Sara

Sara, em hebraico שָׂרָ֖ה, grego Σαρρα, a primeira das quatro matriarcas hebraicas, esposa de Abraão. Sua história aparece primariamente no Ciclo de Abraão (Gn 11:26-25:12) em Gênesis.

O nome Sarai, e sua variante Sara, significa “princesa” ou “dama”. Possivelmente é cognato do acadiano Sharratu, o nome da esposa do deus da lua Sin.

De origem provavelmente mesopotâmica, acompanhou o marido em suas peregrinações para Canaã e Egito. (Gn 11:29-31; 12:5). Chamada de irmã de Abraão (Gn 12:10-20; 20:1-18) em incidências quando ela foi tomada por governantes contra sua vontade.

Por um longo período, Sara não teve filhos (Gn 11:29-30). Depois que sua serva Agar deu à luz Ismael (Gn 16:1-6; 21:9-14), Deus disse a Abraão, cujo nome até então era Abrão, para mudar o nome de “Sarai” para “Sara” (Gn 17:15). E anunciou que ela viria a ser mãe de um filho.

No nascimento de seu filho, Isaque (que significa risos ou gargalhadas) teria dito “Deus me fez rir, para que todos os que ouvem riam de mim” (Gn 21:1-7).

A morte de Sara é registrada com brevidade. Teria morrido em Quiriate-arba ou Hebrom à idade de 127 anos. Foi enterrada por Abraão na caverna de Macpela (Gn 23; 25:10; 24:67).

Nenhuma outra referência a Sara aparece nas Escrituras Hebraicas, exceto em Is 51:2. Lá, o profeta apela “Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz; porque, sendo ele só, eu o chamei, e o abençoei, e o multipliquei”.

No Novo Testamento Sara aparece no elenco dos heróis da fé de Hebreus 11: “Pela fé, também a mesma Sara recebeu a virtude de conceber e deu à luz já fora da idade; porquanto teve por fiel aquele que lho tinha prometido” (Hb 11:11). Paulo faz menções a ela (Rm 4:19; 9:9; Gl 4:21), utilizando-a como um tipo, principalmente em contraste com Agar.

Sara aparece citada em 1 Pe 3:6 como exemplo de obediência. Entretanto, não há parte em Gênesis em que Sara chama-o de Senhor, exceto Gn 18:12, onde não se refere a obediência. Ademais, Abraão é retratado obedecendo as vontades de Sara (Gn 16:2, 6; 21:12). Josefo (Contra Apião 2.25) e Filo (Hypothetica 7.3) retratam Sara como exemplo obediência, revelando ser esse o entendimento do século I d.C.

BIBLIOGRAFIA

AGUILAR, Grace. “Sarah The Women of Israel. Vol. 1. 1845

AMOS, Clare. “Genesis.” Global Bible Commentary. Edited by Daniel Patte. Nashville, Tenn.: Abingdon, 2004. Pp 1–16.

ANGEL, Hayyim. “Sarah’s Treatment of Hagar : Morals, Messages, and Mesopotamia.” The Jewish Bible Quarterly 41, no. 4 (2013): 211. 

BARBOSA, Tereza Virgínia Ribeiro. “Sara e Hagar: amor e sacrifício no caminho da família de Abraão.” Estudos Bíblicos 33.129 (2016): 45-57. https://revista.abib.org.br/EB/article/view/139

BAXTER, Elizabeth. “Sarah – Hebrews 11:2”. The Women in the Word. 1897. https://www.blueletterbible.org/Comm/baxter_mary/WitW/WitW03_Sarah1.cfm  e https://www.blueletterbible.org/Comm/baxter_mary/WitW/WitW04_Sarah2.cfm

BREWER-BOYDSTON, Ginny. “Sarah the Gevirah: A Comparison of Sarah and the Queen Mothers, of Matriarchs in the Dynastic Succession of Sons and Nations.” Review and Expositor (Berne) 115, no. 4 (2018): 500-12.

