Jacques Ellul

Jacques Ellul (1912-1994) acadêmico e teólogo protestante francês.

Nascido de uma mãe protestante e um pai ortodoxo, converteu-se ao cristianismo na vida adulta. Foi professor na Universidade de Montpellier, em Estrasburgo e Bordeaux. Demitido durante o regime nazista, participou da resistência, embora não engajasse na luta armada.

Editou várias revistas para o público protestante e organizou iniciativas para a juventude. Simpático do anarquismo cristão e do socialismo, criticava o marxismo, o liberalismo e a confiança na tecnologia.

Suzanne de Dietrich

Suzanne de Dietrich (1891-1981), foi uma biblista e popularizadora da Bíblia franco-alemã (alsaciana) de confissão luterana e reformada.

Estudou engenharia em Lausanne e envolveu-se com a juventude cristã. Iniciou estudos bíblicos entre estudantes e foi uma difusoras do pensamento de Karl Barth. Em 1929, tornou-se vice-presidente da Federação Universal de Estudantes Cristãos, braço juvenil do movimento ecumênico. Também fomentou o primeiro encontro de teólogos católicos, protestantes e ortodoxos em 1932.

Sua abordagem pedagógica ao ensino da Bíblia empregava métodos de estudo bíblico em grupo que enfatizavam a participação ativa e o diálogo. A Bíblia deveria ser lida e interpretada no contexto da comunidade de fé, e que o estudo bíblico deveria levar à ação e ao engajamento no mundo.

Sua teologia ecumênica respeitava as diferentes tradições cristãs, sendo baseada no diálogo interdenominacional. Ela via a unidade da Igreja como um testemunho essencial do Evangelho.

Começou um trabalho de acolhida dos refugiados às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Em 1941 ela foi um dos 16 pastores e leigos – entre os quais 3 mulheres – que redigiram a declaração Thèses de Pomeyrol, contra o nazismo.

Sua obra Le Dessein de Dieu serviu de guia para leitura bíblica e foi traduzida para diversos idiomas

G. C. Berkouwer

Gerrit Cornelis Berkouwer, conhecido como G. C. Berkouwer (1903-1996), foi um teólogo reformado holandês de linhagem kuyperiana ou teologia reformacional.

Berkouwer estudou na Vrije Universitet (VU) de Amsterdã e em 1932, apresentou sua tese de doutorado, Fé e Revelação na Teologia Alemã Recente. Posteriormente, fez carreira docente na VU a partir de 1934.

Fez uma série de 18 volumes Estudos em Dogmática (1949-1972), a qual seria uma contribuição monumental para a teologia sistemática. Este trabalho exaustivo explora sistematicamente doutrinas cristãs centrais, integrando cuidadosa análise da Escritura, engajamento com a teologia histórica e diálogo com pensadores contemporâneos.

A estrutura teológica de Berkouwer estava enraizada na tradição reformada, inspirando-se em João Calvino e Abraham Kuyper. Central para sua teologia estavam ênfases na soberania de Deus, na centralidade de Cristo e na relevância duradoura da Escritura para todos os aspectos da vida. Defendia a autoridade funcional das Escrituras em contraste com o inerrantismo norteamericano.

Berkouwer insistia em interpretar todas as doutrinas através da lente de Jesus Cristo. Sustentava que a obra redentora de Cristo na cruz representa a revelação máxima do amor e graça de Deus.

Berkouwer distinguia entre graça especial, que conduz à salvação, e graça comum, que sustenta a criação e restringe o mal. Esta perspectiva matizada ampliou seu engajamento com a sociedade secular e questões culturais. Defendia que a graça de Deus deve levar à santificação e ao engajamento na luta por justiça e paz.

Berkouwer conclamava os cristãos a aplicar sua fé a questões sociais e políticas. Fundamentado em princípios reformados de engajamento social, ele advogava por justiça, paz e dignidade humana. Berkouwer criticava a tendência de alguns conservadores e fundamentalistas de se isolarem do mundo, buscando criar comunidades “puras” e separadas da sociedade. Defendia o engajamento cristão no mundo, buscando transformar a cultura e a sociedade à luz do Evangelho. Argumentava também que o cristão deveria ser aberto ao diálogo com outras religiões, buscando pontos de contato e construindo pontes de entendimento.

BIBLIOGRAFIA

Campegius Vitringa

Kempe Vitringa (Campegius Vitringa) (1659-1722) exegeta reformado holandês.

Estudou em Franecker e Leiden. Lecionou línguas orientais e depois teologia e história da Igreja em Franecker.

Vitringa produziu um comentário de Isaías, combinando sentidos gramatical e alegórico. Comentou o livro de Apocalipse em um esquema historicista.

