Atarote

Atarote é nome para três localidades bíblicas.

  1. Quirbete Atarote localiza-se a noroeste de Dibom (Nm 32:3, 34) em território da tribo de Gade. Foi conquistada por Mesa, rei de Moabe, o qual levou vasos de um templo de Yahweh que aparentemente existia no local, segundo a Estela de Mesa.
  2. A atual Tel el-Mazar, uma cidade na fronteira leste de Efraim (Js 16:7).
  3. Atarote-adar (Js 16:5; 18:13), uma povoação fronteiriça entre Efraim e Benjamim, atual Kefer ‘Aqab.

Cânone

O cânon (ou cânone), lista de livros aceitos como inspirados da Bíblia se formou em um processo lento e gradual.

O termo “cânon” (do grego kanōn, que significa “vara de medir” ou “régua”) possui um significado fundamental na teologia cristã, referindo-se ao conjunto de livros que compõem a Bíblia, autoritativos para a fé e a prática cristã. A metáfora da “vara de medir” destaca o papel do cânon como um instrumento que define e delimita a fé cristã, estabelecendo um padrão para a doutrina e a vida da Igreja.

O termo “cânon” possui três acepções principais :

  1. Regra de Fé: O cânon representa a norma doutrinária que guia a fé cristã, em consonância com os ensinamentos dos livros bíblicos. Como afirma Gálatas 6:16, “paz e misericórdia sobre todos os que andarem conforme esta regra”. O cânon, nesse sentido, serve como um guia para a interpretação das Escrituras e para a formulação da teologia cristã.
  2. Lista de Livros Inspirados e dotados de autoridade: O cânon também se refere à lista de livros reconhecidos como inspirados por Deus para servir de inspiração no culto, fonte e norma para a fé e a prática cristã, transmitindo a revelação divina e guiando os crentes na busca pela sabedoria e pela vida eterna.
  3. Conteúdo Textual Legítimo: O cânon abrange o conteúdo textual dos livros canônicos, reconhecido como autêntico e confiável. Isso implica que o texto bíblico, tal como transmitido através dos manuscritos seja considerado como autêntica expressão da revelação divina.

Formação do Cânon

A formação do cânon bíblico foi um processo gradual e complexo que se estendeu por séculos. A Igreja primitiva reconheceu a autoridade dos livros do Antigo Testamento, que já eram considerados sagrados pelo povo judeu. Com o surgimento do cristianismo, os escritos apostólicos, como os evangelhos e as cartas, também foram sendo reconhecidos como inspirados e incorporados ao cânon.

A canonicidade dos livros foi reconhecida por um processo emergente de diversos fatores. Entre eles, estão a apostolicidade (autoria ou coerência com o ensino apostólico), a ortodoxia (conformidade com a doutrina cristã), a antiguidade (reconhecimento e uso pelas primeiras comunidades cristãs), amplitude de uso. A inspiração (reconhecimento da ação do Espírito Santo na produção do texto) não é em si um critério, mas a consequência da canonicidade.

Não houve uma assembleia ou uma única pessoa que determinaram em um único evento quais livros fariam parte da Bíblia, mas o cânon formou por um longo período pelo consenso e uso tanto no culto quanto na fundamentação da doutrina.

Para compreender esse processo, é necessário em mente que Bíblia não nasceu como um único volume de livro, mas como uma biblioteca. Adicionalmente, o processo da formação do cânon se mistura com a história dos israelitas e do cristianismo, além da história do mundo no qual a Bíblia se desenvolveu. Ainda assim, a narrativa sagrada, escrita provavelmente em óstraco (cacos de barro) e papiro, manteve a identidade do povo israelita firmada na crença em um pacto entre eles e Deus.

BIBLIOGRAFIA

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Jeroboão II

Jeroboão II filho de Jeoás (em hebraico יָרָבְעָם, yarov’am) e rei do Reino do Norte de Israel. Parte da dinastia nimsita, reinou 41 anos, ca. 786–746 aC., contemporaneamente a Uzias e Amazias de Judá. Bem-sucedido política e militarmente, expandiu o reino do norte.

Do reinado de Jeroboão II restam poucas fontes bíblicas (2 Re 14:23-29, Amós e Oseias), mas a profusão de artefatos arqueológicos encontrados em Samaria contribuem para reconstruir este período histórico. O selo de Shema, servo de Jeroboão, atesta esta época, bem como provavelmente são boa parte dos óstracos de Samaria. Os eruditos que argumentam que Joel seja pré-exílico situam o livro nessa época. Há menção de um profeta chamado Jonas (2 Re 14:23-25), mas tratando o rei de modo oposto a Amós 6:13-14.

