Ex opere operato

Esta frase latina significa que “da obra realizada em si” pelos sacramentos é eficaz em si mesma e não dependente da virtude do ministro ou destinatário.

A dependência da eficácia sacramental das condições do agente (ex opere operantis) gera alguns problemas teológicos. Assim, não haveria ministros ou destinatários com capacidade de administrar os sacramentos, dada a condição geral de falibilidade humana. Entretanto, atribuir um poder mágico ao sacramento, com eficácia independente da fé, contraria a obra regenerativa interior proporcionada por Cristo mediante o Espírito. Esse raciocínio levaria a condições conflitantes com a fé em Cristo. Por exemplo, uma pessoa acidentalmente batizada ou que participasse da Santa Ceia estaria automaticamente em comunhão divina, mesmo que jamais tenha sequer sabido quem foi Jesus Cristo.

Uma antiga facção cristã no norte da África no século IV, os donatistas, diziam que os atos sacramentais feitos por ministros corruptos eram inválidos. Durante a Reforma a questão reacendeu, com os protestantes enfatizando a fé do destinatário o catolicismo trentino que a eficácia dos sacramentos dependia não dos ministros, mas do ofício de Cristo realizado neles.

O Artigo 26 dos “39 Artigos de Religião Anglicana” resume a via média a respeito:

ARTIGO XXVI – DA INDIGNIDADE DOS MINISTROS, A QUAL NÃO IMPEDE O EFEITO DOS SACRAMENTOS

Ainda que na Igreja visível os maus sempre estejam misturados com os bons, e às vezes os maus tenham a principal autoridade na Administração da Palavra e dos Sacramentos; todavia, como o não fazem em seu próprio nome, mas no de Cristo, e em comissão e por autoridade dele administram, podemos usar do seu Ministério, tanto em ouvir a Palavra de Deus, como em receber os Sacramentos. Nem o efeito da ordenança de Cristo é tirado pela sua iniqüidade, nem a graça dos dons de Deus diminui para as pessoas que com fé e devidamente recebem os Sacramentos que se lhe administram; os quais são eficazes por causa da instituição e promessa de Cristo, apesar de serem administrados por homens maus.

Não obstante, à disciplina da Igreja pertence que se inquira acerca dos Ministros maus, e que sejam estes acusados por quem tenha conhecimento de seus crimes; e sendo, enfim, reconhecidos culpados, sejam depostos mediante justa sentença.

Esdras

  1. Esdras, em hebraico עֶזְרָ֔ה, um descendente de Judá (1 Crônicas 4:17).
  2. Esdras, em hebraico  עֶזְרָא, em grego ̓́Εσρας, ̓Εσδράς, é um personagem e livro com seu nome do período pós-exílico, durante o Período Persa.

O escriba Esdras, filho de Jozadaque, era um aaronita (1 Crônicas 6:3-15 e Esdras 7:1-5), que liderou a comunidade de Judá pós-exílica e descendente de Aarão, conforme registrado em 1 Crônicas 6:3-15 e Esdras 7:1-5. Também é chamado de escriba, bem versado na lei de Moisés (7:6),

Retornou de aproximadamente 5.000 pessoas, incluindo 1.750 homens, da Babilônia para Jerusalém, cerca de 70 anos depois do primeiro retorno sob Zorobabel. A missão de Esdras foi restaurar a observância da Torá, tal como Zorobabel restaurou o templo e Neemias os muros e a cidade de Jerusalém.

Tradicionalmente situando-o em 457 aC, durante o reinado de Artaxerxes I. No entanto, seria possivel uma data posterior em 398 aC, se sob Artaxerxes II.

A tradição judaica pós-bíblica venera Esdras, atribuindo-lhe a restauração e publicação do cânon hebraico, supostamente perdido durante o cativeiro. Na tradição rabínica, a linhagem de Esdras remonta a Seraias, o último Sumo Sacerdote do Templo de Salomão.

