Christus Victor

Christus Victor, em latim para Cristo vitorioso, é um conjunto de perspectivas sobre a obra de reconciliação de que a morte de Cristo pela humanidade pecadora (1 Co 15:3; Rm 5:8; Jo 3:16) culminou uma vitória divina sobre o pecado, o mal e a morte.

Pela doutrina de Christus Victor, Jesus Cristo morreu para derrotar os poderes do mal (como o pecado, a morte e o diabo), assim libertando a humanidade de sua escravidão. A partir dessa interpretação, há diversas explicações com nuances. Umas enfatizam a recapitulação — a repetição perfeita como segundo Adão. Ainda, sob a perspectiva de Christus Victor há teorias do resgate, na qual Cristo arrancou a criação das mãos do maligno. Outras utilizam imagens militarísticas de combate e derrota do mal. Há ainda concepções terapêuticas na qual Cristo inaugura a humanidade recriada já sarada dos pecados e da morte. Uma visão mais recente é a da renúncia da retaliação e violência por parte Cristo. Isso permitiu a paz entre Deus e a humanidade quando o esperado deveria ser a punição por sua morte, mas ao invés disso Cristo manifestou sua graça e perdão à humanidade mediante a ressurreição e ascenção triunfal.

Apesar dessas nuances, há um elemento comum nessa doutrina. Jesus teve que assumir fisicamente a natureza humana caída, uni-la à sua natureza divina. Sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus Cristo pode pregar o evangelho para a erradicação do mal, derrotar as potestades espirituais e humanas, a vencer a tentação ao longo de sua vida no poder do Espírito Santo e derrotar a corrupção dentro de sua natureza humana em sua morte. Ao ressuscitar, apresentou-se com a natureza humana purificada e curada. Em um novo corpo ascendeu ao Pai como a primícia da humanidade restaurada. Por fim, compartilhou o Espírito de sua nova humanidade com todos os que creem para fazê-los partícipes da natureza divina.

Os textos-chave são Mt 6:14; Mc 1:4; 4:13; Lc3:3; 5:20-24; Jo 12:31, Cl 2:15, 1 Jo 3:8 e Hb 2:14-15.

Perspectiva dominante no primeiro milênio do Cristianismo junto da teoria do resgate, a teoria de Cristo vitorioso foi preterida pela teoria da satisfação de Anselmo no Ocidente. Entre cristãos orientais continua ser a teoria mais comum sobre a expiação. Lutero empregou alguns aspectos da doutrina de Christus Victor, retratando Cristo como um guerreiro que invade os domínios do mal. Alguns anabatistas, como Marpeck, propuseram doutrinas de salvação semelhantes durante a Reforma. Na tradição pietista, especialmente focada na teologia da cruz ao invés da teologia da glória, a vitória de Cristo subverteu a ordem aparente, pois em sua humanidade e sangue purificou todo o pecado (1 Jo 1:7), não sendo sua morte uma derrota, mas a vitória.

O pentecostalismo clássico fundamenta-se em uma versão soteriológica nessa perspectiva. Por uma leitura que combinou o evangelismo herdado dos movimentos de Santidade e de Alta Vida Superior (Keswick), sem intermediação de teologia sistemática formal, os pioneiros pentecostais e muitas denominações atuais compreendem a obra de salvação em termos de redenção, resgate e restauração (restauração terapêutica) embasados na vitória de Cristo. Por essa razão, o sangue de Cristo é visto não como um pagamento por pecados alheios, mas um purificador dos pecados da humanidade.

Essa doutrina seria articulada no século XX pela escola de Lund, dentre eles Gustaf Aulén. A recepção inicial da obra de Aulén entre alguns setores evangélicos de língua inglesa levou a uma posição dicotômica entre os modelos de Cristo vencedor e de soteriologias forenses, sobretudo a teoria da substituição penal. Contudo, reflexões teológicas recentes como a de Jeremy Treat demonstram a plausibilidade de combinar tais modelos.