CLAASSENS, Juliana. “Just Emotions: Reading the Sarah and Hagar Narrative (Genesis 16, 21) through the Lens of Human Dignity.” Verbum Et Ecclesia 34, no. 2 (2013): 1-6. https://verbumetecclesia.org.za/index.php/VE/article/view/787

DIAS, Elizangela Chaves. Sarai como esposa e irmã de Abrão: um estudo
exegético de Gn 12,10-13,1a. (Dissertação de Mestrado). Pontifícia
Universidade Católica, Teologia, São Paulo, 2011.

DIAS, Elizangela Chaves. “Útero estéril e sepultura: a participação de Sara nas promessas feitas a Abraão.” Revista de Cultura Teológica 90 (2017): 69-81.

DIAS, Elizangela Chaves. “A vida de Sara e o cumprimento da Promessa-Aliança.” Atualidade Teologica 24.66 (2017).

FRANKEL, Ellen. The Five Books of Miriam: A Woman’s Commentary on the Torah. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1996.

GARIN, Norberto. “Sara, uma mulher idosa: a manifestação da força de Javé.” Estudos Bíblicos 22.82 (2004): 42-48.

GOSSAI, Hemchand. Barrenness and Blessing. Havertown: Lutterworth Press, 2010.

HAVRELOCK, Rachel. “The Myth of Birthing the Hero: Heroic Barrenness in the Hebrew Bible.” Biblical Interpretation 16, no. 2 (2008): 154-78.

HEPNER, Gershon. “Abraham’s incestuous marriage with Sarah: a violation of the Holiness Code.” Vetus Testamentum 53, no. 2 (2003): 143-55.

KILEY, Mark. “Like Sara: The Tale of Terror behind 1 Peter 3:6.” Journal of Biblical Literature 106, no. 4 (Dec 1987):689–92.

LISBÔA, Célia Maria Patriarca; COSTA, Rute Ramos da Silva. “Não oprimirás o estrangeiro negro Aportes sobre migração no Ciclo de Abraão e Sara.” Bíblia e Migração: 73.  https://www.csem.org.br/wp-content/uploads/2022/01/E-book_BIBLIA_e_MIGRACAO_2022_FINAL.pdf#page=74

MCDONALD, Joseph Loren. Searching for Sarah in the second temple era: Portraits in the Hebrew Bible and Second Temple narratives. Texas Christian University, 2015.

OKOYE, James C. “Sarah and Hagar: Genesis 16 and 21.” Journal for the Study of the Old Testament 32, no. 2 (2007): 163-75.

REINHARTZ, Adele; WALFISH, Miriam-Simma. “Conflict and Coexistence in Jewish Interpretation.” Hagar, Sarah, and Their Children: Jewish, Christian, and Muslim Perspectives. Louisville, KY.: Westminster John Knox, 2006, pp. 101–126.

REIS, Pamela Tamarkin. “Take My Wife, Please.” Judaism 41, no. 4 (1992): 306-15.

ROSEN, Norma. Biblical Women Unbound: Counter-Tales. Philadelphia: Jewish Publication Society, 1996.

SABBATH, Roberta. “Jouissance and Trauma in Sarah’s Laugh and Aporia: The Construction of Collective Identity in the Parshat VaYera.” Journal of Ecumenical Studies 55, no. 3 (2020): 346-59. 

SLY, Dorothy I. “1 Peter 3:6b: In light of Philo and Josephus.” Journal of Biblical Literature 110, no. 1 (Spring 1991): 126–29.

TUSHIMA, Cephas T.A. “Exchange of Wife for Social and Food Security: A Famine Refugee’s Strategy for Survival (Gn 12:10–13:2).” Hervormde Teologiese Studies 74, no. 1 (2018): 1-9.

TRIBLE, Phyllis. Texts of Terror: Literary-Feminist Readings of Biblical Narratives. Philadelphia: Fortress, 1984.

YANOW, Dvora. “Sarah’s Silence: A Newly Discovered Commentary on Genesis 22 by Rashi’s Sister.” Judaism 43, no. 4 (1994): 398.