NOMENCLATURA DOS DIFERENTES LIVROS COM O NOME DE ESDRAS

Texto Massorético HebraicoEdições ocidentais mais comunsVulgata de JerônimoVulgata Clementina Septuaginta (Old Greek)Versão etíope Nomes alternativos
EsdrasEsdrasNeemias1 Esdras 
Esdras B
1 EsdrasEsdras-Neemias
Neemias2 Esdras  (Neemias)
ausente1 Esdras  (na Apócrifa)ausente3 Esdras (na Apócrifa)Esdras AEsdras Gregos ou 3 Esdras
2 Esdras (na Apócrifa)4 Esdras (na Apócrifa)ausenteEsdras Sutuel(Cap. 3–14)4 Esdras
ou Apocalipse Judaico de Esdras
ou Esdras Apocalíptico
Esdra Latino
ausente(Cap. 1–2)5 Esdras
(Cap. 15–16)6 Esdras

Livro de Esdras

O livro de Esdras é um relato do fim do cativeiro babilônico e reconstrução da nação judia em Jerusalém mediante um renovado comprisso público com a Lei (Torá).

Nas versões hebraica, grega e latina, o Livro de Esdras era um só livro com Neemias até que na Baixa Idade Média começou a ser separado na Vulgata. No texto hebraico massorético faz parte dos Ketuvim, enquanto que na Septuaginta, Vulgata e outras edições ocidentais integra os Livros Históricos. É chamado de Esdras B (beta) na versão grega, em contraste com a versão expandida Esdras A.

As Memórias de Esdras (Esdras 7:27–9:15; Neemias 8–9) providenciam o contexto sobre o personagem e sua atuação nos esforços de restaurar a comunidade religiosa judia em Jerusalém com os retornardos da Babilônia.

Siraque 44-49, em seu elogio aos pais omite a menção de Esdras, talvez por razões polêmicas.

Não se sabe como se deu sua composição canônica, mas estudos recentes afirmam que Esdras e Neemias sejam obras distintas e de diferentes autores, bem como hoje é descartada a autoria de Esdras para os livros das Crônicas.

Cerca de 85 por cento do Esdras-Neemias é um amálgama de documentos. Isso inclui correspondência real, memórias (relatos em primeira pessoa) e listas.

Outras obras com o nome de Esdras existem, com diferentes trajetórias históricas de aceitação canônica.

ESBOÇO ESTRUTURAL:

  1. O Retorno do Exílio (1:1–6:22)
  2. A Obra de Esdras (7:1–10:44)

BIBLIOGRAFIA

Pakkala, Juha. “The Quotation and References of the Pentateuchal Laws in EzraNehemiah,” in Changes in Scripture: Rewriting and Interpreting Authoritative Traditions in the Second Temple Period, ed. Hanne von Weissenberg, Juha Pakkala, and Marko Marttila (Berlin: de Gruyter, 2011), pp.193-221.

Yoo, Philip Y., Ezra and the Second Wilderness. Oxford, 2017 https://doi.org/10.1093/acprof:oso/9780198791423.001.0001

Epístola aos Efésios

Epístola paulina destinada à igreja da cidade de Éfeso, na Ásia Menor. Trata-se de uma exposição sobre o poder da graça imerecida.

Contém uma meditação sobre uma série de temas inter-relacionados centrados na igreja e sua relação com Cristo, e no comportamento cristão dentro da igreja. A unidade da igreja cumpre um plano divino. E essa unidade se manifesta na conduta cristã ordenada.

Esta epístola possui muitos paralelos com a epístola de Colossenses, direcionada à igreja da mesma região e situada cerca de 100 km de Éfeso.

Elefantina

Elefantina é um assentamento em uma ilha no rio Nilo, em frente à antiga Syene, hoje chamada de Gezîret Aswan (a “Ilha de Assuã”) no Alto Egito.

O vasto volume de restos de papiro desde o segundo milênio a.C. até o período árabe faz desse sítio arqueológico uma importante fonte de textos da Antiguidade. Especialmente importante para as ciências bíblicas e história israelita são os 80 papiros em aramaico de uma comunidade judia de mercenários que foi ativa na ilha no Período Persa, entre os século VI a.C. e IV a.C.

Esta comunidade cultuava em um templo dedicado a Yahweh (ao qual chamavam Yahu), ainda que cultuado junto de outras divindades. Não há indícios de terem conhecimento de Escrituras, salvo alguns salmos, nem da tradição do Êxodo ou de uma linhagens sacerdotais. Todavia, possuíam um sacerdócio e celebravam a páscoa. Mantinham correspondência com seus patrícios de Yehud, a província persa da Judeia e Israel, incluíndo as lideranças religiosas de Samaria e Jerusalém

A ILHA DE ELEFANTINA

Na ilha de Elefantina a Fortaleza Yeb era uma guarnição de fronteira localizada na fronteira sul do antigo Alto Egito. Não é referida na Bíblia, mas Syene/Assuã, a cidade próxima na margem, aparece em Ez 29:10; 30:6.

