Teologia ectipal

A teologia ectipal, um conceito na teologia reformada, refere-se ao conhecimento análogo e derivado de Deus que é estabelecido por Ele para a humanidade.

Diferente do conhecimento “arquetipal” (o conhecimento pleno e inerrante que Deus tem de Si mesmo), o conhecimento ectipal é uma comunicação da verdade divina que é acomodada à nossa compreensão humana, finita e pecaminosa. Essencialmente, é a maneira como Deus se revela a nós, adaptando Sua verdade infinita e complexa às nossas capacidades cognitivas limitadas, por meio de Sua Palavra revelada e de Sua providência.

Essa acomodação não implica que o conhecimento ectipal seja menos verdadeiro ou confiável; pelo contrário, ele é verdadeiro e suficiente para a salvação e para o viver piedoso, pois é o próprio Deus que o comunica. Ele nos permite ter um conhecimento genuíno de Deus, embora não exaustivo. A teologia ectipal reconhece que a linguagem humana, as categorias de pensamento e as experiências são moldadas por nossa finitude, e Deus, em Sua graça, utiliza esses meios para se relacionar conosco.

Em termos práticos, a teologia ectipal se manifesta nas Escrituras. A Bíblia seria a forma principal pela qual Deus revela Seu conhecimento ectipal. Os textos bíblicos usam linguagem humana, metáforas, narrativas e conceitos acessíveis para nos ensinar sobre a natureza de Deus, Seus atributos, Seus propósitos e Seus mandamentos. A revelação natural, por meio da criação, também oferece um conhecimento ectipal de Deus, embora de forma mais geral.

Este conceito serve para ressaltar tanto a transcendência de Deus (Seu conhecimento arquetipal é inatingível para nós em sua totalidade) quanto Sua imanência e graça (Ele escolhe se comunicar conosco de forma compreensível). Ao mesmo tempo, ele estabelece uma humildade epistemológica no estudo da teologia, reconhecendo que nossa compreensão de Deus é sempre parcial e mediada. A teologia ectipal, portanto, orienta o estudo bíblico e teológico a buscar a verdade revelada com reverência, sabendo que estamos lidando com um conhecimento divino que nos foi graciosamente concedido de uma forma que podemos apreender e que é, ao mesmo tempo, fiel à natureza inefável de Deus.

Anna Trapnell

Anna Trapnell (ativa c.1650) foi um profetisa puritana popular e ativista do movimento Quinto-Monarquista na Inglaterra do século XVII. Tinha uma pregação apaixonada, transes dramáticos e desafios às estruturas religiosas e políticas de seu tempo.

Nasceu em Stepney, Londres, por volta de 1620, filha de um construtor de navios. Sua infância em um ambiente marcado por desigualdades sociais pode ter influenciado seu engajamento posterior. Cresceu durante as Guerras Civis Inglesas e o Interregno, período de intensas transformações religiosas e políticas que moldaram sua visão de mundo.

Tornou-se uma pregadora itinerante, atraindo multidões com seus sermões e profecias, que muitas vezes criticavam o governo de Oliver Cromwell e a igreja estabelecida. Suas mensagens enfatizavam justiça religiosa e social, incluindo papéis ampliados para as mulheres na vida religiosa. Trapnell era conhecida por seus transes, nos quais afirmava receber revelações divinas, o que reforçava sua reputação como profetisa e gerava tanto admiração quanto controvérsia.

Sua postura crítica levou a perseguições, incluindo prisões e exílio. Em 1654, foi banida para as Ilhas Scilly. Durante o encarceramento, escreveu Anna Trapnel’s Report and Plea, defendendo suas ações e crenças, e A Legacy for Saints, onde narrou sua jornada espiritual e ofereceu orientação a seus seguidores. Esses escritos são fontes valiosas para compreender suas motivações e os desafios que enfrentou.

