Palavra de Deus

Palavra de Deus, Logos de Deus, Memra de Deus, Verbo de Deus refere-se à presença divina autocomunicada existente com Deus. No Novo Testamento é exclusivamente manifestada como pessoa em Jesus Cristo (Jo 1:1; 1 Jo 1:1-3, 5; Ap 19:13).

Este conceito, proverbialmente difícil de se traduzir, tradicionalmente aparece como Verbo ou Palavra nas Bíblias de língua portuguesa.

DEFINIÇÕES SEMÂNTICAS E TEOLÓGICAS

O termo teológico Palavra aparece de três formas na Bíblia:

  • A raíz d-b-r, especialmente davar, דָּבָר, H1821, em seu significado originário transmite as ideias de algo pensado (noético), dinâmico e seu produto (coisas). No sentido particular como d-b-r pertinente a Deus refere-se a seu modo de existência que cria e mantém o universo, bem como comunica a vontade divina. No Antigo Testamento a Palavra de Deus é criativa (Gn 1; Is 55:10-11) e dotada de comando (Am 3:1).
  • Logos λόγος, G3364. Daí, Ο λόγος του Θεού. Em seu sentido genérico significa discurso ou a razão em exercício (raciocínio). Porém, ganha uma conotação especial no conceito de logos como razão ou ordem subjacente conforme conceberam-na os filósofos gregos, servindo a calhar para traduzir o conceito de d-v-r de Deus. Complica mais seu conteúdo semântico por ser próximo de léxis, enunciados, do qual logos com plural logoi é quase sinônimo. A logia (plural de logos) de Deus como atos da razão subjacente na Criação foi particularmente empregada por autores israelitas do segundo Templo, tanto em literatura parabíblicas como Filo de Alexandria, como um modo de existência distinto do próprio Deus. E um termo semanticamente próximo é o logion (G3051) é uma declaração divina ou um oráculo, cujo plural é logia. Nesse último sentido, aparece em At 7:38; Rm 3:2; Hb 5:12; 1 Pe 4:11.
  • Rhema, ῥῆμα, G4839, expressão verbal, assunto. No que se refere à rhema divina indica à autoridade do que é dito por Deus (Rm 10:17).

Na expectativa messiânica do período do Segundo Templo esperava-se pela manifestação do D-B-R/Memra/Logos. A Septuaginta traduz davar como logos e rhema quase de modo intercambiável. Com sentido virtualmente sinônimos esses termos aparecem no Novo Testamento. Nesse sentido aparecem nas versões aramaicas da Bíblia Hebraica, Targum, que utilizam o termo Memra, a Palavra personificada. Nesse período, a teologia do Logos de Filo de Alexandria sintetizou o anseio pela manifestação da Palavra.

O Cristianismo reconheceu essa manifestação em Jesus Cristo (Jo 1:1; 1 Jo 1:1-3, 5; Ap 19:13). O Logos joanino é fortemente paralelo ao conceito de Sabedoria no judaísmo de expressão helenística. Nele, a Sabedoria e a Palavra já estavam associadas (Sabedoria de Salomão 9:1-2).

O evangelho de João afirma que o Logos estava plena e unicamente identificado com Jesus Cristo. Comparando com autores da época, o Logos para Filo, por exemplo, seria um modo divino, porém subordinado a Deus, mas pervasivo a todo pensamento racional. Em contraste, no evangelho de João a encarnação do Logos trouxe vida aos seres humanos, aos quais, de outra forma, ela não estaria disponível (Jo 1:1-18).

Há conotações no Novo Testamento no qual a “Palavra” frequentemente significa a mensagem cristã ou seja, a instrução sobre Jesus Cristo, sobre o Evangelho e exortações para levar uma vida cristã. (2 Co 2:17; cf. 1 Co 1:18), ou o genérico “palavra”, em seu sentido como léxico. No livro de Atos 6:2, 4, 7; 12.24; 13:46; 17:13: 19.20, a expressão “palavra de Deus” conota consistemente a mensagem proclamada pelos primeiros cristãos.

