Jean-Frédéric Nardin

Jean-Frederic Nardin (1687-1728) foi um pastor luterano de Montbéliard e contribuiu significativamente para o desenvolvimento do Pietismo. Discípulo de Philipp Jacob Spener, o trabalho de Nardin fez importantes contribuições ao movimento pietista e ele foi um precursor do Avivamento Evangelical.

A perspectiva teológica de Nardin foi moldada pelo Pietismo, um movimento que enfatizava a importância da fé pessoal, da devoção sincera e da vida moral. Ele buscou enriquecer as vidas espirituais de seus congregantes por meio de pregações apaixonadas e de uma ênfase na ética cristã prática.

Os sermões de Nardin foram amplamente publicados e circulados, refletindo sua dedicação aos ensinamentos do Evangelho e sua preocupação pastoral com o bem-estar moral e espiritual de sua comunidade. Seus sermões foram projetados para inspirar os crentes a aprofundar seu relacionamento pessoal com Deus e a viver sua fé com sinceridade e compromisso.

Central para a teologia de Nardin estava o papel das Escrituras como a base da fé e prática cristãs. Ele advogava a Bíblia como um princípio orientador para os crentes, incentivando um retorno aos ensinamentos bíblicos como meio de renovação e crescimento espiritual.

Nardin enfatizava a importância da comunhão e da comunidade cristã no desenvolvimento espiritual. Para ele, os laços comunitários fortes eram essenciais para nutrir a fé e fornecer apoio, refletindo um princípio central do movimento pietista que buscava construir uma comunidade religiosa solidária e engajada.

A influência de Nardin se estendeu aos estágios iniciais do Avivamento Evangélico Continental, um movimento destinado a revitalizar o cristianismo por meio da piedade pessoal e do engajamento social. Seu trabalho lançou as bases importantes para esse avivamento, que buscava transformar a vida cotidiana por meio de uma ênfase renovada na fé pessoal e na conduta moral.

Laestadianismo

Laestadianismo é um movimento avivalista nas igrejas luteranas da Noruega, Suécia e Finlândia, nascido de influências pietistas e morávias no século XIX, principalmente entre comunidades sami. Parte do movimento constitui denominações independentes nos EUA e Canadá.

História

O movimento deve o nome e foi iniciado pelo pastor e botânico luterano sueco Lars Levi Laestadius ou Læstadius (1800-1861). Educado na Universidade de Uppsala, Læstadius foi ordenado ministro em 1825. Foi enviado como missionário entre os sami (povo antigamente conhecidos como “lapões”) no norte da Suécia, onde entre 1826 e 1849 foi pastor na paróquia de Karesuando. Laestadius era filho de mãe sami, a qual também era devota participante de conventículos de oração e leitura bíblica.

Quando Laestadius chegou a Karesuando encontrou pobreza e abuso de álcool era generalizado entre os sami. Começou a pregar sobre moralidade e arrependimento. A vida de Laestadius mudou quando encontrou com Milla Clemensdotter ou Maria da Lapônia (1812–1892) em 1844. Essa jovem mulher sami, também membro de um conventículo de “leitores”, testemunhou sua experiência de paz encontrada quando ela compreendeu a graça de Deus.

A partir do encontro com Maria, Laestadius experimentou uma transformação espiritual. Seguiu-se um grande avivamento entre os sami de todos os países do círculo polar ártico. Em 1853, um bispo da Igreja da Suécia (luterana) decidiu que deveria ter dois serviços de culto a cada paróquia onde tivesse laestadianos: um para os paroquianos regulares e outros para os avivados.

Após a morte de Læstadius, o movimento foi liderado por Juhani Raattamaa (1811-1899). Após a morte de Raattamaa, o renascimento se dividiu em várias vertentes: velhos laestadianos, primogênitos, laestadianos ocidentais,

Os laestadianos sempre permaneceram membros das igrejas estatais na Noruega, Suécia e Finlândia, mas realizam suas próprias reuniões e muitos grupos possuem suas próprias casas de oração. Na América do Norte constituem denominações separadas, sendo a principal a Igreja Apostólica Luterana do Primogênito.

