Fórmula batismal

A fórmula batismal refere-se às palavras empregadas e a autoridade invocada no ato do batismo cristão.

Nos judaísmos do Segundo Templo e da Antiguidade Tardia, o batismo também era empregado como rito iniciático dos prosélitos convertidos. Porém, era algo impensável invocar a autoridade de alguém (um rabino ou um sacerdote) para tal ato, sendo ministrado somente sob a autoridade (em nome de) divina.

Na língua original do Novo Testamento, o grego, o uso da autoridade – o nome – possui nuances definidas principalmente pela regência das preposições que se perdem na tradução ao português. Por essa razão, há variações de sentidos da frase “em nome de” conforme diferentes contextos do Novo Testamento:

Mateus 28:19 eis to onoma: “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Também em Atos 8:16; 19:5.

Esta construção gramatical (eis + acusativo) frequentemente indica uma transição, ou seja, um movimento para dentro, uma indicação de propósito, uma inserção dentro de um domínio.

Atos 2:38 epi to onomati: “E [disse]-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo”.

Esta construção gramatical (epi + dativo) apresenta algumas dificuldades de compreensão. Normalmente é entendida como um ato baseado sobre autoridade de outrem; ato acerca de algo já revelado; ou invocação, chamar pelo nome. (At 22:16; Rm 10:9, 13). Foi “acerca desse nome” que os primeiros discípulos proclamaram o evangelho com audácia (At 4:17-18; 5:28, 40).

Atos 10:48 en to onomati: “Então ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Depois pediram a Pedro que ficasse com eles alguns dias”.

Esta construção en + dativo é para os que já estão sob a autoridade, em contraste com aqueles que estão entrando (eis) sob a autoridade de alguém. Exemplos incluem os primeiros cristãos expulsarem demônios em nome de Jesus (en to onomati) (Mc 9:38; Lc 10:170) ou os profetas falarem em nome do Senhor (Tg 5:10,14).


A História do Cristianismo atesta que fluidez no uso das fórmulas batismais na Igreja primitiva e durante o primeiro milênio.

O batismo “em nome de Jesus” de Atos 2 aparentemente foi a fórmula mais amplamente praticada, embora a fórmula batismal encontrada em Mateus 28 é confirmada pela Didachê.

Uma fórmula credal interrogativa para o batismo foi usada nos primeiros séculos, seguida de uma imersão após cada questão. Entre cristãos do oriente, uma forma passiva “seja batizado” ou “és batizado” era preferida. No ocidente a fórmula com o celebrante na voz ativa passou a ser comum.

Whitaker (1965) argumenta que essas variantes fundiram-se em duas vertentes. Uma ocidental e credal e outra “síria” na voz ativa e baseada em Mt 28. Com o tempo, a versão síria popularizou-se, embora o uso da fórmula de At 2 continuasse a ser praticada.

Tomás de Aquino ensinou que palavras da fórmula batismal poderiam variar, mas não alteravam os efeitos materiais do batismo.

Como meio de evitar controvérsias e para uma conformidade bíblica, fórmulas combinadas de Atos 2 e Mateus 28 aparecem entre os morávios, luteranos e igrejas livres escandinavas, entre movimento dos irmãos, alguns do movimento de santidade, sendo adotada por Charles Parham e pela Congregação Cristã no Brasil.

Entre 1913-1916 surgiu uma controvérsia sobre a fórmula batismal entre os pentecostais. Um grupo argumentava que somente em nome de Jesus (At 2) seria válido. A partir daí nasceu o pentecostalismo unicista. A quase totalidade dos pentecostais trinitários adotaram a fórmula de Mateus 28, enquanto alguns grupos retiveram a fórmula combinada.

BIBLIOGRAFIA

Bell, E.N.“The ‘Acts’ on Baptism in Christ’s Name Only,” Weekly Evangel (June 12, 1915).

Ironside, Harry. Baptism: What Saith the Scripture?. Fruitvale, CA. 1915.

Hellholm, David, Christer Hellholm, Øyvind Norderval, and Tor Vegge. Ablution, Initiation, and Baptism. 1. Aufl. ed. Vol. 176. Beihefte Zur Zeitschrift Fur Die Neutestamentliche Wissenschaft. Berlin/Boston: Walter De Gruyter GmbHKG, 2011.