Muitas vezes, o termo se refere a algo que é falado, o conteúdo da fala, o ato de falar.

Apesar da expressão “Palavra de Deus” não aparecer nas Escrituras para conotar as próprias Bíblia, na idade média tal expressão ganhou este significado por metonímia. Um dos mais antigos registros, nessa acepção que iguala a Bíblia à Palavra de Deus, em um sermão dos seguidores de Wycliff em 1425.

Durante a Reforma, consagrou-se a fórmula de a Palavra de Deus ter uma tripla manifestação: a Palavra de Deus encarnada em Jesus Cristo, a Palavra de Deus escrita testificada nas Escrituras e a Palavra de Deus proclamada na pregação do Evangelho. Nesse respeito diz o Artigo 1o da Segunda Confissão Helvética:

A Escritura é a Palavra de Deus. O mesmo apóstolo diz aos tessalonissenses: “Tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes, não como palavra de homens, e, sim, como, em verdade é, a palavra de Deus”, etc. (I Tes 2.13). E o Senhor disse no Evangelho: “Não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós” (Mat 10.20); portanto, “quem vos der ouvidos, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar, rejeita aquele que me enviou”, (Mat 10.40; Luc 10.16; João 13.20).

A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus. Portanto, quando esta Palavra de Deus é agora anunciada na Igreja por pregadores legitimamente chamados, cremos que a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de Deus pode ser inventada, ou esperada do céu: e que a própria Palavra anunciada é que deve ser levada em conta e não o ministro que a anuncia, pois, mesmo que este seja mau e pecador, contudo a Palavra de Deus permanece boa e verdadeira.

Nem pensamos que a pregação exterior deve ser considerada infrutífera pelo fato de a instrução na verdadeira religião depender da iluminação interior do Espírito; porque está escrito: “Não ensinará jamais cada um ao seu próximo… porque todos me conhecerão” (Jer 31.34), e “nem o que planta é alguma cousa, nem o que rega, mas Deus que dá o crescimento”, (I Cor 3.7). Pois, ainda que ninguém possa vir a Cristo, se não for levado pelo Pai (cf. João 6.44), se não for interiormente iluminado pelo Espírito Santo, sabemos contudo que é da vontade de Deus que sua palavra seja pregada também externamente. Deus poderia, na verdade, pelo seu Santo Espírito, ou diretamente pelo ministério do anjo, sem o ministério de São Pedro, ter ensinado a Cornélio (cf. At 10.1 ss); não obstante, ele o envia a São Pedro, a respeito de quem o anjo diz: “Ele te dirá o que deves fazer” (cf. At 11.14).

A iluminação interior não elimina a pregação exterior. Aquele que ilumina interiormente dando aos homens o Espírito Santo é o mesmo que deu aos discípulos este mandamento: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16.5). E assim, em Filipos, São Paulo pregou a Palavra externamente a Lídia, vendedora de púrpura; mas o Senhor, internamente, abriu o coração da mulher (At 16.14). E o mesmo São Paulo, numa bela gradação, em Rom 10.17, chega, afinal, a esta conclusão: “E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo”.

Reconhecemos, entretanto, que Deus pode iluminar quem ele quiser e quando quiser, mesmo sem ministério externo, pois isso está em seu poder; mas aqui falamos da maneira usual de instruir os homens, que nos foi comunicado por Deus, tanto por mandamento como pelo exemplo.

TEXTOS BÍBLICOS RELEVANTES

  • Gênesis 15:1-6
  • 1 Samuel 3:1,7,19-21
  • Salmo 18:30
  • Salmo 33:4-6
  • Jeremias 1:4-10
  • João 1:1-3
  • Atos 6:7; 12:24; 13:49; 19:20
  • 1 Tessalonicenses 2:8-13
  • Hebreus 4:12; 13:7
  • 1 João 1:1-3, 5
  • Apocalipse 19:13

SAIBA MAIS

Boyarin, Daniel. “The Gospel of the Memra: Jewish Binitarianism and the Prologue to John.” Harvard Theological Review 94.3 (2001): 243-284.

