Siquém

Siquém, em hebraico שְׁכֶם, shekhem, “ombro”, é uma cidade mencionada várias vezes e cenário de muitos eventos na Bíblia. Na narrativa bíblica, aparece com o motivo literário da aliança (berit). Localiza-se no moderno sítio arqueológico de Tel Balata, próximo a Nablus na Palestina.

Estava localizada na região central de Canaã (e depois no termo de Efraim), na passagem entre o Monte Ebal e Monte Gerizim. Controlava uma importante rota comercial e tinha um vale fértil a leste.

A ocupação pré-histórica como cidade é datada do calcolítico (4o milênio). Da idade do Bronze restam vestígios de um templo-fortaleza dedicado a Baal-Berit (o Senhor da Aliança) (Juízes 8:33; 9:4, 46). Artefatos com inscrições proto-cananeias e algumas tabuletas em escrita acadiana atestam a conexão da cidade com outras nações do Antigo Oriente Médio. Seu nome aparece na estela da Sebek-khu (c.1880-1840 a.C.) e nas Cartas de Amarna (XIII a.C.). A Carta de Siquém (século XIV a.C.) com a cobrança dos honorários de um professor é a mais antiga atestação de escolas e atividades escribais no território de Canaã.

Siquém foi a primeira cidade visitada por Abraão em sua migração de Harã (Gênesis 12:6). Sob a grande árvore (terebinto) de Moré em Siquém Deus apareceu a Abraão. Nesse terebinto Abraão edificou um altar e ofereceu sacrifícios.

A passagem de Abraão por Siquém constitui uma dificuldade bíblica. No discurso de Estevão em Atos 7:2-53, Abraão, ao invés de Jacó, comprou o terreno em Siquém dos filhos de Hamor (cf. At 7:16 com Gênesis 33:18-19; 23:3-20).

Siquém figura com mais destaque nas tradições associadas a Jacó. Em seu retorno de Padam-Aram comprou um lote de terra em Canaã próximo a Siquém, onde ergueu um altar a El Elohe Israel.

Enquanto a família de Jacó vivia estacionada perto da cidade, ocorreu o estupro de Diná (Gênesis 34) pelo príncipe de mesmo nome da cidade, Siquém filho de Hamor. Quando Siquém propôs casamento com Diná, os filhos de Jacó Simeão e Levi enganaram os homens da cidade. Os irmãos persuadiram os siquemitas a serem circuncidados (brit-milah) como requisito para o casamento. Simeão e Levi massacraram os homens enquanto convalesciam da circuncisão. Temendo retaliação, Jacó fugiu para Betel, enterrando os deuses levados por seu clã sob o terebinto.

Na saída do Egito, os israelitas trouxeram o corpo mumificado de José e o enterraram em uma tumba perto da cidade (Josué 24:32). 

Em Siquém, Josué renovou a aliança (berit) do Sinai com os líderes tribais de Israel, talvez venha aí a designação do santuário do Deus da Aliança (El-Berit) ou Senhor da Aliança (Baal-Berit) (Josué 24 24). No loteamento da terra, foi reservada como uma cidade de refúgio levítica coatita (Josué 21:20-21). O santuário de Siquém pode ter sido o primeiro local centralizado de culto dos israelitas (Noth, 1996).

No período dos juízes, Abimeleque, filho de Gideão, vivia com uma concubina em Siquém. Com apoio dos siquemitas, conseguiu ser aclamado rei (Juízes 9:1-6) e matou seus potenciais concorrentes: seus irmãos, exceto a Jotão que escapou. A ascenção de Abimeleque, custeada pelo templo Baal-Berit durou somente três anos, pois o povo de Siquém decidiu substituí-lo por Gaal, filho de Edede. Abimeleque atacou a cidade e seu templo-fortaleza de Baal Berit, onde boa parte da população se refugiou. Abimeleque pôs fogo no templo.

Contrário ao senso comum, a cidade principal dos samaritanos nunca foi Samaria, mas Siquém, dada sua proximidade com o Monte Gerezim. No século II a.C. o historiador e poeta samaritano Teodoto escreveu um épico sobre Siquém, dos quais quarenta e sete hexâmetros são preservados por Eusébio.

Roboão teria sido coroado rei em Siquém (1 Reis 12:1), mas logo a cidade serviu como capital de Jeroboão (1 Reis 12:25), antes da transferência da capital do Reino do Norte para Samaria.

Os salmos 60:6-8 e 108:7-9 mencionam Siquém e outras localidades potentes na vizinhança.

Em seus relatos da perseguição aos israelitas por Antíoco Seleuco (c.170-164 a.C), Josefo cita uma suposta carta ao rei pedindo não serem perseguidos  (Ant Jud 12:257–264). Nessa carta alegam que seriam “sidônios em Siquém”, não israelitas, embora observassem o sábado. Requisitavam que o templo no Monte Gerizim fosse dedicado a Zeus Hellenios. Josefo identifica esses sidônios com os samaritanos. A carta, suas premissas e suas implicações são disputadas pela historiografia. Os “sidônios em Siquém” poderiam ser invenção de Josefo, subtefúgio de uma comunidade perseguida ou mesmo uma colônia distinta de fenícios, como havia em Marisa e Jamnia do Mar da Galileia.

Já na época de Jesus Siquém não existia mais, pois fora destruída por João Hicarno no início do século II a.C. No entanto, Sicar (João 4:5-15), onde havia um poço cavado por Jacó, aparenta ser uma aldeia próxima às ruínas da antiga Siquém.