BIBLIOGRAFIA
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Incurvatus in se

Incurvatus in se, em latim “virado ou curvado para dentro de si mesmo”) significa uma vida vivida “para dentro” para si mesmo, em vez de “para fora” para Deus e para os outros.

O conceito foi usado por Agostinho para referir-se à inclinação para o mal expressa por Paulo (Rm 7:15, 18-19), relacionado-o com a concupisciência. No sistema agostiniano, embora as pessoas foram justificadas em Cristo, elas ainda possuem uma propensão a pecar contra Deus por causa dessa condição (simul justus et peccator).

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Yetzer ha-Ra’

Movimento de Keswick

O Movimento de Keswick (a pronúncia é Kêssik) refere-se às convenções realizadas em Keswick, um vilarejo no noroeste da Inglaterra; bem como a teologia e a rede de pessoas e instituições resultantes dessas convenções, o chamado Keswickianismo.

A convenção de Keswick iniciou-se em 1875, organizado pelo cônego anglicano Thomas Dundas Harford-Battersby (1823–83) e o quaker Robert Wilson (1824–1905). Desde então, repete-se anualmente, com raras exceções. É aberta a todos ouvintes sem cobrar taxas de adesão, dependendo de ofertas voluntárias.

A convenção consiste em ensino bíblico, avivamento e busca de santidade. Atrai cristãos de diversas orientações e denominações, mas sobretudo adeptos do evangelicalismo. Entre os notórios associados a Keswick estão Andrew Murray (1828–1917), James Hudson Taylor (1832–1905), Amy Wilson Carmichael (1867–1951), Albert Benjamin Simpson (1844–1919), Dwight Lyman Moody (1837–1899), Reuben Archer Torrey (1856–1928), John Stott (1921–2011) e D. A. Carson.

Teve influência dos ideais de catolicidade ecumênica do anglicanismo, na esteira da práxis e método teólogico de Hooker. Deve também à concepção wesleyana de santidade, mas removendo alguns aspectos (como o de inteira santificação ou santificação instantânea). O casal quaker Hannah Whitall Smith e Robert Pearsall Smith influenciou o movimento, pregando um batismo com o Espírito Santo que permitia a santificação, uma vida cristã de regozijo e vitória sobre o pecado. Outras influências foram o revivalismo americano e a cultura romântica vitoriana.

Dada essa amplitude, a teologia de Keswick nunca foi uniforme, além de variações ao longo do tempo e conforme os palestrantes convidados. A teologia de Keswick evoluiu no século XX, particularmente sob a influência de figuras como John Stott, tornando-se mais explicitamente alinhada à soteriologia reformada e suavizando um pouco de sua linguagem mais dramática de “Vida Superior”. Contudo, alguns elementos temáticos visíveis na organização do evento refletem uma teologia comum.

Cada dia da semana é dedicada a um tópico e recebe diferentes oradores. O dia 1 é sobre a diagnose da condição humana: o pecado. O dia 2 é sobre a cura: o plano de Deus para regeneração. No dia 3 aparece o remédio: o revestimento do Espírito Santo. Por fim, no dia 4 os regenerados são comissionados para missão e serviço.

Ao atribuir a fé como único meio para obter tanto a justificação e a santificação, o movimento de Keswick convidava ambos não crentes e cristãos nominais a buscarem uma união com Cristo. A partir disso vinha a convicção que o sangue de Cristo permitia uma vida vitoriosa sobre o mal e o pecado, bem como sobre seus efeitos nas doenças. A certeza do poder do Espírito Santo para a reparação do pecado revestia a pessoa de poder de modo que o convertido e santificado já distinguia sua entre velha e nova criatura.

Esta ênfase na ação santificadora do Espírito Santo e uma soteriologia regenerativa encontrava fundamento na “santificação pela fé”, sem reivindicar a possibilidade de impecabilidade para o crente. Essa santificação seria progressiva. A teologia de Keswick frequentemente distinguia entre a “natureza pecaminosa” (que permanece, mas se torna impotente) e os “atos de pecado” (sobre os quais o crente pode obter vitória). Assim, evitavam alegações de perfeição sem pecado.

