enfatizava a linguagem e lógica (Logos) como meios de apreensão racional da natureza (Physis). Em sua ética, argumentavam que o comportamento adequado resultaria da resignação ao destino (fatum).

A filosofia e o currículo da educação estoica eram divididos em três partes: lógica, física e ética.

Rejeitando bases empíricas, pois as percepções humanas são imperfeitas, os estoicos buscam a verdade no exame racional de conceitos pela lógica, preferindo um raciocínio dedutivo. Como a lógica proposicional era intimamente ligada à linguagem, os estoicos empregaram exaustivamente as disciplinas da gramática, retórica e dialética para fundamentar seus raciocínios.

Essa preocupação com a linguagem gerou algumas ramificações. Nessa escola há algumas pressuposições epistemológicas e de filosofia de linguagem que são distintivamente fundamentais no estoicismo, como a de que existe uma distinção clara entre ideias e matéria. A comunicação entre ambos é mediada pela linguagem. Por esse motivo, gramáticos e retóricos estoicos passaram a ser procurados pelo mundo do Mediterrâneo.

Outro pressuposto é que seria pela linguagem proposicional, ao invés dos objetos ou fenômenos em si, que se transmitiria e mediaria o Logos. Assim, criou-se uma confiança em uma epistemologia objetivista de correspondência entre objetos e seus signos, conforme expressos por proposições.

Mediante o conceito de Physis (natureza) os estoicos viam o mundo em dualismo (agente e paciente). Visto que a Razão (Logos) penetra todas as coisas, todo evento dependeria de uma lei universal de Destino ou Providência. Portanto, pressupunha que a Physis seria o parâmetro para se buscar harmonia, pois seria inerentemente boa. Essa posição notoriamente gerou o problema do Mal. Consequentemente, a teodiceia estoica nunca foi satisfatória ou uniforme.

Como na lógica proposicional empregada pelos estoicos reside a dicotomia entre verdadeiro ou falso, muitos de seus preceitos éticos acabaram sendo direcionados por dilemas. Por essa razão, o determinismo tornou-se rampante entre os estoicos. Epicteto dizia que a humanidade estava em uma peça de teatro cujos papéis e desfecho seriam já pré-determinados. O próprio universo estaria destinado a uma conflagração no qual a Physis existiria em perfeita harmonia.

Em ética, os estóicos defendiam a responsabilidade na vontade. Por esse motivo, rejeitaram a legitimidade do prazer e enfatizaram a virtude do caráter e uma vida de aceitação das adversidades. Em vez de evitar persistentemente a dor, consideraram que valia a pena correr riscos mesmo que isso causasse desprazeres.

A ética e o determinismo afetavam a escatologia estoica. Apesar da oposição entre alma e corpo, os estoicos esperavam que a alma sobrevivesse à destruição do corpo. Portanto, o mais válido seria aceitar as injustiças e sofrimentos nesta vida e esperar uma restauração da harmonia e da justiça na existência futura.

A verdadeira conquista da virtude é difícil. A physis humana é cruel e tola. Uns poucos passariam por uma conversão repentina e instantânea e compreenderiam aPhysis pela providência do Logos. Infelizmente, poucas pessoas se converteriam. Mesmo assim, isso só aconteceria tarde após uma vida árdua de incompreensão do Destino.

BÍBLIA

Fora as partes já mencionadas em At 17, pouco a Bíblia fala diretamente acerca do estoicismo. Contudo, era uma filosofia pervasiva no mundo do Novo Testamento.

Os fariseus praticamente assimilaram, traduziram e adaptaram o estoicismo para sua doutrina. Sua concepção de Torá passa a ser congruente com Logos e Physis. A valorização da ética, a importância da vontade e da alma, os debates, as questões da retórica e gramática do texto da Lei, a aceitação do sofrimento, são elementos estoicos encontrados entre os fariseus.

Há uma notável familiaridade de Paulo com o estoicismo. Sua formação farisaica, seus termos, lista de vícios e virtudes, elenco de vicissitudes sofrida, argumentos com diatribes parecem substanciar essa associação. As pseudoepígrafas correspondências de Paulo e Sêneca indicam que na Antiguidade muitos viram um paralelismo entre os pensamentos de ambos. Contudo, o exame sistemático tanto dos textos paulinos e do contexto não dão suporte conclusivo à tese de que Paulo teria sido influenciado pelo estoicismo.

Outro trecho supostamente com conotações estoicas é 2 Pedro 3:10-12, paralela à doutrina escatológica estoica da ecpirose, a destruição do mundo natural pelo fogo. Contudo, a concepção estoica de natureza está ausente da Bíblia. Ademais, a intervenção ativa e súbita do poder divino, equiparado ao Dilúvio, contrasta com uma progressão natural da natureza conforme o Destino estoico parecia planejar a conflagração universal.

A recepção do pensamento estoico no cristianismo ocidental não deve ser subestimada. Os escritos de Epicteto, Marco Aurélio e Sêneca foram cuidadosamente e abundantemente copiados ao longo de textos bíblicos durante a Idade Média. A ética de aceitação do sofrimento foi vista como virtude. Zwínglio e Calvino foram estudiosos do estoicismo. Muito da teologia ocidental foi fundada em termos e ideais estoicos. A reinterpretação de Sêneca (e Paulo) por meios do estoicismo renascentista levaram a uma extrapolação interpretativa dos escritos paulinos de modo muitas vezes eisegéticos.

A religiosidade popular ocidental também funda-se em vários aspectos do estoicismo: a crença de que tudo tem um propósito, a existência de um Destino, a busca pela harmonia com a intrinsecamente benévola Natureza. Esses são alguns elementos presentes nas cosmovisões de muitas sociedades influenciadas pelas culturas do Ocidente.

SAIBA MAIS

Alves, Leonardo. “Estoicismo: uma vida alinhada” Ensaios e Notas, 2022.

Tuomas Rasimus, Troels Engberg-Pedersen, Ismo Dunderberg (eds.). Stoicism in Early Christianity. Baker Academic, 2010.