Aarão

Em hebraico אַהֲרֹן‎ e em grego Ααρών. Significado e etimologia incertos, talvez do egípcio “leão guerreiro” ou da raíz semítica hr “montanha”.

Sacerdote do período do êxodo, irmão de Moisés e Miriam.

Nos livros de Êxodo e Números é o colaborador de Moisés nos eventos da saída do Egito e peregrinação no Sinai. Aparece como um profeta (Êx 7:1) e porta-voz (Êx 4:16; Êx 16:9; 14:26-28). Frequentemente referido como sacerdote, aperece uma vez como Aarão, o levita (Êx 4:14).

Filho de Anrão e Joquebede (Êx 6:20), da tribo de Levi (1 Cr 6:1-3). Nasceu no Egito antes de seu irmão Moisés, e alguns anos depois de sua irmã Miriam (Êx 2:1,4; 7:7). Casou com Eliseba, filha de Aminadabe, da tribo de Judá. Seus quatro filhos foram Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar (Êx 6:23). Seria o ancestral dos aarônidas, linhagem de sacerdotes que ganhou proeminência em Jerusalém após o exílio (Êx 28:1; 6:22-27; Nm 8:1-7; 1 Cr 24:1-19).

A morte de Aarão, antes de os israelitas cruzarem o rio Jordão, teria sido no Monte Hor (Nm 20:23-29; 33:38) ou em Mosserá (Dt 10:6; 32:50). De acordo com uma tradição árabe, o túmulo de Aarão está em Jabal Harun (árabe “Montanha de Aarão”), perto de Petra, na Jordânia.

A vara de Aarão serviu para sinais prodigiosos no Egito, em vários episódios da peregrinação do Sinai, na confirmação de Aarão como sacerdote depois da rebelião de Corá (Nm 17:8-10). Teria sido depositada dentro da arca, junto das tábuas da Lei e um recipiente com o maná (Nm 17:10; Hb 9:4).

A barba de Aarão é aludida em Salmos 133:1-3 em um símile e paranomásia com o orvalho do Monte Hermon para conotar a união entre irmãos.


COMO REFERENCIAR

ALVES, Leonardo Marcondes (ed.). Aarão. Círculo de Cultura Bíblica, 2021. Disponível em:  https://circulodeculturabiblica.org/2021/07/02/aarao/ Acesso em: 04 jul. 2021.

Vindicação

A vindicação é um tema bíblico que descreve a ação de Deus em retificar o status de seu povo, demonstrando publicamente que eles têm um relacionamento especial com Ele. O termo significa justificar, defender ou provar a inocência de alguém, especialmente diante de acusações falsas ou calúnias. No contexto das Escrituras, a vindicação é tanto motivo de esperança para o povo de Deus quanto de temor para os que estão contra Ele.

A vindicação divina frequentemente está relacionada à santidade do nome de Deus. (Êxodo 20:7; Deuteronômio 5:12). Essa advertência se reflete em passagens como Ezequiel 36:22-24. Mesmo quando Israel foi levado ao cativeiro, Deus prometeu vindicar seu nome e trazer o povo de volta:
“Quando eu os tiver trazido de volta dentre os povos e os tiver reunido das terras de seus inimigos, e eu tiver mostrado, por meio deles, a minha santidade diante de muitas nações” (Ezequiel 39:27).

Além do nome de Deus, a vindicação é prometida ao seu povo diante de seus inimigos. Por exemplo, Isaías 50:8 declara: “Aquele que me justifica está perto; quem contenderá comigo? Apresentemo-nos juntos. Quem é meu adversário? Que se aproxime de mim.” Jesus reforça essa promessa em Mateus 5:11-12.

Os seguidores de Cristo são encorajados a confiar na justiça divina, como Paulo escreveu (Romanos 12:19).

O salmista também clama pela vindicação de Deus: “O Senhor é um Deus que se vinga. Ó Deus que se vinga, resplandeça!” (Salmo 94:1).

As Escrituras estão repletas de exemplos de pessoas clamando por vindicação:

  • Davi, perseguido por Saul, declara: “O Senhor, porém, será o juiz e me fará justiça” (1 Samuel 24:15).
  • Jó, acusado injustamente por seus amigos, é finalmente vindicado por Deus (Jó 42:7-9).
  • Indivíduos frequentemente clamam a Deus por vindicação diante de seus adversários (Salmos 17, 26, 35, 54, 143; Isaías 50:8; Miquéias 7:8-10).
  • Deus vindica Israel contra as nações que o oprimem (Deuteronômio 32:36; Salmos 98; 135; Isaías 34:8; 54:17; 62:1-2; 63:1; Jeremias 51:10).
  • No Evangelho de Lucas, encontra-se a promessa de que Deus vindicará aqueles que clamam a Ele dia e noite (Lucas 18:7) e a história do publicano que saiu do templo justificado à luz de seu arrependimento e contrição (Lucas 18:14).
  • O “Servo Sofredor” em Isaías 53 é um exemplo messiânico de vindicação.

