Tipologias da graça

A graça, favor imerecido de Deus concedido à humanidade para sua salvação e santificação, é um conceito fundamental na teologia cristã. Sua complexidade levou diversos teólogos a elaborarem diferentes tipologias para descrever suas múltiplas facetas.

Agostinho de Hipona desenvolveu o conceito de gratia praeveniens, ou graça preveniente, a partir dos escritos de Ambrósio. Essa graça age de forma universal, alcançando todos os seres humanos, preparando-os para responder ao chamado divino e tornando-os capazes de crer e se voltar para Deus. A graça preveniente, portanto, precede qualquer ato humano de fé, curando a vontade ferida pelo pecado original e abrindo caminho para a aceitação da salvação.

É importante notar que, para Agostinho, a graça preveniente não anula o livre-arbítrio humano, mas o capacita para a fé. Além da gratia praeveniens, Agostinho identificou outras formas de graça que atuam na vida do cristão: a graça subsequente (gratia subsequens), que sustenta o crente após a conversão; a graça operante (gratia operans), que efetivamente realiza a salvação e a santificação; e a graça cooperante (gratia cooperans), que atua em conjunto com a vontade humana, já restaurada pela graça preveniente.

Outros teólogos, como Pedro Abelardo, também se dedicaram a classificar os diferentes tipos de graça. Abelardo, baseando-se em Agostinho e expandindo suas ideias, descreveu a graça que chama ou escolhe o indivíduo, atraindo-o para Deus; a graça que o adota, tornando-o filho de Deus por meio da fé; e a graça que ajuda (gratia adjuvans), auxiliando o cristão a superar as dificuldades e a viver em obediência.

Para além dessas classificações elaboradas por Agostinho e Abelardo, teólogos posteriores desenvolveram outros conceitos importantes, como o de graça comum, que se refere aos dons gerais concedidos por Deus a todos os seres humanos, independentemente de sua fé, como a vida, a razão e a capacidade de amar. Outro conceito relevante é o de graça universal, que destaca a amplitude do amor e da misericórdia divinos, alcançando todas as pessoas, embora sua eficácia dependa da resposta individual de fé.

Lillian Trasher

Lillian Hunt Trasher (1887 – 1961) foi uma missionária americana em Asyut, Egito, onde fundou um orfanato, sendo apelidade de “Mãe do Nilo” do Egito.

Nascida em Jacksonville, Flórida, sua mãe era originalmente Quaker, mas converteu-se à Igreja Católica Romana. Na sua adolescência, Lillian converteu-se à fé evangélica. Estudou em escolas bíblicas em Cincinnati, Ohio, e Greenville, Carolina do Sul. Trabalhou em um orfanato da Carolina do Norte e no final da década de 1900 passou a congregar na Igreja de Deus (Cleveland, Tennessee) em Dahlonega, Geórgia, quando se tornou pentecostal.

Após romper seu noivado com um evangelista que não apoiava sua vocação, Lillian partiu para o Egito em 1910 com uns poucos dólares como missionária independente. Estabeleceu-se no centro do Egito, em Asyut, onde um dia uma mulher próxima da morte entregou-lhe sua criança. A partir daí iniciou sua obra de cuidado dos órfãos.

O orfanato recebia apoio de várias denominações, desde o Sínodo Evangélico do Nilo (Presbiteriano) e as Assemblies of God americanas, da qual Trasher tornou-se membro.

BIBLIOGRAFIA

https://www.cbeinternational.org/resource/article/mutuality-blog-magazine/nile-mother-story-lillian-trasher

Dorothea Trudel

Dorothea Trudel (1813- 1862) pietista luterana suíça. Iniciou um movimento de cura pela fé em Männedorf, no Lago Zurique e restabeleceu a prática de unção dos enfermos no protestantismo.

Trudel masceu em uma família pobre de onze filhos com um pai alcoólatra e uma mãe devota. O único livro que a família possuía era a Bíblia, lida assiduamente pela mãe. Quando pequena, perdeu a visão por uma infecção de varíola, mas foi curada acompanhando uma oração da mãe

Começou a trabalhar aos nove anos. Era uma moça normal. Participava dos bailes e eventos sociais locais. Aos 22 anos, ao defender-se de um homem que tentou agarrá-la, feriu sua coluna. Jovem e concunda, entrou em depressão. Aos 23 anos passou por uma experiência conversão e a frequentavar círculos luteranos pietistas.

