Proto-trinitarismo

Proto-trinitarismo refere-se às formulações que concebem Deus como uma multiplicidade complexa, todavia sendo um único Deus, antes dos consensos cristãos formulados nos concílios de Niceia e Calcedônia.

Nas Escrituras Hebraicas elementos aparecem no “Anjo de Yahweh” e no “YHWH katan”, bem como em personificações do Espírito (Ruach), Sabedoria (Sophia), Glória (Shekinah), Palavra (Memra) e Filho do Homem. Também, Deus aparece como uma pleroma divina, assembleia divina ou em uma corte celestial.

No período do Segundo Templo esses elementos fruíram em concepções mais pluriúnicas de Deus por autores como Filo, os Targum, no chamado judaísmo enoquiano das pseudoepígrafas, no proto-rabinismo e na patrística cristã.

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Período do Segundo Templo

O período do Segundo Templo (539 a.C-70 d.C.) começa quando os israelitas na Judeia, Mesopotâmia e Egito se encontravam sob o domínio persa e puderam reconstruir o templo em Jerusalém e termina com a sua destruição pelos romanos.

Por seis séculos, os israelitas estiveram sob os impérios persa, grego, macabeu e romano.

A cultura religiosa desenvolveu uma série de características como a sacralização do texto da Bíblia, instituições como a sinagoga, a noção do próprio judaísmo como uma identidade religiosa, uma intensa expectativa messiânica, um sentimento de que as obras de inquidades levaram à opressão e à diáspora.

O período do Segundo Templo é reconstruído por várias fontes literárias – como os Apócrifos e Pseudepígrafas; obras de autores que escreveram em grego, como o filósofo judeu do século I Filo de Alexandria e o historiador Flávio Josefo; o conjunto de textos descobertos nas cavernas do deserto da Judeia, principalmente os Manuscritos do Mar Morto; o Novo Testamento; e outras fontes.

As evidências arqueológicas de Jerusalém, Massada e outros locais ajudam a reconstruir uma imagem de como a cultura judaica emergiu dos resquícios da antiga cultura israelita e se desenvolveu no que mais tarde seria conhecido como cristianismo e judaísmo rabínico.

Herodianos

Em grego Ἡρῳδιανοί, “seguidores de Herodes”. Talvez um partido ou facção político-religiosa que apoiavam Herodes Antipas.

Aparecem junto dos fariseus na questão do pagamento de impostos a César (Mt 22: 15-22; Mc 12: 13-17).

Aparece em um só outro lugar em Marcos (3:6). Embora em muitas variantes de Marcos 8:15, ao invés “de Herodes” apareça “dos herodianos” (NA28 lista p45 G W Θ f1 f13 28 205 565 1365 l76 l673 l813 l1223 iti itk vgms copsa(mss) arm geo).

Há uma hipótese de que os herodianos seriam os mesmos que os betusianos ou boetusianos, um ramo dos saduceus. Simão filho de Boeto de Alexandria ou o próprio Boeto foi feito sumo sacerdote por volta de 25 ou 24 a.C. por Herodes, o Grande, para casar-se com sua filha Mariamne (Josefo, Antiguidades Judaicas 15.9.3; 19.6.2.

Comunidade de Qumran

A Comunidade de Qumran era um grupo sectário ascético judaico estabelecidos no deserto da Judeia aproximadamente entre 150 a.C. e 68 d.C. São famosos os Manuscritos do Mar Morto, coleção de textos bíblicos e de outras literaturas encontrados próximos ao sítio arqueológico da comunidade, perto do Wadi Qumran, na costa noroeste do Mar Morto.

A misteriosa comunidade não é mencionada nem no Novo Testamento, nem por autores contemporâneos como Filo, Josefo, os tanaítas, a patrística ou os historiadores greco-romanos. No entanto, há especulações que identificam a Comunidade Qumran com os therapeutae e com os essênios (mencionados por Plínio, o Velho. História Natural 5.15.73). Outras hipóteses menos aceitas identificaram a Comunidade de Qumran com os fariseus, saduceus, ebionitas, cristãos judeus e caraítas.