Nos Evangelhos (Mateus 8:11-12; Lucas 13:28-30; Mateus 22:1-10; Lucas 14:15-24), Jesus utiliza imagens de banquetes para descrever a vindicação final do povo de Deus. A imagem de banquetes é utilizada como exemplo poético da vindicação que aguarda o povo de Deus, como descrito no Antigo Testamento (Isaías 25; Ezequiel 39:17-28), culminando no “banquete das bodas do Cordeiro” em Apocalipse 19.

Bernard Sesboüé

Bernard Sesboüé (1929-2021) foi um teólogo francês na área de teologia dogmática e da patrologia, além de padre jesuíta e foi bispo auxiliar da Arquidiocese de Paris.

Sesboüé foi um autor prolífico, publicando vários livros sobre teologia, incluindo “A Ressurreição e a Vida”. Sua teologia concentrava-se na fé cristã, particularmente no contexto das últimas coisas, incluindo a morte, o julgamento, o céu, o purgatório e o inferno, a parte da escatologia que na tradição católica se chama de novíssimo. Discorreu extensivamente sobre ressurreição do corpo e do retorno de Cristo.

Sesboüé explorou o papel dos ministros eclesiais leigos na Igreja Católica Romana, considerando as implicações do seu surgimento no contexto dos ensinamentos do Vaticano II sobre a colegialidade e a eclesiologia da communio. Reconheceu a necessidade de a Igreja se adaptar às novas circunstâncias. Foi membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano e o seu envolvimento na Companhia de Jesus.

Docetismo

Teoria de que Cristo não era plenamente humano, mas somente aparentava ser.

O docetismo (do grego koiné: δοκεῖν/δόκησις, dokeīn “parecer” ou dókēsis “aparição, fantasma”) foi uma heresia cristã primitiva que surgiu entre os séculos I e II d.C. O termo refere-se à crença de que Jesus Cristo apenas parecia ser humano, mas que, na realidade, era puramente divino e não possuía um corpo físico verdadeiro. Esta visão era fundamentada na ideia de que a matéria é inerentemente maligna ou corrupta, sendo incompatível com a santidade de Deus.

O termo Dokētaí (“ilusionistas”) apareceu pela primeira vez em uma carta do bispo Serapião de Antioquia (197-203 d.C.). Ele identificou a doutrina em uma comunidade cristã em Rhosus que utilizava o Evangelho de Pedro. Serapião condenou o texto como uma falsificação herética. O docetismo também era associado a debates teológicos sobre a interpretação literal ou figurativa da declaração do Evangelho de João: “o Verbo se fez carne” (João 1:14).

O docetismo negava a realidade da humanidade de Cristo e, consequentemente, minava vários aspectos fundamentais da fé cristã:

  • Negação da humanidade de Cristo: Para os docetistas, Jesus não tinha um corpo físico real. Seu corpo era considerado uma ilusão ou aparição espiritual. Isso derivava da crença de que Deus, sendo absolutamente bom, não poderia assumir uma forma material, vista como corrupta.
  • Desafios à doutrina da expiação: Ao negar que Jesus possuía um corpo físico, o docetismo colocava em questão a realidade da reconciliação. Sem um corpo real, a humanidade não possui acesso à divindade.
  • Contradição à ressurreição: Segundo os docetistas, a ressurreição também seria uma ilusão, uma vez que não haveria um corpo físico a ser ressuscitado. Isso contradizia os relatos bíblicos e enfraquecia a esperança cristã na ressurreição corporal.

O docetismo representou um desafio significativo ao cristianismo primitivo, pois atacava a base da doutrina da Encarnação e da mensagem do evangelho. Os Pais da Igreja responderam vigorosamente a essa heresia, reafirmando a verdadeira humanidade de Cristo:

  • Inácio de Antioquia: Defendeu que Jesus nasceu, comeu e sofreu de forma verdadeira, e que negar esses fatos era negar a fé cristã.
  • Irineu de Lyon: Destacou a importância do corpo físico de Cristo para a salvação, afirmando que “a carne de nosso Salvador nos salvou”.
  • Tertuliano: Apontou os relatos bíblicos da vida de Jesus, incluindo Seu nascimento, batismo e crucificação, como evidências de Sua verdadeira humanidade.

Os Concílios também condenaram o docetismo, reafirmando a doutrina ortodoxa da Encarnação e a união hipostática das naturezas divina e humana de Cristo.