Quando sua mãe morreu, um tio cuidou de Dorothea e de suas três irmãs. As vidas delas tiveram um progresso. Trudel começou a trabalhar como florista e teve uma renda melhor. O tio deixou a casa para elas como herança.

Um dia em 1840, quatro funcionários da empresa de seu sobrinho estavam doentes sem meios de cura. Dorothea orou de acordo com Tiago 5 e ungiu-os com azeite, impondo as mãos e eles ficaram curados.

As pessoas da região passaram a visitá-la para orações, estudos bíblico e devocionais. A casa de Dorothea não conseguia acomodar os hóspedes. Então, com apoio do pastor reformado local organizou quatro casas para abrigar os visitantes. Essas casas tornaram-se sanatórios, casas de repousos. Mas diferente dos caros sanatórios suíços, não havia cobrança pela estada, com cada paciente pagando como podia. Uma das pessoas curadas mediante o minustério de Trudel foi Samuel Zeller (1834– 1912). Zeller passou a auxiliá-la e depois a sucedeu na administração das casas e dos encontros de oração. Uma dessas casas, Bibelheim, ainda continua ativa.

Trudel foi processada por exercício ilegal da medicina, o que terminou em 1861 com sua absolvição. No ano seguinte, morreu de febre tifóide.

A obra de Trudel influenciou o movimento de santidade alemão. Estiveram conexos Otto Stockmayer e os Blumhardt. Quando o médico Charles Cullis foi curado pela fé e publicou os panfletos de Trudel, seu trabalho ganhou notoriedade póstuma entre evangélicos de língua inglesa.

A teologia e prática de Trudel era simples. A prioridade era a salvação. A cura era uma expectativa de fé, sem obrigação de acontecer um milagre. O que ela enfatizava era que na expiação realizada por Cristo incluía a cura de Deus. Isso causou uma mudança de mentalidade. Contrastava com uma confiança mecanicista na medicina da época, também com o tratamento cruel de enfermidades mentais. Teologicamente prevalecia uma ideia punitiva de que doenças eram frutos de pecados ou demônios. A abordadgem de Trudel era fundada no tratamento com humanidade os doentes, tanto de males físicos como mentais. Encarava as enfermidades não como punições, mas um mal a ser vencido, espelhando na obra vitoriosa de Cristo sobre as doenças.

Trudel foi pioneira em praticar a unção com óleo no protestantismo, era convicta de que Deus cumpriria suas promessas e que as enfermidades não seriam um castigo divino.

BIBLIOGRAFIA

Keller, Sam. Dorothea Trudel Van Männedorf of De Kracht Des Geloofs Werkende Door De Liefde. Translated by A.M.C. van Asch van Wijk. Amsterdam: Funke, 1864.

Cullis, Charles. Dorothea Trudel: Or The Prayer Of Faith. 1865.

Teoria do prêmio

A teoria do prêmio ou teoria premial da reconciliação é uma doutrina que explica a morte de Cristo como um benefício para a humanidade.

As passagens bíblicas que fundamentam essa perspectiva são Colossenses 1:19-20, Efésios 1:10 e 2 Coríntios 5:18-19.

Essa doutrina há raízes em várias vertentes. Entre morávios e pietistas, a ideia do Cordeiro — frágil e obediente até a morte — providencia o sangue expiador de forma triunfal. A salvação seria o prêmio conquistado por Cristo. Essa posição contrastava com concepções de substituição penal prevalente entre luteranos e reformados na escolástica protestante.

No século XIX, em um sermão publicado no Pietisten em 1872, o teólogo sueco Waldenström sustentou que Cristo morreu na cruz para reconciliar a humanidade com Deus. Deus Pai era o sujeito da reconciliação, não o objeto como no processo penal substitutivo.

Seu raciocínio é o seguinte.

