Simon Chan

Simon K. H. Chan, teólogo pentecostal, professor de Teologia Sistemática no Trinity Theological College (Cingapura).

Fez seu doutorado com ênfase em teologia histórica pela Universidade de Cambridge, sob a direção de Eamon Duffy (1986). É um ministro ordenado nas Assembléias de Deus de Cingapura e editor do Trinity Theological Journal.

Chan critica divisão da teologia sistemática em disiciplinas isoladas. Para integrá-las, propõe que a Espiritualidade seja uma disciplina em seu próprio mérito.

O foco de Chan no culto como cerne ontológico da Igreja remedia deficiências em eclesiologia que consideram o culto e a liturgia como acidentes sociológicos ou aspectos funcionais. Para Chan, o culto define a Igreja.

TEOLOGIA

Chan, Simon. Spiritual Theology: A Systematic Study of the Christian Life. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1998.

Chan, Simon. Pentecostal Theology and the Christian Spiritual Tradition. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2000.

Chan, Simon. Liturgical Theology: The Church as Worshipping Community. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2006.

Christus Victor

Christus Victor, em latim para Cristo vitorioso, é um conjunto de perspectivas sobre a obra de reconciliação de que a morte de Cristo pela humanidade pecadora (1 Co 15:3; Rm 5:8; Jo 3:16) culminou uma vitória divina sobre o pecado, o mal e a morte.

Pela doutrina de Christus Victor, Jesus Cristo morreu para derrotar os poderes do mal (como o pecado, a morte e o diabo), assim libertando a humanidade de sua escravidão. A partir dessa interpretação, há diversas explicações com nuances. Umas enfatizam a recapitulação — a repetição perfeita como segundo Adão. Ainda, sob a perspectiva de Christus Victor há teorias do resgate, na qual Cristo arrancou a criação das mãos do maligno. Outras utilizam imagens militarísticas de combate e derrota do mal. Há ainda concepções terapêuticas na qual Cristo inaugura a humanidade recriada já sarada dos pecados e da morte. Uma visão mais recente é a da renúncia da retaliação e violência por parte Cristo. Isso permitiu a paz entre Deus e a humanidade quando o esperado deveria ser a punição por sua morte, mas ao invés disso Cristo manifestou sua graça e perdão à humanidade mediante a ressurreição e ascenção triunfal.

Apesar dessas nuances, há um elemento comum nessa doutrina. Jesus teve que assumir fisicamente a natureza humana caída, uni-la à sua natureza divina. Sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus Cristo pode pregar o evangelho para a erradicação do mal, derrotar as potestades espirituais e humanas, a vencer a tentação ao longo de sua vida no poder do Espírito Santo e derrotar a corrupção dentro de sua natureza humana em sua morte. Ao ressuscitar, apresentou-se com a natureza humana purificada e curada. Em um novo corpo ascendeu ao Pai como a primícia da humanidade restaurada. Por fim, compartilhou o Espírito de sua nova humanidade com todos os que creem para fazê-los partícipes da natureza divina.

Os textos-chave são Mt 6:14; Mc 1:4; 4:13; Lc3:3; 5:20-24; Jo 12:31, Cl 2:15, 1 Jo 3:8 e Hb 2:14-15.

Perspectiva dominante no primeiro milênio do Cristianismo junto da teoria do resgate, a teoria de Cristo vitorioso foi preterida pela teoria da satisfação de Anselmo no Ocidente. Entre cristãos orientais continua ser a teoria mais comum sobre a expiação. Lutero empregou alguns aspectos da doutrina de Christus Victor, retratando Cristo como um guerreiro que invade os domínios do mal. Alguns anabatistas, como Marpeck, propuseram doutrinas de salvação semelhantes durante a Reforma. Na tradição pietista, especialmente focada na teologia da cruz ao invés da teologia da glória, a vitória de Cristo subverteu a ordem aparente, pois em sua humanidade e sangue purificou todo o pecado (1 Jo 1:7), não sendo sua morte uma derrota, mas a vitória.

O pentecostalismo clássico fundamenta-se em uma versão soteriológica nessa perspectiva. Por uma leitura que combinou o evangelismo herdado dos movimentos de Santidade e de Alta Vida Superior (Keswick), sem intermediação de teologia sistemática formal, os pioneiros pentecostais e muitas denominações atuais compreendem a obra de salvação em termos de redenção, resgate e restauração (restauração terapêutica) embasados na vitória de Cristo. Por essa razão, o sangue de Cristo é visto não como um pagamento por pecados alheios, mas um purificador dos pecados da humanidade.

Essa doutrina seria articulada no século XX pela escola de Lund, dentre eles Gustaf Aulén. A recepção inicial da obra de Aulén entre alguns setores evangélicos de língua inglesa levou a uma posição dicotômica entre os modelos de Cristo vencedor e de soteriologias forenses, sobretudo a teoria da substituição penal. Contudo, reflexões teológicas recentes como a de Jeremy Treat demonstram a plausibilidade de combinar tais modelos.

BIBLIOGRAFIA
Aulén, Gustaf. Christus Victor: an Historical Study of the three main types of the idea of the Atonement. Trans. A. G. Herbert; New York: Macmillan, 1931.

Bruce, F.F. “Christ as Conqueror and Reconciler,” Bibliotheca Sacra, 141 (January 1984): 298.

Courey, David. “Victory in Jesus: Perfectionism, Pentecostal Sanctification, and Luther’s Theology of the Cross”. Journal of Pentecostal Theology 22.2 (2013): 257-274. https://doi.org/10.1163/17455251-02202010 

Finger, Thomas. “Pilgram Marpeck and the Christus Victor motif.” Mennonite Quarterly Review, vol. 78, no. 1, Jan. 2004, pp. 53+. 