Bullinger, Heinrich. “Artigo 1”. Segunda Confissão Helvética (1566).

Bury, Robert Gregg. The Fourth Gospel and the Logos-Doctrine. Cambridge, W. Heffer & Sons, 1940.

Currie, Thomas Christian. The Only Sacrament Left to Us: The Threefold Word of God in the Theology and Ecclesiology of Karl Barth. ISD LLC, 2016.

Ronning, John. The Jewish Targums and John’s Logos Theology. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2010.

Sandberg, Glenn R, and Frank Hofmann. How Does God Talk to Us? The Concept of the “Word of God” in Augustine, Martin Luther, and Karl Barth. Wipf and Stock Publishers, 2021.

Zander, Glenn, “An Investigation of Logos Tou Theou in the New Testament” (1974). Master of Divinity Thesis. 122. Concordia Seminary, St Louis. https://scholar.csl.edu/mdiv/122

Em termos gerais, é um estado psicológico e relação com algo. Em sentido bíblico corresponde à fidelidade, confiança, comunhão relacional, convicção e depósito de crença.

A fé na Bíblia

No Antigo Testamento vários termos, normalmente não traduzidos, referem-se à fé. O mais comum deles é o ‘emunah,  אמונה, cujos sentidos originários eram do campo semântico de firmeza e estabilidade, do qual emerge o sentido de confiança e constância. Um de seus derivados é a palavra “Amém”. O emprego desse termo é diverso e tem conotações ativas. São geralmente traduzidas na Septuaginta por pisteoo, acreditar, e pistos, fiel.

Dois substantivos derivados são ‘emeth אֱמֶת, e ‘emunah אֱמוּנָה. Possuem um sentido passivo de fidelidade mais que algum sentido ativo de acreditar ou crer. Existem várias outras palavras que estão intimamente associadas à ideia de fé e fidelidade no Antigo Testamento, particularmente aquelas que denotam esperança. Outra raíz, h-s-d, denota a relação de Deus e o homem e do homem e o homem sob a aliança.

História da recepção e conceito teológico

Os tradutores da Septuaginta preferiram o termo alētheia para ‘emeth e ‘emūnāh, o que quase sempre aparecem no Novo Testamento como verdade, realidade e autenticidade. Autores tardios do período do Segundo Templo refinaram o conceito, empregando também o termo grego antigo pístis (πίστις) com conotações distintas (Lindsay, 1993).

É bem notório que pístis aparece nesses textos de forma polissêmica. De uma lado do campo semântico pístis versa sobre o estado de espírito ou uma emoção de confiança a algo ou alguém. De outro lado do campo semântico, pístis é sobre o relacionamento e práxis feitos com segurança, lealdade, aliança e comunhão. (Morgan, 2015; Bates, 2017; Diggle, 2021).

Nas traduções latinas, consequentemente para o mundo ocidental, ‘emunah e pístis ganharam a conotação de fides, termo que já era utilizado para se referir à Pístis filosófica grega. A teologia latina, sobretudo a escolástica e mesmo a protestante transformou a semântica de fides para limitar-se à atividade cognitiva. 

A fé passou ser central na soteriologia protestante, visto a doutrina da justtificação pela fé. Conforme formulado por Melâncton, a fides passou a compreender três coisas: notitia (entendimento), assensus, (reconhecimento) e fiducia (confiança). Entretanto, desde o século XVIII, tanto pelos avanços da epistemologia quanto pela ciências linguísticas e filológicas, os sentidos grego e hebraico de fé conforme a Bíblia foram redescobertos no mundo ocidental.

