Cânone de Ebed Jesu

Mar Ebed Jesu (Abd Yeshua, ou Abdisho bar Berika) foi o metropolita de Nisibis e Armênia da Igreja do Oriente. Era de origem siríaca. Depois de ser bispo de Sigara (Sinjar) por cinco anos foi feito bispo de Soba ou Nisibis em 1290 d.C.

Erudito, em c. 1298, publicou um cânone bíblico — uma lista de livros válidos para a vida em Igreja.

Com a força de Tua ajuda, ó Senhor, e auxiliado pelas orações de todos os eminentemente justos e da Mãe de grande nome, escrevo um excelente tratado, no qual enumerarei as Divinas Escrituras e todos os escritos eclesiásticos de tempos antigos e modernos. Além disso, registrarei os nomes dos autores dos diferentes livros e os assuntos de que tratam; e, com ajuda de Deus, começo com Moisés.

Moisés escreveu a Lei em cinco livros, a saber: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Depois disso, segue o livro de Josué, filho de Num; Juízes; Samuel; o livro dos Reis; as Crônicas; os Salmos de Davi; os Provérbios de Salomão; Eclesiastes; o Cântico dos Cânticos; a Grande Sabedoria [Sabedoria de Salomão]; a Sabedoria do filho de Siraque; Jó; Isaías; Oseias; Joel; Amós; Obadias; Jonas; Miqueias; Naum; Habacuque; Sofonias; Ageu; Zacarias; Malaquias; Jeremias; Ezequiel; Daniel; Judite; Ester; Susana; Esdras; Daniel o Menor [adições de Daniel?] ; a Epístola de Baruque; as Tradições dos Anciãos [Mishna? ou Pirkei Avot?]; Josefo, o historiador; o livro de Provérbios; a Narrativa dos filhos de Salomona; os Macabeus; um relato do rei Herodes; o livro da destruição da última Jerusalém por Tito; o livro de Asenate a esposa de José, o filho de Jacó, o justo; e o livro de Tobias e Tobit, o israelita.

Tendo enumerado os livros do Antigo Testamento, iremos agora registrar os do Novo Testamento. Primeiro, Mateus escreveu na Palestina, na língua hebraica. Depois dele vem Marcos, que escreveu em latim em Roma. Lucas, em Alexandria, falava e escrevia em grego. João também escreveu seu Evangelho em grego em Éfeso. Os Atos dos Apóstolos foram escritos por Lucas a Teófilo; e as três epístolas de Tiago, Pedro e João foram escritas em todas as línguas e chamadas de católicas. Além dessas, há quatorze epístolas do grande apóstolo Paulo, a saber, a epístola aos Romanos, escrita em Corinto; a Primeira Epístola aos Coríntios, escrita em Éfeso e enviada pelas mãos de Timóteo; a segunda aos Coríntios, escrita de Filipos da Macedônia, o grande, e enviada pelas mãos de Tito; a Epístola aos Gálatas, escrita em Roma e enviada pela mesma pessoa; a Epístola aos Efésios, também escrita em Roma e enviada por Tíquico; a Epístola aos Filipenses, escrita no mesmo lugar e enviada pelas mãos de Epafrodito; a Epístola aos Colossenses, escrita em Roma e enviada por Tíquico, o verdadeiro discípulo; a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, escrita em Atenas e enviada pelas mãos de Timóteo; a Segunda aos Tessalonicenses, escrita em Laodiceia da Pisídia, e enviada também por Timóteo; a Primeira Epístola a Timóteo, também escrita de Laodiceia da Pisídia, e enviada pelas mãos de Lucas; a Segunda a Timóteo, escrita de Roma e enviada pelas mãos de Lucas, o Médico e Evangelista; a Epístola a Tito, escrita em Nicápolis, e enviada pelas mãos de Epafrodito; a Epístola a Filemom, escrita em Roma e enviada por Onésimo, escravo de Filemom; a Epístola aos Hebreus, escrita na Itália e enviada pelas mãos de Timóteo, o filho espiritual. E os [Harmonia dos] Evangelhos, chamados de Diatesseron, compilados por um homem de Alexandria chamado Amonis, que é Taciano.

Vale salientar que o conceito de cânone bíblico nas igrejas orientais é diferente de sua concepção ocidental. Entre cristãos ortodoxos do mundo oriental há livros elencados como dignos para doutrina e liturgia bem como outros livros inspirados, mas reservados à leitura privada. O cânone de Ebed-Jesu deve ser compreendido nesse caráter amplo.