Doutrina e práxis

A Bíblia é a fonte primária de fé. Outras fontes materiais incluem as obras de Martinho Lutero, os sermões e escritos de Laestadius, bem como seus hinários, principalmente o Sions sånger.

Suas reuniões são solenes. Ocorrem êxtases e lamentos (frequementemente associados com a glossolalia) especialmente no momento da Ceia do Senhor. Há uma grande ênfase no arrependimento do pecado. Membros confessam seus pecados, normalmente em lágimas e emoções, então um dos anciãos pronuncia o perdão dos pecados pela imposição de mãos. A pregação pode ser extemporânea, com grande ênfase no pecado e perdão, bem como na leituras de sermões de Lutero e Laestadius. Tradicionalmente se cumprimentam com a frase ” a paz de Deus “. Realizam, quando possível suas próprias Ceias. Em alguns grupos tradicionais as mulheres cobrem a cabeça com um véu. Tradicionalmente, membros mais idosos das famílias ou seus anciãos batizam as crianças nas casas. Como outros movimentos avivalistas nórdicos, os maiores eventos são as reuniões campais de verão.

Buscam viver uma vida de santificação em separado da sociedade secular. Assim, muitos grupos rejeitam música mundana, dança, cinema. televisão, diversões públicas e contraceptivos. O isolamento (e o exclusivismo de alguns grupos) levam a serem vistos com suspeição pela ampla sociedade.

São liderados por anciãos leigos, mas há laestadianos ordenados ministros pelas igrejas estatais luteranas dos países nórdicos. São estimados em cerca de 500 mil membros, a maior parte deles na Finlândia. Suportam missões em diversas nações do globo, como Equador, Estônia, Alemanha, Grã-Bretanha, Hungria, Islândia, Quênia, Letônia, Rússia, Espanha, Suíça, Áustria e Togo.

BIBLIOGRAFIA

Alves, Lenardo. Notas de pesquisa de campo. Laestadianska församlingen i Uppsala (Knivsta). 2018.

Kristiansen, Roald. Samisk religion og læstadianisme: kristen tro og livstolkning. Fagbokforlag, 2005.

Heith, Anne. Laestadius and Laestadianism in the contested field of cultural heritage: a study of contemporary Sámi and Tornedalian texts. Umeå University & The Royal Skyttean Society, 2018.

Lie, Geir. História do Cristianismo. Santorini, 2020.

http://www.bibliotecalaestadiana.se

Dorothea Trudel

Dorothea Trudel (1813- 1862) pietista luterana suíça. Iniciou um movimento de cura pela fé em Männedorf, no Lago Zurique e restabeleceu a prática de unção dos enfermos no protestantismo.

Trudel masceu em uma família pobre de onze filhos com um pai alcoólatra e uma mãe devota. O único livro que a família possuía era a Bíblia, lida assiduamente pela mãe. Quando pequena, perdeu a visão por uma infecção de varíola, mas foi curada acompanhando uma oração da mãe

Começou a trabalhar aos nove anos. Era uma moça normal. Participava dos bailes e eventos sociais locais. Aos 22 anos, ao defender-se de um homem que tentou agarrá-la, feriu sua coluna. Jovem e concunda, entrou em depressão. Aos 23 anos passou por uma experiência conversão e a frequentavar círculos luteranos pietistas.

Quando sua mãe morreu, um tio cuidou de Dorothea e de suas três irmãs. As vidas delas tiveram um progresso. Trudel começou a trabalhar como florista e teve uma renda melhor. O tio deixou a casa para elas como herança.

Um dia em 1840, quatro funcionários da empresa de seu sobrinho estavam doentes sem meios de cura. Dorothea orou de acordo com Tiago 5 e ungiu-os com azeite, impondo as mãos e eles ficaram curados.

As pessoas da região passaram a visitá-la para orações, estudos bíblico e devocionais. A casa de Dorothea não conseguia acomodar os hóspedes. Então, com apoio do pastor reformado local organizou quatro casas para abrigar os visitantes. Essas casas tornaram-se sanatórios, casas de repousos. Mas diferente dos caros sanatórios suíços, não havia cobrança pela estada, com cada paciente pagando como podia. Uma das pessoas curadas mediante o minustério de Trudel foi Samuel Zeller (1834– 1912). Zeller passou a auxiliá-la e depois a sucedeu na administração das casas e dos encontros de oração. Uma dessas casas, Bibelheim, ainda continua ativa.