As teologias de santificação de Keswick contrastam com outros entendimentos. Difere da santificação instantânea pontual do Movimento de Santidade de origem wesleyana. É próximo, porém distinto da santificação gradual que mortificaria gradualmente a vontade da carne em algumas vertentes do Movimento de Vida Superior. Apesar de sua associação com o sistema teológico reformado, não adere a sua ideia de santificação a partir da conversão como uma contínua presença de pecado e arrependimento, tal como articulado no evangelicalismo calvinista (por exemplo, por Charles Spurgeon).

Considerando a adesão de pessoas de origem em denominações reformadas e seu aproveitamento de somente alguns elementos da teologia e práticas wesleyanas, o movimento de Keswick tem sido associado ao sistema teológico reformado. Por vezes, quando visto sob uma perspectiva de soteriologia forense é referido como semi-agostinianismo, pois na prática busca um equilíbrio entre a soberania divina e a responsabilidade humana, mas não se ocupa em resolver esse paradoxo.

O foco limitado em crenças centrais do cristianismo evangélico e a flexibilidade em relação a tópicos contenciosos permitiram uma abrangência de audiência e uma continuidade singular. O movimento de Keswick inspirou vários avivamentos (como o da África do Sul e na China), além de impulsionar missionários. O pregador de Chicago, D. L. Moody era já uma figura pública de sucesso quando em 1871 foi confrontado por duas mulheres metodistas livres, dizendo-lhe que ele precisava do “poder do Espírito”. Após a resistência inicial, Moody se humilhou e pediu suas orações, experimentando o que considerou o batismo no Espírito Santo. Moody envolveu-se com Keswick e foi um de seus principais propagadores nos Estados Unidos. Consequentemente, a vertente da Obra Consumada do Calvário no pentecostalismo tem um legado em Keswick.

O movimento de Keswick não foi sem críticas. A crença em uma vida distinta santificada e revestida pelo Espírito Santo levava às acusações de elitismo espiritual. Críticos, medindo a teologia do movimento não por seus próprios termos e com recortes selecionados, distorcidamente apresentavam o movimento como “faça sua parte e deixa que Deus faça a sua”. Confusões conceituais também resultam de interpretar a teologia vivida de Keswick em termos de uma teologia magisterial, especialmente com critérios de um ordo salutis forense, embora Keswick seja eminentemente uma soteriologia regenerativa e missional.

BIBLIOGRAFIA

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Simul iustus et peccator

Em latim, Simul iustus et peccator “simultaneamente justo e pecador” descreve o paradoxo de como uma pessoa pode estar plenamente justificada diante de Deus e ainda assim enfrentar o pecado continuante. É um conceito desenvolvido principalmente na teologia luterana.

BASES BÍBLICAS

Os salmos penitenciais, os escritos paulino (Romanos 6:18, 22) e joanino (1 Jo 3:9) afirmam que o justo não está sob o domínio do pecado, mas descrevem também a falibilidade humana.

Paulo descreve a existência humana como um conflito entre a vontade de fazer o bem e a incapacidade de realizá-lo (Romanos 7:7-25), mas também como um conflito entre a vida antiga e a nova alcançada pela fé (Romanos 6:1-4). Além disso, Paulo levanta a questão sobre as consequências dos efeitos contínuos do pecado sobre aqueles que já foram justificados, embora sem oferecer qualquer solução para esse conflito exceto a exclusão temporária do pecador da comunidade (1 Coríntios 5). Em Gálatas, é dito que o cristão ainda deve resistir aos “desejos da carne” que ainda permanecem na pessoa justificadoa (Gálatas 5: 16-17). Na epístola de 1 João diz “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos” (1:8).