Trementozzi (2018) aponta os problemas da adoção acrítica de uma visão intelectualista da fé dentro do evangelicalismo anglo-americano, particularmente em sua compreensão e prática da salvação. Ao priorizar a racionalidade sobre outros aspectos comportamentais e afetivos da fé leva a uma compreensão incompleta da salvação, uma vez que a experiência humana não é abstrata ou gnóstica, mas incorporada e experiencialmente relevante. Essas informações demandam uma soteriologia holística que incorpore as neurociências cognitivas e a psicologia para enfatizar a natureza incorporada da fé. Baseando-se na teologia das afeições religiosas, nas práticas da igreja primitiva e na espiritualidade pentecostal de Jonathan Edwards, Trementozzi destaca a importância da ortodoxia, da ortopraxia e da ortopatia para uma soteriologia renovada da corporificação. Assim, salvação pela fé compreende as maneiras multifacetadas pelas quais a graça salvadora de Deus interage com a carne e o sangue humanos, desafiando a tendência de intelectualizar a fé e marginalizar as dimensões afetivas e comportamentais dentro da teologia evangélica e pentecostal.

Vale atendar-se para outra distinção. A locução fides qua creditur indica o ato subjetivo de crer. Enquanto fides quae creditur indica o objeto da fé, ou seja, o conteúdo da revelação. A partir dessa distinção, há o debate se a fé é instrumental para a salvação ou sua consequência.

SAIBA MAIS

Bates, Matthew W. Salvation by Allegiance Alone: Rethinking Faith, Works, and the Gospel of Jesus the King. Baker Academic, 2017.

Diggle, James. The Cambridge Greek Lexicon. Cambridge University Press, 2021.

Lindsay, Dennis R. Josephus and Faith:” pístis” and” pisteúein” as Faith Terminology in the Writings of Flavius Josephus and in the New Testament. Vol. 19. Brill, 1993.

Morgan, Teresa. Roman faith and Christian faith: Pistis and fides in the early Roman Empire and early Churches. OUP Oxford, 2015.

Trementozzi, David. Salvation in the Flesh: Understanding How Embodiment Shapes Christian Faith. McMaster Theological Studies Series, volume 7. Eugene, Oregon: Pickwick Publications, 2018.

VEJA TAMBÉM

Pistis Christou

Comunhão

Re’em

O termo hebraico re’em, רֶאֵם (Strong H7214; BDB 910), cognato árabe é rim refere-se a um animal mencionado nove vezes na Bíblia, mas seu significado permance incerto, sendo traduzido como unicórnio, búfalo, boi selvagem, rinoceronte e órix.

É plausível que o cognato árabe, o órix, seja o animal bíblico. O órix pertence a três famílias de grandes antílopes (gênero Oryx, família Bovidae, ordem Artiodactyla) vivendo em rebanhos em desertos e planícies secas da África e da Península Arábica. Os órixes possuem constituição forte e peitoral largo, com pescoços curtos, chifres retilíneos e membros longos. Adaptado ao deserto, é capaz de viver em um habitat sem água, quente e com ventos fortes.

A confusão de re’em com unicórnio surgiu a partir das traduções da Septuaginta, na qual o termo monoceros (μoνoκερως) foi utilizado.

CONCORDÂNCIA

Números 23:22: Deus os tirou do Egito; as suas forças são como as do unicórnio.
Números 24:8: Deus o tirou do Egito; as suas forças são como as do unicórnio; consumirá as nações, seus inimigos, e quebrará seus ossos, e com as suas setas os atravessará.
Deuteronômio 33:17: Ele tem a glória do primogênito do seu boi, e as suas pontas são pontas de unicórnio; com elas ferirá os povos juntamente até às extremidades da terra; estes, pois, são os dez milhares de Efraim, e estes são os milhares de Manassés.
Jó 39:9-10: Querer-te-á servir o unicórnio ou ficará na tua cavalariça? Ou amarrarás o unicórnio ao rego com uma corda, ou estorroará após ti os vales?

Salmos 29:6: Ele os faz saltar como a um bezerro; ao Líbano e Siriom, como novos unicórnios.
Salmos 22:21-23: Salva-me da boca do leão; sim, ouve-me desde as pontas dos unicórnios.
Isaías 34:7 E os unicórnios descerão com eles, e os bezerros, com os touros; e a sua terra beberá sangue até se fartar, e o seu pó de gordura se encherá.