Trudel foi processada por exercício ilegal da medicina, o que terminou em 1861 com sua absolvição. No ano seguinte, morreu de febre tifóide.

A obra de Trudel influenciou o movimento de santidade alemão. Estiveram conexos Otto Stockmayer e os Blumhardt. Quando o médico Charles Cullis foi curado pela fé e publicou os panfletos de Trudel, seu trabalho ganhou notoriedade póstuma entre evangélicos de língua inglesa.

A teologia e prática de Trudel era simples. A prioridade era a salvação. A cura era uma expectativa de fé, sem obrigação de acontecer um milagre. O que ela enfatizava era que na expiação realizada por Cristo incluía a cura de Deus. Isso causou uma mudança de mentalidade. Contrastava com uma confiança mecanicista na medicina da época, também com o tratamento cruel de enfermidades mentais. Teologicamente prevalecia uma ideia punitiva de que doenças eram frutos de pecados ou demônios. A abordadgem de Trudel era fundada no tratamento com humanidade os doentes, tanto de males físicos como mentais. Encarava as enfermidades não como punições, mas um mal a ser vencido, espelhando na obra vitoriosa de Cristo sobre as doenças.

Trudel foi pioneira em praticar a unção com óleo no protestantismo, era convicta de que Deus cumpriria suas promessas e que as enfermidades não seriam um castigo divino.

BIBLIOGRAFIA

Keller, Sam. Dorothea Trudel Van Männedorf of De Kracht Des Geloofs Werkende Door De Liefde. Translated by A.M.C. van Asch van Wijk. Amsterdam: Funke, 1864.

Cullis, Charles. Dorothea Trudel: Or The Prayer Of Faith. 1865.

Gottfried Arnold

Gottfried Arnold (1666-1714) foi um historiador, autor de livros devocionais e pastor de uma igreja luterana em Brandenburg, Alemanha, com tendências pietistas.

Contemporâneo de Spener, Arnold compartilhava muitos aspectos, mas não aderiu ao pietismo.

Publicou uma reconstrução histórica do cristianismo primitivo em sua obra de dois volumes, Die Erste Liebe (1696). O livro fez sucesso entre círculos pietistas e rendeu-lhe uma cátedra universitária em Giessen, a qual deixaria um ano depois.

Em 1700 publicou sua obra maior Unpartheiische Kirchen- und Ketzer-Historie, na qual afirmava que a história narrada pelos vencedores não refletia a realidade da história marginal no cristianismo. Argumentou que grupos marginais, tidos como sectários e heréticos, eram representados distorcidamente por interesses ideológicos.

Argumentava que a igreja primitiva seria um modelo a ser copiado. A igreja primitiva teria ministros que ganhavam sustentos com seus próprios trabalhos, tendo um coração renovado e requisitos bíblicos para o ministério sem exigir titulações acadêmicas. Os ministros seriam chamados de Ältesten (anciãos) e os cultos de reunião (Versammlung) ao invés de serviços (Gottesdienst). As mulheres ensinavam e instruíam umas às outras, algumas chamadas de diakonas e presbiterias. O assento separado na congregação, o ósculo santo e o cântico alegre seriam outras características de culto. A oração e cânticos constante, mesmo fora dos serviços de culto, seriam marcas da vida cristã cotidiana. Numa época em que somente membros de ordens monásticas se referiam como “irmã” e “irmão”, Arnold dizia que os primitivos cristãos se identificavam assim. Adicionalmente, cada cristão cuidava um do outro e viviam em comunhão.

Arnold teve impacto indireto (ainda que por pessoas que não o leram) na formação de um ideal de cristianismo primitivo, no restauracionismo, bem como na doutrina da sucessão apostólica marginal.

BIBLIOGRAFIA

Peucker, Paul M. “The Ideal of Primitive Christianity As a Source of Moravian Liturgical Practice.” Journal of Moravian History 6, no. 6 (2009): 6–29.

August Hermann Francke

August Hermann Francke (1663 – 1727), ministro, editor, educador e reformador social. Foi um dos principais promotores do pietismo alemão, sucedendo a Philipp Spener.