ZUCKER, David J. “What Sarah Saw.” The Jewish Bible Quarterly 36, no. 1 (2008): 54-62.

VER TAMBÉM

Tabuletas de Nuzi

Epístola aos Romanos

Na epístola aos Romanos, Paulo apresenta à igreja em Roma a doutrina que prega: que na justificação pela fé a confiança em Cristo Jesus seria suficiente para a salvação (10:9) do povo de Deus, a qual ocorre sem depender de adesão às normas ou de pertencimento a grupo religioso ou étnico.

UM PANORAMA DA EPÍSTOLA AOS ROMANOS

A mais complexa epístola de Paulo expõe ponderamente a doutrina que proclamava: o plano de salvação divino para a humanidade. O pano de fundo é um desacordo entre cristãos judeus e gentios que ameaçavam a unidade das igrejas na cidade. O imperador Cláudio expulsou os judeus de Roma (At 18:2) em alguma data entre 41 e 53 d.C. Com o retorno dos judeus, a Igreja em Roma passava agora contar com uma parte gentia mais estabelecida e um influxo migrante de cristãos judeus.

Pelo capítulo 16 podemos inferir que havia na cidade várias igrejas domésticas, nas quais o papel das mulheres era prominente. Esse caráter disperso das igrejas em Roma, o contrário das outras epístolas paulinas, destinadas a cada cidade a um grupo único (ainda que sob tensão, como o caso de Corinto), provavelmente tornava a união orgânica mais difícil. Essas diferenças teriam gerado tensões quanto às práticas cultuais e requisitos de salvação, tais como a observância da circuncisão e das restrições alimentares. Mas, a questão subjacente nessa tensão entre eles seria “o que é ser justo diante de Deus”? Não se tratava de uma questão teórica, o convívio cotidiano entre diferentes grupos de crentes estava ameaçado por diversos entendimentos sem tolerância mútua quanto às observações das práticas judaicas.

A questão já havia sido tratada na epístola aos Gálatas. Se em Gálatas Paulo denuncia quem obriga seguir a Lei, em Romanos defende a unidade de todos sob Cristo. Paulo, que ainda não tinha estado em Roma, apresenta seu evangelho: ser justo diante de Deus não depende de adesão às normas rituais ou de pertencimento a um grupo etnorreligioso. Isso porque a justiça foi obtida pela obra de Cristo, com sua morte e ressurreição.

Como é Deus quem proporciona essa justiça, Paulo defende a tolerância às diferença, especialmente aos “fracos” (15:1) que se apegavam às normas comportamentais como segurança para salvação. Assim, deixando o cumprimento dessas normas à liberdade de consciência, cristãos judeus e gentios viveriam unidos pela fidelidade/confiança/fé (pistis) comum em Jesus. Essa reconciliação proporcionada em Cristo Jesus implica em considerar uns aos outros fraternalmente.

A epístola serve de carta de apresentação para Paulo e sua mensagem. As igrejas romanas provavelmente estavam nos bairros populares nas áreas baixas de Roma. A cidade vivia seu explendor da dinastia julio-claudiana, com cerca de 1 milhão de habitantes, dos quais entre 20 a 50 mil seriam judeus. Como dito, Paulo não tinha ainda estado em Roma. Apesar disso, as igrejas na cidade central do império eram importantes para apoio de sua missão.

Escrita durante sua estada em Corinto (c.57-58 d.C.) (cf. At 20:2-3), Paulo hospedava-se na casa de Gaio (Rm 16:23; cf. 1 Co 1:14) e empregou o trabalho de um redator ou amanuense, Tércio (Rm 16:22). De lá a carta seria levada pela diaconisa Febe (Rm 16:1), a qual provavelmente seria a responsável por sua leitura nas diversas igrejas em Roma. Provavelmente, Paulo esperava um retorno na forma de convite para usufruir de hospitalidade (xenia) da igreja em Roma enquanto dava uma amostra de seu ensino.