Escreveu Doctrina christianae religionis, per aphorismos summatim descripta, reelaborada como Hypotyposis theologiae elencticae.

Sua hermenêutica foi influenciada pela racionalidade de Grotius (1583-1645), pela filologia de De Dieu (1590-1642) e pela alegoria profética de Johannes Cocceius.

Com Joseph Mede (1586-1638), Vitringa foi um dos proponentes de um pré-milenarismo, fazendo retorno dessa perspectiva na escatologia.

Amiraldismo

O amiraldismo designa as variantes teológicas do sistema reformado cujo enfoque está no fato de que Jesus Cristo sofreu a morte pela culpa de toda a humanidade. O amiraldismo é também conhecido como Escola de Saumur, universalismo hipotético, pós-redencionismo, semi-agostinianismo e — equivocadamente — calvinismo moderado ou calvinismo dos quatro pontos.

História

O teólogo escocês John Cameron (c. 1579–1625) desenvolveu, dentro da Academia Huguenote de Saumur, na França, um sistema teológico baseado em uma vocação universal. Por essa doutrina, a graça era entendida como disponível a toda a humanidade.

Embora a posição teológica do Sínodo de Dort tenha passado a ser referida com a designação “calvinista”, teólogos históricos do calvinismo já defendiam a doutrina da expiação universal, como, por exemplo, Heinrich Bullinger, Wolfgang Musculus, Zacharias Ursinus e Girolamo Zanchi.

O advogado que se tornou teólogo, Moïse Amyraut (1596–1664), foi diretamente influenciado por John Cameron. Amyraut, ao passar por Saumur, impressionou os membros da Academia com sua eloquência, que o convenceram a permanecer e estudar teologia.

Amyraut compilou escritos de Calvino sobre a extensão da expiação. Com base nesses escritos, mas sem a mediação de Beza, Amyraut articulou, em seu Brief Traitté de la prédestination et de ses principales dépendances (1634), a doutrina dessa escola. Para Amyraut, Deus disponibiliza os benefícios da obra redentora de Cristo a todos indistintamente. Assim, Deus deseja que todos os homens se salvem, contanto que creiam — razão pela qual essa doutrina é chamada de universalismo hipotético.

Quanto à doutrina da predestinação, Amyraut considerava que o Sínodo de Dort havia deturpado a doutrina de Calvino. A predestinação não seria uma questão da onisciência divina, mas indicaria a experiência da salvação pela graça de Deus.

Seu sucessor foi o não menos polêmico Claude Pajon (1626–1685), cuja tentativa de remediar a ausência virtual do Espírito Santo na soteriologia reformada gerou outras controvérsias.

A tese de Amyraut implicava em uma tolerância religiosa rara em seu tempo. Como a graça somente atua em quem exercita a fé, e a fé é dom de Deus, homem algum poderia impor suas visões religiosas a outrem. Um exemplo dessa influência foi William Penn, que esteve em Saumur e, mais tarde, fundou a colônia da Pensilvânia, um dos bastiões da tolerância política e religiosa na América do Norte.

Um sínodo da Igreja Reformada da França, realizado em Alençon em 1637, tentou, sem sucesso, condená-lo como herege. Popularizada entre reformados latinos, o amiraldismo encontrou logo oposição entre os reformados suíços e renanos, principalmente pelo trabalho de Francesco Turrettini (1623–1687). Apesar de nunca ter sido oficialmente condenado, o amiraldismo entrou em declínio após as críticas formuladas no Consenso Helvético de 1675. Raramente examinado em seus próprios termos e escritos, seus detratores passaram a considerá-lo um meio-termo entre o calvinismo dordtiano e o arminianismo.

No avivamento suíço do Réveil e em seu lado italiano (risveglio), houve uma reinterpretação das confissões reformadas com teores amiraldistas, embora não o referenciassem explicitamente. Na prática, a expiação passou a ser vista como universal. Um dos proponentes dessa doutrina, Paolo Geymonat, influenciou os crentes que imigraram para Chicago.

Marginalizado, o amiraldismo encontrou expoentes entre congregacionalistas e puritanos anglo-saxões, como John Davenport, John Preston e Richard Baxter. Para Baxter, a morte de Cristo foi um ato de redenção universal, penal e vicária, mas não substitutiva, pela qual foi introduzida uma nova lei e uma anistia para todos os que se arrependessem. O arrependimento e a fé, sendo obediência a essa lei, atuam como a justificação pessoal do crente. Como consequência, a doutrina de Baxter tornou-se o moderatismo neonomista entre os escoceses e diversos pensadores puritanos. Mais tarde, via Baxter, elementos do amiraldismo influenciariam os movimentos reformados avivados e evangelísticos, entre eles Andrew Fuller, os New School Presbyterians e, notoriamente, o Réveil entre os reformados continentais do século XIX, estimulando o evangelismo e a diaconia. O conceito de graça comum do kuyperianismo encontra fundamentos no amiraldismo. Em métodos evangelísticos e em seus sermões, Charles Spurgeon foi substancialmente amiraldista, embora se identificasse e desenvolvesse suas interpretações do calvinismo dordtiano. No geral, as modificações doutrinárias e a falta de crédito aos escritos amiraldianos levaram muitos a adotar alguma forma de sua doutrina sem se referir ao seu principal formulador.