Várias tentativas teológicas e exegéticas foram feitas para contornar essa dificuldade. Uma tentativa, por exemplo, entendia que Paulo estava falando de si mesmo (Romanos 7:17-19) e não dos crentes em geral. Outra interpretação entende que Paulo estava falando de sua vida pré-conversão em Romanos 7. Por fim, há exegetas que consideram Romanos 7:14-25 seja não sobre a vida cristã, mas a vida sob a Lei.

SIMULTANEIDADE DE JUSTO E PECADOR NO PROTESTANTISMO

A teologia escolástica sustentava que o batismo lavava o pecado original, mas permaneceria uma inclinação para o pecado, a chamada “concupiscência”. Porém, os pecados só seriam imputados quando praticados, mas não a concupiscência em si uma pessoa seria julgada.

Lutero rejeitou essa associação de que pecado somente seria quando houvesse uma trangressão, considerando a concupiscência como o próprio pecado. O crente é ao mesmo tempo justo e pecador. Justo porque a graça é eficaz e o sacrifício de Cristo foi suficiente, pecador porque o ser humano na prática não tem a capacidade plena de viver em justiça. Assim, há uma existência dialética até glorificação.

Diante disso, duas perspectivas tentam explicar essa relação simultânea:

  1. O ser humano é totalmente pecador e totalmente justificado por Cristo.
  2. O ser humano é parcialmente pecador e parcialmente justificado.

Na teologia luterana, essa condição simultânea de pecador e justificado não é leniente com o pecado. Antes é o reconhecimento da necessidade da graça para se santificar. Essa mesma condição se estende à Igreja e é intimamente ligada à santificação e agência do Espírito Santo.

55 Tudo, portanto, na Igreja Cristã é ordenado para que não obtenhamos diariamente nada além do perdão dos pecados através da Palavra e dos sinais, para confortar e encorajar nossas consciências enquanto vivermos aqui. Assim, embora tenhamos pecados, a [graça do] Espírito Santo não permite que eles nos prejudiquem, porque estamos na Igreja Cristã, onde não há nada além de [contínuo, ininterrupto] perdão dos pecados, tanto em que Deus perdoa nós, e nisso perdoamos, suportamos e ajudamos uns aos outros.

56 Mas fora desta Igreja Cristã, onde não há Evangelho, não há perdão, como também não pode haver santidade [santificação]. Portanto, todos os que buscam e desejam merecer a santidade [santificação], não pelo Evangelho e perdão dos pecados, mas por suas obras, se expulsaram e se separaram [desta Igreja].

Catecismo Maior

A perspectiva luterana de “pecador e justificado” difere de outras perspectivas protestantes. Por exemplo, na tradição reformada esta fórmula seria resumida em “pecador ainda que justificado”. Na tradição wesleyana seria “pecador, porém já justificado”. No novo calvinismo seria “pecador instrisicamente, ainda que extrinsicamente (judicialmente) justificado”. Já na teologia folk do protestantismo persiste o “pecador ainda, depois justificado”, ou seja, a ideia de que o crente será sempre pecador até que seja vindicado no tribunal de Cristo. Bem ilustra essa posição o seguinte trecho:

Alguns anos atrás, no estudo bíblico, liderei uma discussão que, como cristãos, somos simul iustus et peccator. Os membros do estudos reconheceram pronta e sinceramente que eram pecadores. Mas o grupo lutou para se ver como santos e se recusava a se chamarem assim. Os santos, eles raciocinaram, eram puros, enquanto eram pecadores. Eles não conseguiam olhar além de seus pecados para ver a justiça de Cristo que é deles pela fé, a justiça pela qual eles são considerados santos. Ao confessar apenas metade da equação, eles demonstraram que não haviam internalizado o conceito de ser simul.

