Herodes de Cálcis

Herodes de Cáclcis (m.48-49 dC) ou Herodes Pollio Rei de Chalcis, é chamado de Herodes V, ou Herodes II.

Membro da familia herodiana, era filho de Aristóbulo IV e neto de Herodes, o Grande, rei cliente romano da Judeia. Era irmão de Herodes Agripa I e Herodias.

Foi o governante de Cálcis, na Síria (7 a.C. – 48 d.C.).

Ḥerem (genocídio)

O ḥerem (hebraico חרם) era uma prática sacrifical na qual toda presa viva — quer pessoa, quer animal — é condenada à morte e devotada a um deus.

Antes, destruí-las-ás [ḥerem] totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos ferezeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor, teu Deus,

Dt 20:16

O termo ḥerem aparece nas línguas semíticas como algo interdito por razões religiosas. No entanto, em Dt 20:16; Js 10:40; na Estela de Mesa, o conceito de ḥerem indica aniquilação total da população apreendida. É nesse sentido de destruição que aparece a última palavra de Malaquias, no final do Antigo Testamento do cânone cristão.

O ḥerem oferece um dilema ético e moral, bem como uma dificuldade bíblica. O teólogo anabatista John Howard Yoder sugere de que o ḥerem evitava que a guerra se tornasse uma fonte de enriquecimento por meio de pilhagem. Assim, seria uma forma incipiente de conter a escalada de violência.

BIBLIOGRAFIA
Hofreiter, Christian. Making Sense of Old Testament Genocide: Christian Interpretations of Herem Passages. Oxford University Press, 2018.

Stern, Philip D. The Biblical Herem: A Window on Israel’s Religious Experience. Brown Judaica Studies 211; Atlanta: Scholars Press, 1991.

Trimm, Charlie. The Destruction of the Canaanites: God, Genocide, and Biblical Interpretation. Wm. B. Eerdmans Publishing, 2022.

Heilsgeschichte

Heilsgeschichte, em alemão “História da Salvação”, ou ainda “História da Redenção” designa tanto um princípio de interpretação da Bíblia quanto uma afirmação teológica a respeito da História universal. Teologicamente, é um modelo de economia de salvação. Também é um dos arcabouços que emoulduram a teologia bíblica.

Os antigos israelitas se interessavam pela história, não tanto pelos próprios eventos, mas por seus motivos e propósitos. Enquanto os israelitas viam sua história como um desenrolar da relação de aliança entre Israel e Deus, o pensamento cristão considerou os eventos narrados na Bíblia como atos de Deus para a salvação do mundo.

No Novo Testamento, a história de salvação era vista a partir da história de Israel. O arco narrativo do Antigo Testamento cumprido em Cristo aparece no caminho de Emaus (Lc 24:25-27), no discurso de Pedro em Pentecostes (Atos 2:17-36), na recapitulação da História de Israel por Estêvão (Atos 7) e com o tema dos tipos e profecias identificados em Cristo no evangelho de Mateus. Os escritos paulinos providenciam uma perspectiva cósmica a qual a História de Redenção afeta toda a criação (1 Co 15; Tt 2:11-15).

Como teologia da história e, ainda como posição historiográfica, a História de Salvação remonta desde a patrística. Os gnósticos (e Irineu em reação a eles) desenvolveram uma moldura histórica cósmica, extrapolando a história de Israel. Para alicerçar um propósito para uma sociedade critianizada, Agostinho articulou A Cidade de Deus já com alguns aspectos da História de Salvação.

No iluminismo houve uma separação entre história universal e história sacra a partir do aliancismo de Cocceius. A primeira seria objeto tanto da Historie quanto da Geschichte enquanto a segunda era fundada primordialmente na Geschichte. Em alemão Historie é a disciplina que se preocupa com os registros percebidos dos eventos. Já a Geschichte é a interpretação de eventos de forma compreensiva e disposta em forma narrativa. A Geschichte não é necessariamente uma reportagem dos eventos como “fatos que aconteceram”, mas sim dos seus significados, bem como aspectos não observáveis como relação de causalidade ou propósitos.

O auge da História de Salvação foi nos meados do século XIX na Alemanha. A combinação com o idealismo alemão, principalmente hegeliano, permitia conciliar problemas levantados pelos racionalistas com uma teologia bíblica.

