Eclética

Eclética, Eclecte, Eklektē (Ἐκλεκτῇ) ou a Senhora Eleita refere-se à destinatária da Segunda Epístola de João.

Durante séculos, a identidade dessa figura foi debatida entre uma interpretação metafórica, que a via como uma personificação de uma igreja local, e uma interpretação literal, que a identificava como uma mulher cristã específica.

Estudos recentes de Lincoln H. Blumell sugerem que a omissão de duas letras repetidas em manuscritos antigos transformou o nome próprio Ecletica em um adjetivo comum. Enquanto as edições contemporâneas do Novo Testamento imprimem o texto como eklektē kyria (“à senhora eleita”), evidências em papiros e manuscritos como o Codex Sinaiticus e o Codex Alexandrinus indicam que a leitura original seria Eklektē tē kyria (“à senhora Eclecte”). No Codex Sinaiticus, por exemplo, a nota final da carta identifica-a como a “Segunda de João para Eclecte”, reforçando a tese de uma destinatária individual e não de uma metáfora eclesiástica.

A análise onomástica confirma que Ecletica era um nome feminino comum no período greco-romano, aparecendo em inscrições de nomes e sendo mais comum do que outros nomes de mulheres mencionados no Novo Testamento. Historicamente, Clemente de Alexandria já afirmava que a carta fora escrita a uma “mulher babilônica chamada Eclecte”, embora ele interpretasse o nome também como um símbolo da eleição da igreja.

A restauração do endereço original da carta para “à senhora Ecletica” alinha-se perfeitamente com a estrutura de 3 João, endereçada a Gaio, e com os padrões de correspondência pessoal da Antiguidade.

Essa identificação resgata uma figura de liderança feminina no cristianismo primitivo. Ecletica provavelmente era uma influente líder de uma igreja doméstica, responsável por hospedar a comunidade e protegê-la de falsos profetas, conforme o tema central da epístola. A estrutura da carta a ela endereçada espelha a Terceira Epístola de João, enviada a Gaio, o que reforça o caráter pessoal e histórico do documento em vez de uma ficção literária.

BIBLIOGRAFIA

Blumell, Lincoln H. Lady Eclecte: The Lost Woman of the New Testament. Minneapolis: Fortress Press, 2025.

Brown, Raymond E. The Epistles of John: A New Translation with Introduction and Commentary. Anchor Bible 30. New York: Doubleday, 1982.

Bultmann, Rudolf. The Johannine Epistles: A Commentary on the Johannine Epistles. Traduzido por R. P. O’Hara. Hermeneia Commentary Series. Philadelphia: Fortress, 1973.

Klauck, Hans-Josef. Der zweite und dritte Johannesbrief. Evangelisch-katholischer Kommentar zum Neuen Testament XXIII/2. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1992.

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Lieu, Judith M. . The Second and Third Epistles of John: History and Background. Studies of the New Testament and Its World. Edinburgh: T&T Clark, 1986.

Metzger, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament. 2ª ed. Stuttgart: German Bible Society, 1994.

Westcott, Brooke F. The Epistles of St. John: The Greek Text with Notes and Essays. Londres: Macmillan, 1883.

Gaio

Caio ou Gaio. Nome de várias pessoas no Novo Testamento. Talvez sejam a mesma pessoa ou, ao menos, duas.

  1. Gaio companheiro de viagem de Paulo, junto com Aristarco, na Macedônia (At 19:29).
  2. Gaio, residente de Derbe, um dos sete companheiros de viagem de Paulo que esperavam por ele em Trôade (At 20:4).
  3. Gaio, residente de Corinto. Uma das poucas pessoas lá, além de Crispo e a família de Estéfanas, que foram batizados por Paulo ( 1 Co 1:14).
  4. Gaio anfitrião de Paulo quando ele escreveu a epístola aos Romanos (Rm 16:23).
  5. Gaio de Éfeso, a quem se dirige a terceira epístola de João (3 Jo 1).

