Martin Chemnitz ou Kemnitz, (1522- 1586) teólogo luterano alemão. Apelidado de “o segundo Martinho” [Lutero], efetivamente foi quem as igrejas luteranas em uma tradição teológica comum.
Estudou na Universidade de Wittenberg, protegido por Philipp Melanchthon. Em 1550 mudou-se para Königsberg, para ser bibliotecário do duque Alberto da Prússia. De volta à Wittenberg em 1553, foi pastor e começou a dar palestras sobre os Loci communes rerum theologicarum de Melanchthon, além de ser coadjutor e depois superintendente das igrejas luteranas de Braunschweig.
Em 1568 iniciou uma década de trabalho com o teólogo Jakob Andreä para unificar o luteranismo alemão. O resultado foi a Fórmula de Concórdia (1577), marco da ortodoxia luterana.
Chemnitz question a canonicidade da antilegômena e sua autoridade para avaliação doutrinária, mas consideram esses livros úteis à fé. Articulou a doutrina luterana da presença real do corpo e sangue de Cristo na Eucaristia. Acentua a relação entre as naturezas divina e humana de Cristo. Fez uma análise crítica do Concílio de Trento, além de um comentário sobre Loci communes, de Melanchthon.
Laestadianismo é um movimento avivalista nas igrejas luteranas da Noruega, Suécia e Finlândia, nascido de influências pietistas e morávias no século XIX, principalmente entre comunidades sami. Parte do movimento constitui denominações independentes nos EUA e Canadá.
História
O movimento deve o nome e foi iniciado pelo pastor e botânico luterano sueco Lars Levi Laestadius ou Læstadius (1800-1861). Educado na Universidade de Uppsala, Læstadius foi ordenado ministro em 1825. Foi enviado como missionário entre os sami (povo antigamente conhecidos como “lapões”) no norte da Suécia, onde entre 1826 e 1849 foi pastor na paróquia de Karesuando. Laestadius era filho de mãe sami, a qual também era devota participante de conventículos de oração e leitura bíblica.
Quando Laestadius chegou a Karesuando encontrou pobreza e abuso de álcool era generalizado entre os sami. Começou a pregar sobre moralidade e arrependimento. A vida de Laestadius mudou quando encontrou com Milla Clemensdotter ou Maria da Lapônia (1812–1892) em 1844. Essa jovem mulher sami, também membro de um conventículo de “leitores”, testemunhou sua experiência de paz encontrada quando ela compreendeu a graça de Deus.
A partir do encontro com Maria, Laestadius experimentou uma transformação espiritual. Seguiu-se um grande avivamento entre os sami de todos os países do círculo polar ártico. Em 1853, um bispo da Igreja da Suécia (luterana) decidiu que deveria ter dois serviços de culto a cada paróquia onde tivesse laestadianos: um para os paroquianos regulares e outros para os avivados.
Após a morte de Læstadius, o movimento foi liderado por Juhani Raattamaa (1811-1899). Após a morte de Raattamaa, o renascimento se dividiu em várias vertentes: velhos laestadianos, primogênitos, laestadianos ocidentais,
Os laestadianos sempre permaneceram membros das igrejas estatais na Noruega, Suécia e Finlândia, mas realizam suas próprias reuniões e muitos grupos possuem suas próprias casas de oração. Na América do Norte constituem denominações separadas, sendo a principal a Igreja Apostólica Luterana do Primogênito.
Doutrina e práxis
A Bíblia é a fonte primária de fé. Outras fontes materiais incluem as obras de Martinho Lutero, os sermões e escritos de Laestadius, bem como seus hinários, principalmente o Sions sånger.
Suas reuniões são solenes. Ocorrem êxtases e lamentos (frequementemente associados com a glossolalia) especialmente no momento da Ceia do Senhor. Há uma grande ênfase no arrependimento do pecado. Membros confessam seus pecados, normalmente em lágimas e emoções, então um dos anciãos pronuncia o perdão dos pecados pela imposição de mãos. A pregação pode ser extemporânea, com grande ênfase no pecado e perdão, bem como na leituras de sermões de Lutero e Laestadius. Tradicionalmente se cumprimentam com a frase ” a paz de Deus “. Realizam, quando possível suas próprias Ceias. Em alguns grupos tradicionais as mulheres cobrem a cabeça com um véu. Tradicionalmente, membros mais idosos das famílias ou seus anciãos batizam as crianças nas casas. Como outros movimentos avivalistas nórdicos, os maiores eventos são as reuniões campais de verão.
Buscam viver uma vida de santificação em separado da sociedade secular. Assim, muitos grupos rejeitam música mundana, dança, cinema. televisão, diversões públicas e contraceptivos. O isolamento (e o exclusivismo de alguns grupos) levam a serem vistos com suspeição pela ampla sociedade.