Heitmüller, Wilhelm. Im Namen Jesu: eine sprach-u. religionsgeschichtliche Untersuchung zum Neuen Testament, speziell zur altchristlichen Taufe. Vol. 1. Vandenhoeck & Ruprecht, 1903.

Whitaker, Edward C. “The History of the Baptismal Formula.” The Journal of Ecclesiastical History 16.1 (1965): 1-12.

Batismo

O batismo, do grego Koinē βάπτισμα, geralmente significando “imersão”, é uma prática ritual cristã. Jesus Cristo ressurreto comissionou seus apóstolos a administrar o batismo na Grande Comissão (Mt 28:19, 20).

No período asmoneu propagou-se entre os judeus a prática de repetidas abluções para purificação ritual. Tais lavagens resultaram em construção de tanques (mikvé) ou uso de água corrente. Foi nesse sentido que o batismo de João e os batismos da comunidade de Qumran eram praticados.

No Novo Testamento o batismo cristão está associado ao perdão dos pecados (At 2:38; 22:16); união com Cristo (Gl 3:26; Rm 6:3-5); a recepção do Espírito Santo (At 2:38); e integração como membro do corpo de Cristo (Igreja) (1 Co 12:13).

Teologicamente, é considerado na tradição das igrejas livres como ato de obediência e testemunho público da conversão interior operada por graça.

Em conformidade com a raiz léxica de βαπτίζω, “mergulhar” ou “imergir” e com as exegeses acerca do batismo de João e dos apóstolos foi por imersão (cf. João 3:23; Atos 8:36-38), bem como testemunhos patrísticos (Didaquê 7) o modo por imersão tende a ser preferido entre denominações que praticam o batismo dos crentes, ou seja, com idade consciente e voluntariamente.

Discussões sobre a validade de outros modos (aspersão), consentimento (batismo infantil, batismo forçado), significado (batismo como aliança, batismo como símbolo, batismo como causa ou efeito regenerativo) e fórmula batismal permeiam a teologia cristã.

BIBLIOGRAFIA

Hellholm, David, Christer Hellholm, Øyvind Norderval, and Tor Vegge. Ablution, Initiation, and Baptism. 1. Aufl. ed. Vol. 176. Beihefte Zur Zeitschrift Fur Die Neutestamentliche Wissenschaft. Berlin/Boston: Walter De Gruyter GmbHKG, 2011.

Santa Ceia

Santa Ceia é uma refeição comunal quando a Igreja compartilha o pão e o fruto da vide em recordação da obra expiatória de Cristo. Propriamente dito, é a única celebração regular da Igreja com ordenança bíblica. Os primeiros cristãos partiam o pão com frequência (At 2:46; 20:7) e todo o crente deve estar em comunhão com Deus e o próximo para vir tomar do cálice e do pão. Não participar dela, incorre na não comunhão com Cristo (Jo 6:53).

Livro de Enoque

O Livro de Enoque é uma coleção, de gênero apocalíptico, de apócrifa e pseudopigráfica de textos judaicos do período do Segundo Templo atribuídos a Enoque, o bisavô de Noé (Gênesis 5:18).

Geralmente quando se diz “Livro de Enoque” refere-se a 1 Enoque, cujos manuscritos originalmente sobreviveram apenas na língua ge’ez até a descoberta de cópias entre os Manuscritos do Mar Morto. Outros livros ou recensões com o mesmo nome são 2 Enoque em eslavo antigo e 3 Enoque em hebraico. Mais tarde foram descobertas cópias em outros idiomas.

Exceto entre grupos apocalípticos no período do Segundo Templo (por vezes chamado de judaísmo enoquita) e em áreas remotas da Antiguidade Tardia e na Idade Média (Etiópia e Bálcãs), o livro de Enoque não foi tido como canônico. Apesar disso, é citado no Novo Testamento. 1 Enoque é ainda parte do cânon amplo das igrejas ortodoxas etíope e eritreia.

Enoque é uma antologia de vários textos. A secção chamada de Livro Astronômico de Enoque talvez tenha sido composto na região de Samaria cerca 250 a.C. O Livro dos Vigilantes pode remontar da Judeia da década de 240 a.C.2 Enoque talvez seja de 30 ac-70 aC.

Esses textos descrevem como anjos caídos (grigori ou vigilantes) acasalam-se com humanos de onde saíram os gigantes ou nefilim (cf. Gênesis 6:1-2). Há também uma visita de Enoque ao céu na forma de uma visão e suas revelações. Ele também contém descrições do movimento dos corpos celestes.