Não sendo uma típica correspondência, mas uma elaboração do evangelho apresentado por Paulo, é similar ao gênero ensaístico ou ao tratado em formato de epístola como aparece em Sêneca.  No entanto, não resume todos seus ensinos, com outros temas ausentes nessa epístola (por exemplo, a Santa Ceia ou os dons espirituais). Ainda assim, a epístola aos Romanos constitui o mais detalhado tratamento da relação entre Israel e a Igreja no Novo Testamento, bem como a mais ampla exposição da doutrina que Paulo ensinava.

ESBOÇO ESTRUTURADO

  1. Introdução (1:1-17).
  2. Israel e os gentios compartilham a esperança de salvação (1:18-8:37)
    1. Condenação comum de Israel e dos gentios (1:18-3:19)
    2. Justificação em Cristo serve tanto a Israel quanto aos gentios (3:20-5:21)
    3. Santificação (6:1-7:25)
    4. Glorificação (8:1-37).
  3. O povo de Israel na obra de Jesus Cristo (9:1-11:32).
  4. Doxologia (11:33-36) – transição
  5. Efeitos da justiça de Deus na vida cotidiana dos crentes (12:1-15:13).
    1. A vida em Cristo é o sacrifício requerido (12)
    2. O amor recíproco (13)
    3. A coexistência tolerante (14)
  6. Conclusão
    1. Planos de viagem (15:14-29)
    2. Conclusão (15:30-33)
    3. Pós-escrito com recomendações, saudações, advertência contra falsos mestres (16:1-23)
    4. Encerramento (16:25-27).

TEMAS EM ROMANOS

Vários exegetas salientam um ou outro tema da Epístola.

Em sua leitura de Romanos, Barth enfatiza a soberania de Deus e sua graça. Para Barth, Romanos exemplifica a centralidade de Jesus Cristo na salvação, rejeitando as visões protestantes tradicionais da justificação pela fé focada no ser humano. Na epístola, a graça de Deus não é uma resposta ao mérito ou anseio humano, mas é fruto da graça, ou seja, dada livremente como um dom. A fé em Jesus Cristo é a confiança nessa obra de graça. No comentário de Barth sobre Romanos destaca a natureza radical da graça de Deus e desafia os leitores a reconsiderar suas suposições sobre a salvação e a natureza de Deus.

Expiação: Joel B. Green identifica quatro imagens primárias da expiação no livro de Romanos:

  1. Redenção (Romanos 3:24): enfatiza a ideia de que a humanidade é escravizada pelo pecado e precisa ser resgatada. A morte de Cristo na cruz é o pagamento que liberta a humanidade do pecado e do diabo.
  2. Justificação (Romanos 3:21-26): remete à ideia do perdão legal. Pela fé em Cristo, a humanidade é declarada “inocente” diante de Deus, e a penalidade pelo pecado é paga integralmente.
  3. Reconciliação (Romanos 5:10-11): ensina a ideia de restaurar um relacionamento rompido. Através da morte de Cristo, a humanidade é reconciliada com Deus, e a inimizade entre Deus e a humanidade é removida.
  4. Participação (Romanos 6:1-14): salienta a ideia de participação na morte e ressurreição de Cristo. Através do batismo, os crentes participam da morte e ressurreição de Cristo, morrendo para o pecado e ressuscitando para uma nova vida em Cristo. Esta participação capacita os crentes a viver uma nova vida de obediência a Deus.

