Abiatar

Abiatar filho de Aimeleque, sacerdote da aldeia de Nobe da tribo de Levi.

Abiatar foi o único sobrevivente de um massacre ordenado por Saul contra a vila sacerdotal de Nobe. Aparentemente Abiatar (e os sacerdotes de Nobe) eram vinculados ao Santuário de Siló, cuidado anteriormente por Eli e Samuel (1 Reis 2:26-27). Depois, refugiou-se com Davi, atuando como seu “capelão”. Permaneceu leal a Davi durante a sedição de Absalão, mas apoiou Adonias contra Salomão.

Alguns comentaristas veem em Abiatar como membro ou ancestral de uma linhagem rival anterior à de Zadoque, a família sacerdotal de Jerusalém do reinado salomônico até o exílio (2 Sam 8:17; 1 Samuel 22: 20-23; 2 Samuel 15: 24-37; e 1 Reis 2:26-27).

Mateus 12: 1-13 e Marcos 2: 23-28 registram Jesus citando a passagem do Antigo Testamento (1 Sam. 21: 2-7) que fala de Davi em fuga pediu pão da proposição ao sacerdote Aimeleque (Texto Massorético, LXX). Mas o relato de Marcos nomeia o sacerdote como Abiatar.

Em 1 Cr 24 Abiatar é listado como descendente de Aarão e em Juízes 18:30-31 (onde um nun indica variação no Texto Massorético) os sacerdotes de Siló traçam sua linhagem por Moisés, via Gérson.

Terá

Terá, hebraico: תֶּרַח, é filho de Naor, pai do patriarca Abraão e avó de Ló.

Teria nascido em Ur dos Caldeus (Cassidim) e se mudado a Harã.

Uma dificuldade bíblica é a idade que viveu. No Texto Massorético e na Septuaginta Terá tinha 70 anos quando seu filho Abrão nasceu (Gn 11:26-27) e 205 anos quando morreu, o que faria Abrão ter 135 anos na época (Gn 11:32). No entanto, em Gn 12:4 (cf. At 7:4) Abrão tinha 75 anos quando deixou Harã e foi depois da morte de Terá. Segundo o Pentateuco Samaritano Terá morreu com 135 anos.

Em Josué 24:2 é registrado uma tradição alternativa de que Terá adorava outros deuses. Uma tradição árabe posterior atribui a Terá o ofício de fabricador ou comerciante de ídolos.

Outras menções aparecem em 1 Crônicas 1:17-27 e Lucas 3:34-36.

Abigail

Abigail, em hebraico אביגיל. São duas mulheres desse nome que aparecem nos livros de Samuel.

  1. Abigail, esposa de Nabal. Intercedeu junto a Davi para salvar a vida de seu marido (1 Sm 25:23–31). Nabal morreu em dez dias depois. Davi então se casou com a inteligente e bela Abigail.
  2. Abigail, mãe de Amasa, o comandante-chefe do exército de Absalão (2 Sm 17:25). Chamada irmã de Zeruia, portanto, seria tia de Joabe. O Texto Massorético chama Abigail de filha de Naás. Em Crônicas (1 Cr 2: 13–16), Abigail e Zeruia são chamadas de irmãs de Davi.

BIBLIOGRAFIA

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Debir Quiriate-Sefer

Debir, Quiriate-Sefer ou Quiriate-Sana  é um local mencionado em Js 5:15-19 e Jz 1:11. Quiriate Sefer significa “a cidade do livro”. Possivelmente era um centro escribal ou de arquivos e tenha sido uma pequena cidade-estado cananeia (Js 10:38, 39). Há registros de duas conquistas pelos israelitas (Js 15:13-19; Jz 1:11-15). Localizada em território tribal de Judá, tornou-se uma cidade levítica dos coatitas (Js 21:9, 15; 1Cr 6:54, 58).