Militarmente conquistou partes da Síria (até Lebo-Hamate, ao norte de Damasco) e territórios do sul, já na área de Judá, até o Mar Morto.

Junto da hegemonia política veio a prosperidade comercial. Samaria estava no centro de uma rota comercial ligando o Egito, o Mediterrâneo, a Mesopotâmia, a Arábia e o Levante. O comércio de azeite, vinho e, consequentemente, vasos cerâmicos enriqueceram o reino de Israel. Foi o período de maior densidade populacional na região. O letramento cresceu e surgem os primeiros profetas literários.

Seu reinado coincide com várias marcas históricas, como o terremoto M1 ≍ 8.2 (c.750), a primeira olimpíada (776) e a fundação legendária de Roma (753). Nessa época os gregos e os etruscos desenvolvem seus alfabetos.

Junto com a prosperidade vieram problemas de injustiça e idolatria, denunciados por profetas como Oseias e Amós. Os assírios passaram a cobiçar o pequeno reino. Após o reinado de Jeroboão II, o reino de Israel cairia em decadência até a conquista assíria em 722 a.C.

Heilsgeschichte

Heilsgeschichte, em alemão “História da Salvação”, ou ainda “História da Redenção” designa tanto um princípio de interpretação da Bíblia quanto uma afirmação teológica a respeito da História universal. Teologicamente, é um modelo de economia de salvação. Também é um dos arcabouços que emoulduram a teologia bíblica.

Os antigos israelitas se interessavam pela história, não tanto pelos próprios eventos, mas por seus motivos e propósitos. Enquanto os israelitas viam sua história como um desenrolar da relação de aliança entre Israel e Deus, o pensamento cristão considerou os eventos narrados na Bíblia como atos de Deus para a salvação do mundo.

No Novo Testamento, a história de salvação era vista a partir da história de Israel. O arco narrativo do Antigo Testamento cumprido em Cristo aparece no caminho de Emaus (Lc 24:25-27), no discurso de Pedro em Pentecostes (Atos 2:17-36), na recapitulação da História de Israel por Estêvão (Atos 7) e com o tema dos tipos e profecias identificados em Cristo no evangelho de Mateus. Os escritos paulinos providenciam uma perspectiva cósmica a qual a História de Redenção afeta toda a criação (1 Co 15; Tt 2:11-15).

Como teologia da história e, ainda como posição historiográfica, a História de Salvação remonta desde a patrística. Os gnósticos (e Irineu em reação a eles) desenvolveram uma moldura histórica cósmica, extrapolando a história de Israel. Para alicerçar um propósito para uma sociedade critianizada, Agostinho articulou A Cidade de Deus já com alguns aspectos da História de Salvação.

No iluminismo houve uma separação entre história universal e história sacra a partir do aliancismo de Cocceius. A primeira seria objeto tanto da Historie quanto da Geschichte enquanto a segunda era fundada primordialmente na Geschichte. Em alemão Historie é a disciplina que se preocupa com os registros percebidos dos eventos. Já a Geschichte é a interpretação de eventos de forma compreensiva e disposta em forma narrativa. A Geschichte não é necessariamente uma reportagem dos eventos como “fatos que aconteceram”, mas sim dos seus significados, bem como aspectos não observáveis como relação de causalidade ou propósitos.

O auge da História de Salvação foi nos meados do século XIX na Alemanha. A combinação com o idealismo alemão, principalmente hegeliano, permitia conciliar problemas levantados pelos racionalistas com uma teologia bíblica.

Como uma formulação teológica, a História de Salvação foi uma perspectiva historicista proposta por J.T. Beck (1804- 1878). Beck combinou a dialética de Hegel com a noção de que os tratos de Deus com a humanidade exigiam uma conexão lógica entre os diversos eventos dessa revelação. A revelação seria progressiva e situada historicamente. Assim, enfatizou a importância de cada etapa do processo porque cada uma se tornou parte do todo.

O teólogo luterano Johannes Christian Konrad von Hofmann insistiu que uma visão teleológica da história, cada fase tem sua própria função independente da anterior. Contudo, Hofmann evitou um supersessionismo do Antigo Testamento em relação ao Novo Testamento. Em vez disso, a história de salvação revelada no Novo somente faz sentido à luz do Antigo. Pela Kenosis trinitária, quando o Eterno encontrou-se na História ao “esvaziar” em Jesus, houve um clímax que aponta para o fim de reconciliar o mundo inteiro com Deus com base em seu amor. A história mundial só pode ser entendida apropriadamente dentro da da história da salvação. No entanto, a história da salvação não seria uma parte da história mundial.