Trapnell representa o radicalismo religioso do século XVII, desafiando hierarquias tradicionais e defendendo maior igualdade espiritual e social. Em um contexto dominado por homens, reivindicou o direito de pregar e profetizar, abrindo espaço para a participação de outras mulheres na liderança religiosa. Seus textos oferecem perspectivas únicas sobre o panorama religioso e político de sua época e sobre as experiências de mulheres e dissidentes.

John Durie

John Durie (1596-1680) foi um pastor, diplomata, pioneiro no ecumenismo e escritor puritano.

Nascido em uma família presbiteriana em Edimburgo, foi ministro para congregações migrantes de língua inglesa na Alemanha.

Vendo o mal do faccionalismo político e religioso durante a Guerra dos Trinta Anos, viajou pela Europa tentando convencer os governantes e prelados protestantes a buscar a paz e a união. Fundamentava doutrinariamente sua proposta em um mínimo teológico comum que consistia no Credo Apostólico, os Dez Mandamentos e a Oração do Senhor.

No final da vida, expandiu sua proposta de união para incluir os católicos. Foi instrumental em influenciar Cromwell a autorizar a readmissão dos judeus na Inglaterra. Seria um dos pioneiros no movimento ecumênico.

‘O único fruto que colhi com todas as minhas labutas é que vejo a condição miserável do cristianismo e que não tenho outro consolo além do testemunho de minha consciência.’

Participou da Assembleia de Westminster entre 1643 e 1649. Expressava uma teologia irênica. Com suas simpatias pelos judeus, tentou criar um Colégio de Estudos Hebraicos. Foi um prolífico autor de variados panfletos. Colaborou com o polímata Samuel Hartlib, de cujo círculo fazia parte, e com Adam Boreel, um líder colegiante holandês com similares simpatias pela tolerância religiosa.

SAIBA MAIS

Gibson, John Westby. “Durie, John (1596-1680)”. Dictionary of National Biography, 1885-1900, Volume 16.

Van Der Wall, Ernestine GE. “‘Without Partialitie Towards All Men’: John Durie on the Dutch Hebraist Adam Boreel.” Jewish-Christian Relations in the Seventeenth Century. Springer, Dordrecht, 1988. 145-149.

John Dury

Obras de John Dury

Biography of John Dury – Puritan’s Mind

Sermão Israels call to march out of Babylon unto Jerusalem: opened in a sermon before the Honourable House of Commons assembled in Parliament

Puritanismo

Os termos puritanismo ou os puritanos referem-se aos diversos movimentos que visavam avançar a reforma da Igreja da Inglaterra contra vestígios do catolicismo romano. Ganharam corpo entre exilados pela perseguição do reinado de Maria I (1553-1558). Marcaram seu declínio a “Grande Expulsão” (Great Ejection) na Inglaterra e o “Pacto Intermediário” (Half-Way Covenant) nas colônias Americanas, ambos em 1662. O Ato de Tolerância de 1689 seria o fim da era puritana e o início dos “dissenters” (dissidentes) na Inglaterra.

HISTÓRIA

O apogeu político dos puritanos ocorreu de 1649 a 1660 durante o Commonwealth. Os puritanos formaram a base do regime militar chefiado por Oliver Cromwell. Os puritanos aproveitaram a oportunidade para empregar o Parlamento a renovar uma aliança nacional com Deus. O Parlamento convocou um corpo de clérigos puritanos, a Assembleia de Westminster, para reformar o governo e a disciplina da Igreja da Inglaterra.

Após a morte de Cromwell em 1658, alguns puritanos apoiaram a restauração do rei Carlos II e uma política episcopal modificada. No entanto, o novo rei e o arcebispo William Laud reimplantaram o episcopado monárquico e o Livro de Oração Comum uniforme com maiores expressões litúrgicas que eram aceitáveis pelos puritanos. Iniciou-se para o puritanismo inglês a Grande Perseguição. A última tentativa frustrada de controlar a Igreja da Inglaterra foi durante a Revolução Gloriosa.

O Toleration Act de 1689 confirmou a organização corrente da Igreja Anglicana, mas tolerou grupos dissidentes. Isso levou virtualmente à extinção do movimento puritano, com a formação de denominações e congregações separatistas de regime presbiteriano ou congregacional nos países de língua inglesa.