Há hoje duas localidades potenciais para essa cidade. Uma seria Khirbet Rabud, sítio arqueológico próximo a Hebrom. Outro seria próximo a Modi’in Illit, onde o sítio arqueológico de mesmo nome situa-se entre Jerusalém e Tel Aviv, ao norte da região de Sefelá. O local, no período do Segundo Templo, foi uma aldeia com uma sinagoga, constituíndo um importante sítio arqueológico.

Sara

Sara, em hebraico שָׂרָ֖ה, grego Σαρρα, a primeira das quatro matriarcas hebraicas, esposa de Abraão. Sua história aparece primariamente no Ciclo de Abraão (Gn 11:26-25:12) em Gênesis.

O nome Sarai, e sua variante Sara, significa “princesa” ou “dama”. Possivelmente é cognato do acadiano Sharratu, o nome da esposa do deus da lua Sin.

De origem provavelmente mesopotâmica, acompanhou o marido em suas peregrinações para Canaã e Egito. (Gn 11:29-31; 12:5). Chamada de irmã de Abraão (Gn 12:10-20; 20:1-18) em incidências quando ela foi tomada por governantes contra sua vontade.

Por um longo período, Sara não teve filhos (Gn 11:29-30). Depois que sua serva Agar deu à luz Ismael (Gn 16:1-6; 21:9-14), Deus disse a Abraão, cujo nome até então era Abrão, para mudar o nome de “Sarai” para “Sara” (Gn 17:15). E anunciou que ela viria a ser mãe de um filho.

No nascimento de seu filho, Isaque (que significa risos ou gargalhadas) teria dito “Deus me fez rir, para que todos os que ouvem riam de mim” (Gn 21:1-7).

A morte de Sara é registrada com brevidade. Teria morrido em Quiriate-arba ou Hebrom à idade de 127 anos. Foi enterrada por Abraão na caverna de Macpela (Gn 23; 25:10; 24:67).

Nenhuma outra referência a Sara aparece nas Escrituras Hebraicas, exceto em Is 51:2. Lá, o profeta apela “Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz; porque, sendo ele só, eu o chamei, e o abençoei, e o multipliquei”.

No Novo Testamento Sara aparece no elenco dos heróis da fé de Hebreus 11: “Pela fé, também a mesma Sara recebeu a virtude de conceber e deu à luz já fora da idade; porquanto teve por fiel aquele que lho tinha prometido” (Hb 11:11). Paulo faz menções a ela (Rm 4:19; 9:9; Gl 4:21), utilizando-a como um tipo, principalmente em contraste com Agar.

Sara aparece citada em 1 Pe 3:6 como exemplo de obediência. Entretanto, não há parte em Gênesis em que Sara chama-o de Senhor, exceto Gn 18:12, onde não se refere a obediência. Ademais, Abraão é retratado obedecendo as vontades de Sara (Gn 16:2, 6; 21:12). Josefo (Contra Apião 2.25) e Filo (Hypothetica 7.3) retratam Sara como exemplo obediência, revelando ser esse o entendimento do século I d.C.

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VER TAMBÉM

Tabuletas de Nuzi

Epístola de Tiago

A fé no evangelho ocorre de modo embutido nas boas obras para com o próximo.

Epístola destinada a um público cristão geral, sua autoria é creditada a Tiago, o qual é interpretado como o irmão do Senhor e líder da Igreja em Jerusalém.

O historiador Eusébio observou que esta epístola teve lenta aceitação no cânon cristão, apesar do fato de ter um uso regular em muitas igrejas (Hist. Ec. 2.23; 3.25). O Cânon Muratoriano (final do século II) não menciona Tiago, mas a carta foi incluída nos cânones do bispo Atanásio (c. 367 d.C.). Sua canonicidade manteve-se então amplamente estável até a Reforma Protestante, quando Martinho Lutero a moveu (junto com Hebreus, Judas, e Apocalipse) até o final do Novo Testamento na seção chamada de Antilegômena. Segundo Lutero, faltavam elementos essenciais do evangelho e sua mensagem contrastava com outros escritos do Novo Testamento. Contudo, a epístola de Tiago continuou no cânon luterano.