Heilsgeschichte extrapola as limitações do historicismo. Assim, teologicamente, rejeita-se relegar a Bíblia a um produto meramente humano e preso às contigências sociais e históricas de sua composição textual. Nessa linha, Oscar Cullmann interpreta os eventos nas narrativas bíblicas apontando para uma consciência crescente da obra salvadora mediante a intervenção de Deus na história. Portanto, no presente os crentes encaram um desafio divino de se posicionar-se no plano revelado de salvação.

Ainda no século XIX, o dispensacionalismo surgiu como uma perspectiva evangélica em língua inglesa em alternativa à Heilsgeschichte alemã como economia de salvação.

Outra alternativa apareceu na tradição reformacional holandesa, conforme apresenta Wolters. O kuyperianismo organizou a história da redenção em quatro temas universais: criação, queda, redenção e consumação. Este último é, por vezes, substituido por restauração. Tal narrativa justificava uma ideologia (apresentada como “cosmovisão cristã”) de domínio da Igreja (no caso, os reformados) sobre todas as esferas existenciais, em detrimento à teologia dos dois reinos luterana ou da separação do mundo anabatista. Assim, esse esquema reformacional ganhou contornos de ideologia política, com a formação do Partido Antirrevolucionário holandês para influenciar todos os domínios (ou em termos mais recentes “montes”).

A posição reformacional foi criticada por três problemas. Primeiro, com essa moldura universalizante excluía Israel, na melhor das hipóteses, da história de salvação, ou adotava um supersessionismo, tratando-o como uma nota de rodapé de uma aliança superada no esquema de salvação. Segundo, ao chamar por uma petição de princípio esse esquema ideológico de “a cosmovisão cristã”, excluíram-se tanto as interpretações intrabíblicas quanto as interpretações da história do pensamento cristão que situam a salvação dentro da dinâmica da Lei revelada a Israel e a graça operada em Cristo. Finalmente, o método empregado na posição reformacional de retirar e recontextualizar versos isolados da Bíblia (dicta probantia) pode gerar quaisquer enredos narrativos para a história de salvação, tal como já criticava Irineu contra tal abordagem pelos gnósticos.

Nos meados do século XX, as abordagens teológicas da História da Salvação foram informadas por avanços em teoria literária e teologia política.

O crítico literário Auerbach fez exame da totalidade do enredo das Escrituras canônicas e notou uma corrente de tipo e antitipo ligando diferentes passagens de uma forma coerente.

Nos anos 1970, as críticas de Hans Frei aos gêneros argumentativos das teologias colocou a teologia narrativa em destaque. Assim, a História de Salvação passou a ser vista como o enredo do conjunto canônico da Bíblia, como faz John Goldingay.

A teologia política de John Howard Yoder centrou-se na presença provocativa e reconcilatória da Igreja no mundo. Assim, a História de Redenção enfocaria no plano reconciliatório de Deus, sem apropriar-se de uma ideologia totalizante como meio de reivindicar um protagonismo na política mundana para a Igreja.

As malfadadas incursões políticas de cristãos em nome da Igreja foram justificados por esquemas ideológicos em formas de História de Redenção. Conforme aponta Soulen, essas ideologias encontraram justificativas para desconsiderar o povo de Israel e legitimar antissemitismos.

Em língua inglesa, o batista Eric Charles Rust utilizou o conceito de História de salvação para dialogar com a historiografia acadêmica. História de Salvação como historiografia ou modelo teológico ficaram mais claros a partir de sua obra.

Scot McKnight sumariza esses aspectos anteriores e propôs uma História de Redenção que considera a missão da Igreja, valorizando a igreja local e livre da tradição anabatista, bem como a integralidade textual bíblica. McKnight aponta que Deus criou o ser humano como co-regente da criação, mas a falha humana nessa missão deu lado para demonstrar o amor divino em um plano de reconciliação. Esse plano de reconciliação selecionou e abençoou Israel para que em Cristo fosse capacitada toda a humanidade para participar do Reino. McKnight não sugere que o esquema reformacional criação, queda, redenção e consumação seja falso, mas simplesmente não é a história principal ou completa da Bíblia.

Depois de seu pico entre círculos reformados e luteranos continentais, no final do século XX a História de Salvação encontrou pouca difusão entre correntes evangelicais. No começo do século XXI, tanto a reavaliação da teologia reformacional quanto do neoanabatismo reacenderam o interesse pela História de Redenção.

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Wolters, Albert M. Creation regained: Biblical basics for a reformational worldview. Wm. B. Eerdmans Publishing, 2005.

VEJA TAMBÉM

Teologia bíblica

Crítica canônica

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Revelação progressiva

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Teologia do Pacto

Aliancismo