Moldenhauer, 2016

Na soteriologia e antropologia anabatista, o conceito de simul iustus et peccator (justo e pecador ao mesmo tempo) é irrelevante e inexistente. Isso ocorre porque a Reforma Radical se concentrou na ideia de que tornar-se justo no poder do Cristo ressuscitado constitui a salvação. A salvação é vista como uma jornada de progressiva superação do pecado e crescimento à semelhança de Cristo. Embora a perfeição não seja alcançável nesta vida, os crentes são chamados a lutar por uma santidade maior. O poder do Cristo ressuscitado, operando através do Espírito Santo, capacita os crentes a vencer o pecado e viver em justiça. Isso enfatiza um relacionamento dinâmico com Deus e uma busca ativa pela santidade. Nesse contexto, a responsabilidade mútua e o discipulado são essenciais para o crescimento espiritual.

Já o pensamento wesleyano é a alternativa para a doutrina do Simul iustus et peccator por sua defesa da doutrina da perfeição cristã ou inteira santificação. Onde Lutero via os cristãos como simultaneamente justos e pecadores, incapazes de escapar do pecado nesta vida, Wesley ensinou que, pela graça, os cristãos podem alcançar um estado de amor perfeito e liberdade do pecado. De acordo com Wesley, esse estado não era meramente imputado ou forense, mas uma transformação real do caráter moral. Na teologia de Wesley, a inteira santificação é uma segunda obra da graça, após a justificação, que permite aos crentes serem santificados em todo o seu ser – espírito, alma e corpo – libertando-os da escravidão do pecado. O objetivo não é a perfeição sem pecado, mas um coração purificado de intenções pecaminosas e uma capacidade aumentada de amar a Deus e ao próximo. Isso é acompanhado pela obra interior do Espírito Santo, testemunhando a santidade do crente e capacitando-o a viver uma vida santa. Essa perspectiva não significa que a pessoa não vá mais pecar, mas que não terá desejo ou prazer no pecado. Assim, enquanto Lutero enfatizou a tensão entre a justiça imputada e a pecaminosidade contínua, Wesley enfatizou o poder transformador da graça que capacita os crentes a alcançar a santidade. É a perspectiva adotada por grupos e denominações de herança metodista e de Santidade.

Dada a diversidade no pentecostalismo, bem como a utilização de diferentes origens teológicas por pentecostais, não há uma postura uniforme.

No cenário diversificado do pentecostalismo americano, a doutrina da santificação se apresenta sob diferentes matizes, refletindo as diversas influências teológicas e as experiências particulares de cada grupo. Um segmento importante, representado por denominações como a Church of God (Cleveland) e a Apostolic Faith Portland, herdeiras do movimento de santidade do século XIX, tradicionalmente enfatiza a santificação como uma segunda obra da graça, distinta da justificação. Para estes, a experiência de purificação do coração, conhecida como inteira santificação, capacita o crente a viver em perfeição cristã e a servir a Deus de forma mais plena. A santidade, nesse contexto, é vista como um estado a ser alcançado, uma transformação interior que liberta o crente do pecado e o equipa para uma vida de retidão.

Em contraposição a essa visão, denominações como as Assembleias de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular adotam uma perspectiva de santificação progressiva ou gradual. Embora reconheçam a importância da santidade e da obra do Espírito Santo na vida do crente, não necessariamente a definem como uma segunda obra distinta da justificação. A santidade, nesta ótica, é um processo contínuo de crescimento em Cristo, possibilitado pela ação do Espírito Santo. O crente, justificado pela fé, é chamado a buscar a santidade em sua vida diária, num caminho de constante aprendizado e conformidade aos princípios bíblicos. É uma postura herdeira da tradição de Keswick, especialmente pelas reformulações de A. S. Copley e William H. Durham. A ênfase recai sobre o desenvolvimento do caráter cristão e a progressiva vitória sobre o pecado, sem necessariamente definir um momento específico de “inteira santificação”.