A homília chamada de Primeiro Clemente (c. 95 d.C) é o primeiro documento a utilizar extensivamente esta epístola. Essas alusões são visíveis ao comparar 1 Clem 30.3; 31.2 e Tg 2:14–26; 1 Clem 29.1; 30.1–5 e Tg 4:1–10.

Seu gênero epistolar segue o padrão de outras cartas do Novo Testamento. A introdução é seguida por vários temas específicos: consistência da palavra e ação (1:22-2:13); fé e obras (2:14-26); moderação no falar (3:1-18); relações com os outros e com Deus (4:1–12); e o julgamento vindouro (4:13-5:9). Conclui (5:10-20) com breves exortações sobre as responsabilidades dos destinatários para com outros membros da congregação.

A epístola de Tiago é recepcionada de forma que não faz jus ao seu valor. Frequentemente é contrastada com Paulo em um debate sobre a justificação ou como reação do cristianismo judaico contra a igreja gentia. Na realidade, há poucos paralelos entre Tg 2:14-26 e os ensinos de Paulo sobre os temas da justificação “pela fé sem as obras” (cf. Rm 3.28). Em comum há o uso de Abraão como exemplo em Rm 4:1-25 e Tg 2:20-24. Ambos veem a fé principalmente como confiança em Deus (Rm 4:5; Tg 1,5-6). Ambos concordam que a fé deva produzir obras na vida de uma pessoa (Rm 2,13; Fp 2,12-13; Tg 2,18). No entanto, nem as questões de justificação, nem as relações entre judeus e gentios dentro da igreja são temas do conteúdo desta epístola como um todo.

Aarão

Em hebraico אַהֲרֹן‎ e em grego Ααρών. Significado e etimologia incertos, talvez do egípcio “leão guerreiro” ou da raíz semítica hr “montanha”.

Sacerdote do período do êxodo, irmão de Moisés e Miriam.

Nos livros de Êxodo e Números é o colaborador de Moisés nos eventos da saída do Egito e peregrinação no Sinai. Aparece como um profeta (Êx 7:1) e porta-voz (Êx 4:16; Êx 16:9; 14:26-28). Frequentemente referido como sacerdote, aperece uma vez como Aarão, o levita (Êx 4:14).

Filho de Anrão e Joquebede (Êx 6:20), da tribo de Levi (1 Cr 6:1-3). Nasceu no Egito antes de seu irmão Moisés, e alguns anos depois de sua irmã Miriam (Êx 2:1,4; 7:7). Casou com Eliseba, filha de Aminadabe, da tribo de Judá. Seus quatro filhos foram Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar (Êx 6:23). Seria o ancestral dos aarônidas, linhagem de sacerdotes que ganhou proeminência em Jerusalém após o exílio (Êx 28:1; 6:22-27; Nm 8:1-7; 1 Cr 24:1-19).

A morte de Aarão, antes de os israelitas cruzarem o rio Jordão, teria sido no Monte Hor (Nm 20:23-29; 33:38) ou em Mosserá (Dt 10:6; 32:50). De acordo com uma tradição árabe, o túmulo de Aarão está em Jabal Harun (árabe “Montanha de Aarão”), perto de Petra, na Jordânia.

A vara de Aarão serviu para sinais prodigiosos no Egito, em vários episódios da peregrinação do Sinai, na confirmação de Aarão como sacerdote depois da rebelião de Corá (Nm 17:8-10). Teria sido depositada dentro da arca, junto das tábuas da Lei e um recipiente com o maná (Nm 17:10; Hb 9:4).

A barba de Aarão é aludida em Salmos 133:1-3 em um símile e paranomásia com o orvalho do Monte Hermon para conotar a união entre irmãos.


COMO REFERENCIAR

ALVES, Leonardo Marcondes (ed.). Aarão. Círculo de Cultura Bíblica, 2021. Disponível em:  https://circulodeculturabiblica.org/2021/07/02/aarao/ Acesso em: 04 jul. 2021.