Anticristo

Anticristo, ἀντίχριστος – antíchristos, significa contra Cristo ou no lugar de Cristo. Aparece como “alguém que se opõe a Cristo” (1 João 2:18, 1 João 2:22; 1 João 4:3 ; 2 João 1:7) e “os que se opõem a Cristo” (1 João 2:18) para tipicar a negação da messianidade e encarnação de Jesus Cristo. Nessas passagens, o anticristo refere-se a uma posição oposta na parte de uma disputa interna entre os cristãos obre a natureza de Cristo.

O termo Anticristo não aparece no livro do Apocalipse. No entanto, a partir do século IV, o Anticristo passou a denotar os símbolos do mal do livro de Apocalipse: o Dragão (o mal cósmico supremo), Satanás; a Primeira Besta; a Segunda Besta; as postetades sacerdotais e governamentais. Movimentos populares no final da Idade Média e muitas pessoas durante a Reforma associaram o termo ao papado.

A noção de uma figura anticrística encontra sua primeira expressão no livro apocalíptico de Daniel. Ali prevê a vinda de um “rei do norte” (Daniel 11:40), que derrotará algumas nações e poupará outras, perseguirá os santos e matará muitos. No Templo Judeu será colocada “a abominação desoladora” (Daniel 11:31), e ele se “engrandecerá sobre todo deus” (Daniel 11:36). A figura histórica por trás dessa descrição é associada a Antíoco IV Epifânio, o rei da Síria que capturou Jerusalém em 167 a.C. e profanou o Templo ao oferecer o sacrifício de um porco em um altar dedicado a Zeus (“a abominação da desolação”, Macabeus 1:54). Em sua tentativa de helenizar os judeus, Antíoco proibiu suas práticas religiosas e ordenou que cópias da Lei fossem queimadas, eventos detalhados nos livros apócrifos de 1 Macabeus (1:10ss) e por Flávio Josefo em Antiguidades Judaicas (XII.5.4). Em um Comentário sobre Daniel escrito por volta de 408 d.C., Jerônimo explica que Daniel e os eventos foram “tipicamente prefigurados sob Antíoco Epifânio, de modo que este rei abominável que perseguiu o povo de Deus prefigura o Anticristo, que há de perseguir o povo de Cristo. E assim, muitos de nosso ponto de vista pensam que Domício Nero foi o Anticristo por causa de sua notável selvageria e depravação” (Daniel 11:27-30; Nero nasceu Lúcio Domício Enobarbo).  

Atributos do Anticristo também foram aplicados a Pompeu Magno, que profanou o Templo ao entrar no Santo dos Santos após sua conquista de Jerusalém em 63 a.C. Ele é chamado de “o dragão” nos pseudoepígrafos Salmos de Salomão (2:29), outro epíteto aplicado ao Anticristo (assim como foi a Nero no Oráculo Sibilino V). E Calígula relembra a Abominação da Desolação, quando, no apocalipse, o Anticristo será entronizado no Templo. Em 40 d.C., foi relatado que judeus haviam demolido uma estátua de Calígula erguida em sua homenagem, que ordenou que sua imagem, “uma estátua colossal toda dourada” (Filo, Sobre a Embaixada a Gaio, XXX.203), fosse colocada no próprio Templo, com a execução a cargo de Petrônio, o governador da Síria. Houve súplicas pungentes para que a ordem fosse revogada, e Petrônio pediu que fosse anulada, enquanto atrasava ao máximo a conclusão da estátua. Os artistas foram advertidos “a levar bastante tempo, para tornar seu trabalho perfeito, já que coisas feitas com pressa são muitas vezes inferiores, mas coisas feitas com grande cuidado e habilidade exigem um longo tempo” (XXX.246). Em um banquete suntuoso para o imperador, Agripa interveio e conseguiu que Calígula revogasse a ordem. Quando a carta de Petrônio chegou, Calígula, enfurecido com a presunção do governador, ordenou seu suicídio. A ordem não foi recebida, no entanto, antes da notícia da própria morte de Calígula (Josefo, Antiguidades Judaicas, XVIII.8; Guerra dos Judeus, II.10; Sobre a Embaixada a Gaio, XXX-XLII).

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