Robert Lowth

Robert Lowth (1710-1787) foi um erudito inglês conhecido por suas contribuições para a compreensão e interpretação da poesia hebraica, apontando o uso do paralelismo para dar o teor poético.

Lowth revolucionou o estudo da poesia bíblica com sua obra “De Sacra Poesi Hebræorum” (1753) e sua tradução de Isaías (1778). Essas obras influentes não apenas apresentaram as várias formas de paralelismo encontradas na poesia hebraica, mas também demonstraram como elas poderiam ser identificadas nos textos originais e replicadas em traduções precisas.

Lowth inspirou-se nos princípios estabelecidos por Azariah dei Rossi (1513-1577), um erudito judeu italiano. Ao aplicar esses princípios, Lowth forneceu aos leitores cristãos uma nova compreensão das estruturas poéticas presentes em uma parte significativa do Antigo Testamento. Esse avanço permitiu que os leitores apreciassem as qualidades estéticas e literárias das Escrituras hebraicas

Problema da linguagem teológica

O problema teológico da linguagem é como a linguagem humana pode expressar ou descrever adequadamente Deus, dadas suas limitações inerentes e a natureza transcendente do divino. Essa questão insere-se tanto em epistemologia e na filosofia da linguagem religiosa.

Três abordagens oferecem respostas a esse problema: a univocidade, equivocidade e analogia. Elas têm sido assuntos de extensa discussão desde filósofos gregos e pensadores escolásticos até filósofos da linguagem contemporâneos, bem como cientistas da cognição e linguistas.

A univocidade refere-se à proposição de que uma palavra possui um potencial referencial. Isto é, há uma correspondência segura entre a palavra e o objeto que a denota. Às vezes, a univocidade tem sido intimamente associada ao isomorfismo, uma crença que afirma que as palavras refletem com total precisão a realidade que elas expressam.

No polo contrário, a equivocidade apresenta uma perspectiva que desafia a noção de significado fixo atribuído às palavras, antecipando potenciais mal-entendidos em todas as formas de comunicação.

No meio do caminho entre essas duas perspectivas, Tomás de Aquino introduziu a teoria da analogia na linguagem. Essa teoria postula que a fala pode ser entendida proporcionalmente ao discernir tanto as semelhanças quanto as diferenças entre um objeto e sua representação. Assim, ainda que limitada, a linguagem é adequada para comunicar coisas divinas.

No discurso teológico contemporâneo, há quatro campos distintos continuam a empregar inconscientemente combinações dessas abordagens.

O literalismo, muitas vezes considerado como uma ideologia da linguagem, prioriza as funções semânticas e referenciais da linguagem sobre seus aspectos pragmáticos, performativos ou dependentes do contexto (Coleman, 2006). Os defensores dessa perspectiva veem a linguagem e as proposições como o meio ideal de articular discussões sobre Deus. A univocidade considera uma relação íntima entre linguagem e realidade, sem maiores problemas ou limitações para a completa comunicação mediante a linguagem humana. A crença na univocidade por vezes recebe o nome de literalismo. Contudo, não se trata de uma leitura literal, pois muitos que se identificam como leitores literais apelarão para a linguagem simbólica ou contextualizada quando encontram passagens.

Uma abordagem alternativa é o raciocínio analógico, que reconhece as limitações inerentes da linguagem humana ao descrever o divino. É guiado por vários pressupostos:

  • A linguagem é confinada pela condição humana decaída e pelas terminologias e restrições contextuais do mundo cultural.
  • A linguagem emprega relações análogas, símbolos e figuras de linguagem.
  • A linguagem permanece adequada, apesar de suas limitações, para comunicar a revelação de modo humanamente compreensível.
  • A linguagem nunca pode capturar exaustivamente toda a essência de um assunto.
  • Somente Jesus, como o Logos (a Palavra de Deus), espelhou perfeitamente a realidade divina.

A linguagem analógica é semelhante ao emprego de vários mapas para representar os mesmos territórios, com alguns mapas servindo a propósitos específicos, enquanto nenhum pode abranger totalmente todos os aspectos do território.

Uma posição minoritária, é a teologia negativa. É encontrada entre adeptos da deconstrução de Derrida, místicos, na teologia apofáttica e nas vertentes niilistas. Postula que a linguagem seja totalmente incapaz de comunicar as coisas divinas. Assim, há uma dependência em outras formas epistemológicas (experiências, por exemplo) para uma plena compreensão da realidade divina.

Por fim, a teoria da inefabilidade desafia a suposição tradicional de que a linguagem seja o único veículo para obter o conhecimento e o significado. Embora reconheça a capacidade comunicativa de transmissão do conhecimento pela linguagem, admite a existência de um domínio de experiência ou compreensão que transcende os limites da linguagem. Considera o conhecimento tácito, o raciocínio contingencial, formas não verbais de comunicação, conhecimentos relacional e a posteriori. Essa perspectiva pode ser encontrada em várias tradições filosóficas e religiosas e se cruza com tópicos como misticismo, ceticismo religioso e as limitações da cognição humana.

BIBLIOGRAFIA

Ashworth, E. Jennifer and Domenic D’Ettore, “Medieval Theories of Analogy”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2021 Edition), Edward N. Zalta (ed.), https://plato.stanford.edu/archives/win2021/entries/analogy-medieval/.

Coleman, Simon. “When silence isn’t golden : Charismatic speech and the limits of literalism”. In Matthew Engelke & Matt Tomlinson (eds.), The Limits of Meaning: Case Studies in the Anthropology of Christianity. Berghahn Books, 2006 pp. 39–63.