Nascido em uma família burguesa da cidade hanseática de Lübeck, no norte da Alemanha, cresceu em de Gotha, onde seu pai era conselheiro do duque.

Estudou teologia em Erfurt e outras universidades. Francke era um acadêmico, mas sua conversão somente veio mais tarde quando esboçava um sermão.

Spener convidou Francke para lecionar grego e hebraico na Universidade de Halle, então o principal centro pietista alemão. Ao redor de Halle, Francke iniciou vários ministérios pela fé.

Organizou um orfanato, uma editora com tipografia, uma casa para viúvas e várias iniciativas de atendimento social.

Era dito que as instituições de Francke apoiados por sua fé e nada mais, pois não eram apoiadas pela Igreja Evangélica Estatal.

Apontado pastor para uma aldeia pobre chamada Glaucha, iniciou uma arrecadação para custear a educação dos jovens. Como outras de suas instituições, a escola fundada por ele era sustentada pela fé. Com uma generosa doação, passou a oferecer o ensino fundamental e técnico (invenção dele, como se verá) completo.

A ideia de que cada criança tem talentos diferentes formou a base da visão educacional de Francke. Considerando que cada criança aprende de maneira diferente, o currículo deveria corresponder ao nível da criança, bem como oferecer uma ampla variedade de disciplinas. Desse modo, Francke é considerado o pai da educação técnica alemã.

Teve um papel importante para a popularização das Escrituras. Junto do barão Carl Hildebrand Freiherr von Canstein (1667 – 1719), Francke criou a organização Cansteinsche Bibelanstalt (1710), a primeira sociedade bíblica, visando a produção em massa da Bíblia sem fins lucrativos.

Para cumprir seus propósitos, inventou o estereótipo. Nessa técnica, os 5 milhões de tipos móveis das aproximadamente 1.300 páginas impressas da Bíblia foram compostas previamente. A placa diagramada com os tipos eram fundidas com uma base de chumbo e guardadas permanentemente para impressões subsequentes. Dessa forma, as Bíblias podiam ser impressas rapidamente, em grande número e a baixo custo. Entretanto, o custo inicial foi grande, mas o barão Canstein dispôs de sua fortuna para essa missão.

Com aprimoramento das técnicas editorais e uma editoração simplificada produziu 8.000 cópias da Bíblia inteira e 100 mil Novos Testamentos entre 1712 e 1719. Em 1812 já tinha distribuído 2 milhões de exemplares em 380 edições; 1 milhão de cópias do Novo Testamento com os Salmos, além de 100 mil cópias dos Salmos com Eclesiastes.

Sua obra Pietas Hallensis: uma demonstração pública dos passos de um Ser Divino ainda no mundo reforçava sua convicção que Deus opera grandiosamente no mundo. A oração serviria para demonstrar a fé que Deus atua providencialmente. O conceito de fazer missão somente pela fé influenciou George Mueller e seu orfanato em Bristol; Hudson Taylor e sua China Inland Mission; William Taylor e suas missões autopropagantes e autossustentáveis.

Produziu vários manuais de interpretação bíblica, lidando tanto com método quanto com comentários Manuductio ad Lectionem Scripturae Sacrae (1693); Praelectiones Hermeneuticae (1717) e Commentatio de Scopo Librorum Veteris et Novi Testamenti (1724).

Conhecido por seu moralismo, publicou uma coleção de exortações Lectiones Paraeneticae (1726-1736).

Sua cristologia luterana e pietista é aliada a sua ênfase nas Escrituras, como visto na obra Cristo é a some e substância de todas as Escrituras, Antigo e Novo Testamento (1732).

BIBLIOGRAFIA

Sattler, Gary R. God’s Glory, Neighbor’s Good: A brief introduction to the life and writings of August Hermann Francke. Chicago: Covenant Press, 1982.

Yoder, Peter James. Pietism and the Sacraments: The Life and Theology of August Hermann Francke. University Park: Pennsylvania State University, 2012.

Zaunstöck, Holger; Müller-Bahlke, Thomas J. ; Veltmann, Claus. Die Welt verändern: August Hermann Francke; ein Lebenswerk um 1700. Verlag d. Franckeschen Stiftungen zu Halle, 2013.