Eúde

Eúde (אֵהוּד ‘ehûd em hebraico) libertou os israelitas da opressão de Eglom, rei moabita.

O significado de seu nome é obscuro. Uma interpretação é que seria um hipocorístico, para Abihud (אֲבִיהוּד’ ăvîhûd) ou deriva-se de אֵי ‘ê “onde?” e הוֹד hôd “esplendor”. Assim, significaria “Meu pai é esplendor” ou “onde está o esplendor?”.

Eúde, filho de Gera, da tribo de Benjamim. Seu ciclo narrativo está registrado em Juízes 3:12-29, 4:1.

Depois de 18 anos de opressão, Eúde compareceu diante de Eglom, rei moabita, para pagar-lhe tributo. Depois de pedir um aparte, sacou a espada escondida com sua mão esquerda e a cravou em Eglom. Algumas leituras, como a Vulgata, diz que Eglom era muito obeso e o punhal sumiu na gordura. Eúde escapou e reuniu com os israelitas para lutarem contra os moabitas.

Embora não haja o título no Texto Massorético (a Septuginta fiz que “julgou”), Eúde é tradicionalmente contado como juiz.

BIBLIOGRAFIA

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Wong, G. TK. “Ehud and Joab: separated at birth?.” Vetus Testamentum 56, no. 3 (2006): 399-412.

PERÍCOPE ANOTADO

Moabe, Moabitas

Os moabitas, juntos dos amonitas, eram povos vizinhos, aparentados e ocasionais inimigos dos antigos israelitas. Viviam na região que hoje é a Jordânia.

O território de Moabe localizava-se ao leste do Mar Morto, diante do deserto da Judeia. Trata-se de um plano árido até subir abruptamente cerca de 1.200 m de altitude em uma planície mais fértil que se estende por cerca de 24 quilômetros da escarpa até o deserto da Arábia. Seus vizinhos ao norte eram os amonitas e ao sul os edomitas, enquanto que a leste estava o deserto do Norte da Arábia.

Pouco se conhece dos moabitas. As fontes assírias, egípcias e a Bíblia constituem as principais peças para reconstruir sua história. Sua língua, o moabita, era um mero variante do contínuo linguístico cananeu e é atestada pela Estela de Mesa ou a Pedra Moabita.

De acordo com a narrativa bíblica, a origem de Moabe seria o filho de Ló nascido de um relacionamento incestuoso com sua filha mais velha (Gn 19:30-38). Mais tarde, na fase final do êxodo, o rei moabita Balaque contratou o profeta Balaão para amaldiçoar os israelitas (Nm 22-24). Israel acampou nas planícies de Moabe antes de entrar na terra prometida (Nm 35:1; Dt 1:5), quando ocorreu o incidente de Baal-Peor (Nm 25).

Já no período dos juízes, o rei moabita Eglom oprimiu os israelitas, mas foi assassinado por Eúde (Jz 3:12-30). A moabita Rute, também ambientada no período dos juízes, é incorporada ao povo de Judá. Saul e Davi lutaram com os moabitas, conquistando-os (1Sm 14:47; 2Sm 8:2). No período dos reis, os moabitas são mencionados apenas ocasionalmente (2 Re 3; 2 Re13:20; 2Re 24:2; Is 15-16; Jr 48; Sofonias 2:8-11).

Moabe é mencionado pela primeira vez no século XIII a.C. por Ramsés II, assim como referências a Dibom e Butartu.

Os dados arqueológicos identificam três fases da sociedade moabita.


A primeira, durante o período Ferro I, consistia em uma coleção de pequenos povoados do final do 2o Milênio, baseando em economias familiares e comunitárias de subsistência agro-pastoril. Com o controle do wadi de Árnom (Mujib), a região de Moabe viu um aumento dramático no povoamento tanto ao norte quanto ao sul do wadi devido à sedentarização dos povos nômades.

No final do século IX já no começo da Idade do Ferro II, surgem uma chefatura mais centralizada. Isso é condizente com a ameaça do expansionismo da monarquia israelita.

Como sugerem Is 15-16 e Jr 48, no final do século VIII a.C. ocorreu expansão da fronteira norte de Moabe até o estado amonita em Jalul. A Estela de Mesa, uma inscrição de um dos primeiros reis de Moabe, descreve como ele enfrentou os israelitas, aumentou seu território, estabeleceu uma nova capital e centro de culto em Dibom.