BIBLIOGRAFIA

Abdisho’ bar Brika (Ebed-Jesu). Marganitha. Em Metrical Catalogue of Syriac Writers. G.P. Badger, The Nestorians and their rituals (1852) vol. 2, pp.361-379.

Cânone Muratoriano

O Cânone ou Fragmento Muratoriano é uma lista de livros do Novo Testamento. Talvez seja a mais antiga compilação explícita de livros tida como escrituras cristãs. Sua datação é estimada entre o final de século II e até o século IV a.C., provavelmente originária de Roma.

Em 1700, o erudito Lodovico Antonio Muratori (1672-1750) descobriu na Biblioteca Ambrosiana em Milão um códice do século VII ou VIII com vários escritos patrísticos, anotações e credos. Entre eles estava um texto que relatava os livros usados na Igreja.

Muratori publicou a lista em 1740 como um exemplo de latim bárbaro na Itália medieval. O latim desta lista é quase certamente traduzido do grego.

Cânone do Fragmento Muratoriano

  1. [Mateus]
  2. [Marcos]
  3. Lucas (= terceiro Evangelho)
  4. João (= quarto Evangelho)
  5. Epístolas de João (incluindo 1 João)
  6. Atos dos Apóstolos
  7. Epístolas de Paulo
    • Coríntios (duas)
    • Efésios
    • Filipenses
    • Colossenses
    • Gálatas
    • Tessalonicenses (duas)
    • Romanos
    • Filemom
    • Tito
    • Timóteo (duas)
    • Laodicenses (forjado)
    • Alexandrinos (forjado)
  8. Judas
  9. João (duas)
  10. Sabedoria de Salomão
  11. Apocalipse de João
  12. Apocalipse de Pedro (apenas para leitura privada, de acordo com alguns)
  13. Pastor de Hermas (apenas para leitura privada)

Lista de Bryennios

A Lista de Bryennios é um cânone dos livros do Antigo Testamento, descoberta 1873 no manuscrito Codex Hierosolymitanus (H) por Philotheos Bryennios (1833 – 1917), metropolita de Nicomedia da Igreja Ortodoxa Grega, na coleção do Mosteiro Jerusalém do Santíssimo Sepulcro em Constantinopla.

O Codex Hierosolymitanus, obra do escriba Leo no ano 1056, contém a Didaquê, Epístola de Barnabé, 1 Clemente, 2 Clemente e as versões longas das epístolas inacianas. Como o mosteiro onde foi descoberto era dependente do Patriarcado Greco-Ortodoxo de Jerusalém, o manuscrito foi transferido para a biblioteca do mosteiro do Santo Sepulcro em 1887, sob a referência H 54.

O conjunto de livros dos pais apostólicos no códice e a transliteração dos nomes em aramaico na língua levaram a pensar que originalmente seria datado de entre 100 e 150 d.C. — época dessa literatura, quando o aramaico seria corrente nas igrejas e ainda a ordem dos livros estava menos estável. Contudo, Stevens (2020) demonstrou que a lista originária de um trecho dos Pesos e Medidas (Mens. et pond. 23) de Epifânio é dependente de uma antologia medieval, a Doctrina patrum. Ademais, o aramaico ocidental continua a ser usado em algumas comunidades cristãs do Levante.

A Lista de Bryennios apresenta os nomes dos livros do Antigo Testamento, contados como 27, em grego e em sua forma semítica (hebraico e aramaico) transliterado. Depois de seu título “nome dos livros entre os hebreus” segue a lista:

  1. Brisith: Gênesis.
  2. Elsimoth: Êxodo.
  3. Odoikra: Levítico.
  4. Diiesou: de Josué filho de Naue (Num).
  5. Eledebbari: Deuteronômio
  6. Ouidabir: Números.
  7. Darouth: de Rute.
  8. Diab: De Jó.
  9. Dasophtim(n): dos Juízes.
  10. Sphertelim: Saltério.
  11. Diemmouel: Dos reinados – primeiro (1 Samuel)
  12. Diaddoudemouel: Dos reinados – segundo (2 Samuel)
  13. Damalachem: Dos reinados – terceiro (1 Reis)
  14. Amalachem: Dos reinados – quarto (2 Reis)
  15. Debriiamin: Do Paralipômena – primeiro (1 Crônicas).
  16. Deriiamin: Do Paralipômena – Segundo.
  17. Damaleiith: Dos Provérbios.
  18. Dakoeleth: Eclesiastes.
  19. Sira Sirim: Cantares
  20. Dierem: Jeremias (não fica claro se inclui Lamentações, Baruque e Epístola de Jeremias)
  21. Daatharsiar: Dos Doze Profetas.
  22. Desaiou: De Isaías.
  23. Dieezekiel: De Ezequiel.
  24. Dadaniel: De Daniel.
  25. Desdra: Esdras A. (Talvez o Esdras A da Septuaginta ou um targum de Esdras)
  26. Dadesdra: Esdras B. (possivelmente os atuais Esdras e Neemias)
  27. Desthes: Ester.