Como uma formulação teológica, a História de Salvação foi uma perspectiva historicista proposta por J.T. Beck (1804- 1878). Beck combinou a dialética de Hegel com a noção de que os tratos de Deus com a humanidade exigiam uma conexão lógica entre os diversos eventos dessa revelação. A revelação seria progressiva e situada historicamente. Assim, enfatizou a importância de cada etapa do processo porque cada uma se tornou parte do todo.

O teólogo luterano Johannes Christian Konrad von Hofmann insistiu que uma visão teleológica da história, cada fase tem sua própria função independente da anterior. Contudo, Hofmann evitou um supersessionismo do Antigo Testamento em relação ao Novo Testamento. Em vez disso, a história de salvação revelada no Novo somente faz sentido à luz do Antigo. Pela Kenosis trinitária, quando o Eterno encontrou-se na História ao “esvaziar” em Jesus, houve um clímax que aponta para o fim de reconciliar o mundo inteiro com Deus com base em seu amor. A história mundial só pode ser entendida apropriadamente dentro da da história da salvação. No entanto, a história da salvação não seria uma parte da história mundial.

Heilsgeschichte extrapola as limitações do historicismo. Assim, teologicamente, rejeita-se relegar a Bíblia a um produto meramente humano e preso às contigências sociais e históricas de sua composição textual. Nessa linha, Oscar Cullmann interpreta os eventos nas narrativas bíblicas apontando para uma consciência crescente da obra salvadora mediante a intervenção de Deus na história. Portanto, no presente os crentes encaram um desafio divino de se posicionar-se no plano revelado de salvação.

Ainda no século XIX, o dispensacionalismo surgiu como uma perspectiva evangélica em língua inglesa em alternativa à Heilsgeschichte alemã como economia de salvação.

Outra alternativa apareceu na tradição reformacional holandesa, conforme apresenta Wolters. O kuyperianismo organizou a história da redenção em quatro temas universais: criação, queda, redenção e consumação. Este último é, por vezes, substituido por restauração. Tal narrativa justificava uma ideologia (apresentada como “cosmovisão cristã”) de domínio da Igreja (no caso, os reformados) sobre todas as esferas existenciais, em detrimento à teologia dos dois reinos luterana ou da separação do mundo anabatista. Assim, esse esquema reformacional ganhou contornos de ideologia política, com a formação do Partido Antirrevolucionário holandês para influenciar todos os domínios (ou em termos mais recentes “montes”).

A posição reformacional foi criticada por três problemas. Primeiro, com essa moldura universalizante excluía Israel, na melhor das hipóteses, da história de salvação, ou adotava um supersessionismo, tratando-o como uma nota de rodapé de uma aliança superada no esquema de salvação. Segundo, ao chamar por uma petição de princípio esse esquema ideológico de “a cosmovisão cristã”, excluíram-se tanto as interpretações intrabíblicas quanto as interpretações da história do pensamento cristão que situam a salvação dentro da dinâmica da Lei revelada a Israel e a graça operada em Cristo. Finalmente, o método empregado na posição reformacional de retirar e recontextualizar versos isolados da Bíblia (dicta probantia) pode gerar quaisquer enredos narrativos para a história de salvação, tal como já criticava Irineu contra tal abordagem pelos gnósticos.

Nos meados do século XX, as abordagens teológicas da História da Salvação foram informadas por avanços em teoria literária e teologia política.

O crítico literário Auerbach fez exame da totalidade do enredo das Escrituras canônicas e notou uma corrente de tipo e antitipo ligando diferentes passagens de uma forma coerente.

Nos anos 1970, as críticas de Hans Frei aos gêneros argumentativos das teologias colocou a teologia narrativa em destaque. Assim, a História de Salvação passou a ser vista como o enredo do conjunto canônico da Bíblia, como faz John Goldingay.

A teologia política de John Howard Yoder centrou-se na presença provocativa e reconcilatória da Igreja no mundo. Assim, a História de Redenção enfocaria no plano reconciliatório de Deus, sem apropriar-se de uma ideologia totalizante como meio de reivindicar um protagonismo na política mundana para a Igreja.

As malfadadas incursões políticas de cristãos em nome da Igreja foram justificados por esquemas ideológicos em formas de História de Redenção. Conforme aponta Soulen, essas ideologias encontraram justificativas para desconsiderar o povo de Israel e legitimar antissemitismos.