O Império Neo-Assírio passou a cobrar tributos dos moabitas e a dominar como suserano a partir do século VIII a.C. Mesmo assim, a produção pastoralista e têxtil cresceram. Já na fase final da Idade do Ferro (Império Babilônico), os moabitas desaparecem como sociedade distinta e sua região é repovoada por nômades árabes.

Estela de Mesa

A Estela de Mesa (Messá ou Mesha) também chamada de Pedra Moabita.

Esta rocha de basalto com uma inscrição em moabita — uma variante da língua cananeia da qual o hebraico faz parte — registra a revolta do rei moabita Mesa a dinastia dos omritas depois da morte de Acabe.

A estala foi erigida na dedicação do templo do deus moabita, Quemós, na cidadela de Qeriḥo. Vale notar que descreve a destruição de templos israelitas em Atarote e Nebo bem como o saque de objetos de culto a Yahweh. A inscrição também atesta o costume de colocar toda a população de um território conquistado sob um intérdito (ḥērem) de uma divindade nacional.

A estela teria sido feita por volta de 840 a.C. e foi encontrada em Díbom, a antiga capital de Moabe. Hoje se encontra no Museu do Louvre, em Paris. A estela foi adquirida pelo missionário Frederick Augustus Klein (1827–1903) — alemão com cidadania francesa — da Sociedade Missionária da Igreja Britânica na Jordânia. Hoje se encontra no Museu do Louvre, em Paris.

Contexto de 2 Reis 3:4-27

Então, Mesa, rei dos moabitas, era contratador de gado e pagava ao rei de Israel cem mil cordeiros, e cem mil carneiros com a sua lã. Sucedeu, porém, que, morrendo Acabe, se revoltou o rei dos moabitas contra o rei de Israel. Por isso, Jorão, ao mesmo tempo, saiu de Samaria e fez revista de todo o Israel. E foi e enviou a Josafá, rei de Judá, dizendo: O rei dos moabitas se revoltou contra mim; irás tu comigo à guerra contra os moabitas? E disse ele: Subirei e eu serei como tu, o meu povo, como o teu povo, e os meus cavalos, como os teus cavalos. E ele disse: Por que caminho subiremos? Então disse ele: Pelo caminho do deserto de Edom.

E partiu o rei de Israel, e o rei de Judá, e o rei de Edom; e andaram rodeando com uma marcha de sete dias, e o exército e o gado que os seguia não tinham água. 10 Então, disse o rei de Israel: Ah! Que o Senhor chamou a estes três reis, para os entregar nas mãos dos moabitas. 11 E disse Josafá: Não  aqui algum profeta do Senhor, para que consultemos ao Senhor por ele? Então, respondeu um dos servos do rei de Israel e disse: Aqui está Eliseu, filho de Safate, que deitava água sobre as mãos de Elias. 12 E disse Josafá: Está com ele a palavra do Senhor. Então, o rei de Israel, e Josafá, e o rei de Edom desceram a ele.

13 Mas Eliseu disse ao rei de Israel: Que tenho eu contigo? Vai aos profetas de teu pai e aos profetas de tua mãe. Porém o rei de Israel lhe disse: Não, porque o Senhor chamou estes três reis para os entregar nas mãos dos moabitas. 14 E disse Eliseu: Vive o Senhor dos Exércitos, em cuja presença estou, que, se eu não respeitasse a presença de Josafá, rei de Judá, não olharia para ti nem te veria. 15 Ora, pois, trazei-me um tangedor.

E sucedeu que, tangendo o tangedor, veio sobre ele a mão do Senhor. 16 E disse: Assim diz o Senhor: Fazei neste vale muitas covas. 17 Porque assim diz o Senhor: Não vereis vento e não vereis chuva; todavia, este vale se encherá de tanta água, que bebereis vós e o vosso gado e os vossos animais. 18 ainda isto é pouco aos olhos do Senhor; também entregará ele os moabitas nas vossas mãos. 19 E ferireis todas as cidades fortes, e todas as cidades escolhidas, e todas as boas árvores cortareis, e tapareis todas as fontes de água, e danificareis com pedras todos os bons campos. 20 E sucedeu que, pela manhã, oferecendo-se a oferta de manjares, eis que vinham as águas pelo caminho de Edom; e a terra se encheu de água.