BIBLIOGRAFIA

Audet, Jean-Paul. “A Hebrew-Aramaic List of Books of the Old Testament in Greek Transcription.” The Journal of Theological Studies 1.2 (1950): 135-154.

Beckwith, Roger T. The Old Testament canon of the New Testament church: And its background in early Judaism. Wipf and Stock Publishers, 2008.

Jerusalem, Patriarchikê bibliothêkê, Panaghiou Taphou 054 Description, List of Contents

Gallagher, Edmon L., and John D. Meade. The Biblical Canon Lists from Early Christianity: Texts and Analysis. Oxford University Press, 2017.

Stevens, Luke J. “The Bryennios List and its Origin.” The Journal of Theological Studies 71.2 (2020): 703-706.

Gustaf Aulén

Gustaf Aulén (1879–1978) teólogo e bispo luterano sueco conhecido por sua abordagem da obra expiatória de Christus Victor para explicar os efeitos da morte de Jesus Cristo na salvação. Junto de Anders Nygren (1890-1978) foi um expoente da Teologia Lundensiana.

Estudou em Kalmar e depois na Universidade de Uppsala. De 1907 a 1913 foi professor assistente em Uppsala. Foi catedrático de teologia sistemática na Universidade de Lund a partir de 1913 até ser feito bispo de Strängnäs em 1933. Como figura pública, combateu vocalmente o nazifascismo, mesmo sendo a Suécia neutra durante a 2a Guerra. Morreu quase centenário.

Em uma série de palestras, publicadas em 1931, Aulén argumentou a doutrina de Christus Victor, a visão clássica da expiação. Partindo de que nenhuma doutrina, conceito ou imagem explicaria com justiça os enormes efeitos da obra expiatória de Cristo, Aulén percebeu que as teorias dos reformadores magistrais se distanciavam muito dos textos bíblicos. Notou ainda que as teorias patrísticas de resgate provocaram a justa reação dos escolásticos (e reformadores) pela percepção equivocada de que Deus devia algo ao Diabo. No entanto, Aulén aponta que a noção de resgate como remição foi confundida com resgate como recuperação ou libertação da influência do pecado, morte e do mal (o que em português seria a “remissão”).

A centralidade da ação divina é contínua. Do início ao fim, a expiação é o ato de Deus por meio de Cristo, no qual os poderes do pecado, da morte e do diabo foram vencidos, e o mundo foi reconciliado com Deus.

Um dos textos fundamentais é que “Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo” (2 Coríntios 5:19). Essa visão seria dramática e dualista, porque assumia uma narrativa de conflito entre Deus e os poderes do mal, do pecado e da morte, na qual Deus triunfa sobre esses poderes. Também seria objetiva, porque postula que Deus tomou a iniciativa de mudar decisivamente a relação entre Deus e o mundo.

As teorias subjetivas como a doutrina da satisfação de Anselmo ou da substituição penal de Lutero e Calvino seriam antropocêntricas. Isso porque enfocariam o processo de salvação no homem e não em Deus. Aulén argumentou que Christus Victor também difere do entendimento “latino” da expiação, pois essas teorias dependem de uma obra divina descontínua. O sacrifício oferecido por Cristo a Deus em favor da humanidade “interrompe” a contínua obra divina de Deus movimentar-se para o homem e passa exigir um movimento na outra direção do homem para Deus.

Para Aulén a vontade de Deus de reconciliar triunfa sobre o pecado, a morte e o diabo. O juízo é sobre esses três. A doutrina de Christus Victor era uma teoria dupla da expiação, com Deus como sujeito (Reconciliador) e objeto (Reconciliado).