1) A queda do homem não causou nenhuma mudança no coração de Deus;

2) Portanto, Deus não ficou irado ou com desejo de vingança para com a humanidade. Assim, não haveria ofensas que tornaram-se um obstáculo para a salvação do homem;

3) A mudança trazida pela queda afetou somente o homem, pois ele se afastou de Deus e se tornou pecador, e se separou Dele;

4) Como um resultado, uma expiação era necessária. No entanto, esta expiação não para apaziguar a Deus e assim torná-lo misericordioso, mas para trazer uma reconciliação que salvaria o homem do pecado e o tornaria justo;

5) Esta expiação ocorreu em Jesus Cristo.

Waldenström enfatizou a natureza imutável e o amor infalível de Deus, ilustrados pela parábola de o filho perdido, tema semelhante em Moody. O evangelista americano, de forma inconsistente, empregava similar teologia.

Waldenström criticava a ideia de “satisfazer a ira divina” das abordagens de satisfação por não encontrar fundamentos bíblicos para tal. Apesar de salientar a justiça divina e a necessidade de lidar com o pecado, sua perspectiva fundamentava-se na iniciativa divina na reconciliação.

Em contraste, enquanto as teorias forenses desde Anselmo depende da punição, a de Waldenström depende do perdão. É chamada de teoria premial, porque na analogia forense não se trata de evadir-se da condenação, mas ganhar a causa da salvação. É uma teoria de expiação vicária (Cristo morre pelos pecadores e em lugar dele), mas não punitiva ou substitutiva (Cristo não recebeu a punição humana). Antes, Cristo é o campeão da humanidade como Verdadeiro Homem.

Uma retomada da teoria premial foi proposta pela teóloga católica Eleonore Stump. Stump se baseia em várias fontes filosóficas e teológicas, incluindo as obras de Tomás de Aquino, Anselmo e Jonathan Edwards. Salienta a satisfação vicária e na reparação do dano causado pelo pecado, mas com bases na restauração.

De acordo com Stump, a teoria premial da expiação trata o pecado não como uma violação da justiça de Deus, mas sim como uma falha em alcançar o bem que Deus pretende para nós. O objetivo da expiação, portanto, não é simplesmente apaziguar a ira de Deus, mas sim trazer uma restauração do relacionamento entre Deus e a humanidade e reparar o dano causado pelo pecado. Isso requer um processo de reconciliação, perdão e restauração focado em realizar o bem que Deus deseja para nós.

Para entender essa teoria, considere a analogia de uma bela peça de cerâmica que foi quebrada em vários pedaços. A teoria premial da expiação diz que o plano de Deus seria restaurar a cerâmica à sua beleza e ordem, em vez de simplesmente punir a pessoa que a quebrou. Isso envolveria reunir e remontar cuidadosamente as peças, preencher as rachaduras e lacunas e suavizar as arestas. O processo de restauração exigiria muito cuidado, habilidade e atenção aos detalhes, mas o resultado final seria uma bela peça de cerâmica restaurada. Foi o que Cristo fez, pois somente ele seria capaz de restaurar.

Da mesma forma, o pecado teria destruído a bela ordem da criação e danificado o relacionamento entre Deus e a humanidade. O objetivo da expiação não é simplesmente punir o pecador, mas restaurar cuidadosamente o relacionamento rompido e reparar o dano causado pelo pecado. Isso envolve um processo de reconciliação, perdão e restauração que requer grande cuidado, habilidade e atenção aos detalhes, mas que, por fim, leva à restauração completa da criação e à reconciliação de todas as coisas com Deus.

BIBLIOGRAFIA

Andersson, Axel Teodor. The Christian Doctrine of the Atonement According to PP Waldenstrom. Covenant Book Concern, 1937.

Stump, Eleonore. Atonement. Oxford University Press, 2019.

Waldenström, Paul Peter. The Reconciliation: Who was to be Reconciled?: God Or Man? Or God and Man?: Some Chapters on the Biblical View of the Atonenment. John Martenson, Publisher, 1888.

Teoria participatória da expiação

A teoria participatória ou participativa da expiação é uma perspectiva teológica sobre a obra redentora de Cristo. Por essa teoria, a salvação humana é possível pela participação na obra redentora mediante a união com Cristo pelo Espírito Santo.

