Inscrição de Khirbet er-Ra’i

A inscrição de Khirbet er-Ra’i, anunciada sua descoberta em 2021, constitui um exemplo de escrita paleo-hebraica ou proto-cananeia. São cinco letras somente, sendo proposto que signifique Yrb‘l ou Jerubaal, um dos nomes de Gideão (Jz 6:31–32).

Khirbet er-Ra’i é um sítio arqueológico na Sefelá, cerca de 4 km de Láquis.

BIBLIOGRAFIA

Christopher Rollston, Yosef Garfinkel, Kyle H. Keimer, Gillan Davis and Saar Ganor, 2021. The Jerubba‘al Inscription from Khirbet al-Ra‘i: A Proto-Canaanite (Early Alphabetic) Inscription. Jerusalem Journal of Archaeology 2: 1–15. https://doi.org/10.52486/01.00002.1; https://jjar.huji.ac.il

Genealogia

A linhagem da descendência de uma pessoa ou grupo (família, tribo ou nação) desde um ancestral. Há cerca de duas dezenas de listas genealógicas na Bíblia, notavelmente no Antigo Testamento e as genealogias de Jesus.

As genealogias antecedem a escrita. Suas origens prováveis são os patronímicos, a identificação pelo nome do pai. Ainda hoje, vários povos árabes mantém a nomenclatura nasab, a cadeia genealógica de nomes por linhagem parterna. Por exemplo, um nome como “Ayyub ibn Yusuf ibn Idris ibn Uzair al-Baghdadi” (Jó filho de José filho de Enoque filho de Esdras de Bagdá) contém informações de várias gerações. Um nassab, meticuloso genealogista árabe, mantém registros e tradições que recontam por séculos as histórias de uma família. Em sociedades linhageiras essas genealogias servem para identificação pessoal e reconhecer alianças de diferentes famílias, clãs e tribos. E o pertencimento a linhagens importantes ou ter um ancestral célebre aufere direitos e prestígio.

Com o surgimento da escrita, as genealogias passaram a atestar direitos.

Listas de reis legitimavam dinastias e as ligavam a ancestrais célebres, ancestrais epônimos (fundadores da nação) e até mesmo deuses.

Marcos de propriedade de terras também usavam por registros genealógicos e eram escritos em pedra, vasos selados ou tabuletas de argila.

Registros dessa prática são registradas em artefatos arqueológicos mesopotâmicos. Por exemplo, o oficial Marduk-zakir-shumi ganhou terras do rei babilônico Marduk-apla-iddina (1173-1161 a.C.) e registrou em seu marco:

Marduk-zaki-shumi, filho de Nabunadinahe, seu avô era Rimeni-Marduk, bisneto de Uballitsu-Marduk, descendente de Arad-Ea.

Como a terra pertencia à família, as linhagens eram importantes para determinar direitos de venda ou de remissão nos jubileus. Cf. Jos 13-22; Lev 25. Em

Atos de Paulo e Tecla

Livro apócrifo estimado ser do século II d.C que relata as viagens missionárias de Paulo e uma discípula, Tecla. O texto está dividido em duas partes principais: Os Atos de Paulo e Tecla e O Martírio de Tecla.

A jovem nobre Thecla ou Tecla ouve os ensinamentos de Paulo e se converte ao cristianismo, apesar da oposição de sua família e da sociedade.

Os Atos de Paulo e Tecla começam com Tecla ouvindo Paulo pregando o evangelho em sua cidade de Icônio. Ela é imediatamente cativada por sua mensagem e se dedica a aprender mais sobre o cristianismo. Apesar das tentativas do noivo de dissuadi-la e da desaprovação da mãe, Tecla torna-se cristã e opta por seguir Paulo em suas viagens, mesmo que isso signifique deixar para trás sua vida privilegiada.

Enquanto Thecla viaja com Paul, ela realiza feitos milagrosos e espalha o evangelho para outras pessoas. No entanto, sua fé é testada quando ela é presa e condenada à morte por se recusar a se casar com seu noivo. Ela é milagrosamente salva da execução por uma série de eventos sobrenaturais e continua a espalhar o evangelho até finalmente se reunir com Paul.

O Martírio de Tecla descreve o eventual martírio de Tecla por sua fé. Depois de ser capturado novamente.

Perícope

Perícope vem do grego “recorte ao redor”, é um trecho de texto com sentido completo. Localizar e delimitar um perícope é um dos primeiros passos para entender a mensagem inteira de um texto.

O método de delimitação de unidades (perícope) é uma abordagem textual-crítica e retórica que analisa como os escribas antigos utilizavam marcas físicas (espaços, letras, layout) e discursivas (incipt, inclusio) em manuscritos para dividir o texto em seções menores e coerentes.

As perícopes são unidades de texto que funcionam como porções de leitura (lecionários) e influenciaram a divisão posterior das Escrituras em capítulos e versículos. No contexto da exegese e da história da interpretação, esses elementos são objetos de estudo da Crítica da Delimitação.

Historicamente, a organização do texto por meio de marcações visuais precede os sistemas modernos de pontuação. Desde o segundo milênio a.C., o uso de espaços em branco e linhas horizontais servia para segmentar o conteúdo em seções. Nos manuscritos, o símbolo de parágrafo () era o marcador original da perícope. Na tradição hebraica, essa segmentação ocorria por meio de espaços vazios conhecidos como petuhah (parágrafo aberto) e setumah (parágrafo fechado), sendo o formato petuhah o registro mais antigo.

Esses espaços exercem uma função estruturante e retórica, indicando pausas para a recitação oral do texto. A variação no uso dessas divisões pode ser atribuída à natureza da transmissão oral, em que o orador ou cantor reproduzia o texto de memória. Por comporem a estrutura pretendida pelos redatores, a Crítica da Delimitação atual propõe que esses espaços sejam tratados como parte integrante do texto e preservados em edições críticas.