Na primeira Guerra Judaico-Romana a aldeia próxima Siquém foi destruída pelos romanos (67 d.C.), sendo refundada com o nome de Flavia Neapolis (72 d.C.). Do nome Neápolis deriva a atual designação Nablus.

BIBLIOGRAFIA

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Hansen, David G. “Shechem: Its Archaeological and Contextual Significance.” Bible and Spade 18 (2005): 33–43.

Lewis, Theodore J. “The Identity and Function of El/Baal Berith.” Journal of Biblical Literature 115 (1996): 401–23

Noth, Martin. The History of Israel. London: Xpress Reprints, 1996.

Wright, G. Ernest. Shechem: The Biography of a Biblical City. New York: McGraw-Hill, 1964.

Jeú

Nome de cinco pessoas na Bíblia.

1. Jeú rei de Israel em Samaria entre c.841-c.814 a.C. e promoveu o culto a Yahweh.

Filho de Josafá e pertencente à família dos nimsitas, talvez fosse descendente de Omri, sendo assim referido no Obelisco Negro de Salmanaser III. Em seu longo reinado de vinte e oito anos restabelecu um pouco da hegemonia regional do Reino do Norte. Sua dinastia ainda durarira cinco gerações e noventa anos (2Rs 9-10; 2Rs 15:12).

Jeú subiu ao poder em um golpe sangrento quando matou Jeorão, rei de Israel, e ordenou a morte do aliado de Jeorão, o rei Acazias de Judá (843 v. 27), de Jezabel (vv. 30–37), de setenta filhos (2Rs 10: 1-10) e membros e associados da casa de Acabe (vv. 11, 17), quarenta e dois irmãos de Acazias (vv. 13-14) e todos os adoradores de Baal em Israel ( vv. 18-25). Jeú também ordenou a destruição do templo e dos ídolos de Baal (vv. 26–28).

Teria sido contemporâneo dos profetas Elias e Eliseu e adepto do culto de Yahweh conforme ensinado por esses profetas.

No Obelisco Negro um emissário (e possivelmente Jeú) aparece inclinando-se para Salmanaser III oferecendo prata, chumbo, ouro, caneca de ouro, taças de ouro, vasilhas de ouro, proteção para a mão do rei e dardos.

2 Jeú filho de Hanani e um profeta que profetizou contra Baasa (902–886 aC), rei de Israel (1Rs 16: 1-4; 1Rs 16: 7; 1Rs 16:12); ele repreendeu e elogiou Josafá (874–850 aC), rei de Judá (2Cr 19: 2-3). O cronista em 2Cr 20:34 atribui a autoria da história de Josafá a ele.

3 Jeú filho de Josibias e príncipe da tribo de Simeão (1Cr 4:35).

4 Jeú, um dos valentes de Davi de Anatote (1Cr 12: 3).

5 Jeú da tribo de Judá e descendente de Jará, um escravo egípcio (1Cr 2:38).

BIBLIOGRAFIA

Ahlström, Gösta W. “King Jehu—A Prophet’s Mistake.” Scripture in History and Theology: Essays in Honor of J. C. Rylaarsdam. Edited by A. L. Merrill and T. W. Overholt. Pittsburgh, Pa.: Pickwick, 1977.


Bright, John. A History of Israel. 4th ed. With an Introduction and Appendix by William P. Brown. Louisville: Westminster John Knox, 2000.


Constable, Thomas L. “2 Kings.” The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures. Edited by John F. Walvoord and Roy B. Zuck. Wheaton, Ill.: Victor Books, 1985.


Hobbs, T.R. 2 Kings. Word Biblical Commentary 13. Edited by David A. Hubbard and Glenn W. Barker. Dallas Word, 1989.

Jezabel

Jezabel, rainha de Israel do século IX a.C. Era filha de Etbaal, rei dos sidônios, na Fenícia. Casou-se com Acabe e estimulou o culto a Baal em Israel.

O ciclo narrativo de Jezabel aparece de 1 Reis 16 a 2 Reis 10. Coincide com um dos períodos mais prósperos para o Reino de Israel, sob a dinastia Omrita. Suas políticas religiosas foram confrontadas por Elias, profeta defensor do Yahwismo, o culto de Yahweh.

Embora Jezabel seja às vezes representada como uma sedutora com base em Ap 2:20-22, o Livro de Reis não a retrata assim. Talvez seja uma homônima mencionada em Apocalipse.

Inscrições de Kuntillet ʿAjrud

Inscrições epigráficas encontradas em um caravançarai no deserto árido do Sinai central a cerca de 50 km ao sul de Cades-Barneia , datadas ente 801-770 a.C. Atestam ligações comerciais entre o Reino do Norte (Israel) e regiões do sul do Levante e do Egito, na rota do Mar Vermelho ao Mediterrâneo, conhecida hoje como Darb el-Ghazza.

Kuntillet ʿAjrud, em arábe para “Colina solitária dos poços”, floresceu no período Omríada. O sítio arqueológico foi descoberto em 1869 por Edward Palmer (1871), que acreditava ter encontrado Gypsaria, um antigo forte comercial romano na estrada entre Eilat e Gaza. Em hebraico o sítio é chamado Horvat Teman, “extremo sul”.

Escavações realizadas na década de 1970 encontraram dois grandes vasos com desenhos, grafitis e textos intrigantes. Os grafitis retratam várias divindades, humanos, animais e símbolos.

O sítio não possui menção bíblica, mas atesta a plausibilidade da fuga de Elias da perseguição no reino de Israel.

Duas inscrições notórias mencionam várias deidades semíticas, dentre elas “Yahweh e sua Asserá”.