Suas origens são obscuras. Há a hipótese de que seria a comunidade aos Ḥassidim (os piedosos mencionados em 1 Mc 2:42) da revolta dos Macabeus (167–165 a.C.). Quando os macabeus mesclaram política e o sacerdócio e o sumo sacerdócio foi assumido por Jônatas (152 a.C.), os Ḥassidim romperam com os sacerdotes de Jerusalém e se retiraram para o deserto da Judeia. Adotando a designação de “os filhos de Zadoque”, possivelmente da linhagem de famílias sacerdotais zadoquitas destituídas. Outra hipótese é que seriam os “retornados de Israel” (Documento de Damasco 4.2; 6.5). Esses israelitas retornaram do cativeiro babilônico depois da revolta dos macabeus, mas que estranharam as diferenças religiosas e consideravam corrompido o sacerdócio de Jerusalém.

O fim da Comunidade de Qumran coincide com a Primeira Guerra Judaica, quando os romanos cercaram Jerusalém. Os remanescentes esconderam os famosos manuscritos em jarros nas cavernas próximas até suas descobertas no século XX.

Livro de Enoque

O Livro de Enoque é uma coleção apócrifa e pseudopigráfica de textos judaicos do período do Segundo Templo atribuídos a Enoque, o bisavô de Noé (Gênesis 5:18) do gênero apocalíptico.

Geralmente quando se diz “Livro de Enoque” refere-se a 1 Enoque, cujos manuscritos originalmente sobrevivem apenas na língua ge’ez até a descoberta de cópias entre os manuscritos do mar morto. Outros livros ou recensões com o mesmo nome são 2 Enoque em eslavo antigo e 3 Enoque em hebraico. Mais tarde foram descobertas cópias em outros idiomas.

Exceto entre grupos apocalípticos no período do Segundo Templo (por vezes chamado de judaísmo enoquiano) e em áreas remotas da Antiguidade Tardia e na Idade Média (Etiópia e Bálcãs), o livro de Enoque não foi tido como canônico. Apesar disso, é citado no Novo Testamento. 1 Enoque é ainda parte do cânon amplo das igrejas ortodoxas etíope e eritreia.

Enoque é uma antologia de vários textos. A secção chamada de Livro Astronômico de Enoque talvez tenha sido composto na região de Samaria cerca 250 a.C. O Livro dos Vigilantes pode remontar da Judeia da década de 240 a.C.2 Enoque talvez seja de 30 ac-70 aC.

Esses textos descrevem como anjos caídos (grigori ou vigilantes) acasalam com humanos de onde saem os gigantes ou nefilim (cf. Gênesis 6:1-2). Há também uma visita de Enoque ao céu na forma de uma visão e suas revelações. Ele também contém descrições do movimento dos corpos celestes.

Elefantina

Elefantina é um assentamento em uma ilha no rio Nilo, em frente à antiga Syene, hoje chamada de Gezîret Aswan (a “Ilha de Assuã”) no Alto Egito.

O vasto volume de restos de papiro desde o segundo milênio a.C. até o período árabe faz desse sítio arqueológico uma importante fonte de textos da Antiguidade. Especialmente importante para as ciências bíblicas e história israelita são os 80 papiros em aramaico de uma comunidade judia de mercenários que foi ativa na ilha no Período Persa, entre os século VI a.C. e IV a.C.

Esta comunidade cultuava em um templo dedicado a Yahweh (ao qual chamavam Yahu), ainda que cultuado junto de outras divindades. Não há indícios de terem conhecimento de Escrituras, salvo alguns salmos, nem da tradição do Êxodo ou de uma linhagens sacerdotais. Todavia, possuíam um sacerdócio e celebravam a páscoa. Mantinham correspondência com seus patrícios de Yehud, a província persa da Judeia e Israel, incluíndo as lideranças religiosas de Samaria e Jerusalém

A ILHA DE ELEFANTINA

Na ilha de Elefantina a Fortaleza Yeb era uma guarnição de fronteira localizada na fronteira sul do antigo Alto Egito. Não é referida na Bíblia, mas Syene/Assuã, a cidade próxima na margem, aparece em Ez 29:10; 30:6.