Hoje, nos Estados Unidos, o amiraldismo não é muito conhecido, mas é popular entre o movimento das igrejas bíblicas (Bible Fundamental Churches), o movimento das igrejas de Cristo, a Evangelical Free Church of America, os batistas independentes e da Convenção Sulista. Lewis Chaffer, Norman Geisler e Oliver Crisp são alguns dos poucos teólogos recentes, de alcance público, que adotam algum aspecto desse sistema doutrinário. Contudo, em geral, esses autores raramente creditam as contribuições de Amyraut ou da Escola de Saumur.

A diversificação dos intérpretes reformados que concordavam com uma expiação ampla faz do amiraldismo um sistema teológico bem heterogêneo, ao qual o modelo dos cinco pontos calvinistas contra os remonstrantes (conhecido pelo acrônimo TULIP) não faz jus para representá-lo.

Doutrina

O amiraldismo faz parte da tradição agostiniana e da soteriologia forense da escolástica tardia. Situa-se na tradição reformada em uma aproximação com o igualmente sistema agostiniano luterano.

O amiraldismo entende que há uma eterna preordenação e presciência de Deus, por meio da qual todas as coisas acontecem: o bem com eficiência e o mal com permissividade. A dupla predestinação difere do calvinismo dordtiano pela doutrina da dupla eleição. Assim, Deus preordenou uma salvação ampla por meio do sacrifício de Cristo, oferecido a todos igualmente, com a condição da fé que reconhecesse essa obra de graça universal. Da parte da vontade e do desejo de Deus, a graça é universal, mas, no que diz respeito à condição, é particular, ou apenas para aqueles que não a rejeitam, o que a tornaria ineficaz.

A preordenação do resgate universal precede a eleição particular. Com base na benevolência de Deus para com suas criaturas, há uma graça objetiva oferecida a todos e uma graça subjetiva que floresce entre os eleitos. O amiraldismo distingue entre habilidade natural e habilidade moral, ou o poder da fé e a disposição para ter fé. Em consequência da depravação inerente, o ser humano possui a habilidade natural, mas não a habilidade moral. Portanto, é necessário um ato de Deus para iluminar a mente, envolvendo assim a vontade para a ação.

Como para Ulrico Zwingli, a graça de Deus alcança além dos limites da Igreja visível, visto que Deus, por sua providência geral, opera sobre todos (Malaquias 1:11, 14). Assim, sem conhecer formalmente o Jesus registrado no Novo Testamento, o sacrifício de Cristo é materialmente capaz de produzir uma fé sem conhecimento explícito entre pessoas que nunca ouviram sobre o Jesus Cristo bíblico. Dessa forma, essas pessoas seriam substancialmente cristãs sem assumir essa nomenclatura, pois depositaram sua fé naquilo que Deus demanda como verdade, conforme ensinada por Jesus Cristo (Romanos 1:20; 2:14-15; 1 Coríntios 2:11).

Em suma, enquanto as ênfases do calvinismo de Dort eram a soberania de Deus, e do arminianismo, a justiça de Deus, o amiraldismo enfatizava a misericórdia de Deus.

BIBLIOGRAFIA

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Moltmann, Jürgen. Gnadenbund und Gnadenwahl: Die Prädestinationslehre des Moyse Amyraut, dargestellt im Zusammenhang der heilsgeschichtlichen-föderaltheologischen Tradition der Akademie von Saumur. Dissertation Georg-August-Universität Göttingen, Theologische Fakultät, 14. April 1952.

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Nichole, Roger. “Amyraldianism, Amyraldism, Amyraldus, Amyraut,” Encyclopedia of Christianity, ed. Edwin H. Palmer. Wilmington, Delaware: National Foundation for Christian Education, 1964.

Nicole, Roger. Moyse Amyraut: Bibliography with Special Reference to Universal Grace. New York: Garland, 1981.

Stauffer, Richard. Moïse Amyraut: un précurseur français de l’œcuménisme. Vol. 22. Paris: Librairie protestante, 1962.

VEJA TAMBÉM

Agostinianismo

Arminianismo

Calvinismo

Sistema teológico Reformado

Soteriologia forense