21 Ouvindo, pois, todos os moabitas que os reis tinham subido para pelejarem contra eles, convocaram a todos os que cingiam cinto e daí para cima e puseram-se às fronteiras. 22 E, levantando-se de madrugada, e saindo o sol sobre as águas, viram os moabitas defronte deles as águas vermelhas como sangue. 23 E disseram: Isto é sangue; certamente que os reis se destruíram à espada e se mataram um ao outro! Agora, pois, à presa, moabitas! 

24 Porém, chegando eles ao arraial de Israel, os israelitas se levantaram, e feriram os moabitas, os quais fugiram diante deles; e ainda os feriram nas suas terras, ferindo ali também os moabitas. 25 E arrasaram as cidades, e cada um lançou a sua pedra em todos os bons campos, e os entulharam, e taparam todas as fontes de águas, e cortaram todas as boas árvores, até que  em Quir-Haresete deixaram ficar as pedras, mas os fundeiros a cercaram e a feriram. 

26 Mas, vendo o rei dos moabitas que a peleja prevalecia contra ele, tomou consigo setecentos homens que arrancavam espada, para romperem contra o rei de Edom, porém não puderam. 27 Então, tomou a seu filho primogênito, que havia de reinar em seu lugar, e o ofereceu em holocausto sobre o muro; pelo que houve grande indignação em Israel; por isso, retiraram-se dele e voltaram para a sua terra.

Texto da Pedra Moabita

Sou Mesa, filho de Quemós-gade, rei de Moabe, o dibonita. Meu pai reinou trinta anos sobre Moabe e eu reinei depois de meu pai.

E eu construí este santuário para Quemós em Qeriho, um santuário de salvação, pois ele me salvou de todos os agressores e me fez olhar para todos os meus inimigos com desprezo.

Onri foi rei de Israel e oprimiu Moabe durante muitos dias, e Quemós ficou irado com suas agressões. Seu filho o sucedeu, e ele também disse: Eu oprimirei Moabe. Nos meus dias ele disse: Vamos, e eu verei o meu desejo sobre ele e sua casa, e Israel disse: Eu irei destruí-la para sempre. Onri tomou a terra de Madeba e a ocupou em seus dias, e nos dias de seu filho, quarenta anos. E Quemós teve misericórdia disso no meu tempo.

E eu construí Baal-Meon e fiz ali a vala, e construí Quiriataim. E os homens de Gade habitaram no país de Atarote desde os tempos antigos, e o rei de Israel fortificou Atarote.

Ataquei a muralha e a capturei, e matei todos os guerreiros da cidade para o bem de Quemós e Moabe, e retirei dela todo o despojo, e o ofereci a Quemós em Quiriate. E coloquei ali os homens de Siran e os homens de Mocrate.

E Quemós me disse: Vai, toma Nebo de Israel. E eu fui de noite e lutei contra ele desde o raiar do dia até o meio-dia, e eu o tomei. E eu matei todos os sete mil homens, mas não matei as mulheres e donzelas, pois eu as devotei a Astar-Quemós; e tomei dela os vasos de Yahweh, e os ofereci diante de Quemós.

E o rei de Israel fortificou Jaaz, e a ocupou, quando ele fez guerra contra mim, e Quemós o expulsou de diante de mim. E eu tomei de Moabe duzentos homens ao todo, e os coloquei em Jaaz, e tomei para anexá-la para Dibom.

Construí Qeriho, a parede da floresta e a parede da Colina. Eu construí seus portões e construí suas torres.

Eu construí o palácio do rei e fiz as prisões para os criminosos dentro da muralha. E não havia poços no interior da parede em Qeriho. E eu disse a todo o povo: ‘Faça para cada um de vocês um poço em sua casa.’ E eu cavei o fosso para Qeriho com os homens escolhidos de Israel.

Eu construí Aroer e fiz a estrada através do Árnon. Eu tomei Bete-Bamote porque foi destruída. Construí Bezer porque foi abatido pelos homens armados de Daybon, pois Daybon agora era leal; e eu reinei de Bicran, que acrescentei à minha terra. E eu construí Bete-Gamul, e Bete-Diblataim, e Bete Baal-Meon, e coloquei lá os pobres da terra. E quanto a Horonaim, os homens de Edom habitaram nela, na descendência dos antigos.

E Quemós me disse: Desce, faz guerra a Horonaim e toma-o. E eu o ataquei, E eu o peguei, pois Quemós o restaurou em meus dias. Por isso fiz …. … ano … e eu ….

BIBLIOGRAFIA

COS 2.23 / ANET 320–321