São liderados por anciãos leigos, mas há laestadianos ordenados ministros pelas igrejas estatais luteranas dos países nórdicos. São estimados em cerca de 500 mil membros, a maior parte deles na Finlândia. Suportam missões em diversas nações do globo, como Equador, Estônia, Alemanha, Grã-Bretanha, Hungria, Islândia, Quênia, Letônia, Rússia, Espanha, Suíça, Áustria e Togo.
BIBLIOGRAFIA
Alves, Lenardo. Notas de pesquisa de campo. Laestadianska församlingen i Uppsala (Knivsta). 2018.
Kristiansen, Roald. Samisk religion og læstadianisme: kristen tro og livstolkning. Fagbokforlag, 2005.
Heith, Anne. Laestadius and Laestadianism in the contested field of cultural heritage: a study of contemporary Sámi and Tornedalian texts. Umeå University & The Royal Skyttean Society, 2018.
Lie, Geir. História do Cristianismo. Santorini, 2020.
Argula von Grumbach (1490-1564) foi uma nobre alemã, autora e reformadora da Bavária.
Recebeu a típica educação das mulheres nobres da época, a qual não incluia latim — a língua da erudição — mas era leitora ávida da Bíblia em alemão.
Por volta de 1520 começou a ler e a corresponder com os reformadores, especialmente Lutero.
Em 1523, um jovem professor da Universidade de Ingolstadt, Arsacius Seehofer, foi perseguido por adotar as ideias luteranas. Argula escreveu cartas e poemas, recheados de citações bíblicas. O debate a fez conhecida na Alemanha e propagou a reforma na Bavária, onde os escritos de Lutero eram banidos.
Casada (e viúva) duas vezes. Depois dos incidentes de 1523 retirou-se para os cuidados de sua propriedade e família, mas mesmo antes de sua morte teve uma agitação a respeito de seus escritos.
Lucas Chranach, o velho. Pintura do altar de Wittenberg
A frase alemã was Christum treibet, “o que promove Cristo”, indica um princípio hermenêutico de Lutero.
A frase vem do prólogo de Lutero às Epístolas de Tiago e Judas, na sua edição alemã do Novo Testamento (1522):
E nisto todos os livros sagrados justos concordam, que todos pregam e praticam Cristo, e esse é o verdadeiro teste de censurar todos os livros, quer praticam Cristo ou não, pois toda a Escritura mostra Cristo, Romanos 3 e Paulo não quer saber nada mas Cristo 1 Cor. 2. O que Cristo não ensina não é apostólico, ainda que Pedro ou Paulo o ensinem. Novamente, o que Cristo prega é apostólico, mesmo que Judas, Anás, Pilatos e Herodes o tenham feito”.
As implicações desse princípio afetam no conceito de canonicidade, na interpretação bíblica e na homilética luteranas.
A tradição evangélica luterana nunca oficialmente fez um cânone das Escrituras. Nem seria necessário. Por esse princípio, tudo o que aponta para Cristo nas Escrituras hebraicas seriam canônicos e tudo que testificam o ministério de Cristo dentre os escritos apostólicos seria canônico. Em razão disso, Lutero questionou a canonicidade de Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse — os Antilegômenos de Lutero– ainda que os traduzisse e inserisse em seu Novo Testamento.
Quanto à interpretação, essa chave hermenêutica cristocêntrica poupou o luteranismo de muitas controvérsias teológicas. Isso porque passou ser uma hermenêutica centrada na totalidade da mensagem, não em detalhes. Consequentemente, o luteranismo mantém os mesmos documentos confessionais desde o século XVI: o livro de Concórdia.
Lutero entendia que a pregação deveria ser fundamentada nas Escrituras, apontando para Cristo e voltada para o povo. Pregar seria colocar as pessoas em contato com a mensagem de salvação em Jesus Cristo testemunhada pelas Escrituras.
Meurer, Siegfried. “Was Christum Treibet” : Martin Luther Und Seine Bibelübersetzung. Bibel Im Gespräch, 4. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1996.
Consubstanciação significa uma substância ao lado de outra. Seria a doutrina que durante o sacramento da Santa Ceia do Senhor a substância fundamental do corpo e do sangue de Cristo está presente ao lado da substância do pão e do vinho, que permanecem em suas formas presentes.
A consubstanciação é erroneamente atribuída a Lutero e aos luteranos. Apesar da diversidade interpretativa no luteranismo, a perspectiva oficial desde o Livro de Concórdia é de uma união sacramental com uma real presença de de Cristo em, com e sob os elementos.
Historicamente, teria sido a posição dos lolardos. Fora dessa falsa atribuição aos luteranos, não há registro de grupos que oficialmente esposem essa doutrina eucarística atualmente.