Girard, René. Things hidden since the foundation of the World. London; Athlone, 1987.

Hays, Richard B. “Operation Evil Power: If Christ has truly defeated the powers of Satan on the Cross (Col 2:15), why do the powers of evil effectively operate in this world?,” Christianity Today, (February 2004): 74.

House, Sean David. Theories of atonement and the development of soteriological paradigms: implications of a Pentecostal appropriation of the Christus Victor model. Doctoral dissertation, University of South Africa, 2012.

Moran, John (1935). “Christus Victor: A Historical Study of the Three Main Types of the Idea of the Atonement”. Thought: Fordham University Quarterly 10 (3):519-522.

Smith, Martyn J. Divine Violence and the Christus Victor Atonement Model: God’s Reluctant Use of Violence for Soteriological Ends. Wipf and Stock Publishers, 2016.

Treat, Jeremy R. The crucified king: atonement and kingdom in biblical and systematic theology. Zondervan, 2014.

Weaver, J. Denny. The nonviolent atonement. Grand Rapids: Eerdmans, 2011.

Circuncisão

Circuncisão, em hebraico מוּלָה e em grego περιτομή, é a remoção do prepúcio do pênis. No antigo Israel e no judaísmo, a circuncisão ocorria no oitavo dia dos bebês (Gn 17:12; Lv 12:3; Lc 1:59; Lc 2:21; Fp 3:5), embora pudesse ocorrer em idade mais tardia (Gn 17:25; 34:14-24).

Diferentes formas de procedimentos cirúrgicos no prepúcio ocorrem em várias sociedades. No Antigo Oriente Próximo, os egípcios praticavam a circuncisão, enquanto para os gregos e povos helenizados era considerada uma mutilação (Heródoto. Histórias 2.104).

A justificação desse procedimento remete à injunção divina a Abraão (Gn 17:9-27), a Josué (Js 5:2-7) e a Israel (Lv 12:1-5; Êx 12:44; Êx. 12:48). Aparece como um “sinal” da aliança de Deus com Israel (Gn 17:11).

Na passagem da estalagem (Êx 4:24-26), Zípora, esposa de Moisés, salva a vida de seu marido ao circuncidar seu filho.

A circuncisão serve para distinguir pessoas com “ouvidos incircuncisos” (Jr 6:10) ou um “coração incircunciso” (Lv 26:41; Ez 44:7; Ez 44:9), denotando teimosia. No cristianismo primitivo, os méritos de continuar o ritual da circuncisão eram debatidos, mas uma interpretação alegórica acabou predominando (At 15; Rm 2:29; Col 2:11; 1Co 7:19; Gl 6:15).

BIBLIOGRAFIA

Hoffman, A. Lawrence. The Covenant of Blood: Circumcision and Gender in Rabbinic Judaism. Chicago: University of Chicago Press, 1996.

Soggin, J. Alberto. Israel in the Biblical Period: Institutions, Festivals, Ceremonies, Rituals. Trad. John Bowden. New York: T&T Clark, 2000.

Cocceianismo

Sistema teológico de matriz reformada formulado pelo teólogo holandês Johannes Cocceius (1603 – 1669), caracterizado pelo aliancismo. Também é um arcabouço interpretativo para a teologia bíblica.

Cocceius propôs uma teologia bíblica em contraposição ao sistema tópico de teologia empregado por Voetius. Na abordagem cocceiana as Escrituras eram lidas orientadas por uma história redentiva prefigurada no Antigo Testamento em diferentes alianças ou pactos. Embora já presente de alguma forma no pensamento de Zwínglio e Bullinger (e notavelmente ausente em Calvino e Beza), seria formulado plenamente por Cocceius.

O conceito de “aliança” ou “pacto” (em latim foedus) como a ideia fundamental através da qual os ensinamentos da Bíblia deveriam ser compreendidos.

Sua teologia da aliança enfatizava o relacionamento entre Deus e a humanidade conforme definido por duas alianças: a aliança das obras, em vigor antes da queda de Adão, e a aliança da graça, que incluía a revelação da lei mosaica e alcançou sua expressão mais plena na morte de Cristo.

Deus quando fez uma aliança com Adão como representante federal da humanidade condicionou que se Adão obedecesse ele e seus
a posteridade receberia a vida eterna. No entanto, se Adão desobedecesse a depravação e a morte seria o destino de toda a humanidade.

Cocceius via a Bíblia como apresentando a história sagrada desse relacionamento, ou Heilsgeschichte, desde a criação até a revelação de Cristo. Ao destacar a natureza progressiva da revelação de Deus, Cocceius estabeleceu as bases para o desenvolvimento da moderna teologia do Antigo Testamento. A Bíblia não seriaa uma doutrina teológica sistemática ou tópica, mas um relato da relação de Deus com a humanidade, e a teologia da aliança de Cocceius forneceu uma estrutura para entender essa relação.

Em contraste com Agostinho, que acreditava que todos pecaram em Adão, para a teoria federal o pecado de Adão é imputado à sua posteridade.
Romanos 5:12 é entendido que a morte física, espiritual e eterna veio para todos porque todos foram tratados como pecadores; mas não houve uma coparticipação da humanidade na falha original de Adão.

BIBLIOGRAFIA

Coccejus, Johannes. Summa Doctrinae de Foedere et Testamento Dei. 1648 (1653, 1660).

McCoy, Charles S. “Johannes Cocceius: Federal Theologian.” Scottish Journal of Theology 16 (1963):352–370.

McCoy, Charles S.; Baker, J.Wayne . Fountainhead of Federalism: Heinrich Bullinger and the Covenantal Tradition. Louisville, KY: Westminster/John Knox Press, 1991.