Rayment-Pickard, Hugh. Impossible God: Derrida’s Theology.  Taylor & Francis, 2018.

Raimundo Lúlio

Raimundo Lúlio (c. 1232–c. 1315/16), conhecido em catalão como Ramon Llull, foi um filósofo, teólogo, poeta, missionário, apologista cristão e ex-cavaleiro nascido no Reino de Maiorca. Reconhecido como uma figura central na literatura catalã, Lúlio é considerado um precursor da teoria da computação e influenciou diversas áreas do conhecimento.

Nascido em uma família abastada em Palma de Maiorca, Lúlio levou uma vida cortesã em sua juventude. Por volta dos 30 anos, teve uma experiência religiosa profunda que o levou à conversão e ao compromisso com a propagação do cristianismo, especialmente entre muçulmanos no Norte da África. Ele aprendeu árabe, viajou amplamente e se envolveu em diálogos inter-religiosos, buscando construir pontes entre diferentes tradições religiosas.

Lúlio desenvolveu o Ars Magna (Grande Arte), um sistema que combinava lógica, filosofia e teologia para demonstrar a verdade do cristianismo. Utilizando diagramas e símbolos, o Ars Magna explorava combinações de atributos divinos e conceitos, sendo considerado uma contribuição inicial à computação moderna. O uso de métodos combinatórios e simbólicos nesse sistema influenciou pensadores posteriores, como Gottfried Leibniz. Além de seu aspecto lógico, os escritos de Lúlio também comunicam reflexões místicas.

Lúlio escreveu em catalão, latim e árabe. Discorria sobre temas filosóficos, teológicos e literários. Sua obra inclui tratados, poesia, romances e um manual sobre cavalaria. Ele foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da língua catalã como meio literário.

Como missionário, Lúlio empreendeu várias jornadas ao Norte da África, enfrentando riscos e oposição. Defendia a criação de escolas de línguas para apoiar os esforços missionários e dedicou sua vida a promover o diálogo entre religiões. Sua dedicação à missão cristã culminou em sua morte, possivelmente como mártir em Túnis.

O legado de Raimundo Lúlio abrange filosofia, teologia, literatura e ciência. Ele é celebrado como um dos pilares da cultura catalã e um pioneiro no diálogo inter-religioso. Seu Ars Magna continua sendo estudado por sua relevância histórica e pelas perspectivas que oferece sobre o conhecimento e a computação.

Litotes

Litotes é uma figura retórica que menospreza, desdenha ou diz algo negativo para afirmar uma verdade.
“Depois de quem saiu o rei de Israel? A quem você persegue? Um cachorro morto? Uma pulga?” (1 Samuel 4:14).
“Eis que as nações são como uma gota num balde, e são contadas como o pequeno pó na balança; eis que levanta as ilhas como uma coisa muito pequena” (Isaías 40:15).
“Sou judeu de Tarso, da Cilícia, cidadão de cidade humilde” (Atos 21:39).

Literatura Apocalíptica

A literatura apocalíptica é a um gênero literário que surgiu em tempos de angústia e incerteza, muitas vezes em tempos de opressão política ou religiosa. Apresenta um estilo de escrita altamente simbólico e visionário, com foco nas revelações divinas sobre o futuro, a ordem cósmica e o triunfo final do bem sobre o mal. A literatura apocalíptica visa fornecer esperança, encorajamento e um senso de intervenção divina em tempos de crise.

Embora a literatura apocalíptica compartilhe semelhanças com os escritos proféticos, existem diferenças distintas. As mensagens proféticas geralmente abordavam as preocupações imediatas de seu público e forneciam orientação para o presente, enquanto os escritos apocalípticos se concentravam em eventos escatológicos de longo prazo e no triunfo final de Deus. Os escritos proféticos abordavam principalmente a nação de Israel e seus líderes, enquanto a literatura apocalíptica geralmente tinha uma perspectiva cósmica protagonista individual que recebia revelações divinas.

Existem trechos apocalípticos, como Daniel 7. Essa passagem é uma visão de quatro bestas que representam reinos terrestres, seguido pelo surgimento do “Filho do Homem” que recebe um reino eterno de Deus. Um exemplo no Novo Testamento é Mateus 24, no qual Jesus discorre sobre os sinais do fim dos tempos, incluindo a destruição do Templo.

A literatura apocalíptica surgiu durante tempos de turbulência e perseguição, particularmente durante os períodos helenístico e romano. Esses escritos surgiram em resposta à opressão política, à dominação estrangeira, ao sincretismo religioso e ao desejo de intervenção divina. Os textos refletiam as ansiedades e esperanças do povo judeu, fornecendo uma estrutura para entender suas dificuldades atuais e vislumbrar uma futura restauração.

O auge da literatura apocalíptica foi no Período do Segundo Templo e os anos imediatos à sua destruição, com vários exemplos:

  • 1 Enoque: Uma coleção de textos apocalípticos atribuídos a Enoque, descrevendo visões dos reinos celestiais, o julgamento vindouro e o destino dos justos e dos iníquos.
  • 2 Esdras (também conhecido como 4 Esdras): Uma obra apocalíptica judaica que aborda questões teológicas sobre teodicéia, o destino de Israel e a natureza do mal.
  • Apocalipse de João: O único livro apocalíptico canônico do Novo Testamento.
  • Apocalipse de Pedro: Uma obra pseudoepígrafa.

BIBLIOGRAFIA

Collins, John J.  The Apocalyptic Imagination: An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature, 2nd ed. Eerdmans, 1998).

Nickelsburg, George W. E. Resurrection, Immortality, and Eternal Life in Intertestamental Judaism and Early Christianity, 2nd ed. Harvard University Press, 2006.