Nas colônias americanas o puritanismo formou comunidades em alianças através de pactos político-religiosos, principalmente na Nova Inglaterra. Em 1648 as quatro colônias puritanas da Nova Inglaterra adotaram conjuntamente a Plataforma de Cambridge, estabelecendo uma forma congregacional de governo da igreja. Somente os “eleitos” (membros com bom testemunho na congregação local) podiam votar e governar. Quando isso levantou problemas para os residentes de segunda geração, eles adotaram um Pacto Intermediário (Half-Way Covenant), que permitia que pessoas batizadas, morais e ortodoxas compartilhassem os privilégios de membros da igreja, mesmo que não fossem totalmente aderentes ou ativamente participantes das congregações locais. Outras variações puritanas, mas pautadas pela tolerância de opiniões, ocorreram em Rhode Island pelo Seeker Roger Williams e na Pensilvânia pelo Quaker William Penn.

TEOLOGIA

Os puritanos defendiam diferentes doutrinas e políticas religiosas. Em comum, adotavam uma moralidade estrita que queriam implantar como padrão de vida para toda a Inglaterra. Seus esforços para transformar a nação contribuíram tanto para a guerra civil na Inglaterra como na fundação de colônias na América do Norte.

Os puritanos no geral criam que a coletividade devia estar em um relacionamento de aliança com Deus. Isso permitiria uma redenção da condição pecaminosa. Deus permitia o acesso à salvação por meio da pregação e que o Espírito Santo impulsionava a salvação.

Muitos puritanos decidiram formar congregações “separatistas” e repudiaram a igreja estatal inglesa.

Pela influência dos reformados holandeses, franceses e genebrinos, os puritanos abraçaram diversas vertentes teológicas da tradição Reformada. Havia puritanos calvinistas (supralapsarianistas e infralapsarianistas), amiraldianos (cameronianos e baxteristas), arminianos, seekers, anabatistas, quinto monarquistas, escavadores (diggers), niveladores (levellers), adamitas (que praticavam o nudismo ritual), batistas (tanto gerais quanto particulares), socinianos, Muggletonianos, Ranters e Quakers.

Outra característica comum era o anticatolicismo. Queriam purificar a Igreja da Iglaterra contra toda forma de “idolatria papista”. A própria identidade puritana começou com uma controvérsia sobre as vestimentas na década de 1560 e sobre a disputa acerca da forma governo para a Igreja da Inglaterra, tentando extirpar o episcopado monárquico e paramentos litúrgicos por remeterem ao catolicismo.

Apesar dessa heterogeneidade, há discursos anacrônicos recentes que queiram fixar o termo puritanismo para algumas vertentes reformadas. Assim, nesses discursos é comum algumas incoerências. Um exemplo é erroneamente referirem como puritanos os não anglicanos John Gill (1697 – 1771) ou Jonathan Edwards (1703-1758), apesar de não terem atuados para purificar a Igreja da Inglaterra, ao tempo que não chamam de puritano seu contemporâneo promotor da renovação da Igreja da Anglicana John Wesley (1703-1791). Isso sem considerar que essas pessoas atuaram no século seguinte ao fim do puritanismo.

BIBLIOGRAFIA

Bremer, Francis J. The Puritan Experiment: New England Society from Bradford to Edwards. Rev. ed. Lebanon, NH: University Press of New England, 1995.

Bremer, Francis J. Puritanism: A Very Short Introduction. New York: Oxford University Press, 2009.

Bremer, Francis J., and Tom Webster, eds. Puritans and Puritanism in Europe and America: A Comprehensive Encyclopedia. Vol. 1. Santa Barbara, CA: ABC-CLIO, 2006.

Coffey, John, and Paul Chang-Ha Lim, eds. The Cambridge Companion to Puritanism. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2008.

Spurr, John. English Puritanism, 1603–1689. Basingstoke, UK: Macmillan, 1998.