Beverly Gaventa interpreta a teologia de Paulo em Romanos a partir de uma perspectiva apocalíptica, destacando a morte e ressurreição de Cristo como uma invasão divina que desmascara o mundo e inaugura uma luta culminante na vitória de Deus. Enfatiza a importância do contexto histórico e literário da carta, considerando como a audiência original a teria recebido. A salvação, para Paulo, não é apenas perdão individual, mas uma libertação cósmica da humanidade do pecado e da morte, evidenciando a graça inclusiva de Deus. O pecado em Romanos seria uma força e escravizadora que domina a humanidade. Paulo não reduz o pecado a falhas morais individuais; mas seria um poder cósmico que mantém as pessoas cativas. Em Romanos 5-8, Gaventa observa que Paulo descreve o pecado e a morte como governantes sobre a humanidade, sendo os humanos escravos do pecado. Assim, há a necessidade de libertação através da ação redentora de Deus em Jesus Cristo. A relação entre Israel e os gentios não deve ser reduzida à desobediência de Israel, mas compreendida dentro do plano divino para toda a humanidade. No campo ético, a verdadeira adoração molda a vida cristã, contrastando com os efeitos destrutivos da idolatria. Além disso, Paulo propõe uma igreja inclusiva e responsável, onde judeus e gentios cuidam uns dos outros. Por fim, Gaventa aplica essa leitura a debates contemporâneos, argumentando que questões como as relações homoafetivas em Romanos 1 devem ser analisadas dentro do propósito apocalíptico mais amplo de Paulo.

Scot McKnight propõe uma leitura invertida de Romanos, começando pelos capítulos 12-16 para destacar os desafios pastorais da igreja em Roma, especialmente os conflitos entre cristãos judeus e gentios. Ele identifica dois grupos principais: os “Fortes”, majoritariamente gentios que não seguiam as tradições judaicas, e os “Fracos”, judeus que ainda as observavam. Paulo busca resolver essas tensões não por meio de um debate doutrinário, mas incentivando uma postura cristocêntrica de humildade e acolhimento mútuo, como expresso em Romanos 15:7. Os capítulos 1-11 fornecem a base teológica para essa “teologia vivida”, unificando judeus e gentios dentro da narrativa da salvação. Há aspectos relacionais e comunitários do pecado e da salvação. Isto implica que o pecado pode ser uma barreira à unidade e ao relacionamento correto com Deus e com os outros, que é superado através do evangelho. McKnight enfatiza que Romanos 9-11 trata da redenção coletiva de Israel e dos gentios, em vez de uma visão individualista da salvação. Essa abordagem destaca a relevância de Romanos para as igrejas contemporâneas, ressaltando a necessidade de unidade, hospitalidade e reconciliação no corpo de Cristo.

De acordo com E. Elizabeth Johnson, a epístola de Romanos enfatiza a fidelidade da aliança de Deus a Israel de várias maneiras:

  1. Eleição: Paulo afirma que Deus escolheu Israel como um povo especial e que os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis (Romanos 9:4-5, 11:29). A eleição de Israel por Deus não é baseada em seu mérito ou justiça, mas na própria escolha soberana de Deus.
  2. Fidelidade: Apesar da infidelidade de Israel, Deus permanece fiel às promessas da aliança feitas a Israel (Romanos 3:3-4). Essa fidelidade é demonstrada por meio do envolvimento contínuo de Deus na história de Israel e por meio do plano final de Deus para salvar Israel por meio de Cristo.
  3. Inclusão: Paulo enfatiza que a salvação é tanto para judeus quanto para gentios, e que a aliança de Deus com Israel inclui todos os que têm fé em Cristo (Romanos 3:29-30, 9:24-26). A inclusão dos gentios no plano de salvação de Deus não substitui Israel, mas cumpre a promessa de Deus de abençoar todas as nações por meio dos descendentes de Abraão.
  4. Escatologia: A visão escatológica de Paulo inclui a salvação de Israel como um todo (Romanos 11:26), quando “todo o Israel será salvo” por meio de Cristo. Esta salvação não é baseada na obediência de Israel à lei, mas na misericórdia e graça de Deus.

De acordo com Grieb, a justiça de Deus em Romanos pode ser entendida tanto como uma dádiva quanto como uma exigência. Por um lado, a justiça de Deus é um dom dado gratuitamente àqueles que têm fé em Jesus Cristo. Este presente não é algo que pode ser conquistado por meio de boas obras ou mérito pessoal, mas é concedido como um ato de graça.