Entre os pentecostais afro-americanos trinitarianos, a santificação como segunda obra da graça, influenciada pela teologia wesleyana, encontra forte eco. A Church of God in Christ (COGIC), uma das maiores denominações pentecostais afro-americanas, é um exemplo proeminente dessa ênfase. A santidade pessoal e a separação do mundo são aspectos cruciais da fé para muitos pentecostais afro-americanos, refletindo uma busca por uma vida de integridade e compromisso com os valores cristãos. A santidade, nesse contexto, pode ser vista como um distintivo da identidade crente, uma marca de transformação e consagração a Deus.

EXCURSO: Pentecostalismo da Obra Consumada e a tradição de Keswick

No pentecotalismo da Obra Consumada ou do Evangelho Pleno há uma continuidade com o entendimento de Keswick. Como no luteranismo, a soteriologia de Keswick considera a simultânea a tensão de ser justificado e pecador. Entretanto, enquanto o luteranismo enfatiza a tensão entre a justificação e a pecaminosidade contínua do crente, Keswick enfatiza a possibilidade de uma vida de vitória sobre o pecado através da obra do Espírito Santo. Como considera a obra plena de salvação (justificação e santificação) foi consumada no calvário e disponibilizada pelo Espírito Santo, a obra de salvação atua de forma que “uma vez justificado/santificado e uma vez pecador”. Desse modo, diverge do modelo luterano de separar a justificação como ato forense e santificação como ato gradual. Ao invés, disso no pentecostalismo da obra consumada considera que a obra de graça pelo Espírito Santo justifica e santifica subsequentes à regeneração. Essa postura pode ser explicada na seguinte maneira:

A abordagem em torno do movimento Keswick representa uma categoria própria, que não pode ser encaixada nas precedentes. Faz lembrar a primeira categoria pelo lugar central que atribui à pessoa de Cristo. E, no entanto, essa comparação falha assim que notamos o cristocentrismo de Keswick. Pois, não há movimento circular contínuo da lei para o evangelho, e mesmo o movimento único e vitalício da lei para o evangelho é ofuscado por uma passagem imediata da lei para o evangelho que exige que toda lembrança da lei e, junto com ela, uma mortificatio contínua seja descartada. Embora o Catecismo de Heidelberg tenha insistido que é importante tornar-se consciente da própria natureza pecaminosa por causa da salvação, e enquanto a Confissão de Westminster entende que a velha natureza enfraquece cada vez mais, Keswick insiste que a velha realidade do pecado não deve ser tomada muito a sério. Embora, por um lado, a teologia de Keswick não comece com o enfraquecimento da velha natureza e ainda reconheça plenamente a pecaminosidade dessa velha natureza, essa realidade deve, por outro lado, ser superada por nossa reivindicação de fé em nossa posição em Cristo. Em Keswick, a justificação e a santificação assumiram uma estrutura semelhante, de tal forma que o simul iustus et peccator de Lutero foi transformado em um simul sanctitus et peccator (‘uma vez santificado, uma vez pecador’).

van Vlastuin (2014, p. 152).

As tradições teológicas luterana e pentecostal, embora distintas em suas ênfases, compartilham a crença na centralidade da obra do Espírito Santo na santificação dos crentes.

No luteranismo, a santificação é compreendida como um processo contínuo de crescimento na graça, impulsionado pelo Espírito Santo. Através da justificação pela fé, o crente é declarado justo por Deus, e o Espírito Santo capacita-o a viver de acordo com a vontade divina, combatendo o pecado e buscando a santidade. A teologia luterana enfatiza a tensão entre a justiça imputada ao crente e a persistência da pecaminosidade em sua vida terrena, conforme expresso na fórmula simul justus et peccator (justo e pecador ao mesmo tempo).

O pentecostalismo, por sua vez, enfatiza a obra completa de Cristo na salvação, incluindo a justificação e a santificação. A experiência do batismo no Espírito Santo, frequentemente acompanhada por dons espirituais, é vista como um revestimento de poder que capacita o crente para o serviço e testemunho. Embora valorize a obra do Espírito Santo na santificação, o pentecostalismo não se concentra na tensão entre justificação e pecaminosidade como o luteranismo, enfatizando a transformação do crente pelo poder do Espírito Santo.