O chifre de um animal selvagem frequentemente aparece como uma metáfora para a força física ou militar. A expressão “exaltar/erguer o chifre da buzina” significa vitória militar, por exemplo em 1 Sm 2:10; Sl 75:10; Sl 89:24; Sl 92:10; Lm 2:17.

Moisés

Em hebraico מֹשֶׁ֔ה Moshê, em grego Μωυσῆς Moyses. Foi o líder da libertação dos israelitas do Egito e recipiente das instruções que constituem a Lei (Torá).

Irmão de Aarão e Miriam, era da tribo de Levi.

O significado incerto. A relação proposta em Êxodo 2:6, 10 para o nome não é clara. Foi sugerido que se deriva do verbo raro em hebraico mashah, que ocorre apenas em 2 Sm 22:17 e Sl 18:16. Pode ser derivado do egípcio ms que aparece como sufixo “filho” em vários nomes como por exemplo Tutemés ou Ramsés. Ainda outra possibilidade em egípcio seria mw-s (“filho da água”).

Salmos, hinos e cânticos espirituais

A expressão “salmos, hinos e cânticos espirituais” aparece em Efésios 5:19 e Colossenses 3:16 como uma referência às formas de adoração musical na comunidade cristã primitiva. Ambos os textos exortam os fiéis a encorajarem-se mutuamente por meio de cânticos dedicados a Deus, em uma prática litúrgica diversificada. Apesar da importância desses termos, suas distinções precisas permanecem obscuras.

Os “salmos” são os mais facilmente identificáveis, referindo-se aos textos contendo no livro bíblico dos Salmos. Esses seriam uma coleção de poemas litúrgicos e hinos do Antigo Testamento originalmente utilizados no culto judaico. Ainda que o termo “salmo” possa ser intercambiável com “hino” em alguns contextos patrísticos (cf. Clemente de Alexandria, Paedagogus 2:107), sua associação direta com o Saltério sugere um repertório estável e reconhecido.

Já os “hinos” poderiam abranger composições tanto veterotestamentárias quanto novas criações cristãs, possivelmente incluindo doxologias ou textos cristológicos.

Quanto aos “cânticos espirituais”, a interpretação é mais complexa. Podem referir-se a passagens cantáveis das Escrituras fora do livro dos Salmos, como o Cântico de Moisés (Êxodo 15), o Cântico de Débora (Juízes 5) ou os chamados “canticos” do Novo Testamento (por exemplo, o Magnificat em Lucas 1:46–55). Alternativamente, poderiam ser composições espontâneas ou improvisadas, como sugere Tertuliano no século III, ao descrever cristãos cantando “tanto das Sagradas Escrituras quanto de sua própria invenção” (Tertuliano, Apologeticum 39:17–18). Essa descrição indica uma prática carismática, na qual a inspiração individual coexistia com o uso de textos canônicos.

A dificuldade em delimitar esses gêneros reflete a diversidade da prática musical nas primeiras comunidades cristãs. A ausência de notações musicais ou manuais litúrgicos contemporâneos impede uma reconstrução precisa, mas é evidente que a música desempenhava um papel central na adoração, unindo tradição judaica e inovação cristã. Como observa William T. Flynn, a música litúrgica primitiva era “tanto herdeira quanto transformadora” das formas hebraicas, adaptando-se às necessidades doutrinais e comunitárias (Flynn 2006, 724).

Embora a exata natureza desses “salmos, hinos e cânticos espirituais” permaneça indeterminada, sua menção nas epístolas paulinas sublinha a importância do louvor coletivo como expressão de fé e edificação mútua.

Referências

Flynn, William T. “Liturgical Music.” In The Oxford History of Christian Worship, editado por Geoffrey Wainwright e Karen B. Westerfield Tucker, 724–25. Oxford: Oxford University Press, 2006.

McKinnon, James. Music in Early Christian Literature. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

Bradshaw, Paul F. Daily Prayer in the Early Church. Londres: SPCK, 1981.

Tertuliano. Apologeticum. Tradução e notas por T. R. Glover. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931.