Idealmente, cada capítulo indicaria um perícope, mas isso não acontece. Não existe um padrão unificado de divisão em perícope. Tradutores, editores e biblistas dividem a Bíblia com critérios diferentes.

É difícil dividir os textos em perícopes, pois os textos antigos eram contínuos. Na Bíblia Hebraica às vezes sinais finais ou espaços ajudam a dividir perícopes.

A divisão pode ser deduzida pela narratologia, retórica e estilística. Para uma interpretação coerente, os mesmos critérios de divisão devem ser usados de forma consistente.

Um perícope pode ser muito curto, como um aparte para glosar sobre um detalhe, ou aparecer em diferentes livros, como o Ciclo de Elias e Eliseu.

Um perícope pode ocorrer dentro de outro ou fazer parte de um perícope maior se for considerado diferentes critérios.

Indicadores de início

  1. Tempo e espaço: na narrativa podem indicar o início, a continuação, a ação, a conclusão ou a repetição de um episódio. (Mt 2:1; 4:1; 8:5).
  2. Personagens: introduzidos em cena. (Mc 7:1; Lc 1:26).
  3. Argumento: com mudança de assunto, introduzidas por “finalmente…”, “a propósito de…” (1 Co 12:1; 2 Tm 4:6).
  4. Anúncio do tema: alguns perícopes anunciam em seu final os assuntos tratados a seguir (Hb 2.17-18 c/ 3.1 –5.10).
  5. Introdução: indicada no próprio texto. (Ap 2:1,8,12).
  6. Vocativo ou novos destinatários: indicam a quem é dirigido. Ex: Gl 3:1; Ap 2:1,8,12.
  7. Introdução ao recurso: o próprio texto introduz a fala de um novo personagem. (Lc 15:3,8,11).
  8. Inserção de um aparte: uma glosa que explica algo detalhadamente.
  9. Mudança de estilo ou gênero textual: transição de um discurso para uma narrativa (Mt 10:4-5), da prosa para a poesia (Fp 2:5-6) ou da poesia para a prosa (Mt 11:1-2).

Indicadores de final

  1. Personagens: aumento de número (Mc 1:45; Lc 5:15), ou mesmo reduzido (Mc 9:28; Mt 17:19) obscurecendo o foco .
  2. Espaço: mudança por partida (Mt 21:17) ou ampliação (Mc 1:39).
  3. Tempo: alteração da sequência dos eventos (At 10:48) e o chamado “tempo terminal” concluído (Jo 13:30).
  4. Ação do tipo partida: normalmente o personagem central sai de cena, separando-se dos demais (Mc 8:13).
  5. Ação terminal: consequência do episódio narrado (Mt 9:8).
  6. Ruptura do diálogo: com a fala conclusão. (Lc 14:5-6).
  7. Comentário: o narrador interrompe sua exposição para fazer observações que dão sentido ao relato (Jo 2:21-22).
  8. Estilo comum: por uso de concatenação, enumeração, paralelismo e paranomásia.
  9. Símbolo gráfico: símbolos, marcadores, letras, números, espaços e linhas. Raramente indicados em edições críticas, nunca em traduções.
  10. Sumário: recapitulação resumida do que se disse (Jo 8:20).
  11. Inclusio: repetição de estruturas quiásticas. O Sermão da Montanha começa e termina com a expressão “a Lei e os Profetas” (Mt 5:17 + 7:12).

Conteúdos comuns

Alguns dos elementos presentes no corpo de um perícope:

  1. Ação: núcleo de um perícope narrativa, com indicações de tempo, espaço e personagens (Mc 6:17).
  2. Campo semântico: grupo de palavras cujos significados pertencem à mesma classe ou tema. Gn 22:6-10 utiliza o campo semântico “sacrifício”: lenha, fogo, cutelo, altar, cordeiro, assim por diante.
  3. Intercalação: interrupção para incluir outro perícope, como (Mc 3:20-21 e 30-31).
  4. Motivo literário (motif): repetição de palavra, frase ou ideias que junta partes do perícope, como “E viu Deus que era bom” em Gn 1.
  5. Quiasmo: estrutura “espelhada” muito comum em textos orais e abundantes na Bíblia:

Um exemplo de quiasmo e perícope: A fuga para o Egito (Mt 2: 13-15)

   A (2:13) Palavras de um anjo

     B (2:14) partida para o Egito.

   A‘ (2:15) Palavras de um profeta

BIBLIOGRAFIA

CRAIN, Jeanie C., Reading the Bible as Literature: An Introduction. Cambridge/​Malden, MA: Polity Press, 2010.

BADY, Guillaume; KORPEL, Marjo C. A. (org.). Editorial delimitations of the Scriptures: from ancient Bibles to modern readings. Leuven; Paris; Bristol: Peeters, 2020.

KORPEL, Marjo. C.A. (eds). Method in Unit Delimitation. Série Pericope,
6, Leiden: Brill, 2007.

SILVA, Cássio Murilo Dias da. Metodologia de exegese bíblica. São Paulo: Paulinas, 2000.

Lista de perícopes dos evangelhos

http://www.semanticbible.com/cgi/2004/11/pericope-index.html

Site especializado sobre a divisão em perícopes e a Crítica da Delimitação, repositório da série Pericope: Scripture as written and read in antiquity (Leiden, Brill) http://pericope.net/

Atualizado em 23 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é biblista e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2021)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2021)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Perícope. Círculo de Cultura Bíblica, 2021. Disponível em: https://circulodeculturabiblica.org/2021/07/02/pericope/. Acesso em: 23 jan. 2026.