Vale notar alguns pontos salientes da teologia de Aulén. Sua hermenêutica era fundamentada no uso de metáfora, especialmente metáfora bíblica. Típico da epistemologia de Uppsala, Aulén via a teologia como estudo da ideia de Deus, não Deus em si, o qual seria irredutível.

Sua cristologia tem por base a o triunfo paradoxal de Jesus Cristo sobre as forças destrutivas do mal, particularmente na crucificação (posições semelhantes à teologia da cruz luterana, a cristologia anabatista, e a perspectiva do Chaoskampf). Assim, Cristo é o revelador e o libertador.

Seu cristocentrismo enfatizava a cruz e a ressurreição como central para o Novo Testamento. No entanto, os eventos da morte e vitória de Cristo não se separam dse seu ministério terreno. As obras de Jesus, seus “sinais”, revelam sua glória como Aquele que é e traz vida de Deus (Jo 2:11; 11:4, 40). Em seus sinais, Jesus sacia com comida e bebida (Jo 2; 6:1-15), restaura os enfermos (Jo 4: 47-52; 5: 1-9; 9: 1-7) e ressuscita os mortos (Jo 11). Jesus promete a vitória sobre a morte pela ressurreição dos mortos (Jo 11: 25-26). Seguir, crer, conhecer e confiar em Cristo Jesus é tornar-se partícipe de sua vida.

O caráter de reconciliação da Santa Ceia a faz ecumênica, pois ao lembrar a morte e a ressurreição de Cristo há uma reconciliação dos crentes com Deus e uns com o outros.

Escatologicamente, a doutrina do “Christus Victor” está para “agora e ainda não”. Deus já venceu, mas esperamos a vitória final de Deus em Cristo, quando todos os joelhos se dobrarão àquele que é o Senhor (Fp 2:11); quando Deus terá feito de todos os inimigos de seu Filho “escabelo de seus pés” (Lc 20:43; Atos 2:35; Hb 1:13; 10:13); e quando o reino deste mundo há de se tornar o reino do Deus em sua plenitude (Ap 11,15).

Seus livros eram quase imediatamente traduzidos para o inglês, mas a recepção da doutrina Christus Victor ficou inicialmente restrita à teologia acadêmica. As críticas da fraqueza da metodologia da história das ideias fez com que Aulén revisasse seus livros continuamente. Sem excluir a combinação da soteriologia Christus Victor com outras abordagens, sua posição ganhou limitada aceitação entre círculos teológicos eclesiásticos fora do mundo luterano a partir dos anos 1990.

BIBLIOGRAFIA

Aulén, Gustaf. A Fé Cristã. Tradução de Dirson Glênio Vergara dos Santos. São Paulo: ASTE, 2002. Originalmente publicado em 1923 em sueco.

Aulén, Gustaf. Christus Victor: an Historical Study of the three main types of the idea of the Atonement. Trans. A. G. Herbert; New York: Macmillan, 1931. Originalmente publicado em 1930 em sueco.

Ḥerem (genocídio)

O ḥerem (hebraico חרם) era uma prática sacrifical na qual toda presa viva — quer pessoa, quer animal — é condenada à morte e devotada a um deus.

Antes, destruí-las-ás [ḥerem] totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos ferezeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor, teu Deus,

Dt 20:16

O termo ḥerem aparece nas línguas semíticas como algo interdito por razões religiosas. No entanto, em Dt 20:16; Js 10:40; na Estela de Mesa, o conceito de ḥerem indica aniquilação total da população apreendida. É nesse sentido de destruição que aparece a última palavra de Malaquias, no final do Antigo Testamento do cânone cristão.

O ḥerem oferece um dilema ético e moral, bem como uma dificuldade bíblica. O teólogo anabatista John Howard Yoder sugere de que o ḥerem evitava que a guerra se tornasse uma fonte de enriquecimento por meio de pilhagem. Assim, seria uma forma incipiente de conter a escalada de violência.

BIBLIOGRAFIA
Hofreiter, Christian. Making Sense of Old Testament Genocide: Christian Interpretations of Herem Passages. Oxford University Press, 2018.

Stern, Philip D. The Biblical Herem: A Window on Israel’s Religious Experience. Brown Judaica Studies 211; Atlanta: Scholars Press, 1991.

Trimm, Charlie. The Destruction of the Canaanites: God, Genocide, and Biblical Interpretation. Wm. B. Eerdmans Publishing, 2022.