Em língua inglesa, o batista Eric Charles Rust utilizou o conceito de História de salvação para dialogar com a historiografia acadêmica. História de Salvação como historiografia ou modelo teológico ficaram mais claros a partir de sua obra.

Scot McKnight sumariza esses aspectos anteriores e propôs uma História de Redenção que considera a missão da Igreja, valorizando a igreja local e livre da tradição anabatista, bem como a integralidade textual bíblica. McKnight aponta que Deus criou o ser humano como co-regente da criação, mas a falha humana nessa missão deu lado para demonstrar o amor divino em um plano de reconciliação. Esse plano de reconciliação selecionou e abençoou Israel para que em Cristo fosse capacitada toda a humanidade para participar do Reino. McKnight não sugere que o esquema reformacional criação, queda, redenção e consumação seja falso, mas simplesmente não é a história principal ou completa da Bíblia.

Depois de seu pico entre círculos reformados e luteranos continentais, no final do século XX a História de Salvação encontrou pouca difusão entre correntes evangelicais. No começo do século XXI, tanto a reavaliação da teologia reformacional quanto do neoanabatismo reacenderam o interesse pela História de Redenção.

BIBLIOGRAFIA

Cullmann, Oscar. Christ and Time. The Primitive Christian Conception of Time and History. Westminster Presss, 1950.

Cullmann, Oscar. Salvation in History. New York: Harper & Row, 1967.

Croatto, José Severino. História da Salvação: A Experiência Religiosa do Povo de Deus. 2ª ed. Caxias do Sul: Paulinas, 1966.

Frei, Hans W. The Eclipse of Biblical Narrative: A Study in Eighteenth and Nineteenth Century Hermeneutics. New Haven: Yale University Press, 1974.

Frey, Jörg; Krauter, Stefan; Lichtenberger, Hermann. Heil und Geschichte: die Geschichtsbezogenheit des Heils und das Problem der Heilsgeschichte in der biblischen Tradition und in der theologischen Deutung. Mohr Siebeck, 2009.

McKnight, Scot. Kingdom conspiracy: Returning to the radical mission of the local church. Brazos Press, 2014.

Nugent, John C. The Politics of Yahweh: John Howard Yoder, the Old Testament, and the People of God. Vol. 12. Wipf and Stock Publishers, 2011.

Rust, Eric Charles. Salvation History a Biblical Interpretation. John Knox Press, 1962.

Rust, Eric Charles. Towards a Theological Understanding of History. 1967.

Soulen, R. Kendall. The God of Israel and Christian Theology. Minneapolis: Fortress Press. 1996.

Wolters, Albert M. Creation regained: Biblical basics for a reformational worldview. Wm. B. Eerdmans Publishing, 2005.

VEJA TAMBÉM

Teologia bíblica

Crítica canônica

Interpretação Histórico-Redentora

Dispensacionalismo

Revelação progressiva

A Cidade de Deus

Teologia do Pacto

Aliancismo

Hipótese documentária

Hipótese em crítica textual que postula que o Pentateuco resulta de uma fusão composta de textos ou fontes anteriores. Sua forma clássica foi sintetizada no século XIX pelo biblista alemão Julius Wellhausen.

Há vários modelos para a hipótese documentária. Em linhas gerais, esses modelos sustentam os documentos fontes, indicados pelas iniciais J, E, P e D seriam datados em diversas épocas, mas fundidos em um só documento durante ou depois do exílio.

Desde os anos 1970, praticamente poucos estudiosos (como Richard Elliott Friedman) aceitam a existência de documentos distintos e datados conforme o modelo de Wellhausen. Outras teorias, como a hipótese suplementar, a hipótese fragmentária, o minimalismo bíblico ou a hipótese neo-documentária oferecem outros modelos de composição bíblica.

Hulda

Profetisa de Jerusalém. Esposa de Salum, guardião dos guarda-roupas reais durante o reinado de Josias (639–609 a.C.).

Consultada pelos oficiais de Josias após a descoberta de um rolo da Lei no Templo, Hulda profetizou a destruição de Jerusalém, embora Josias morreria antes. A profecia de Hulda impulsionou as reformas josiânicas (2Re 22; 2Cr 34).