Crítica confessional

O termo crítica confessional aplica-se a duas abordagens de exegese homônimas, porém não relacionadas, além de o termo servir para leituras teológicas sem critérios exegéticos.

A primeira abordagem refere-se à Interpretação Teológica das Escrituras. Desde a distinção proposta por Johann Philipp Gabler entre teologia e estudos bíblicos, a primeira disciplina ficou relegada em fases posteriores da exegese, notoriamente na atualização ou aplicação das Escrituras ou totalmente não considerada. Por outro lado, a reflexão teológica passou a considerar as ciências bíblicas como anciliar da teologia. No entanto, um movimento heterogêneo de exegetas desde dos anos 1950 discutem como conciliar ambas disciplinas.

O segundo significado reflete a utilização de análises literárias voltadas para autobiografias, confissões pessoais, autoetnografia, testimonios para compreender os textos bíblicos.

Ambas abordagens são importantes por transparecer o quanto as interpretações são carregadas de perspectivas pessoais ou pressupostos teológicos. Adicionalmente, legitimam leituras que sirvam para professar experiências de fé, tanto pessoais quanto alinhadas às tradições das confissões históricas.

Vale ressaltar que, por vezes, o termo de interpretação confessional implica em um criticismo às práticas eisegéticas de muitos teólogos que imprimem no textos bíblicos significados alinhados às suas ideologias e tradições teológicas. Nessa linhagem, o termo leitura confessional ou leitura teológica pressupõe uma interpretação sem consciência de critérios exegéticos.

BIBLIOGRAFIA

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Blocher, Henri. La Bible au microscope: Exégèse et théologie biblique. Vaux-sur-Seine: Edifac, 2006.

Fowl, Stephen E. (ed.), The Theological Interpretation of Scripture: Classic and Contemporary Readings. Blackwell Readings in Modern Theology: Cambridge: Blackwell, 1997.

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Rosenthal, M.L. The Poet’s Art. New York: Norton, 1989.

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Vanhoozer, Kevin (ed.), Dictionary of Theological Interpretation of the Bible Grand Rapids, MI: Baker, 2005.

Críticas orientadas ao leitor

Conjuto de métodos exegéticos orientados pela estética da recepção, reader-response criticism, história dos efeitos, história da recepção, hermenêutica empírica, crítica contextual, crítica psicológica e crítica confessional.

Considerando que uma vez produzido, o autor não tem mais controle sobre as interpretações de um texto, investiga o processo de leitura. A leitura em si é um processo criativo, distinguindo seus resultados entre dois leitores diferentes ou o mesmo leitor em momentos distintos. O leitor traz para o texto seu pré-entendimento, algo que compreende até suas competências linguísticas até seu momento em que faz a leitura. A hipertextualidade, as alusões e a intertextualidade ganham destaques nessa análise.

A história da recepção explora as diversas interpretações da Bíblia ao longo do tempo, mostrando como a compreensão evolui. Ao contrário das abordagens anteriores como a história da interpretação ou a história da exegese, a história da recepção abrange todas as interpretações, incluindo as não convencionais, e abrange meios como a arte e a liturgia bem como a recepção teológica.

Inspira-se nas teorias literárias de Hans-Georg Gadamer, Stanley Fish, Norman Holland, Wolfgang Iser e Hans-Robert Jauss.

A hermenêutica de Gadamer enfatiza a interpretação contextual, ao mesmo tempo que respeita o conhecimento empírico. O desafio reside em identificar quando começou a história da recepção, dada a natureza complexa dos primeiros textos bíblicos e dos seus contextos. Compreender tanto os textos originais como as suas interpretações requer navegar em vários contextos históricos, confundindo os limites entre eles.

É uma crítica importante para entender a transmissão dos textos e de seus entendimentos. Assim, interpretações patrísticas, escolásticas, dos reformadores, populares, acadêmicas e representações artísticas são cotejadas para mapear os sentidos possíveis em um texto bíblico.

BIBLIOGRAFIA

Breed, Brennan W. Nomadic Text: A Theory of Biblical Reception History. Indiana University Press, 2014.

Comfort, Philip W. The Scribe as Interpreter: A new Look at New Testament Textual Criticism according to Reader-Reception Theory. 1996.

Lieb, Michael, Emma Mason, and Jonathan Roberts, eds. The Oxford handbook of the reception history of the Bible. Oxford University Press, 2013.

Concordância de Cruden

Alexander Cruden (1701-1770), auto-alcunhado de “Alexandre, o Corretor”, era um livreiro escocês baseado em Londres. Cruden produziu sua Complete Concordance to the Holy Scriptures of the Old and New Testament, uma concordância exaustiva da Bíblia King James.