Em 1893, muitos papiros e óstracas em aramaico apareceram, principalmente de Elefantina. Dez anos depois, iniciaram-se as escavações arqueológicas em Elefantina conduzidas pelos franceses (1902); os alemães (1906-1908); os padres do Pontifício Instituto Bíblico de Roma após a Primeira Guerra Mundial; e expedições egípcias (1932 e 1946), revelando o Templo de Khnum (dos séculos IV a II a.C.) e um templo anterior de tijolos de barro, escavado pelos egípcios em 1948. As escavações não produziram evidências conclusivas sobre a localização do Templo de Yahu.

A COLÔNIA JUDAICA

Não está claro quando a colônia judaica começou em Elefantina. Uma inscrição sugere que o templo já existia antes da queda do Egito para os persas em 525 aC, o que o situa em quase um século antes da reconstrução do templo por Esdras. Há quem sugira que a comunidade remonte do final do século VII a.C (cf. Is 19:19).

O templo Elefantina tinha um altar para sacrifícios e holocaustos a Yahweh, a quem chamavam de “Yahu”. No entanto, sua adoração não era totalmente exclusiva e incluía a adoração de outros deuses como Herem Bethel e Anath-yahu. Betel (“casa de Deus”) é visto como uma personificação da casa de El (no céu) e como uma expressão substituta para El (cf. Jr 48:13)

Embora protegida pela ocupação persa, a comunidade Elefantina teve conflitos com os egípcios. As cartas referem a atritos contínuos com os egípcios associados a um templo dedicado à divindade de Khnum.

Em 410 aC, um motim destruiu o templo judeu. Embora os persas eventualmente punissem os egípcios responsáveis, os judeus não conseguiram o dinheiro necessário para reconstruir o templo.

A colônia judaica estava bem estabelecida em Elefantina antes de 525 a.C. é provado pela referência da carta de Bagoas (AP 30) que menciona o templo antes de Cambises invadir o Egito, talvez datando do reinado do Faraó Apries (Hofra de Jr 44:30; 588-566 aC).

A colônia e seu templo duraram até o fim do reinado de Neferitas I (399-393 a.C.). Todavia, um fragmento de cerca do ano 300 a.C. menciona pessoas com nomes judeus (AP 82) e um longo papiro (AP 81) de aproximadamente o mesmo tempo que inclui nomes judeus e gregos e menciona um sacerdote Johanan, sugerindo a presença de um templo. Ainda no século I d.C. é possível que houvesse judeus na área Elefantina (Filo, Flaccus 43).

PAPIROS NOTÓRIOS

  • Amherst Papyrus 21 é uma ordem de Dario II em 419 AEC aos judeus para observarem os Dias dos Pães Ázimos.
  • Papiro TAD A4.1 (a Carta da Páscoa), carta de Hananias, um oficial judeu de Jerusalém ou da Pérsia, para a guarnição judaica e seu líder Jedanaías, fornecendo instruções sobre como realizar a Páscoa. Embora não mencione Betel, Hananias saúda a guarnição judaica em nome dos deuses (plural), o que implica um ambiente politeísta compartilhado;
  • Amherst Papyri 27, 30-34 registram a destruição do templo em Yeb, os esforços infrutíferos dos colonos durante os anos 410-407 AEC para garantir permissão para reconstruí-lo.
  • Amherst Papyrus 30 menciona duas pessoas citadas em Neemias, Sambalate (Ne 2:10; 13:28) indicado como o governador de Samaria; e Joanã (Ne 12:22), filho de Joiada e provavelmente o mesmo a quem Neemias perseguiu (13:28), é mencionado como sumo sacerdote, sendo Bagoas governador de Yehud (Judeia Persa).
  • Amherst Papyrus 63 contém uma versão do salmo 20, escrito em aramaico, mas com escrita egípcia demótica, além de dois outros salmos sem correspondência bíblica.

BIBLIOGRAFIA

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Struffolino, Stefano. “Iscrizione Dei Mercenari Greci Ad Abu Simbel.” Axon, vol. 2, no. 1, 2018, pp. 7–18.

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