Nessa perspectiva, a obra redentora de Cristo vai desde sua encarnação até a ascensão, com sua vida e seus ensinos sendo relevantes para a justificação. No entanto, não se trata de um modelo de expiação pelo exemplo, mas pela alteração do estado humano pelo Deus encarnado. A salvação seria a participação humana na vida de Deus.

A epístola de Hebreus é o principal texto que descreve um relacionamento participativo entre Cristo e os crentes. Os crentes participam da obra de Cristo e compartilham de sua identidade, ensinos e benefícios salvíficos. Hebreus contém expressões e temas participativos semelhantes à ideia de adoção e temas de união com Cristo nos escritos joaninos e paulinos.

A expiação na Igreja primitiva compreendia três aspectos: sacrifício vicário, a derrota escatológica de Satanás e a imitação de Cristo — nos termos de participação na morte e ressurreição de Jesus. Segundo Pate (2011) esses três aspectos estavam entrelaçados nas mais antigas literaturas cristãs. Mais tarde, cada aspecto foi isolado e passou a ter um status condutor nas diversas vertentes das doutrinas de salvação.

Posteriormente, esta teoria aparece marginalmente tanto na tradição reformada (Calvino e Edwards) quanto nas teorias de união mística do catolicismo romano. É próximo às teorias de influência moral de Agostinho e Abelardo.

O renovado interesse evangélico surgiu no final da década de 2000 em duas fontes. Por um lado, a teóloga Julie Canlis e o teólogo Charles Partee encontraram essa perspectiva na soteriologia de Calvino, o qual a utilizava junto da teoria da substituição penal. Por outro lado, a questão de não impor modelos modernos de justiça retributiva aos textos bíblicos levou o biblista Michael Gorman a articular a teoria da expiação sob aspectos da justiça restaurativa e participação da comunidade da nova aliança com Cristo.

Há controvérsia se a teoria participativa seja compatível com outras teorias acerca da expiação. Normalmente, a doutrina de salvação participatória é apresentada em conjunto com outras teorias da expiação, como faz o teólogo reformado Hans Boersma (2006). Contudo, teólogos e biblistas (especialmente da Nova Perspectiva sobre Paulo) argumentam que a respeito da salvação Paulo considerava a vida e morte de Jesus não como um sacrifício vicário, mas como meio de participar na comunhão com Deus pela fidelidade de Cristo. Para James F. McGrath, Paulo preferiria a linguagem da participação: Cristo morreu por todos, de modo que todos com Ele morreram (2 Coríntios 5:14). “Isso não seria apenas diferente da substituição, mas seria o oposto dela”. (2007).

A teoria participativa corrige muitos defeitos de foco de outras teorias. Mas, vai além dos focos no motivo e no meio de redenção para enfatizar a novidade de vida da pessoa justificada em Cristo.

BIBLIOGRAFIA

Bayne, Tim; Restall, Greg. “A participatory model of the atonement.” New Waves in Philosophy of Religion 150 (2009).

Billings, J. Todd. Calvin, participation, and the gift: The activity of believers in union with Christ. Oxford University Press, 2007.

Boersma, Hans. Violence, Hospitality, and the Cross: reappropriating the atonement tradition. Grand Rapids: Baker, 2006.

Canlis, Julie. Calvin’s Ladder: A Spiritual Theology Of Ascent and Ascension. Grand Rapids: Eerdmans, 2010.

Cooper, Jordan. Christification: A Lutheran Approach to Theosis. Wipf and Stock Publishers, 2014.

Gorman, Michael J. The Death of the Messiah and the Birth of the New Covenant: a (not so) New Model of the Atonement. Wipf and Stock Publishers, 2014.

McGrath, James F. What’s Wrong With Penal Substitution? Patheos, 2007.

Partee, Charles. “Calvin’s Central Dogma Again,” The Sixteenth Century Journal 18, no. 2 (1987): 191–199.

Partee, Charles. The Theology of John Calvin. Louisville: Westminster John Knox, 2008.

Pate, C. Marvin. From Plato to Jesus: What Does Philosophy Have to Do with Theology?, Kregel Academic, 2011.

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