Por sustentar esse posicionamento, os pentecostais da Obra Plena não veem suas boas obras como “trapos de imundície”, mas sim como atos de serviço realizados através do poder do Espírito Santo. Após a conversão e o batismo no Espírito Santo, o crente recebe poder para viver uma vida de acordo com a vontade de Deus. As boas obras, portanto, não são vistas como meros esforços humanos, mas sim como frutos do Espírito Santo (Gálatas 5:22-23). Os “trapos de imundície” (Isaías 64:6) seriam as obras realizadas sem fé e com motivações impuras. São ações que, apesar de parecerem justas externamente, não brotam de um coração transformado por Deus. Essas obras não têm mérito algum para a salvação nem servem para recompensas ou galardões, os quais são unicamente recebidos pela graça de Deus em Cristo. No entanto, quando o crente é habitado pelo Espírito Santo, suas ações são transformadas. O Espírito Santo capacita o crente a amar, servir e praticar a justiça de Deus. Essas obras, frutos da ação do Espírito, são um testemunho da obra de regeneração e uma expressão da gratidão a Deus.

A frase “o ser humano é em Cristo morto para a velha natureza e caminha em novidade de vida” expressa uma verdade bíblica fundamental, compartilhada por diversas tradições cristãs. No entanto, a interpretação dessa “morte” e “novidade” pode variar entre as diferentes teologias.

A busca pela “estatura de varão perfeito em Cristo” expressa o objetivo da santificação em ambas as tradições, embora seus caminhos e ênfases possam diferir.

Em conclusão, o luteranismo e o pentecostalismo valorizam a obra do Espírito Santo na santificação, mas com ênfases distintas. Por isso, é necessário analisar cada tradição em seus próprios termos, considerando suas nuances teológicas e históricas. A ideia de um “revestimento de poder” pelo Espírito Santo é mais característica do pentecostalismo do que do luteranismo.

BIBLIOGRAFIA

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van Vlastuin, Willem. Be Renewed: A Theology of Personal Renewal. Reformed Historical Theology, vol. 26. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2014, p. 152.

VEJA TAMBÉM

Santificação

Tuomo Mannermaa

Tuomo Mannermaa (1937-2015) foi um teólogo luterano finlandês, conhecido por sua escola da “Nova Interpretação Finlandesa de Lutero”.

Foi um crítico da Concórdia de Leuenberg que aproximou teologicamente as tradições reformadas e luteranas europeias. Especialista em teologias católica romana e ortodoxa, participou de debates teológicos co essas tradições.

Segundo Mannermaa, a perspectiva de Lutero sobre a salvação seria mais próxima da Igreja Ortodoxa do que imaginado por seus intérpretes luteranos. Mannermaa notou que o ensino de Lutero sobre a justificação estava baseado na justiça que habita no crente, em vez da justiça de Jesus como imputada ao crente. Lutero insistia na realidade da justiça no cristão justificado. O crente seria movido por amor proporcionado pelo Espírito Santo. Assim, argumentava a justificação pela fé em termos de teose. Nisso, a distinção coram deo e coram mundo passa ser irrelevante, pois a justificação seria integral.

Dentre os adeptos da Nova Escola Filandesa estão Simo Peura, Risto Saarinen e Antti Raunio. A escola de Mannermaa também reexamina a teologia e soteriologia de Andreas Osiander com base na união com Cristo. Reafirmam a necessidade de aspectos forenses e efetivas (transformatórias) de justificação. Sua cristologia é centrada na unidade “real-ôntica” entre Cristo e os cristãos. Em outras palavras, justificação diante de Deus deve ser entendida principalmente como uma união “real-ôntica” da pessoa de Cristo com o crente individual. Assim, a justiça que se torna inerente à alma redimida é, então, o próprio Cristo.

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VEJA TAMBÉM

Soteriologia transformativa

Luteranismo

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