Em 1893, muitos papiros e óstracas em aramaico apareceram, principalmente de Elefantina. Dez anos depois, iniciaram-se as escavações arqueológicas em Elefantina conduzidas pelos franceses (1902); os alemães (1906-1908); os padres do Pontifício Instituto Bíblico de Roma após a Primeira Guerra Mundial; e expedições egípcias (1932 e 1946), revelando o Templo de Khnum (dos séculos IV a II a.C.) e um templo anterior de tijolos de barro, escavado pelos egípcios em 1948. As escavações não produziram evidências conclusivas sobre a localização do Templo de Yahu.

A COLÔNIA JUDAICA

Não está claro quando a colônia judaica começou em Elefantina. Uma inscrição sugere que o templo já existia antes da queda do Egito para os persas em 525 aC, o que o situa em quase um século antes da reconstrução do templo por Esdras. Há quem sugira que a comunidade remonte do final do século VII a.C (cf. Is 19:19).

O templo Elefantina tinha um altar para sacrifícios e holocaustos a Yahweh, a quem chamavam de “Yahu”. No entanto, sua adoração não era totalmente exclusiva e incluía a adoração de outros deuses como Herem Bethel e Anath-yahu. Betel (“casa de Deus”) é visto como uma personificação da casa de El (no céu) e como uma expressão substituta para El (cf. Jr 48:13)

Embora protegida pela ocupação persa, a comunidade Elefantina teve conflitos com os egípcios. As cartas referem a atritos contínuos com os egípcios associados a um templo dedicado à divindade de Khnum.

Em 410 aC, um motim destruiu o templo judeu. Embora os persas eventualmente punissem os egípcios responsáveis, os judeus não conseguiram o dinheiro necessário para reconstruir o templo.

A colônia judaica estava bem estabelecida em Elefantina antes de 525 a.C. é provado pela referência da carta de Bagoas (AP 30) que menciona o templo antes de Cambises invadir o Egito, talvez datando do reinado do Faraó Apries (Hofra de Jr 44:30; 588-566 aC).

A colônia e seu templo duraram até o fim do reinado de Neferitas I (399-393 a.C.). Todavia, um fragmento de cerca do ano 300 a.C. menciona pessoas com nomes judeus (AP 82) e um longo papiro (AP 81) de aproximadamente o mesmo tempo que inclui nomes judeus e gregos e menciona um sacerdote Johanan, sugerindo a presença de um templo. Ainda no século I d.C. é possível que houvesse judeus na área Elefantina (Filo, Flaccus 43).

PAPIROS NOTÓRIOS

  • Amherst Papyrus 21 é uma ordem de Dario II em 419 AEC aos judeus para observarem os Dias dos Pães Ázimos.
  • Papiro TAD A4.1 (a Carta da Páscoa), carta de Hananias, um oficial judeu de Jerusalém ou da Pérsia, para a guarnição judaica e seu líder Jedanaías, fornecendo instruções sobre como realizar a Páscoa. Embora não mencione Betel, Hananias saúda a guarnição judaica em nome dos deuses (plural), o que implica um ambiente politeísta compartilhado;
  • Amherst Papyri 27, 30-34 registram a destruição do templo em Yeb, os esforços infrutíferos dos colonos durante os anos 410-407 AEC para garantir permissão para reconstruí-lo.
  • Amherst Papyrus 30 menciona duas pessoas citadas em Neemias, Sambalate (Ne 2:10; 13:28) indicado como o governador de Samaria; e Joanã (Ne 12:22), filho de Joiada e provavelmente o mesmo a quem Neemias perseguiu (13:28), é mencionado como sumo sacerdote, sendo Bagoas governador de Yehud (Judeia Persa).
  • Amherst Papyrus 63 contém uma versão do salmo 20, escrito em aramaico, mas com escrita egípcia demótica, além de dois outros salmos sem correspondência bíblica.

    SAIBA MAIS
  • Becking, Bob. Identity in Persian Egypt: The Fate of the Yehudite Community of Elephantine. Penn State University Press, 2020.