Por outro lado, a justiça de Deus também é uma exigência que requer uma resposta daqueles que a receberam. Essa exigência envolve viver uma vida de obediência à vontade de Deus e participar da obra contínua do reino de Deus.

Grieb também observa que o conceito da justiça de Deus em Romanos está intimamente ligado à ideia de justiça. Na justiça de Deus, a justiça é mantida e cumprida. Isso significa que a justiça de Deus não é apenas um conceito teológico abstrato, mas tem implicações concretas em como vivemos nossas vidas e tratamos os outros, ou seja, retidão.

De acordo com Watson, a Lei em Romanos pode se referir a várias coisas diferentes, dependendo do contexto em que é usada. Em alguns casos, refere-se à Torá, ou a lei judaica, que inclui mandamentos e regulamentos para adoração e vida diária. Em outros casos, refere-se a um sentido mais geral da lei moral, acessível a todas as pessoas, independentemente de sua formação religiosa.

Watson argumenta que a Lei é um tema-chave em Romanos, servindo como um ponto de tensão entre judeus e gentios e entre as tentativas humanas de justiça e o dom da graça de Deus. Ele observa que o entendimento de Paulo sobre a lei é complexo e cheio de nuances, e que o apóstolo não se opõe simplesmente à lei como tal, mas sim critica as tentativas humanas de usar a lei como um meio de alcançar a justiça ou a salvação.

Em Romanos, a justiça de Deus é coerente e compatível com sua misericórdia e graça. Isso porque a justiça e a misericórdia de Deus não são opostas uma à outra, mas ambas estão totalmente incorporadas na vida e na morte de Cristo. Em sua vitória, Cristo se coloca entre o pecador e o justo, intercedendo por ambos. Por causa disso, Ele é o justo juízo e a misericórdia de Deus em um único mediador.

BIBLIOGRAFIA

Barth, Karl. Carta aos Romanos. Fonte Editorial, 2019.

Gaventa, Beverly Roberts. “Romans.” The women’s Bible commentary (1992): 313-320.

Green, Joel B. “Atonement images in Romans.” Reading Paul’s letter to the Romans. Atlanta: SBL, 2012,79-107.

Grieb, A. Katherine. “The righteousness of God in Romans.” Reading Paul’s letter to the Romans. Atlanta: SBL, 2012,65-78.

Gorman, Michael J. “Romans: The First Christian Treatise on Theosis.” Journal of Theological Interpretation 5.1 (2011): 13-34.

Gorman, Michael J. Apostle of the crucified Lord: a theological introduction to Paul and his letters. Eerdmans, 2016.

Haldane, Robert. Epistle to the Romans. London: The Banner of Truth, 1847.

Jewett, Robert. Romans: A short commentary. Fortress, 2013.

Johnson, E. Elizabeth. “God’s covenant faithfulness to Israel.” Reading Paul’s letter to the Romans. Atlanta: SBL, 2012, p. 157-167.

Käsemann, Ernst. Commentary on Romans. Translated and edited by Geoffrey W. Bromiley. Grand Rapids: Eerdmans, 1980.

Keener, Craig. Comentário de Romanos. Reflexão, 2019.

Longenecker, Richard N. The epistle to the Romans. Eerdmans, 2016.

McKnight, Scot. Reading Romans backwards: A gospel of peace in the midst of empire. Baylor University Press, 2019.

Moule, Handley Carr Glyn. The Epistle of St. Paul to the Romans. Vol. 36. AC Armstrong, 1897.

Stott, John. A mensagem de Romanos. ABU/Ultimato, 2007.

Toews, John E. Romans: Believers Church Bible Commentary. MennoMedia, 2004.

Watson, Francis. Reading Romans in Context: Paul and Second Temple Judaism. Zondervan Academic, 2015.

Watson, Francis. “Law in Romans”. Reading Paul’s letter to the Romans. Atlanta: SBL, 2012.

Works, Carla Swafford. The Least of These: Paul and the Marginalized. Wm. B. Eerdmans Publishing, 2020.