Nascido em Aberdeen, entrou no Marischal College nessa cidade com intenções de ser ministro, mas sua saúde mental e um amor frustrado o impediu. Apesar de excelente domínio do inglês, latim, grego e hebraico, perdeu um emprego como secretário de um nobre por sua pronúncia imperfeita do francês. Abriu sua livraria em Londres e foi credenciado como um dos livreiros fornecedores da rainha.

Sua concordância colossal, com 3 colunas, 854 páginas, 250 mil citações, permitiu indexar sistematicamente o texto bíblico. Além de listar as palavras e suas referências, colocava cada palavra em um breve contexto. Foi um raro exemplo de formação de corpus textual meticuloso feito por uma só pessoa antes da era eletrônica. Concordâncias anteriores eram parciais e assistemáticas. Para a compilação, Cruden trabalhou sozinho das 7 à 1 da manhã todos os dias. Com isso, completou a maior parte da obra em menos de um ano.

Teve onze edições até 1848, além das obras derivativas, corrigindo eventuais erros. Foi amplamente utilizada até a publicação da Concordância Strong, que acabou substituindo-a. No entanto, edições derivativas ainda são publicadas.

O impacto exegético foi enorme. A separação das passagens com nomes de Deus com base no hebraico (“El” e “Jeovah”) influenciou o desenvolvimento da hipótese documental. Também foi a concordância utilizada por William Miller em suas leituras apocalípticas. Seu método foi aproveitado por lexicógrafos posteriores, como Samuel Johnson, além de ser um marco na linguística de corpus.

Cruden também foi editor, revisor e moralista. Acreditava que era sua missão vigiar a ortografia e gramática para garantir a moral nacional. Carregava uma esponja para corrigir ou apagar placas. Tinha desgosto pelo número 45, o qual também apagava, por ser associado ao escritor e político John Wilkins.

Como revisor, trabalhou em uma edição dos Comentários de Matthew Henry. Em 1750 produziu um pequeno Compêndio da Bíblia Sagrada, resumindo cada capítulo.

Entrou em ddificuldades financeiras e em melancolia pelo custo exorbitante de sua Concordância e por ter deixado de lado sua loja para esse projeto. Eventualmente, sua obra esgotou e Cruden viu uma segunda edição sair em 1761 e uma terceira em 1769.

BIBLIOGRAFIA

Cruden. Complete Concordance

Keay, Julia. Alexander the corrector: the tormented genius who unwrote the Bible. Harper Perennial, 2005.

Olivier, Edith. Alexander the Corrector: The Eccentric Life of Alexander Cruden. New York: The Viking Press, 1934.

Comentário de Habacuque

Comentário de Habacuque, pesher Habakkuk, 1QpHab é um dos primeiros manuscritos do Mar Morto a ser descoberto e publicado. O comentário utiliza o texto do Livro de Habacuque para interpretar eventos contemporâneos. Argumenta que há um Mestre da Justiça que conhece o verdadeiro significado das Escrituras e está em comunhão com Deus. Tal mestre tem como oponentes o Sacerdote Mau e o Homem das Mentiras.

Callinicum

Antiga cidade na Síria na margem nordeste do rio Eufrates, cerca de 160 quilômetrosa leste de Alepo. É hoje Raqqa.

Foi fundada como uma cidade helenística com o nome Nicéforo pelo rei selêucida Seleuco I Nicator (reinou 301-281 aC). Seu sucessor, Seleuco II Calínico (r. 246–225 aC), ampliou a cidade e a renomeou como Kallinikos. Seria conquistada pelos romanos e grafada como Callinicum e a incorporou à província de Osroene.

Em 1.º de agosto de 388 EC, uma turba de cristãos incendiou uma sinagoga de Callinicum. Seria talvez o primeiro ataque de cristãos contra sinagogas e um dos primeiros progroms. Também foi destruída uma igreja de outro grupo cristão, possivelmente adeptos de Valenciano.

No início, o imperador Teodósio apoiou o administrador local que exigiu que o bispo reconstruísse a sinagoga. Porém, o bispo Ambrósio de Milão pressionou
Teodósio contra tal reparação. O bispo de Callinicum foi exonerado dede qualquer responsabilidade e depois rescindiu qualquer exigência de restituição.

BIBLIOGRAFIA

Ambrósio. Epístola 64.

Chin, Catherine M. “Built from the Plunder of Christians”: Words, Places, and Competing Powers in Milan and Callinicum’.” Religious Competition in the Greco-Roman World 10 (2016): 63.

Figueroa, Gregory Francis. The Church and the Synagogue in St. Ambrose. Catholic University of America Press, 1949.

Jacobs, Andrew. “Christians, Jews, and Judaism in the Eastern Mediterranean and Near East, c. 150–400 CE.” The Cambridge Companion to Antisemitism: 83-99.